
Nota da edição:
Em parceria com o Instituto Mises Brasil, o Students For Liberty Brasil (SFLB) lançou um concurso de artigos com o tema “Copa do Mundo de 2026“, com o objetivo de incentivar a produção intelectual dos coordenadores da organização.
O concurso buscou artigos nos quais os alunos selecionassem um tema ligado ao mundo do futebol e o relacionassem a algum aspecto de política, economia, direito ou história.
O artigo abaixo foi um dos mais destacados do concurso.
Quando a bola rolar para a final da Copa do Mundo, bilhões de pessoas estarão diante de uma tela. Entre elas haverá um menino brasileiro que passará o dia inteiro esperando aquele momento. Talvez ele esteja usando uma camisa da Seleção larga demais para o próprio corpo. Talvez tenha passado a tarde jogando bola na rua ou em um campo de terra. Talvez esteja imaginando como seria a sensação de marcar um gol em uma final de Copa do Mundo.
O sonho não é absurdo.
Antes dele, outros meninos brasileiros sonharam a mesma coisa. Pelé sonhou. Ronaldo Fenômeno sonhou. Neymar sonhou. Endrick sonhou. Todos começaram exatamente do mesmo lugar: uma bola, um sonho e a crença de que o talento poderia levá-los mais longe do que as circunstâncias em que nasceram.
O futebol ocupa um espaço tão especial na cultura brasileira porque materializa uma ideia que raramente encontramos com tanta clareza em outras áreas da vida. Dentro de campo, pouco importa o sobrenome, a origem social ou a influência política da família. O que decide partidas são talento, disciplina, treinamento e desempenho. O futebol é, em muitos aspectos, uma celebração do mérito.
Talvez seja por isso que exista uma contradição tão incômoda no centro da história do futebol brasileiro: se aquele menino for realmente bom, não apenas o melhor do bairro, mas um talento capaz de disputar uma Copa do Mundo, existe uma grande chance de que ele precise deixar o Brasil para atingir seu potencial máximo. A Copa de 2026 está repleta de jogadores formados no futebol brasileiro, mas poucos que terão construído a maior parte da carreira aqui.
Costumamos olhar para esse processo com orgulho, como prova de que o Brasil continua sendo o maior produtor de talentos do planeta. Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. A questão não é por que produzimos tantos craques. A questão é por que precisamos exportá-los.
A explicação mais comum é financeira: os clubes europeus pagam mais. Isso é verdade, mas não resolve nada, apenas desloca a pergunta. Por que conseguem pagar mais? Por que atraem mais investimento? Por que planejam décadas à frente enquanto tantos clubes brasileiros mal planejam a próxima temporada?
O cálculo que faltava aos clubes brasileiros
Durante quase um século, o futebol brasileiro funcionou sob uma estrutura jurídica que tornava esse atraso quase inevitável: a associação civil sem fins lucrativos, regida pelo Código Civil. Nesse modelo, o presidente do clube administra patrimônio de terceiros, mas não responde com capital próprio pelos resultados de sua gestão. Ele pode contrair dívidas, atrasar salários, vender o futuro do clube em parcelas, e, quando o mandato termina, o problema vira herança do sucessor. É exatamente o que Mises descreveu como o problema do cálculo econômico sem propriedade privada: sem alguém que seja, ao mesmo tempo, dono do lucro e responsável pelo prejuízo, não existe cálculo racional, existe apenas política. Não é coincidência que boa parte dos grandes clubes brasileiros tenha amealhado dívidas bilionárias enquanto trocava de presidente a cada três ou quatro anos.
Foi para atacar exatamente esse ponto que o Congresso aprovou, em agosto de 2021, a Lei nº 14.193, a Lei da SAF. Ela permite que o clube se transforme em sociedade anônima, com conselho de administração, conselho fiscal e auditoria externa obrigatórios, e autoriza a captação de recursos via mercado de capitais, inclusive por meio de debêntures próprias do setor. Na prática, ela devolve ao futebol brasileiro algo que faltava: um dono que ganha quando o clube vai bem e perde quando o clube vai mal. Foi assim que Ronaldo Nazário, também conhecido como Ronaldo Fenômeno, comprou 90% do Cruzeiro, assumiu as dívidas históricas do clube e se comprometeu a investir R$ 400 milhões em cinco anos, uma aposta que só faz sentido para quem vai embolsar o resultado dela, bom ou mau.
Quando a corrupção é estrutural
A mesma lógica explica um fenômeno mais grave do que a falência de clubes: a corrupção sistêmica nas entidades que governam o futebol. Em 2015, a Justiça americana expôs um esquema de propina que atravessava décadas dentro da FIFA e de confederações sul-americanas, incluindo dirigentes ligados à própria CBF. Não foi um desvio pontual de caráter, mas sim a consequência previsível de organizações que controlam bilhões de dólares em direitos de transmissão e patrocínio sem ter, em lugar nenhum do organograma, um proprietário que responda pelo resultado. Quando ninguém é dono do lucro, alguém sempre encontra uma forma de se apropriar dele por fora. É o mesmo problema dos clubes-associação, em escala internacional: tire a propriedade privada e o cálculo econômico do lugar, e o que resta é disputa política pelo controle de um fluxo de caixa que não pertence a ninguém, e que, justamente por isso, termina apropriado por quem for mais hábil em desviá-lo.
É cedo para dizer quais SAFs vão prosperar e quais vão fracassar. O mercado não dá garantias, mas oferece algo mais valioso: incentivos alinhados com a realidade. Quando um investidor aplica capital próprio, ele se torna mais cuidadoso com a gestão. Quando existe a possibilidade real de vender, daqui a alguns anos, um garoto de dezessete anos por uma fração relevante do que clubes europeus pagariam por ele, surge, pela primeira vez, uma razão econômica concreta para investir pesado na formação de base, em vez de tratá-la como departamento decorativo do estatuto social.
O que falta para o menino ficar?
A discussão, porém, não termina nos clubes. Nenhuma organização opera isolada do país em que está. Clubes precisam contratar, financiar, planejar e captar recursos, e quanto mais instável for a economia ao redor, mais caro e mais arriscado se torna fazer qualquer uma dessas coisas. Os jogadores apenas respondem aos incentivos criados por esse ambiente. Quando Vinícius Júnior deixou o Flamengo para atuar no Real Madrid, ou quando Rodrygo e Endrick seguiram o mesmo caminho, nenhum deles estava rejeitando o Brasil. Estavam escolhendo o ecossistema que melhor recompensa o próprio talento, exatamente o que qualquer pessoa faz quando migra capital, conhecimento ou trabalho para onde as regras são mais estáveis.
A diferença é que, no futebol, esse movimento acontece diante das câmeras. Quando um empresário transfere investimentos para fora do país, poucos percebem. Quando um jovem talento assina contrato com um gigante europeu, todo mundo vê. O futebol apenas torna visível aquilo que, em silêncio, acontece em outros setores da economia brasileira.
É por isso que a Copa do Mundo de 2026 vale mais do que entretenimento. Ela reúne os melhores jogadores do planeta, mas também expõe, com clareza incômoda, quais sociedades conseguiram construir instituições capazes de reter os talentos que produzem.
E é nesse ponto que voltamos ao menino. Ele continuará sonhando, continuará acreditando que talento e esforço podem mudar seu destino, e estará certo em acreditar nisso. O problema nunca foi a capacidade do Brasil em produzir talentos, mas sim a dificuldade de criar clubes com dono, federações com prestação de contas, regras estáveis o suficiente para merecer confiança e instituições tão competitivas quanto os próprios brasileiros que elas deveriam servir. O dia em que conseguirmos isso será importante para o futebol nacional, mas será ainda mais importante para o país. Porque, nesse dia, aquele menino talentoso não vai precisar atravessar um oceano para descobrir até onde seus sonhos podem levá-lo.


