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Faria Lima: mulher de malandro ou corno manso?

A Faria Lima voltou a apoiar Lula?

Parece que a Faria Lima está novamente se aproximando de Lula, às vésperas das eleições de 2026. Nós já vimos esse filme em outras eleições: se voltarmos quatro anos no tempo, veremos a Faria Lima apoiando Lula e o Partido dos Trabalhadores, mesmo com os seguidos ataques destes contra o fantasma do “setor financeiro” e suas traições aos economistas que endossam o candidato da esquerda publicamente. Mas por que a Faria Lima apoiaria a esquerda?

Quem é a Faria Lima?

Quando falamos “Faria Lima”, de maneira geral, nos referimos ao mercado financeiro brasileiro e às principais instituições financeiras no país. Mas o individualismo metodológico nos ensina que as ações de conjuntos coletivos se dão pelas ações executadas pelos indivíduos que os compõem. Nas palavras de Ludwig von Mises, “um coletivo social não tem existência e realidade fora das ações de seus membros individuais”. Portanto, o uso do termo Faria Lima aqui significa apontar para aquelas pessoas que tomam decisões nessas instituições e, mais importante, que são influentes no debate econômico do país.

Esses economistas e especialistas da Faria Lima assinam colunas em jornais de alta circulação, dão entrevistas em programas de TV e em canais de YouTube e fazem palestras em eventos prestigiados. Eles se orgulham de se preocuparem com a trajetória da dívida, o comportamento fiscal do governo e a direção dos juros. Eles clamam que o governo tem que investir em vez de simplesmente gastar e alertam que a produtividade do país está estagnada.

Ainda assim, depois de todo seu discurso tecnicista, a Faria Lima apoia aquele candidato que promete não respeitar nada daquilo que supostamente lhes preocupa, que ataca publicamente o próprio setor financeiro do país e cujo partido efetivamente já comprovou, durante 18 anos no poder, que não vai se sujeitar a nenhuma espécie de controle fiscal.

Podemos citar nomes. Lá nas eleições de 2022, algumas figuras públicas influentes da assim chamada Faria Lima, economistas como Armínio Fraga, Edmar Bacha, Pedro Malan, Pérsio Arida, Henrique Meirelles, Elena Landau, Luis Stuhlberger, apoiaram Lula – e todos eles supostamente se arrependeram. Quem não se lembra do Armínio Fraga dizendo que apoiou Lula, mas que agora está com medo? Ou então do Henrique Meirelles dizendo que Lula “dilmou” e desejando boa sorte? Pois é, as eleições se aproximam e essa turma está de volta.

O reencontro de um amor antigo

Naquelas eleições de 2022, o apoio da Faria Lima a Lula cresceu progressivamente ao longo do ano, mesmo com todo o seu histórico de oito anos de governo, de ter colocado as fundações do que veio a ser a mais grave crise econômica na história do Brasil — crise essa que só foi explodir durante o governo Dilma, mas que foi gestada por Lula —, de condenação a anos de prisão por corrupção, entre tantas outras coisas. Ainda assim, em 2022, no embate entre Lula e Bolsonaro, a Faria Lima escolheu Lula.

Entre os nomes apontados para a equipe econômica de Lula estava Fernando Haddad, aquele mesmo que, com o seu histórico de prefeito da cidade de São Paulo, já havia se provado um desastre como gestor. Adicione-se a esta equação a nefasta presença, desde a pré-campanha, da figura de José Dirceu, ex-ministro de Lula, envolvido nos escândalos do mensalão e do petrolão, entre outros. É curioso pensar que José Dirceu, que exerce influência notável dentro do Partido dos Trabalhadores, é publicamente crítico do mercado financeiro e da Faria Lima.

Durante as eleições de 2022, Lula falou publicamente contra o teto de gastos, denunciando a ferramenta como irresponsável porque impunha limites aos sempre necessários gastos públicos. Lula disse ser contrário à austeridade fiscal, que era coisa de quem não “confia no seu taco”, e deixou muito claro, para quem lê as entrelinhas, que não haveria controle fiscal: “O país não precisa de teto de gastos. Precisa de governo que tenha credibilidade, que garanta estabilidade e que tenha previsibilidade. (…) Sei que não posso gastar mais do que eu tenho”.

Mas nada disso impediu a Faria Lima de apoiar e endossar Lula nas eleições de 2022. De fato, a Faria Lima se aproximou do Lula em 2022 quando o PT indicou, atenção, Geraldo Alckmin como seu vice-presidente. Assim que Lula rompeu definitivamente com a falsa oposição que existiu durante décadas entre PT e PSDB, a Faria Lima o abraçou. Mas por que a Faria Lima, tão “preocupada com o fiscal”, endossaria tudo isso?

A resposta a essa pergunta está invariavelmente na expectativa dos economistas da Faria Lima de receber diretamente cargos no governo ou, ao menos, exercer alguma espécie de influência nas decisões econômicas. Trata-se daquele velho apoio nada ideológico, sempre na expectativa de receber algo em troca e sempre frustrado quando essa recompensa não chega.

O arrependimento de Henrique Meirelles é um perfeito exemplo dessa dinâmica. Dois meses separam o apoio público de Meirelles a Lula e a enigmática frase de “boa sorte” a investidores. Entre um evento e outro, Lula apontou Fernando Haddad como ministro da Fazenda – Meirelles frustrado saiu jogando tudo para o alto.

O canto da sereia

Lula foi eleito, assumiu o cargo e está entregando uma gestão como se esperava: enormes gastos públicos, descontrole das contas, aumentos sucessivos de impostos e dívida em disparada. Em especial, a dívida brasileira só cresce, seja líquida ou bruta, com relação ao PIB ou em números absolutos, na metodologia do Banco Central do Brasil ou na metodologia do Banco Mundial. Os juros estão nas alturas e o juro real é um dos mais altos do mundo.

A perspectiva fiscal é desastrosa. O governo flertou com o tal Novo Arcabouço Fiscal, nome dado ao mecanismo de controle do endividamento para substituir o Teto de Gastos. A ideia era simples: romper com limitações ao crescimento do gasto, mas passar alguma espécie de credibilidade aos mercados de que o fiscal não iria ficar completamente descontrolado. Na prática, esse arcabouço fiscal não funcionou. Se o que se esperava dele já era ruim, o fato de ele não ter funcionado apenas comprovou que o Partido dos Trabalhadores e o governo Lula jamais se importaram com a questão fiscal. O resultado, em uma palavra, é de que o país está quebrado.

Agora, às vésperas das eleições de 2026, Lula reaparece dizendo saber que os gastos foram muito altos durante seu governo, e prometendo que um eventual Lula 4 seria um mandato de pisar no freio. Sim, Lula começou a falar em austeridade fiscal. A conversa é sobre não gastar tanto assim, de manter os programas sociais que foram criados e não criar novas despesas. Claro, esse é o canto da sereia para a Faria Lima ouvir.

Mas vejamos que curioso: esse mesmo Lula, há poucos meses, criticou a própria Faria Lima, a “Avenida dos Banqueiros”, que, nas suas palavras, não quer ver o filho do pobre estudando e não quer que o filho do pobre tenha oportunidades. Nesse caso, a referência é ao programa pé-de-meia, que dá dinheiro às famílias de adolescentes para que esses frequentem o ensino médio. Para além do absurdo do programa, o que chama a atenção é o discurso populista de Lula contrastando em tão pouco tempo com a demagogia sobre controle fiscal.

Mente que eu gosto

Claro que alguns economistas ainda fingem surpresa. Mas, após as promessas de Lula de que vai respeitar o fiscal e de que reconhece os excessos nos gastos públicos, a Faria Lima já começa a olhar para um eventual quarto mandato de Lula. Já se discute, de maneira pragmática, eles se defendem, quem poderia formar a equipe econômica. Finalmente, eles sonham, o PT terá controle fiscal, vai se preocupar com a produtividade do país, vai reduzir estruturalmente a taxa de juros e vai levar a dívida pública de volta a uma trajetória confortável. Alguém ainda cai nessa?

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