Nota da edição:
Este artigo é a publicação do 16º capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.
Confira também o 15º capítulo
“La fortuna è arbitra della metà delle azioni nostre, ma ce ne lascia governare l’altra metà, o presso.”
“A fortuna é senhora de metade de nossas ações, mas a outra metade, ou quase, deixamos governar por nós.”
— Nicolau Maquiavel, O Príncipe, cap. XXV
Florença, no final do século XV, era um laboratório de grandezas e ruínas. Enquanto Brunelleschi erguia cúpulas que pareciam desafiar a própria gravidade e Botticelli pintava rostos que pareciam habitar outra ordem do ser, a cidade vivia um ritmo político convulso, feito de repúblicas breves, tiranias fugazes, invasões estrangeiras, exílios arbitrários e retornos inesperados. Nesse tabuleiro instável, o jovem funcionário da Segunda Chancelaria, Niccolò Machiavelli, aprendeu que o poder não é um conceito abstrato, mas um organismo vivo, inquieto, que respira dentro do tempo.
Frequentemente enviado como emissário por Cesare Borgia à França, ao Sacro Império e às cidades italianas, Maquiavel conheceu a política em sua forma mais crua. Não estudou a nobreza como ideal, observou-a como prática. Não especulou sobre governantes, conversou com eles. Não imaginou guerras, negociou entre elas. Sua reflexão nasce do atrito entre o ideal herdado e a sobrevivência possível. Em Florença, cada dia desmentia as promessas de estabilidade. O tempo político era errático, imprevisível, frequentemente violento.
É nesse contexto que Maquiavel escreve, e é por isso que sua obra soa tão distinta da tradição clássica. Ao contrário dos pensadores que buscavam uma ordem eterna, ele descreve um mundo em fluxo. Para compreender essa ruptura, é inevitável recordar Aristóteles, ainda que o capítulo de Maquiavel venha depois de Salamanca e de Tomás de Aquino. A comparação não é cronológica, é estrutural. Um representa a ordem da forma; o outro, a ordem do acontecimento.
Em Aristóteles, a virtude (areté) é excelência moral, um hábito deliberado que conduz ao justo meio e, ao final, à vida feliz (eudaimonia). A política é o espaço natural onde essa virtude floresce. O homem isolado, dizia o Estagirita, é um monstro ou um deus. A racionalidade moral exige convivência, aprendizado mútuo e partilha de um horizonte comum.
Maquiavel não nega essa herança. Reconhece que ninguém vive fora da comunidade e que o bem comum continua sendo um horizonte necessário. O que muda é o tempo. O mundo antigo, que ainda confiava numa certa estabilidade do real, cede lugar a uma história instável, desobediente e imprevisível. O bem comum permanece desejável, mas já não é plenamente realizável. É nesse ponto que Maquiavel formula a afirmação que tanto escandalizou moralistas: não é possível possuir todas as virtudes; é preciso, ao menos, parecer possuí-las. Lida sem preconceito, essa frase não é apologia da imoralidade, mas diagnóstico de um mundo em que as garantias clássicas se dissolveram.
A etimologia ajuda a esclarecer a ruptura. Virtude, no sentido aristotélico e latino, deriva de vir: força moral, excelência do caráter. Já virtù, no vocabulário renascentista de Maquiavel, assume outro sentido: energia vital, engenho, ousadia, capacidade de intervir eficazmente no tempo. A virtude é formação; a virtù é gesto. A primeira orienta-se pela justiça e pelo equilíbrio; a segunda, pela ocasião e pela necessidade. Uma pertence ao mundo da forma; a outra, ao mundo do acontecimento.
Essa distinção transforma o próprio conceito de ação humana. A fortuna, termo que Maquiavel ressignifica, não é o destino grego nem a providência cristã. Fortuna é a correnteza do real, a instabilidade das circunstâncias, o tempo em sua forma indomada. O governante não enfrenta ideias abstratas, enfrenta eventos. E os eventos são velozes, parciais e improvisados. A ação ocorre sempre num intervalo estreito, entre a intenção e o imprevisto.
A virtù nasce nesse intervalo. É a coragem de decidir no instante certo, a capacidade de moldar o tempo, ainda que apenas provisoriamente. Aqui, Maquiavel antecipa uma intuição que Ludwig von Mises tornaria explícita séculos depois: toda ação humana é projeção sobre um futuro incerto. Age-se não sobre o que é, mas sobre o que pode ser. A incerteza radical, que Friedrich Hayek identificaria como limite do conhecimento centralizado, já está presente em Maquiavel. O mundo é complexo demais para ser dominado, e a política é, antes de tudo, a administração dessa impossibilidade.
Por isso, a prudência deixa de ser contemplação e torna-se cálculo. A coragem deixa de ser ornamento moral e passa a ser instrumento. A decisão já não obedece a princípios eternos, mas à urgência do instante. Maquiavel não destrói a razão, devolve-lhe sua função mais antiga: agir diante do imprevisível. Seu realismo não é cinismo, é responsabilidade. Não propõe a desumanização do poder, mas sua humanização radical, ao reconhecer que governar é sempre arriscar-se dentro do tempo.
É nesse ponto que a comparação entre Aristóteles e Maquiavel alcança sua maior profundidade. Sem Aristóteles, a política perde sua alma; sem Maquiavel, perde sua lucidez. A virtude oferece o horizonte; a virtù fornece o movimento. Uma estrutura o caráter; a outra estrutura a ação. Uma aponta para a eudaimonia; a outra, para a sobrevivência. Não são inimigas, são complementares, como margens opostas de um rio que conduz o homem entre o ideal e o possível.
Quando nem a virtude clássica nem a virtù da decisão bastam para conter o tempo, surge a pergunta decisiva da modernidade: como proteger a vida humana quando o futuro deixa de oferecer garantias.


