
Este artigo integra o e-book especial do Instituto Mises Brasil para a Copa do Mundo de 2026, que pode ser acessado aqui.
Com a chegada da Copa do Mundo, surge um período de expectativas. Milhões participam de bolões e apostas para prever os resultados dos jogos. Mas, mesmo que alguns tenham ferramentas mais avançadas e consigam maior acurácia, esta nunca é perfeita. E isso não é sentido apenas pelos apostadores, mas também pelas próprias equipes. Claro que os melhores centros de treinamento e scouts monitoram jogadores e suas ações em campo, mas o melhor uso das informações não resulta em determinismo do resultado dentro do jogo.
É interessante como esse momento, sintetizado nas partidas de noventa minutos, nas quais duas equipes oponentes tentam, de forma competitiva, marcar o maior número de gols possível, pode nos ajudar a ilustrar como a sociedade funciona.
Hoje, a indústria do esporte transformou-se em uma indústria da comunicação e do entretenimento, e não são poucos os comentaristas. Entre eles, incluem-se ex-jogadores, que continuamente ressaltam a diferença entre ver a partida de cima e poder analisá-la, e o jogo no “calor do momento”, na hora do vamos ver o que vai acontecer. Esse tipo de compreensão está presente na teoria da Escola Austríaca, quando Foss e Klein (2005[1], 2012[2]) e Salerno (2008[3]) explicam que a tomada de decisão do agente nunca se dá de forma teórica, mas sempre em contextos concretos específicos, que envolvem uma multiplicidade de facetas que nem sequer podem ser modeladas ex ante.
Nunca há conhecimento perfeito sobre o que acontecerá no futuro. A partida de futebol e a competição são campos abertos à surpresa, à superação, à decepção e à revolta. E é justamente nisto que reside a magia do futebol: a surpresa. Pode um craque errar um gol, pode um “perna de pau” se superar e se transformar em herói. Assim como na vida, no campo as condições não estão dadas.
Os limites do conhecimento técnico no mundo da ação humana
Por mais que hoje tenhamos um desenvolvimento de ferramentas que permitem uma melhor análise de desempenho e de aspectos físicos e táticos, que fornecem informações na fronteira para cada diretor técnico, na verdade, não podemos esquecer que sempre se trata de atores humanos, e não de meras máquinas maximizadoras de eficiência estática. Isso impacta numa recompreensão do processo de eficiência e de conhecimento no cenário futebolístico (Huerta de Soto, 2004[4]; 2010[5]).
Então, é impossível que uma aposta esportiva, ou mesmo a contratação de um jogador, ocorra de forma determinística e estaticamente eficiente. Não se aposta que um motor opere a uma determinada potência, mas que um agente humano adote uma certa postura.
Se fosse tão simples quanto investir mais e melhorar o controle das informações, equipes que realizaram grandes investimentos em contratações em pouco tempo teriam vencido todas as competições facilmente. E, curiosamente, muitas vezes times menos estrelados, mas com outras capacidades desenvolvidas dentro da organização e não disponíveis no mercado (ver, por exemplo, Penrose, 1959[6]; Teece, 2007[7]), conquistam campeonatos, mostrando que há mais do que um mero uso do conhecimento técnico e científico disponível.
A vida humana ocorre sempre em incerteza permanente, na qual a sociedade está imersa, e é impossível conceber com exatidão o que acontecerá no futuro. Nesse sentido, Rothbard (1985[8]; 2004[9]) mostrará que todos os empresários são, em certo sentido, especuladores que formam expectativas sobre quais produtos serão procurados no futuro.
Essas expectativas são consideradas por Lachmann (1943[10], 1956[11]) como o conhecimento parcial que temos sobre o futuro, isto é, as conjecturas mentais, as estimações e as especulações, os mapas, hábitos e valores que nos guiam em direção ao futuro. A existência de fatores com certa estabilidade facilita o processo de interação entre os agentes econômicos e entre os jogadores em campo, mas não faz com que esse processo possa ser controlado de forma determinística.
Os agentes têm comportamento proativo e adaptativo. Eles não são reagentes estáveis a estímulos externos, como os átomos em um experimento de ciências naturais. Ao contrário, por ser agente, isto é, ao ter um estímulo próprio, o indivíduo utiliza sua cognição, suas categorias apriorísticas da ação, inexoráveis às suas ações, para modelar uma determinada leitura subjetiva e abstrata da realidade (Iorio, 2015[12]). Com isso, ele pode melhorar suas ações, progredir em seu comportamento e, no caso da partida de futebol, melhorar seu desempenho e obter melhores resultados para a sua equipe.
No campo, nenhum fato é predeterminado. Não é a melhor avaliação física e técnica que determina o resultado do jogo. Não é o desempenho do jogo anterior, nem mesmo as falhas nele cometidas, que determinam os resultados das partidas seguintes. É a ação dos indivíduos, de forma criativa e autorregulada, na busca pelo sucesso, em um processo competitivo que gera vitórias e derrotas, o que torna o futebol um esporte amado por milhões.
Similaridades entre o futebol e a economia: a tentação da centralização na economia, na equipe e na firma
O resultado só pode ser determinado pela ação dos jogadores, pelo seu julgamento no momento do jogo, naquela circunstância específica de tempo e espaço. O mesmo ocorre em toda ação humana. A tomada de decisão é, por natureza, contextual. Não é à toa que Hayek (1937[13], 1945[14], 1952[15], entre outros) e Huerta de Soto (2010) explicaram que existem dois tipos de conhecimento: um específico para circunstâncias particulares, que os agentes criam e consomem nos momentos em que agem.
Muitas vezes, isso parece deveras complexo, e, de fato, o ser humano tende a não entender esse tipo de conhecimento e como a organização das ações do homem depende desse conhecimento contextual. Isso gera uma tendência a confundir organização com ordem (De Jouvenel, 1956[16]), levando a acreditar que, apenas de forma predeterminada e rígida, os recursos podem ser mais bem dirigidos.
Isso se dá tanto na economia quanto no futebol. Não são poucos os técnicos conhecidos por serem rígidos, deveras esquemáticos e por buscar que seus jogadores cumpram apenas funções predeterminadas em campo. Para estes, é no plano que reside a vitória: e é o plano que emerge como um quase Santo Graal.
Na economia é o mesmo, temos uma imensidão de “técnicos sociais” mais bem treinados em diferentes ramos do conhecimento empírico e em especial nas firmas, que no sentido hayekiano são, como as equipes de futebol, organizações, isto é, ordens moldadas pelo controle top-down (Hayek, 1964[17]).
No surgimento das ciências administrativas e econômicas, o positivismo era o paradigma dominante. Nisso, ele não gerou apenas efeitos na pretensão técnica de poder modelar a economia ex nihilo para alcançar os melhores resultados (ditos “mais eficientes”), mas também na crença na gestão centralizada (ver Taylor, 1911[18]) e no surgimento do Planejamento Estratégico nos anos 1960 (ver Mintzberg, 1994[19] para entender este movimento de modificação da estratégia ao longo do tempo). Os técnicos supercontroladores e draconianos são, portanto, mais uma evidência de uma determinada cultura decorrente de um paradigma científico positivista (Marion Ceolin, 2022[20]).
Aqui entra outra grande contribuição da Escola Austríaca, que ultrapassa a mera crítica ao positivismo: antes implícita, hoje a Escola Austríaca de Economia deu origem a e alavancou uma próspera agenda de debate intelectual no que se refere à ação empreendedora e ao comportamento das firmas nos mercados.
A realidade do processo decisório no futebol, isto é, a cadeia de comando e a liberdade de iniciativa em determinados aspectos do jogo, pode ser compreendida quando estudada sob as lentes da abordagem do Julgamento. Os professores Foss e Klein (2005, 2012) (ver também Foss, Klein & Bjornskov, 2019[21]) identificam o empreendedorismo como uma função exercida em um processo de julgamento: o empresário, detentor dos direitos de julgamento, é aquele que decide como combinar e alocar recursos heterogêneos diante de um futuro genuinamente incerto, assumindo a responsabilidade última por escolhas que não podem ser reduzidas a um cálculo otimizador.
O julgamento não é uma fórmula que se aplica, mas uma decisão que se toma. Essa decisão só se revela acertada ou equivocada depois de exposta ao teste da realidade. Da mesma forma que um treinador desenha um plano, é o jogador que, no lance, decide driblar ou tocar; o detentor do direito de fazer uso dos recursos pode delegar a execução, jamais a incerteza. O julgamento permanece dele, ainda que exercido, de modo derivado, por aqueles que agem em seu nome.
Ao se compreender o problema do cálculo (Mises, 1920[22], 1998[23]), do conhecimento e da natureza da ação humana neste ambiente complexo, a própria compreensão de como se gerencia uma equipe ou uma empresa se modifica. Fora do positivismo científico e dogmático que permeia as ciências sociais desde o fim do século XIX, compreende-se que, nesse tipo de arranjo deliberado, há sempre espaço para a ação empreendedora realizada por agentes que a exercem de forma derivada, exercendo seu poder de julgamento.
A Escola Austríaca, nesse sentido, não apenas permite compreender a realidade da organização da firma nos mercados, mas também contribui para a reorganização das equipes desportivas no âmbito da abordagem do julgamento.
Um mundo aberto a possibilidades
O debate prévio realizado neste artigo trata majoritariamente de futebol, mas também diz muito sobre a sociedade em que vivemos. Cada partida de futebol é um momento vivo, uma situação única em que os jogadores tentam executar perfeitamente os movimentos treinados. Só que o treinamento nunca se compara ao momento da execução, pela pressão, pelo cansaço, pelas múltiplas possibilidades de contato dentro do jogo.
Claro, temos que compreender que o campo de futebol é um espaço limitado; é um mero exemplo para que abstraiamos da realidade e consigamos entender como as ordens se dão na economia. A realidade é muito mais complexa do que o campo de futebol, mas esse espaço limitado que move paixões condensa, em certa medida, aquilo que o mercado revela ao longo de anos. Nenhum resultado é dado de antemão; a informação mais sofisticada não dispensa o julgamento de quem age; e a surpresa não é um defeito do sistema, e sim sua característica essencial. É dessa criatividade humana que se geram os ganhos da economia e os gritos de milhões comemorando gols depois de jogadas antológicas.
O futuro não é uma partida já jogada cujo placar bastaria descobrir; é um campo aberto, e é nessa abertura que residem tanto o risco quanto a oportunidade. E é por isso que tanto no futebol quanto na economia é impossível planejar de forma ótima o que acontecerá, e que o controle extremo se mostra ineficaz e contraproducente.
Há os que sonham em substituir o julgamento humano por um plano perfeito. O técnico draconiano e o planejador central cometem o mesmo erro: confundem a ordem viva, que emerge das decisões de muitos agentes em circunstâncias concretas, com a organização rígida imposta de cima. Mas a vitória, dentro e fora de campo, nunca pertenceu ao plano; pertence a quem sabe agir, criar e se adaptar quando a bola e a vida não rolam como o esperado.
[1] Foss, N. & Klein, P. (2005). Entrepreneurship and the Economic Theory of the Firm: Any Gains from Trade?. In Rajshree Agarwal, Sharon A. Alvarez, and Olav Sorenson (Eds.), Handbook of Entrepreneurship: Disciplinary Perspectives. Norwell, Mass: Kluwer.
[2] Foss, N.J., & Klein, P. (2012). Organizing Entrepreneurial Judgment: A New Approach to the Firm. Cambridge University Press.
[3] Salerno, J. (2008). The Entrepreneur: Real and Imagined, Quarterly Journal of Austrian Economics 11, 188-207.
[4] Huerta de Soto, J. (2004). La teoría de la eficiencia dinámica. Procesos de Mercado: Revista Europea de Economía Política, 1(1), 11–71.
[5] Huerta de Soto, J. (2010). Socialism, economic calculation and entrepreneurship. Edward Elgar.
[6] Penrose, E. (1959). The Theory of the Growth of the Firm. Basil Blackwell.
[7] Teece, D. J. (2007). Explicating dynamic capabilities: The nature and microfoundations of (sustainable) enterprise performance. Strategic Management Journal, 28(13), 1319–1350.
[8] Rothbard, M. (1985). Professor Hebert on Entrepreneurship. The Journal of Libertarian Studies 7 (2), 281-286.
[9] Rothbard, M. (2004). Man, Economy, and State with Power and Market. Ludwig von Mises Institute.
[10] Lachmann, LM. (1943). The Role of Expectations in Economics as a Social Science. Economica 10 (37), 12-23.
[11] Lachmann, L. (1956). Capital and Its Structure.
[12] Iorio, U. J. (2015). Ação, tempo e conhecimento: Escola Austríaca, ciência e humanismo. MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia, 3(2), 317–326.
[13] Hayek, F. (1937). Economics and Knowledge. Economica 4 (13), 33–54.
[14] Hayek, F. (1945). The Use of Knowledge in Society, American Economic Review, v. 35, n. 4., pp. 519–530.
[15] Hayek, F. (1952). The Counter-Revolution of Science. New York: The Free Press.
[16] De Jouvenel, B. (1956). Order vs. Organization. In Mary Sennholz (Ed.) On Freedom and Free Enterprise: Essays in Honor of Ludwig von Mises. D. Van Nostrand.
[17] Hayek, F. (1964). Kinds of Order in Society. New Individualist Review 3 (2), 3-12.
[18] Taylor, F. W. (1911). The principles of scientific management. Harper & Brothers.
[19] Mintzberg, H. (1994). The Rise and Fall of Strategic Planning. Free Press.
[20] Marion Ceolin, A. (2022). Positivism and Intrapreneurship: Austrian Analysis and Alternative. Procesos de Mercado: Revista Europea de Economía Política 18 (2), 227.
[21] Foss, N. J.; Klein, Peter G. & Bjornskov, C. (2019). The Context of Entrepreneurial Judgment: Organizations, Markets, and Institutions. Journal of Management Studies 56 (6), 1197–1213.
[22] Mises, L. von. (1920). Economic Calculation in the Socialist Commonwealth.
[23] Mises, L. von. (1998). Human Action – Scholar’s Edition. Auburn: Ludwig von Mises Institute.
