Ao escrever seu tratado Socialism,
em 1922, Ludwig von Mises expressou apoio à democracia, mas recorrendo a uma visão
muito limitada.
Especificamente, ele sugeriu que o único propósito
da democracia é “conseguir a paz e evitar revoluções violentas”. Ou seja, a democracia seria meramente um meio
para se alcançar um fim, e seu valor está em fornecer uma maneira de retirar determinadas
pessoas do aparato estatal sem a necessidade de recorrer a instrumentos
militares: “A essência da democracia é … que legisladores e governantes
… possam ser pacificamente substituídos caso ocorra algum conflito”.
Mises era ele próprio um democrata resignado, no
sentido de que, como muitos outros liberais de seu tempo, ele via algum valor
no uso de instituições democráticas, as quais poderiam fornecer um meio para se
abordar conflitos políticos que poderiam afetar a vida econômica de uma sociedade.
Para Mises, a prevenção de situações como guerras, distúrbios,
revoluções e outras insurgências violentas eram essenciais para fazer com que o
mercado — isto é, a livre interação entre pessoas que empreendem, investem,
produzem e consomem, praticando trocas voluntárias — continuasse funcionando
normalmente:
O
liberalismo, ao reconhecer que a realização dos objetivos econômicos do homem
pressupõe a paz, e buscando, portanto, eliminar todas as causas de conflitos na
política doméstica ou externa, deseja a democracia.
Mises, no entanto, não era um crente ingênuo na democracia. Em nenhum trecho de toda a sua obra ele assume
que a democracia é uma condição suficiente
para a paz, ou que a democracia pode superar os problemas criados em um sistema
político por uma ideologia danosa.
Com efeito, Mises sempre se mostrou ciente do papel
central da ideologia em determinar quão laissez-faire
(ou não) um estado pode ser. Mises
entendia perfeitamente que, se uma parcela considerável da população quiser um
estado totalitário, então nenhuma quantidade de democracia — ou ausência dela —
irá impedir isso.
Afinal, escreveu Mises, “a democracia tenta …
garantir [que haja] um acordo entre a vontade do estado — expressa por meio
dos órgãos do estado — e a vontade da maioria”.
Mas o que ocorrerá se a vontade da maioria estiver
mais propensa ao czarismo, por exemplo? “Bem”,
responderia Mises, “então czarismo é provavelmente o que as pessoas teriam”:
O
conservador russo está indubitavelmente certo quando observa que o czarismo
russo e a polícia do czar eram aprovados pela grande massa do povo russo, de
modo que até mesmo uma forma de estado democrático não poderia ter dado à
Rússia um sistema de governo diferente.
Mises entendia que, para manter um sistema político
de laissez-faire econômico — seja
democrático ou autocrático –, uma parcela considerável da população deveria
realmente querer um sistema laissez-faire, ou pelo menos algo
semelhante a ele.
Uma
maneira fácil de convencer os eleitores a abandonar o laissez-faire
Porém, mesmo se uma população possui inclinações pró-laissez-faire,
há maneiras de os estados enfraquecerem essas crenças e se aproveitarem de
vícios humanos, como a ganância, a preguiça e o medo, para aumentar o tamanho e
poder do estado.
Em seu livro Burocracia, de 1944, Mises
descreveu o problema que surge quando uma fatia considerável da população
recebe a seu sustento do estado:
O funcionário público não é apenas um empregado do
governo. Ele é, em um arranjo democrático, um eleitor e, ao mesmo tempo — por
fazer parte da estrutura governamental –, o seu próprio empregador.Ele se encontra em uma posição peculiar: ele é,
concomitantemente, empregador e empregado. E o seu interesse pecuniário como
empregado tenderá a suplantar sua função como empregador, já que ele recebe dos
fundos públicos muito mais do que contribui.Essa relação ambígua se torna ainda mais crítica à
medida que o número de pessoas na folha de pagamento do governo aumenta.
O funcionário público, na condição de eleitor, tenderá a apoiar políticos que
prometam aumentos ao funcionalismo em detrimento daqueles que defendem um
orçamento equilibrado. Na condição de eleitor, o burocrata está mais
ansioso com seus próprios aumentos salariais do que com um orçamento
equilibrado e austero. A principal
preocupação do burocrata será a de inflar o valor da folha de pagamento.
E esse problema não se restringe aos funcionários
públicos. Mises escreveu:
Nos
anos que imediatamente antecederam a queda de seus regimes democráticos, a
estrutura política da Alemanha e da França foi majoritariamente influenciada
pelo fato de que, para uma fatia considerável do eleitorado, o estado era a sua
fonte de renda. Não apenas havia toda uma horda de funcionários públicos
e de pessoas empregadas nos setores da economia que haviam sido estatizados
(ferrovias, correios, telégrafos e telefônicas), como também havia os
desempregados que recebiam seguro-desemprego e outras pessoas que recebiam
benefícios sociais. Para completar, havia agricultores e grupos
empresariais que, direta ou indiretamente, recebiam subsídios do governo.Nenhum
arranjo democrático pode existir se uma grande parcela dos eleitores está na
folha de pagamento do governo [funcionários públicos e pessoas que recebem
políticas assistenciais] ou recebe privilégios do governo [empresários
beneficiados por subsídios
ou cartelizados por agências
governamentais ou protegidos por tarifas de importação].Se
os políticos passam a agir não como empregados dos pagadores de impostos mas
sim como porta-vozes daqueles que recebem salários, subsídios e
assistencialismos pagos com o dinheiro de impostos, então o arranjo democrático
acabou.Este
é um dos paradoxos inerentes ao arranjo democrático. À medida que as
pessoas que trabalham, produzem e pagam impostos forem se convencendo de que a
atual tendência de mais interferência estatal, mais cargos públicos, mais
ministérios, mais secretarias, mais repartições, mais funcionários públicos,
mais subsídios e mais assistencialismo é inevitável, toda a noção de que o
governo é feito por todos e para todos irá se esfacelar. A ideia que irá
prevalecer é a de que o governo existe para o benefício de alguns e para a
espoliação de outros.
Obviamente, em tal situação, nenhum político eleito
que deseja ser reeleito irá se opor a uma expansão nos programas
assistencialistas, a aumentos ao funcionalismo público, a mais gastos com programas
de saúde, com subsídios e com outros tipos de gastos.
Dentro de um sistema político assim, qualquer apoio
latente que possa haver ao laissez-faire
será gradualmente preterido pela percepção de que votar em troca de mais
benefícios governamentais é — aparentemente — muito mais lucrativa do que
votar pelo laissez-faire.
O
sufrágio limitado proposto por John Stuart Mill
Mises não foi o primeiro democrata a reconhecer o
problema de se expandir o voto para aqueles que recebem mais do estado do que
pagam a ele.
John Stuart Mill, que sempre foi considerado um
democrata radical devido ao seu apoio ao sufrágio quase universal (incluindo
mulheres), ainda assim se opunha ao sufrágio para aqueles que recebiam privilégios
do governo. Em seu livro de 1861, Considerations on Representative
Government (Considerações
Sobre o Governo Representativo), Mill escreveu:
Considero
fundamental que o recebimento de assistência [Mill se referia ao sistema de
auxílio aos pobres implantado pelo governo Inglaterra. As Poor Laws foram precursoras
do estado de bem-estar social] deve implicar uma desqualificação peremptória
para o direito ao voto.Aquele
que não pode se sustentar por seu próprio trabalho não deve ter o privilégio de
ajudar a si mesmo com o dinheiro dos outros.Ao
tornar-se dependente dos demais membros da comunidade para sua subsistência,
ele abdica da sua pretensão de ter direitos iguais aos deles em outros aspectos,
como o direito ao voto. Aqueles a quem ele deve a continuidade de sua própria
existência podem legitimamente reivindicar serem os detentores exclusivos
dessas preocupações comuns, para as quais ele nada contribui — ou contribui
com menos do que leva..Como
condição para o direito ao voto, um prazo deve ser fixado — digamos, cinco
anos anteriores ao registro –, durante o qual o nome do requerente não tenha
constado nas listas de beneficiários de assistência.
Mill tentou resolver esse problema defendendo que
todos os eleitores fossem formados exclusivamente por pagadores líquidos de impostos — ou seja, só pode ser eleitor que
paga mais impostos do que recebe em subsídios:
É
também importante que o legislativo que vota os tributos, nacionais ou locais,
seja eleito exclusivamente por aqueles que pagam ou pagarão o tributo criado. Aqueles que não pagam impostos, e que por meio
de seus votos têm acesso ao dinheiro das outras pessoas, têm todos os motivos
para ser generosos consigo mesmos, esbanjadores e economicamente irracionais.Qualquer
poder de voto possuído por aqueles que não pagam impostos é uma violação do
princípio fundamental de um governo livre; uma abolição de toda e qualquer capacidade
de controle sobre o tamanho do governo.Equivale
a permitir que essas pessoas coloquem suas mãos nos bolsos das outras pessoas
para qualquer fim que elas julgarem adequado rotular de “interesse público”…A
representação deveria se dar de acordo com a tributação. Isso é o que está de acordo com a teoria das
instituições britânicas.
À exceção disso, Mill não queria nenhuma restrição
permanente ao direito de votar, e desejava que qualquer um excluído do sufrágio
em decorrência de eventuais dificuldades econômicas vigentes pudesse votar
futuramente. Ou seja, quaisquer
limitações ao sufrágio deveriam ser abolidas, de modo a “deixar o sufrágio
acessível a todos os que estão na condição normal de um ser humano”.
A democracia gera crenças perigosas
O fator-chave por trás disso é a ideologia. Uma população que vê o crescimento generalizado
de empregos públicos, dos subsídios e de programas assistenciais como ilegítimo
não irá tolerar tal situação. A esse
respeito, se o propósito da democracia é — como Mises afirmou — criar
harmonia entre a vontade do estado e a vontade da população, então as social-democracias
ocidentais estão funcionando exatamente como projetado e como esperado.
Ao contrário do que alguns libertários parecem acreditar,
os indivíduos das democracias ocidentais, em sua maioria, não são libertários
“que
ainda não se deram conta disso“. Com efeito, a grande maioria das populações das
democracias ocidentais está ideologicamente muito tranquila e conformada em ter
estados intervencionistas agigantados, os quais empregam um grande número de
pessoas e gastam imensas quantidades de dinheiro de impostos com benefícios
sociais, programas e empreendimentos estatais, subsídios a empresas privadas, criação
de mais cargos públicos e aumentos para o funcionalismo.
Seus padrões de voto e suas preferências declaradas
e demonstradas por meio de seus votos deixam isso claro. Como esperado, os
estados democráticos refletem as ideologias de seus cidadãos.
Sem uma mudança nessa realidade ideológica, nenhuma
mudança significativa deve ser esperada.
Não obstante, estender o direito ao voto para
aqueles que recebem mais subsídios do estado do que pagam em impostos irá
acelerar o processo de empobrecimento e de instabilidade econômica.
A primeira medida para reverter esse problema
ideológico está em adotar o laissez-faire
como ideologia política dominante. Isso demanda
debate de idéias e mudanças profundas na mentalidade da população. O segundo passo é retornar à visão de Mises de
que a democracia é meramente um mecanismo empregado para se alcançar determinados
fins. A democracia não é, de acordo com
Mises, uma extensão dos direitos naturais, ou a representação da soberania
pessoal, ou a manifestação de uma mística ‘vontade pública’.
Além disso, argumentou Mises, essas idéias levam a
crenças perigosas, como a de que a democracia concede ao estado poderes
ilimitados, ou a de que não há diferença entre a vontade do estado e a vontade
do povo.
Tão logo essas noções preocupantes de democracia passam
a ser aceitas, a encrenca se torna praticamente irreversível. Mises conclui:
Graves
estragos foram infligidos ao conceito de democracia por aqueles que, exagerando
a noção de soberania, concebeu a democracia como uma expressão ilimitada da
vontade geral. Não há realmente nenhuma diferença essencial entre o poder
ilimitado do estado democrático e o poder ilimitado da autocrata. A ideia
defendida por demagogos e seus apoiadores, de que o estado pode fazer tudo o que
desejar e nada deve se opor à vontade do povo soberano, tem gerado consequências
mais nefastas até mesmo, talvez, do que a sede de poder de principezinhos
degenerados.
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Leia
também:
Se os beneficiados pelo
governo são também eleitores, o arranjo é irracional
Como a democracia destrói
riqueza e liberdade
A tragédia social gerada
pela democracia
Democracia é o oposto a
liberdade e tolerância
E se eu lhe disser que a
democracia é uma fraude?
A democracia estimula o pior
tipo de competição
A democracia, os políticos
e o retrocesso da civilização
Excelente, 2 medidas que poderiam “arrumar” a democracia:
Primeiro, excluir quem não paga impostos (universitários, vagabundos, funças e etc…)
Segundo, limitar a democracia apenas ao municipio, eu não quero que um eleitor do maranhão tenha influência na minha vida.
Sou a favor de uma república parlamentarista unicameral, e aí, em vez de diminuir o número de parlamentares, dobrar ou até triplicar.
Motivo: quando existe poucas pessoas com poder, o poder fica concentrado; aí comprar essas pessoas se torna um bom negócio pra quem quer que seja que tenha dinheiro pra pagar. Já quando existem muitas pessoas, o poder fica diluído, de modo que comprar todas essas pessoas não mais é um bom negócio. Fica muito caro.
Por exemplo o mensalão (compra de votos dos deputados) não existiria.
O que vcs acham da ideia? Algum argumento construtivo a favor ou contra?
Agora que o dinheiro acabou talvez tenhamos alguma chance.
Mas essas mudanças historicamente não vêm do povo e sim da elite. E o problema é que temos uma elite que quer evitar a livre concorrência do mercado e se abrigar no conforto dos subsídios e do protecionismo.
A social-democracia é uma dádiva divina.
O Estado é o grande pai, sempre disposto a lutar, a ajudar e auxiliar todos, para que dessa forma possamos construir uma sociedade harmônica e igualitária.
O voto direito supremo e inviolável do cidadão, que pode através dele, eleger os mais aptos na condução da “res pública”.
Aqui nesse espaço subversivo, vejo patetas falando de uma suposta Liberdade, fora do controle Estatal. Risível esse posicionamento.
E digo mais, findado o golpe: verão suas casas serem invadidas por “yankees” que falam uma língua estranha, eles farão de vocês escravos em suas industrias de superflúos…
Sou de Esquerda, sou Social, sou pelo Povo, sou por Todos…esqueça essas balelas de “liberdade” e “livre mercado”, venha conosco pelo bem da humanidade.
O IMB apoia ou não o golpe fascista do PMDB contra a democracia?
Mulheres são as principais eleitoras dos partidos de esquerda nos países ocidentais.
O mais bizzaro é o governo pagar bolsas para as pessoas terem filhos. Nesse caso, os filhos servirão para pagar as aposemtadorias.
Isso é o keynesianismo máximo, que é produzir vidas humanas para pagar tributos e taxas ao governo.
Continuo sem compreender como um estado inchado deixa de ser plenamente democrático sendo esta uma demanda legítima da população, ávida por serviços públicos de ponta com seus impostos e repudia adquiri-los de maneira particular.
Me incomoda muito a dificuldade de os liberais entenderem que a emanação do poder popular se voltar para um estado gigante e provedor ser tão legítima quanto a emanação de vocês por liberdade do estado, acontece que todos estão do planeta terra, e terão que convencer boa parte do eleitorado a aceitar as idéias liberais por um longo tempo, já que o povo costuma enjoar rápido de suas próprias idéias políticas.
Acho que vou infartar, meu sobrinho está em Brasília protestando a favor da Dilma.
Gostaria de tirar uma duvida. Existe algum país que propõe abandonar o sistema de previdência publica que é e sempre foi um golpe de piramide? Tipo os paises não poderia gradativamente abandonar dando um prazo de algumas decadas? Exemplo poderiam fazer o seguinte. Quem nascer a partir de 2017 teria que aderir ao sistema privado?
br.blastingnews.com/politica/2016/08/governo-do-rio-de-janeiro-decretara-falencia-e-deve-demitir-ate-servidores-estaveis-001086359.html
Poderiam fazer uma matéria sobre o RJ e seu estado de calamidade pública.
“…Ludwig von Mises expressou apoio à democracia…”
Sr. Mises, lamento informar, mas o senhor é um democrata e portanto será fisicamente removido da ordem social libertária…por assim dizer.
Excelente artigo!! Mas como tudo, tem muitos que mamam nas tetas do Estado e reforçam o engodo para população. O que tem me preocupado muito é realmente como reverter esse quadro, dado que o Estado oferece um céu, mas entrega o inferno (previdência, saúde, educação, segurança). No liberalismo não tem céu…só suor, sem ajuda, sem papai!! Dentro da teoria acho que essa uma grande questão prática.
Novos Lulas e Dilmas ainda aparecerão em nosso horizonte, por certo. E caberá ao povo discernir quem são tais pulhas, para não cair no golpe socialista de novo:
https://bordinburke.wordpress.com/2016/08/30/petralhas-inglorios-ou-voce-vai-tirar-este-uniforme-depois-da-guerra/
O problema é que falta ao povo uma ideologia mais pro-mercado.O brasileiro é um ser que ama ter “direitos”trabalhistas,por exemplo,eles não intendem que tudo o que é estatizado,é automaticamente burocrático e sem motivação a melhorar,pois estas “empresas”,de uma maneira ou de outra,acabam sendo salvas,pois são”patrimônio público”.Acho que a solução passa,em termos mais libertários”infiltrados”em ramos da educação principalmente,pois só assim às crianças aprenderam,desde cedo,a não serem eternos “bebês”dependentes de cargos públicos e bolsas família da vida.
Na época de Mises, já não existia educação estatal compulsória?
Ele não ligou lé com cré e previu a merda que isto ia dar?
Porra Mises!
Mises é economista. Portanto tende a usar argumentos utilitários. A limitação do estado e da democracia é mais facilmente entendida com argumentos morais – que são naturalmente superiores aos utilitários. Vamos lá:
1) Temos direitos naturais (jusnaturalismo) à vida (ou corpo), liberdade e propriedade.
2) A democracia a princípio não pode violar os direitos naturais de nenhum indivíduo. Ou seja: ela já é naturalmente limitada pelos direitos naturais. O estado idem.
3) Se o fruto do meu trabalho (uso do meu corpo) é minha propriedade, então não podem, a princípio, existir impostos. Então não pode existir estado. Chegamos ao anarco-capitalismo.
4) Mas, alto lá! Há exceções em que se admitem violar os direitos naturais. Exemplos:
a – punição por crimes. Aceitam-se privação de liberdade, e confisco de propriedade para reparação de danos e multas. Em alguns lugares aceita-se inclusive pena de morte. A democracia vai definir as penas.
b – conflito de direitos. Minha liberdade acaba onde começa a do próximo. A liberdade do meu vizinho de dar uma festa conflita com o meu direito a dormir. A democracia via definir algumas regras de convívio.
c – coisas extremamente essenciais de ordem prática, que não podem ser supridas pelo livre mercado. Os ancaps afirmam que isto não existe. Entretanto, o conceito econômico do efeito carona, por exemplo rebate essa afirmação. A iluminação pública, o asfalto das ruas são essenciais na civilização atual, e é difícil imaginá-los sendo executados sem a obrigação de que todos coercitivamente paguem. Na mesma linha temos: praças, justiça, polícia e exército. E olhem que parte desses serviços ainda são privados. Afinal, eu uso clubes em vez de praças, tenho segurança privada no condomínio e shopping, faço acordos extra judiciais com advogados, pago o asfalto do meu condomínio, etc… Mas notem que nos casos de condomínios e clubes usamos a democracia para definir os gastos coletivos . Enfim: ainda não consigo imaginar tudo privado. Ainda considero o ancap uma utopia. Prefiro me ater à minarquia, e definir exatamente o que isso significa.
5) Para tirarmos dinheiro à força de todos na forma de impostos, são necessários 2 requisitos:
– que seja para uma finalidade extremamente essencial, sem a qual seria impossível imaginar a vida e civilização.
– que essa necessidade não possa ser provida livremente pelo mercado.
E, caso o item em questão passe nos 2 critérios acima, temos ainda:
– Se vamos tirar dinheiro à força de todos para um certo fim, somos obrigados a escolher a alternativa mais barata.
– Como somos todos iguais, não pode haver alíquotas diferentes para ninguém, nem para atividade nenhuma.
6) Por conseqüência, nem a democracia nem o governo podem sequer cogitar a possibilidade de me tirar dinheiro à força (na forma de impostos), para os seguintes casos:
a – Copa do Mundo
b – Olimpíada
c – Festas
d – Empresas de qualquer tipo (incluindo BB, Caixa, Petrobrás)
e – Museus
f – Estradas
g – Aeroportos
h – Ferrovias
i – Metrôs
j – etc…
7) Aceito discutir democraticamente impostos para apenas:
a – ruas
b – praças
c – iluminação pública
d – polícia
e – exército
f – justiça
g – reservas e parques
h – voucher para atendimento médico aos pobres
i – voucher para educação dos pobres
j – suporte à alimentação, moradia, roupa na forma de um bolsa família (ou similar)
Notem que o fato de aceitar discutir não quer dizer que aceito necessariamente que seja feito com impostos. É que todo o resto é tão absurdo que a democracia não permite nem o início do debate. Só o fato de se querer discutir democraticamente impostos para copa do mundo já constitui um roubo injustificado!
Já discutir impostos para os temas acima é roubo também, mas pode haver uma justificativa razoável para isso. Seriam justificativas aceitáveis:
– é extremamente necessário
– não pode ser provido pelo livre mercado (efeito carona, por exemplo).
Olá Anônimo. Obrigado pelo seu comentário.
Note que não basta algo ser essencial para que possa ser provido pelo estado. Se isso fosse verdade, o estado deveria prover comida, e eu defenderia a criação da Alimentobrás…
Para algo poder ser provido pelo governo e custeado por impostos (violência), é necessário que esse algo seja essencial e que não possa ser provido livremente pelo mercado.
Exemplo: existem hospitais e médicos particulares, bem como planos de saúde. Assim, o estado não pode fornecer saúde. Não há nenhum motivo para o estado me tirar o fruto do meu trabalho à força na forma de impostos para pagar pela saúde de todos, se o livre mercado pode prover esse serviço sem violência. Só na minha rua há 2 escolas particulares. Se há escolas particulares, o estado não pode se meter em educação.
Ou seja: se existe pelo menos uma solução sem violência, ela deve ser adotada.
Se há um bem essencial que, excepcionalmente, não pode ser provido sem impostos (violência), nesse caso específico devemos adotar a solução mais econômica (impostos menores = violência menor).
Então veja que a definição a que quero chegar é a do papel máximo do estado, ou seja, o máximo de atividades do estado que podem ser discutidas. Educação e saúde universais, por uma questão de lógica moral, não fazem parte desse rol. Copa do mundo e Olimpíada então nem se fala!
Aliás, gostaria de contribuições dos demais para encontrarem mais algum item, que possa ser adicionado à alínea 7 do meu comentário. Eu não consigo pensar em mais nada que passe simultaneamente nos 2 critérios. Alguém pode me ajudar por favor?
Note que os itens da alínea 7 definem na realidade o papel máximo que podemos discutir para o estado. Seria o “Estado Máximo”. Acima disso é impossível discutir, por uma questão de lógica. A discussão só pode acontecer daí para baixo. E ela pode chegar até ao anarco capitalismo, mas eu ainda não estou seguro de que isso funcione em 100% dos casos. Por isso, ainda sou minarquista.
Você tem razão quando identifica uma pequena contaminação utilitária no argumento que é quase que totalmente moral.
Ela não ocorre nas punições por violências (violência = violação dos direitos naturais), nem nos conflitos de direitos. Estes 2 casos existem por conseqüência pura da lógica moral. A democracia só vai ser usada num segundo momento, para decidir qual direito prevalece nos conflitos, e qual a punição por violações…
Já no caso de bens e serviços essenciais, identificar o que é essencial à civilização, acaba carregando um pouco de subjetividade utilitária. O efeito carona é na maioria dos casos uma situação claramente identificável. E para ver se um serviço pode ser oferecido de forma privada, é só olhar em volta. Isso exclui a imensa maioria das discussões.
O fato é que todos os estados do mundo estão muito acima do Estado Máximo. Perdem-se bilhões de horas de pessoas discutindo propostas (leia-se: intromissões injustificadas na vida alheia ) sobre coisas que logicamente não podem ser decididas democraticamente, pois estão na esfera dos direitos fundamentais, e não se encaixam em nenhuma das exceções lógicas acima…
Assim, 99% das coisas que o estado faz, não podem sequer ser cogitadas, e é fácil demonstrar.
Acho que os libertários, sejam ancaps ou minarquistas, deveriam focar nisto.
Do meu ponto de vista, há duas zonas: uma acima do Estado Máximo (zona negra, onde estão todos os estados do mundo), e outra entre o Estado Máximo e o Ancap (zona degradê cinza).
Vamos reduzir o estado para o máximo que se pode discutir (Estado Máximo = início do degradê cinza). Depois vemos se conseguimos reduzir mais ainda, e até mesmo chegar a estado zero (Ancap = branco).
Mas um governo não pode deixar de ser humano e uma pessoa que precisa de ajuda não deve ser deixada de lado, nem fora das eleiçoes, ao invés do sistema tratar como coitadinha essas pessoas que não tiveram a sorte ou o empenho, como muitos aqui apontam, mas não conhecem de perto a realidade nos sertões brasileiros, porque o governo não faz a sua parte de ajudar mas exigir um empenho do cidadão e também não estende seu governo ate esses cantos distantes, como nosso sertão ou qualquer lugar perdido nesse Brasil. Já viram como esta as ruas das metrópoles cobertas de gente mendigando sem teto? Gente que veem de longe para parasitar nas metrópoles, destruindo todo espaço publico. Sinal que alguma coisa esta errada, paremos para ouvi-los ao invés de julga-los e dar graças a Deus que nascemos em melhor situação. Até quando o brasileiro vai ser tao individualista? Outra coisa, aqui não é Alemanha, Inglaterra, França, aqui tem terras para todos, tem agua que se bem conduzida da pra levar para o nordeste, o problema é que fica essa briga toda de classes e povos. O ser humano também tem o direito de escolher não ser estudioso, de se identificar com as coisas mais simples e pode sim ter sua vidinha de subsistência em seu cantinho desde que o governo faça sua parte de garantir o mínimo e neste país parece que isso é crime.
Leandro, o que aconteceu no inicio do plano real ?
O FHC achou que estava na Suécia, o dólar valia 0,8 real, a inflação estava baixa, os bancos estavam sendo saneados, a bolsa tinha uma inundação de dinheiro, as privatizações criaram ofertas de infraestrutura, etc.
Não é possível que uma crise no México tenha sabotado a moeda forte.
Por mais que seja difícil competir com importados, tinha sinais extremamente positivos em alguns pontos.
Com a estagnação econômica, também por conta dos 30% na selic, faltou recursos para o governo e eles tiveram que afrouxar a moeda ?
Parece que eles tomaram a medida mais fácil, que era afrouxar a política fiscal e monetária.
O pensador Von Misses falhou apenas em considerar o assistencialismo e a máquina pública inchada como as únicas causas que colocam em risco a democracia e o “Estado enxuto”.
Faz sentido, pois viveu em um País de cultura teotônica onde uma democracia forte precisava de Forças Armadas forte (bem ao estilo prussiano). Militares bem armadas e treinados e com altos salários (soldos).
Quando se fala em controle de gastos estatais sem mencionar os militares e o clero não há entendimento, apenas um meio entendimento.