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O que futebol tem a ver com a Escola Austríaca?

Em parceria com o Instituto Mises Brasil, o Students For Liberty Brasil (SFLB) lançou um concurso de artigos com o tema “Copa do Mundo de 2026“, com o objetivo de incentivar a produção intelectual dos coordenadores da organização.

O concurso buscou artigos nos quais os alunos selecionassem um tema ligado ao mundo do futebol e o relacionassem a algum aspecto de política, economia, direito ou história.

O artigo abaixo foi um dos mais destacados do concurso.


Eu sei o que você está pensando: “futebol não tem nada a ver com a Escola Austríaca”, mas, alto lá, se você me der apenas três minutinhos de sua atenção, eu irei te mostrar por A mais B que o futebol tem muito mais conexão com a Escola Austríaca do que poderíamos supor à primeira vista.

O esporte que emergiu

Vou começar com uma pergunta que parece boba, mas não é: quem inventou o futebol? Não estou perguntando sobre a codificação formal das regras pela Football Association inglesa em 1863. Estou perguntando sobre o futebol de verdade, aquele que surgiu nas ruas, nos campos de terra batida, nas vielas de Sheffield e Liverpool, jogado por trabalhadores que queriam se divertir depois de uma semana exaustiva. Nenhum ministério criou isso. Nenhuma agência reguladora se reuniu numa sala com projetores para deliberar sobre a necessidade social de um esporte coletivo com uma bola. O futebol simplesmente emergiu, de baixo para cima, como resultado de milhares de decisões individuais de pessoas que acharam aquilo divertido e quiseram continuar a fazê-lo.

Agora, eu sei o que você vai falar: “tudo bem, o futebol começou espontâneo, mas hoje ele está cheio de regulação e dinheiro público, então qual é o ponto?” O ponto é exatamente esse. Você acabou de identificar o problema sozinho, parabéns. O problema começa quando a lógica do poder substitui a lógica da escolha voluntária.

O custo escondido do espetáculo

A Copa do Mundo de 2026 será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Três países, dezesseis cidades-sede, oitenta jogos. É um evento monumental, e os governos envolvidos já estão competindo para mostrar quem consegue gastar mais dinheiro público para receber a FIFA com tapete vermelho. Você já parou para pensar por que um evento que vai gerar bilhões em receita privada para a FIFA, para emissoras e para patrocinadores precisa de subsídio do pagador de impostos?

A justificativa padrão é o tal do “legado econômico”. Você com certeza já ouviu esse termo. Ele soa bem, tem um ar de responsabilidade fiscal, de planejamento de longo prazo. O problema é que a Escola Austríaca tem uma expressão de ordem para esse tipo de argumento: mostrem os custos escondidos. Mises passou décadas explicando que o problema do planejamento centralizado não é apenas que ele é ineficiente. É que ele é estruturalmente incapaz de fazer o cálculo econômico correto porque não tem os preços reais, formados pela interação voluntária entre compradores e vendedores, para guiar as decisões. Quando um governo decide construir um estádio de dois bilhões de dólares para receber dez partidas, ele não está respondendo a nenhum sinal do mercado. Ele está chutando no escuro.

Você quer um exemplo recente? Brasil, 2014. A Copa do Mundo que virou símbolo de tudo que pode dar errado quando o estado resolve que sabe melhor que o mercado o que uma cidade precisa. O estádio de Manaus custou 700 milhões de reais e recebeu quatro jogos da fase de grupos. Quatro jogos! Desde então, o Amazonas FC tem usado o lugar para partidas do Campeonato Brasileiro da Série D, com média de alguns milhares de torcedores num estádio projetado para quarenta e dois mil. O “legado” virou piada, e piadas, ao contrário de estádios vazios, pelo menos não custam dinheiro público.

Uma entidade suíça que muda leis brasileiras?

Falando nisso, chegamos à FIFA, e é aqui onde a história fica inconveniente para muita gente. Pode riscar essa ideia de que a FIFA é uma organização privada operando em mercado livre. Ela não é! Tecnicamente, sim, ela é uma associação sem fins lucrativos registrada na Suíça. Mas o que ela faz na prática é negociar com governos soberanos condições que nenhuma empresa privada comum teria coragem de pedir e muito menos de receber.

Para sediar uma Copa do Mundo, os países precisam assinar contratos que garantem à FIFA isenção fiscal total sobre todas as suas receitas no território do país-sede. Isenção de imposto de renda, IOF e qualquer tributo que você queira mencionar. Além disso, os países precisam mudar leis para acomodar as exigências da entidade, como a liberação de venda de cerveja nos estádios, que o Brasil fez em 2012 com uma lei que ficou apelidada carinhosamente de “Lei da Copa”. E aqui está um dos paradoxos mais reveladores desta história: a mesma entidade que extrai privilégios do estado também foi capaz de forçá-lo a abrir mão de uma regulação presunçosa. O estado criou a restrição. O estado a manteve por anos. E só a retirou quando um agente externo com poder de barganha suficiente apareceu na mesa. Isso não é um argumento a favor da FIFA. É um argumento contra o estado que precisou de uma entidade suíça para fazer o óbvio.

Isso tem um nome na literatura austro-libertária: crony capitalism, capitalismo de compadrio. Não é o livre mercado! É o oposto do livre mercado! No livre mercado, nenhuma empresa tem o poder de exigir que o estado mude suas leis para que ela possa operar. No capitalismo de compadrio, empresas e organizações usam conexões políticas, lobbying e posição de monopólio garantida pela conivência estatal para extrair privilégios que nunca conseguiriam numa competição genuína. Alguém poderia objetar que algumas das concessões feitas à FIFA são desejáveis, afinal, menos regulação é melhor. Concordo! Mas isso revela exatamente o problema: vivemos num sistema onde o estado mantém restrições arbitrárias que só são removidas para quem tem poder de monopólio suficiente para exigir sua remoção. Isso não é desregulação. É um leilão de exceções com entrada restrita. A FIFA tem monopólio sobre o futebol mundial não porque é a melhor gestora possível do esporte, mas porque os estados reconhecem esse monopólio e assinam contratos que o solidificam. É um cartel, com todos os defeitos que os cartéis têm, e com a diferença irritante de que esse cartel tem imunidades diplomáticas e bandeiras de todas as nações na fachada da sede.

O que o ingresso revela

Mises desenvolveu a praxeologia, que é o estudo da ação humana. E o ponto central da praxeologia é absurdamente simples: toda ação humana é orientada por preferências subjetivas e por escalas de valor que são individuais, que não podem ser somadas nem agregadas numa média e que certamente não podem ser conhecidas por um planejador central. Quando você decide comprar um ingresso para ver seu time jogar, você está expressando uma preferência. Você escolheu gastar aquele dinheiro naquilo, e não em outra coisa. Quando você escolhe assinar o streaming para ver a Champions League, idem. Quando você escolhe não ir ao estádio, mas assistir num bar com amigos, a mesma coisa. Cada uma dessas decisões revela algo sobre sua escala de valores que só você tem acesso.

Não existe o “torcedor médio”. Isso é ficção estatística! Existe você, que prefere o estádio à televisão porque gosta do barulho. Existe seu amigo que prefere assistir em casa porque odeia fila. Existe a moça que assina o pacote de streaming, mas só assiste aos jogos da seleção. Existe o cara que não liga para o resultado, mas vai ao estádio por causa da socialização. Planejar o consumo do futebol como se todos esses perfis fossem intercambiáveis é tão absurdo quanto planejar o consumo de qualquer outra coisa. E, no entanto, é exatamente o que os governos fazem quando decidem qual estádio construir, em qual cidade, com qual capacidade, para qual público imaginário que eles inventaram numa sala de reuniões.

O torcedor revela suas preferências toda vez que escolhe onde gastar seu tempo e dinheiro. E quando os preços sobem além do que ele considera justo, ele para de ir ao estádio. Quando o streaming aumenta demais, ele acha outra alternativa. Quando a experiência no estádio piora, ele prefere assistir seu time diretamente no sofá. Esses sinais são valiosos! São informações que o mercado processa automaticamente. E são exatamente os sinais que desaparecem quando o governo entra com subsídio, com algum ingresso popular ou com alguma regulação no preço de transmissão. O estado distorce o sinal, perde a informação, e depois fica sem entender por que a coisa não funciona como planejado.

A teoria que o campo já confirmou

Quando você somar tudo isso, o surgimento espontâneo do esporte, a interferência estatal nos megaeventos, o monopólio protegido que é a FIFA e a inviabilidade de controlar centralmente as preferências de milhões de torcedores, fica claro que o futebol é quase um caso de estudo perfeito para verificar as teses da Escola Austríaca. Não porque alguém planejou que fosse assim. Mas porque a realidade não pede licença para confirmar teorias.

Não estou insinuando que o futebol deveria ser completamente desregulado amanhã, ou que a FIFA é a pior instituição do planeta, ou que toda Copa do Mundo é um crime econômico. Apenas estou afirmando que as ferramentas que Hayek, Mises e seus herdeiros intelectuais desenvolveram ao longo do século XX são perfeitamente aplicáveis a um domínio que a maioria das pessoas considera distante de qualquer reflexão econômica séria. E quando você começa a aplicar essas ferramentas, as perguntas que surgem são desconfortáveis demais para serem ignoradas.

A pergunta que eu faço é essa, e desconfio que ela vai te perseguir um pouco: se o futebol nasceu livre, cresceu espontâneo e se tornou o fenômeno cultural mais popular do planeta sem precisar de planejamento central, o que exatamente justifica que agora ele precise de tanto estado para sobreviver? Ou será que não precisa, e alguém simplesmente achou uma forma muito lucrativa de fazer você acreditar que precisa?

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