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O papa Francisco se esqueceu do grande legado libertário da própria Igreja

Sim, trata-se de um grande evento quando o papa
ataca o libertarianismo pelo nome. Especialmente para mim, tudo fica ainda mais
interessante quando a editora espanhola do meu livro Uma
Bela Anarquia
acredita que o papa, em sua recente monografia acadêmica,
estava atacando explicitamente a linguagem utilizada por mim, por implicação
mas sem citação.

[N. do E.: o autor Jeffrey Tucker é católico
praticante e já contribuiu para várias publicações católicas reconhecidas pelo
Vaticano]

No dia 28 de abril, o papa endereçou uma mensagem
aos participantes da Sessão
Plenária da Pontifícia Academia de Ciências Sociais
(ver aqui
em espanhol e aqui
em italiano; ainda não há tradução para o português). Em uma determinada
passagem, o papa diz que o libertarianismo “enganosamente propõe uma ‘bela
vida'”.

A segunda edição do meu livro Uma Bela Anarquia: Como Criar Sua Própria Civilização na Era Digital
(download
gratuito aqui
) acabou de sair em espanhol (a língua materna do papa), com
sólidas vendas. Não seria forçar a barra dizer que meu livro foi o alvo, mas
você pode decidir por conta própria.

Na Idade Média, quando a Igreja excomungava visões
e idéias, os papas da época eram cuidadosos ao especificamente citar as obras
em questão, de modo a não haver confusão sobre as idéias que estavam sendo
condenadas (veja
o catecismo do Concílio de Trento, por exemplo). Não mais. Hoje, somos deixados
a adivinhar a identidade do interlocutor. Como isso, o papa fica livre para
rotular e fazer descrições erradas.

Ademais, eu apenas gostaria que as críticas do papa
tivessem algum conteúdo mais substantivo, o qual pudesse ser abordado. Libertários
sempre estão abertos a um bom desafio. Lamentavelmente, a declaração do papa
apenas se resume a uma gritante caricatura.

Eis todo
o contexto
do que o papa Francisco falou:

Por último, não posso
deixar de mencionar os graves riscos associados à invasão, nos níveis mais
altos da cultura e da educação, tanto nas universidades quanto nas escolas, de
posições associadas ao individualismo libertário. Uma característica comum
deste falacioso paradigma é que ele minimiza o bem comum, isto é, o “viver
bem”, a “boa vida” no âmbito comunitário, e exalta o ideal egoísta que
enganosamente inverte as palavras e propõe uma “vida bela”.

Se o individualismo
afirma que é somente o indivíduo quem dá valor às coisas e às relações
interpessoais — e, portanto, somente o indivíduo decide o que é bom e o que é
mau –, então o libertarianismo, hoje tão em voga, apregoa que, para
estabelecer a liberdade e a responsabilidade individual, é necessário recorrer
à ideia de auto-causalidade.

Assim, o
individualismo libertário nega a validade do bem comum, já que, de um lado,
pressupõe que a própria ideia de “comum” implica a restrição de pelo menos
alguns indivíduos, e, de outro, que a noção de “bem” despoje a liberdade de sua
essência.

A radicalização do
individualismo em termos libertários — e, portanto, anti-sociais –, conduz à
conclusão de que cada indivíduo tem o “direito” de se expandir até onde seus
poderes e capacidades possam levá-lo, inclusive à custa da exclusão e da
marginalização da maioria mais vulnerável.

Uma vez que
restringem a liberdade, todos os tipos de laços e amarras teriam de ser
cortados. Ao erroneamente igualarem o conceito de “laço” ao de “vínculo
restritivo”, tais pessoas acabam por confundir aquilo que condiciona a
liberdade — as restrições — com aquilo que é a essência da própria liberdade
criada, a saber, os laços ou relações, familiares ou interpessoais, com os
excluídos e os marginalizados, com o bem comum e, acima de tudo, com Deus.

À primeira vista, isso soa amargo e severo

Uma ideologia que defendesse tais coisas realmente
seria terrível. É difícil imaginar que tal ideologia pudesse um dia se tornar
“tão em voga”. Mas, obviamente, o papa só consegue um passe livre ao afirmar
tais coisas porque ele define o libertarianismo de uma maneira caricata, a qual
faz com que essa filosofia seja incrivelmente fácil de ser atacada. (Essa
postura de recorrer a caricaturas para então atacar é um sólido indicador de
que a visão do oponente foi erroneamente formulada.)

Com efeito, aquilo que o papa alega que os
libertários defendem não apenas é falso, como também, em alguns aspectos, é
exatamente o oposto daquilo que os libertários realmente defendem.

Permita-me oferecer a minha própria e extremamente
sucinta definição de libertarianismo. Trata-se da teoria política que diz que a
liberdade, a harmonia e a paz servem ao bem comum de maneira mais efetiva que a
violência e o controle estatal. O libertarianismo defende uma regra normativa:
sociedades e indivíduos não devem ser molestados em suas associações
voluntárias e em seus relacionamentos comerciais caso não estejam ameaçando
fisicamente terceiros.

Estou praticamente certo de que a maioria dos
pensadores da tradição liberal estaria satisfeita com essa definição.

Mas será que essa visão é estranha ou exótica,
perigosa ou radical, ao ponto de que a ascensão de tais pensamentos realmente
constitui uma “perigosa invasão da cultura”, como disse o pontífice?

Não creio. São Tomás de Aquino, por exemplo, escreveu
essencialmente isto em sua Suma Teológica (2; 96:2):

Ora, a lei humana é
feita para a multidão dos homens, composta em sua maior parte por homens de
virtude imperfeita. Por isso, ela não proíbe todos os vícios — dos quais só os
virtuosos se abstêm –, mas só os mais graves, dos quais é possível à maior
parte da multidão se abster. E proíbe principalmente os vícios que causam dano
a outrem, ou aqueles sem cuja proibição a sociedade humana não pode subsistir;
assim, a lei humana proíbe o homicídio, o furto e atos semelhantes.

A Suma foi escrita no século XIII. Sua postura em
prol da limitação do estado, e sua defesa das liberdades humanas (embora
inconsistente), marcaram o início de uma nova era na filosofia, no direito e na
teologia. Ela mostrou o caminho de saída do período feudal e rumo ao surgimento
do mundo moderno. As idéias hoje chamadas de “libertárias” foram pilares
essenciais aos acontecimentos políticos que ocorreram nos 600 anos seguintes.

O libertarianismo não é uma visão hermética, peculiar
e excêntrica da política; ela é uma destilação da sabedoria de uma poderosa
tradição
, a qual abrange as experiências de várias culturas e também a mais
alta sabedoria dos mais profundos e sérios.

A Igreja e o liberalismo

O papel do catolicismo na história moderna tem sido
o de servir como um benfeitor da causa liberal. Desde a época de São Tomás e
seus sucessores, a Igreja Católica começou um longo afastamento de suas
tendências constantinianas no primeiro milênio, gradualmente abrindo mão da
aspiração de unificar a Igreja e o estado e abraçando a então emergente
tradição liberal.

Tudo ocorreu primeiramente no âmbito do sistema
bancário, quando a Igreja serviu como defensora
da causa bancária dos Medici contra as forças reacionárias que tentavam impedir
o surgimento da vida comercial moderna. Ela, por exemplo, liberalizou suas
regras contra a usura e defendeu os direitos de propriedade e comércio entre as
nações.

O fim da escravidão foi talvez o maior triunfo do
liberalismo antes do século XX. E, neste quesito, a Igreja Católica já era uma
força em prol dos direitos humanos e da justiça muito antes das outras
instituições se atentarem a isso.

Os escritos do frade dominicano Bartolomé de
las Casas
, de 1547, por exemplo, ainda hoje continuam inspiradores por
causa de sua paixão moral contra as atrocidades perpetradas por vários estados contra
os direitos humanos. Nenhum dos filósofos da antiguidade ousou imaginar um
mundo em que haveria igualdade universal de direitos para todas as pessoas.
Apenas a Igreja Católica o fez, baseada em sua convicção de que todos os
indivíduos são feitos à imagem e semelhança de Deus e, por isso, são
merecedores de certos direitos.

Os escolásticos tardios espanhóis e portugueses,
com suas escritas e filosofias sociais, são frequentemente creditados como sendo
os criadores da
própria ciência econômica. E não apenas porque esses escolásticos eram
idealistas morais, mas também porque eles eram homens extremamente práticos que
tentaram entender como o mundo real funcionava, e tudo no interesse de explicar
como as pessoas poderiam viver vidas melhores. Eles gradualmente descobriram
que os interesses do indivíduo não apenas não estavam em conflito com o bem
comum, como também poderiam ambos ser realizados por meio da liberalização de
todas as esferas da sociedade.

A Igreja Católica também representou uma força para
o progresso ao dar voz à ascensão dos direitos das
mulheres
. Essa é uma história complicada, com altos e baixos, mas há uma
linha de raciocínio que pode ser estendida desde a alta consideração dada à mãe
de Jesus até gradualmente a defesa de uma visão da mulher bastante distinta
daquela da antiguidade. Mesmo hoje, a Igreja enaltece quatro mulheres como Doutores da Igreja.

Após a Reforma e a ascensão do nacionalismo, a
Igreja — na condição de instituição internacional que não representava os
interesses de nenhum estado em particular — foi uma fortaleza contra os
poderes incontestados de vários príncipes e regentes. Foi também um baluarte para
a visão agostiniana de que nenhum líder governamental pode substituir a
autoridade de Deus, e que “uma lei injusta não tem validade nenhuma” — uma declaração
citada por São Tomás e, mais tarde, por Martin Luther King Jr. em sua Carta desde a
Prisão de Birmingham
.

A oposição católica ao estatismo

Em outras palavras, o espírito do catolicismo
sempre foi direcionado em prol exatamente daquilo que o atual papa acabou de
condenar: a ideia de que privilegiar a liberdade em detrimento da coerção deveria
ser a norma vigente na vida política.

Foi por este motivo que a Igreja Católica se
posicionou contra o socialismo já no exato nascimento desta ideia no mundo
moderno. Em 1878, quarenta anos antes da Revolução Bolchevista, o Papa Leão
XIII escreveu em sua encíclica Quod Apostolici
Muneris
que os socialistas planejavam “não deixar nada intacto, nem
mesmo as coisas que, por lei humana e divina, foram sabiamente decretadas
sagradas para a saúde e a beleza da vida”.

Acima de tudo, escreveu ele, os socialistas estavam
errados em “atacar o direito de propriedade sancionado pela lei natural”. E vaticinou:
“Embora se digam desejosos de cuidar dos necessitados e de satisfazer os
desejos de todos os homens, eles querem confiscar tudo o que foi adquirido por terceiros
por meio do trabalho, da herança legal, da poupança e do intelecto”.

O papa declarou firmemente que o catolicismo “mantém
que o direito de propriedade, o qual advém da própria natureza, não deve ser
tocado e deve permanecer inviolado. Pois o roubo é proibido de uma maneira tão especial
por Deus, o Autor e Defensor dos direitos, que Ele não permitiria ao homem nem
sequer desejar aquilo que pertence a outrem. Ladrões e saqueadores, assim como adúlteros
e idólatras, estão proibidos de entrar no Reino dos Céus.”

Esse ativismo anti-socialista (Jesus não era socialista)
continuou por meio da resistência da Igreja ao bolchevismo e ao nazismo, e
levou o catolicismo a ter um incomensurável papel no derradeiro colapso dos
regimes tirânicos do Leste Europeu em 1989. (Ver aqui, aqui e aqui).

O Concílio Vaticano II

A apoteose do espírito liberal no catolicismo foi
belamente afirmada nos documentos do Concílio Vaticano II. O Concílio
representou o aceitamento final do liberalismo, algo que já vinha sendo ensaiado
há séculos. Foi neste Concílio que a Igreja finalmente, e dogmaticamente,
afirmou o direito à liberdade religiosa como um pilar dos direitos humanos.

Dignitatis
Humanae
(1965) fornece aquela que pode ser considerada a melhor declaração do
liberalismo/libertarianismo feita na segunda metade do século XX:

Este Concílio
Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta
liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coerção,
quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade
humana; e de tal modo que ninguém deve
ser forçado a agir contra as próprias crenças
, nem impedido de proceder
segundo as mesmas, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro
dos devidos limites.

Declara, além disso,
que o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da
pessoa humana, como a palavra revelada de Deus e a própria razão a dão a conhecer.
Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa na ordem jurídica da
sociedade deve ser de tal modo reconhecido que se torne um direito civil.

De harmonia com a
própria dignidade, todos os homens, que são pessoas dotadas de razão e de
vontade livre e por isso mesmo com responsabilidade pessoal, são levados pela
própria natureza e também moralmente a procurar a verdade, antes de mais a que
diz respeito à religião. Têm também a obrigação de aderir à verdade conhecida e
de ordenar toda a sua vida segundo as suas exigências.

No entanto, os homens
não podem satisfazer a esta obrigação conforme sua própria natureza a não ser
que gozem ao mesmo tempo de liberdade psicológica e imunidade de coerção externa. O direito à liberdade religiosa não
se funda, pois, na disposição subjetiva da pessoa, mas na sua própria natureza.

Uma aplicação consistente deste princípio leva
exatamente à mesma posição dos libertários em termos de política, economia,
cultura e relações exteriores.

O Vaticano II também afirma que buscar uma vida
melhor por meio da liberdade é algo que está na própria essência da experiência
humana. Esta aspiração requer certas condições institucionais, tais como o
direito à propriedade privada. O belo e inspirador documento Gaudium
et Spes 
(1965), tradicionalmente visto como uma obra-prima de exposição
que resume o espírito do Concílio, diz o seguinte:

A propriedade privada
ou um certo domínio sobre os bens externos asseguram a cada um a indispensável
esfera de autonomia pessoal e familiar, e devem ser considerados como que uma
extensão da liberdade humana. Finalmente, como estimulam o exercício da
responsabilidade, constituem uma das condições das liberdades civis.

As formas desse
domínio ou propriedade são atualmente variadas e cada dia se diversificam mais.
Mas todas continuam a ser, apesar dos fundos sociais e dos direitos e serviços
assegurados pela sociedade, um fator não desprezível de segurança. O que se
deve dizer não só dos bens materiais, mas também dos imateriais, como é a
capacidade profissional. […]

Por sua própria natureza,
a propriedade privada possui uma qualidade social fundada na lei do destino
comum dos bens. O desprezo a este caráter social foi muitas vezes ocasião de
cobiças e de graves desordens, chegando mesmo a fornecer um pretexto para os
que contestam esse próprio direito.

E quanto ao bem comum?

Esta preocupação quanto ao “destino comum” dos bens
parece estar no cerne da preocupação do papa Francisco. Ele acredita que o
libertarianismo joga os direitos e interesses dos indivíduos contra o bem
comum. É frustrante ter de fazer esta explicação porque sempre foi um grande objetivo
da tradição liberal (desde o Iluminismo escocês até o presente) argumentar que indivíduos
e bem comum não são inconsistentes; que um não precisa estar contra o outro.

A busca pelo bem de todos não requer a violação dos
interesses e direitos individuais. E a defesa dos interesses e direitos
individuais não precisa estar em conflito com o bem de todos.

Considere as palavras do homem que é amplamente
considerado o principal gênio libertário do século XX, Ludwig von Mises. Em seu
livro Liberalismo – Segundo
a Tradição Clássica
, de 1927, ele argumenta que somente o liberalismo busca
o bem de todos, jamais querendo satisfazer apenas os interesses de um grupo
especial.

Com o advento do
liberalismo, veio a exigência da abolição de todos os privilégios
especiais. A sociedade de castas e de posições sociais teve de dar lugar a
uma nova ordem, na qual somente poderia haver cidadãos de direitos iguais. O
que estava sob ataque não era mais, e tão-somente, o privilégio particular das
diferentes castas, mas a própria existência de todos os privilégios. O
liberalismo demoliu as barreiras de classe e posição social, e libertou os
homens das restrições que a antiga ordem lhe havia imposto. […]

Os partidos políticos
atuais são os defensores não somente de certas ordens privilegiadas do passado,
que desejam ver preservadas, e de algumas prerrogativas tradicionais extensas
que o liberalismo se viu obrigado a manter, por não ter sido completa sua
vitória, mas também de certos grupos que lutam por privilégios especiais, isto
é, que desejam atingir o status de
uma casta.  

O liberalismo se
dedica a todos e propõe um programa também aceitável para todos. Não
promete privilégios a quem quer que seja.  Por suscitar a renúncia à
busca de todos os privilégios especiais, até mesmo exige sacrifícios — embora,
sem dúvida, provisórios. Isso implica a renúncia a uma vantagem
relativamente pequena, com a finalidade de obter outra maior. Mas os
partidos que representam interesses especiais se dirigem, apenas, a uma parte
da sociedade. A esta parte, unicamente pela qual tencionam trabalhar,
prometem vantagens especiais, à custa do restante da sociedade. […]

Os liberais afirmam
que, com a eliminação de todas as distinções artificiais de castas e status, a abolição de todos os
privilégios e o estabelecimento da igualdade perante a lei, nada se interpõe no
caminho da cooperação pacífica de todos os membros da sociedade — pois seus
interesses coincidirão a longo prazo. 

O indivíduo e a comunidade

A era digital forneceu oportunidades sem precedentes
para os indivíduos escolherem suas associações, fontes de entretenimento, influências
espirituais e escolhas profissionais. Ao ler a declaração do papa Francisco,
ele parece crer que celebrar tais oportunidades (como eu sempre faço)
necessariamente significa menosprezar normas comunitárias e o bem comum. Por implicação,
ele parece inferir que as necessidades da comunidade devem vir antes dos desejos
dos indivíduos.

Mas eis o problema. Trata-se de um fato incontornável
da vida humana que cada indivíduo é diferente um do outro. Você pode até mesmo
dizer que tudo foi projetado para ser exatamente assim. A grande descoberta do
liberalismo foi observar e mostrar que é possível os indivíduos buscarem seus
interesses de uma maneira que não apenas não destrua os laços comunitários,
como também os fortaleça. Que isso seja verdade é algo ainda mais óbvio em
nossa era. A tecnologia tornou isso possível. As vidas passaram a ser mais
integradas à medida que aumentaram as conexões entre grupos e nações.

É o grande fardo da tradição liberal/libertária ter
de eternamente explicar que o caminho para a vida comunitária passa pela busca
dos interesses individuais em cooperação voluntária com outros. Já tentamos
explicar isso ao longo dos últimos séculos, mas a mensagem parece nunca chegar.
É como se tivéssemos, eternamente, de fazer explicações adicionais e até mesmo
reformular idéias e afirmações.

Apenas para deixar claro: o libertarianismo não promete
a salvação das almas, e nem teria como fazer isso. Tal fenômeno está exclusivamente
no âmbito da religião. O libertarianismo não quer e jamais quis destituir o
papel da religião na sociedade. Ele apenas busca fornecer as melhores condições
possíveis para a prosperidade da sociedade humana em um sentido material. E
tenta fazer isso por meio da defesa da liberdade, que é o arcabouço essencial e
indispensável para o bem de todos.

Como disse Mises, o liberalismo/libertarianismo “não promete nada
que exceda o que possa ser obtido na sociedade e pela sociedade. Busca,
unicamente, dar uma coisa aos homens: o desenvolvimento pacífico e
imperturbável do bem-estar material para todos, com a finalidade de, a partir
disso, protegê-los das causas externas de dor e sofrimento, na medida em que
isso esteja ao alcance das instituições sociais. Diminuir o sofrimento,
aumentar a felicidade: eis seu propósito.”

O alvo errado

Em suma, o libertarianismo busca um mundo mais
livre, um mundo de direitos universais, a construção de instituições que dão à
dignidade humana a melhor vantagem possível sobre os interesses poderosos,
majoritariamente associados aos governos, que buscam violar esses direitos e
diminuir a dignidade.

A liberdade não pode garantir uma “vida bela”, mas tal
vida seria impossível de imaginar ou de ser alcançada sem a liberdade. Observar
isso não é “enganação”, mas sim uma descrição das maravilhosas oportunidades disponíveis
em nossa época.

Para ser claro, de maneira nenhuma estou dizendo
que a tradição católica no pensamento político equivale ao libertarianismo. Há muitas
anomalias e contradições que impedem que tal afirmação seja feita. O que estou
dizendo é que a Igreja já se provou capaz, ao longo de uma longa história, de falar
de liberdade e de política com um grande sotaque libertário. E isso tem um
motivo: a fé genuinamente acredita que a verdade irá libertar o mundo.

Libertários não são invasores indesejáveis, mas sim
defensores do contínuo progresso do mundo que a própria Igreja Católica pretende
servir e defender.

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Leia também:

O papel crucial da religião no desenvolvimento da ciência econômica

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89 comentários em “O papa Francisco se esqueceu do grande legado libertário da própria Igreja”

  1. Não sei como ainda existem católicos que ainda dão ouvidos pra esse Papa.

    Além dessa, várias coisas que ele disse não fazem parte da doutrina e tradição católica.

  2. A única coisa boa dessa declaração foi ver o pessoal “disquerda” usando o Papa, líder da igreja católica que eles tanto criticam pelo seu conservadorismo, como exemplo a ser seguido contra os libertários.

  3. Mauro Kerly Nogueira

    O conceito do individuo como ente importante em si mesmo (cada homem como filho de Deus) é a base do cristianismo. Mas não se pode esquecer que essa individualidade que emana do Altíssimo não se confunde com a subversão da base daquilo que o próprio Deus conclama como sendo os seus desígnios p/ o homem. Analisando sob essa perspectiva, talvez entendam com mais propriedade o pensamento do Papa.

  4. Bruno Feliciano

    Pessoal, um defunto tem direito de propriedade? Ao morrer perdemos o nosso direito de propriedade e liberdade?

    Insisto nessa reflexão.

    Porque pensem, só exercem os direitos naturais as mentes pensantes e racionais, ou seja somente aqueles que possuem capacidade cognitiva para exercer e identificar o direito de propriedade e liberdade.

    Se uma pessoa morre, o seu corpo não é mais sua propriedade, já que ela deixa de ser uma mente pensante, é como um corpo sem dono.

    Parem pra pensa, se um cara morre, ele perde o direito de propriedade sobre seu corpo.

    Ele deixou de exercer, identificar e ser uma ”mente pensante” para exercer direito de propriedade.

    Pode parecer cruel, mas até certo ponto é verdade. Mas isso sem falar nos conflitos com direito de crença e etc.

    Eu acredito que quando alguém mata um inocente, este assassino quer roubar o título de propriedade da vítima. No caso, poderia pegar orgaos para vender….

    Enfim, o que acham? É só uma reflexão e não mera posição.

  5. Será que a intenção não seria criar uma divisão entre Libertários e Conservadores que tem se unido pelo mundo? A União destes dois grupos será imprescindível para a Direita manter uma representação política forte no próximo ano…

  6. O cristianismo ou catolicismo nunca pregou a ‘solidariedade compulsória’. Nunca pregou tirar de quem produz e dar a quem não o faz. Ele pregava ensinar o homem a pescar e não dar-lhe o peixe e a solidariedade voluntária: cada um dá o quanto quer e se quiser. Essas são as bases do cristianismo.

    Quem prega tirar à força dos que suam e se esforçam, para dar àqueles que não são eficientes e assim não obrigá-los a ser mais eficientes, é o socialismo e comunismo.

    Essa papa esquerda e muito.

  7. Sugestão de leitura: ” DESINFORMAÇÃO ” escrito por ION MIHAI PACEPA e " PODER GLOBAL E RELIGIÃO UNIVERSAL " escrito por JUAN CLAUDIO SANAHUJA.

  8. Quanta ignorância desse papa.

    Coincidência ou não, a palavra ARGENTINO é um anagrama de IGNORANTE.

    Então, perdoem-no, pois ele não sabe o que faz.

  9. Esse “Papa” é um comunista safado, só pode. No campo econômico ele só diz bobagens. Por que será que o anterior saiu dizendo que forças poderosas o tiraram de lá? Volta Bento XVI!

  10. Andre Cavalcante

    Sou um grande fã desse papa, quando ele se atém às questões internas do Vaticano, seu espírito conciliador com outros credos sem perder a essência de sua própria igreja, principalmente quando escreve sobre as questões espirituais, como a fé, o perdão, a família etc.

    Mas ele realmente mostra toda a sua formação socialista latino americana quando fala política e economia. Faria melhor serviço para si mesmo, para os fiéis e para a igreja de modo geral, se ficasse calado sobre essas questões.

    É aquela velha frase: é melhor ficar em silêncio e as outras pessoas acharem que vc pode ser um idiota do que abrir a boca e as pessoas descobrirem que vc é um idiota completo.

  11. Como a Coréia do Sul se desenvolveu? Vejo por aí alguns esquerdistas dizendo que foi pela forte intervenção do estado na economia e no apoio às empresas($$$$$$ dos pagadores de impostos). Alguém poderia esclarecer?

  12. Francisco só é fruto dá teologia da libertação,que não tem nada de libertação, só é uma forma dos esquerdistas entrarem e empreguinarem a igreja católica.

  13. Gente, pergunta bem off topic sem relação ao artigo:

    Tomei um susto quando vi na tv uma propaganda falando de diminuição do estado, liberdades individuais e defesa do livre mercado, falaram até de privatização da educação. Corri pra ver se era propaganda do Liber ou mesmo o Novo (o qual tenho muitas restrições), e vi que era o PSL (partido social liberal).

    Minha questão é: Dá pra botar esse naquela listinha de opções “menos piores” na hora de votar?

    Gostaria de ler as opiniões dos colegas.

  14. Toda vez que vejo alguém evocando o “bem comum” pra defender políticas coletivistas me bate uma raiva que não consigo mensurar. Gostaria que alguém definisse “bem comum” pra mim e me explicasse como uma comunidade pode agir e ter preferências como um indivíduo. Fora isso, fico feliz que o libertarianismo esteja crescendo tanto ao ponto do papa ter que se manifestar e reconhecer sua força, mesmo que de maneira caricata e idiótica.

  15. Eu realmente não costumo me intrometer em assuntos religiosos. Hoje, como libertário, não vejo nenhum problema nas religiões (ao contrário, vejo utilidade da mesma para muitas pessoas). Como libertário meu Inimigo é o socialismo e demais coletivismos. Continuamente tento combater o coletivismo por considerar o ataque à liberdade individual o maior mal da nossa era (seja na forma de nacionalismo ou socialismo).

    Não raro, estou aliado aos religiosos nesta dura luta.

    Agora muito me preocupa este posicionamento do papa catolico. Me decepciona muito, pois fico triste em ver a possibilidade de perder bons aliados (os católicos) na luta pela liberdade.

    Espero que a igreja se cure deste mal. Este homem é Inimigo.

  16. Sob a ótica do próprio catolicismo tradicional, há de existir um inferno e um céu, não? Mas como as pessoas irão para o céu se não tiverem a oportunidade de serem virtuosas (sob a ótica católica)? E como irão para o inferno se não tiverem a oportunidade de “pecar”? O próprio filme Laranja Mecânica expõe a preocupação do padre em acabar com o livre arbítrio do indivíduo quando uma solução definitiva para prevenção dos crimes é criada… Ou seja, a liberdade é um pressuposto absoluto para escolha do “bem” e do “mal”. Ou não?

    Se o Papa quiser conversar sobre política, particularmente eu gostaria de saber a opinião dele sobre os países escandinavos e outros, como Australia e Nova Zelândia. Todos lá vão para o inferno porque não tem oportunidade nem necessidade de praticar a caridade? É preciso existir miséria para que a esmola possa permanecer?

    Outro dia li, não sei se foi aqui, como a restrição gera uma indústria poderosa. Na época em que a pornografia era proibida, quem inha aceso a ela era rei. Com o alcool, idem. Hoje o mesmo se repete com as “drogas”.

  17. Que desserviço nós da América Latina fizemos ao mundo católico com esse papa. As ideias dele são fruto de uma visão que só pode ser concebida aqui. Perdoai-nos, irmãos.

  18. Esquisito. A igreja católica tem uma longa tradição como braço religioso do estado. Jeffrey Tucker não é homossexual assumido?

  19. “Essa postura de recorrer a caricaturas para então atacar é um sólido indicador de que a visão do oponente foi erroneamente formulada.”

    Estratégia típica de esquerdistas e manipuladores em geral. E de pentecostais “apologistas”.

    * * *

  20. O Concílio Vaticano II não é aceito de forma unânime pela Igreja, sendo até mesmo criticado. Em especial pela liberdade religiosa e o ecumenismo, notadamente pelo tradicionalistas.

    A doutrina de “Dignitatis Humanae”, enfrenta resistência devido deixar explícito e ir contra a “Tradição”, no sentido em que, a coerção não deveria ser utilizada para que o homem tenha no ordenamento jurídico a disposição para o direito de agir conforme sua consciência.

    Questões advindas da separação Igreja-Estado.

  21. FREDERICO HAUPT BESSIL

    O que o Papa quis dizer foi que ninguém precisa mais de que, por exemplo, no caso brasileiro, o teto do funcionalismo público – que é o subsídio mensal do Ministro do STF (um pouco mais de R$ 30.000,00 por mês) para viver. Assim, seria possível que a remuneração de todos os trabalhadores variasse entre R$ 2.000,00 e R$ 30.000,00). Ele quis dizer que nenhum indivíduo tem o direito de gastar com viagens para Miami, Paris, Dubai, gastar R$ 2.000,00 em uma garrafa de bebida, pagar R$ 2.000,00 por uma noite de sexo enquanto outros milhões de irmãos passam fome.

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