
No mundo atual, a única forma de promover mudanças em direção à liberdade é convencer um número substancial de pessoas das nossas ideias, a ponto de tornar impossível que os políticos votem contra nós. Com a chegada da Copa do Mundo, não há melhor momento para recorremos à analogia, criada pelo nosso fundador Helio Beltrão, do embate de ideias como um campeonato de futebol.
Nesse torneio existem vários times, e cada time é uma escola de pensamento. Um deles é o austro-libertário, o nosso. Competimos contra os socialistas, keynesianos, neoclássicos, conservadores, identitários, frankfurtianos e muitos outros. Durante muito tempo, estivemos relegados a uma posição de pouca ou nenhuma influência. Não participávamos da primeira divisão e quase não tínhamos torcida.
Mas como funciona essa analogia das diferentes escolas de pensamento como times de futebol?
O goleiro
O goleiro representa os grandes pensadores daquela doutrina no passado. No nosso caso, temos nomes como Carl Menger, Eugen von Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek e Murray Rothbard. Estamos muito bem de goleiro.
Mas os outros times também têm goleiros importantes. O time marxista tem Karl Marx e Friedrich Engels. O time keynesiano tem John Maynard Keynes. O time da Escola de Frankfurt tem Theodor Adorno. Tem ainda outros goleiros, alguns deles muito bons para os seus times, como Adam Smith, Milton Friedman e Ayn Rand.
A defesa
A defesa é formada pelos doutores e acadêmicos que adaptam aquelas ideias originais às circunstâncias atuais. O professor Antony Mueller foi um grande exemplo, assim como os nossos outros dois mosqueteiros, os professores Fabio Barbieri e Ubiratan Iorio. De fato, os austro-libertários têm avançado na formação de uma boa defesa, galgando um espaço cada vez maior na Academia. Inclusive, o programa de Fellows do Mises Brasil é um grande passo nessa direção.
Apesar desse avanço e de grandes nomes, nossa defesa ainda é pequena quando comparada às dos demais times. Com relação a outras escolas de pensamento, temos pouca presença na academia. As universidades são amplamente dominadas pelos marxistas e pelos keynesianos. Nesse sentido, especialmente no Brasil, o time marxista tem, não a melhor, a mais numerosa defesa.
O meio de campo
O meio de campo é o centro de um time de futebol. É o que realmente faz o time ser melhor no fim do dia. Nesse campeonato de ideias, o meio de campo é formado por intelectuais, artistas, escritores, blogueiros e produtores de cultura, de maneira geral. Assim como os meias são responsáveis por carregar a bola da defesa para o ataque e encantar os torcedores, aqueles que difundem e popularizam as ideias têm o poder de influenciar opiniões.
Nós temos poucos jogadores nessa posição. Ainda há pouca gente escrevendo em jornais, produzindo entretenimento ou ocupando espaços culturais relevantes. Podemos citar Ron Paul como um grande nome do time austríaco. Mas a situação tem melhorado bastante, especialmente se considerarmos os avanços na mídia alternativa, que permitem uma difusão cada vez mais descentralizada das ideias.
No entanto, os nomes de grande alcance cultural seguem no outro time. Não temos um meio de campo comparável ao da esquerda em volume. Continuamos perdendo para eles.
Ataque
No ataque, estão os jogadores que esperam o meio de campo trabalhar a bola para empurrá-la para o gol. Mas eles só conseguem marcar se o time estiver coordenado, com uma boa defesa e, principalmente, com um meio de campo capaz de criar as oportunidades.
Os atacantes são aqueles indivíduos que, por meio da ação empreendedora, levam a cabo as ideias e as executam. O gol, na nossa analogia, é a materialização das ideias na coordenação social. Isso acontece a partir de ações voluntárias que influenciam os meios ao nosso redor. Nesse sentido, a vitória chega por meio de mudanças institucionais. Para o time austro-libertário, essa vitória está no avanço da liberdade e no respeito à propriedade privada.
As mudanças institucionais também podem acontecer dentro do aparato coercitivo. Mas os políticos estão longe de ser craques. Os políticos podem, no máximo, se aproximar de um atacante oportunista, que vive na banheira e, vez ou outra, empurra a bola para o gol. Na maioria das vezes, porém, o político é o jogador que perde gols feitos, perde pênaltis, fica impedido, atrapalha as jogadas e até mesmo marca gols contra. Pior do que isso, o político é o jogador marrento, que acredita ser o craque da equipe, digno de toda a glória, mas desestabiliza o vestiário e enfraquece o restante do time.
Não podemos esperar que os políticos tenham um grande “amor pela camisa”. E a situação no mundo político, assim como em uma partida de futebol, pode mudar muito rápido. Os gols que marcamos durante um determinado período, quando perdemos coordenação no restante do time, podem ser rapidamente superados pelos gols dos adversários.
Treinador
Treinar um time de futebol é crucial. Institutos de produção intelectual, como o Instituto Mises Brasil, são os equivalentes aos treinadores desse time. Eles funcionam como centros de formação e ensino e fornecem a estrutura necessária para que as ideias sejam trabalhadas, dos goleiros aos atacantes, passando pela defesa e pelo meio de campo, levando-as a cada vez mais pessoas e, assim, fazendo crescer a torcida.
Assim, bons treinadores são aqueles que oferecem produção intelectual de alta qualidade. Sem dúvida, por termos as ideias corretas, nós tendemos a ter os melhores treinadores. Enquanto isso, os outros times patinam na qualidade das ideias, mas avançam na quantidade de jogadores.
Uma visão do campeonato
No Brasil de hoje, a esquerda ainda ocupa as primeiras posições e os conservadores vêm logo em seguida. Nós austro-libertários tivemos uma melhora significativa nos últimos anos e já estamos na primeira divisão. Porém, infelizmente, ainda não conquistamos o campeonato.
É importante ressaltar que o campeonato não tem fim. Mesmo que se consigam vitórias importantes, sempre pode haver um revés quase instantâneo na direção da tirania. Em junho de 1914, por exemplo, o Arquiduque Franz Ferdinand foi assassinado e o mundo mergulhou em uma guerra que marcou o fim da era de prosperidade e otimismo geral. A guerra durou quatro anos e deixou sequelas para uma civilização inteira até os dias atuais.
Mais recentemente, em março de 2020, governos de todo o mundo alardearam uma pandemia global e impuseram lockdowns. Com apoio de uma parte significativa da população, medidas draconianas em nome da segurança tiraram nossa liberdade e relativizaram nossa propriedade.
Alguns poderiam argumentar que tanto a esquerda quanto os conservadores possuem tendências populistas. Sem dúvida. No entanto, a esquerda é muito mais nefasta aos princípios que nos são fundamentais: vida, liberdade e propriedade. Quando analisamos tema por tema, especialmente no que diz respeito à propriedade privada, a esquerda produziu resultados piores do que os conservadores – e isso está muito claro nesses últimos anos.
Mantendo o olho na bola
De todo modo, o foco não deve estar em políticos nem em partidos. Não devemos ser escravos mentais de um político. Não temos político de estimação nem partido de estimação. Nós temos a nossa doutrina de pensamento, as nossas ideias.
Quando se trata do ataque, nós devemos manter sempre o olho na bola. A medida está indo na nossa direção? Ela avança a vida, a liberdade e a propriedade, ou não? Se avança, devemos apoiar. Se não avança, devemos rejeitar e criticar.
Se quisermos vencer, precisamos nos preparar desde já para quando tivermos a oportunidade. E isso está muito mais próximo do que parecia há uma ou duas décadas.
Para isso, porém, é preciso manter nossa independência. O fusionismo não funciona. Alguns até podem argumentar: “Se os conservadores são menos prejudiciais em determinados aspectos, não deveríamos nos aliar a eles?”. E a resposta é um sonoro não. Cada assunto deve ser analisado separadamente. Devemos manter o olho na bola: se a medida avança a liberdade, apoie-a. Isso não significa uma aliança. Significa apenas que, naquele tema, houve uma coincidência de posições.
Então, como lidar com esses populismos? A resposta é simples: rejeite qualquer forma de populismo e qualquer intervenção governamental na sociedade ou nos mercados. Defenda sempre o livre mercado, as trocas voluntárias e a propriedade privada.
Mantenha o foco nesses princípios. Não tire os olhos deles. Em alguns momentos, seremos criticados pela esquerda; em outros, pelos conservadores. É assim que deve ser. Se isso estiver acontecendo, provavelmente estamos no lugar certo. Se recebemos críticas apenas de um lado, talvez valha a pena reexaminar nossas posições.
Em caso de dúvida, retorne aos princípios. Em um tema específico, pergunte-se: isso está ampliando a liberdade ou restringindo-a? Está respeitando a propriedade privada ou violando-a? É tão simples quanto isso.
O que devemos fazer então?
Em primeiro lugar, devemos estudar ideias e manter esses princípios sempre em mente. Mas também é preciso sair da torre de marfim e discutir os problemas concretos que afligem os brasileiros. Nós temos nossa plataforma, e precisamos exercitá-la. Precisamos mostrar, na prática, por que as intervenções do governo tendem ao fracasso. Mostrar que elas deram errado, dão errado e continuarão dando errado. Mais do que isso, precisamos mostrar que a coerção estatal é nefasta. É por isso que devemos defender a liberdade. A agressão à vida, propriedade e liberdade iniciada contra pessoas pacíficas, seja por indivíduos ou pelo governo, é errada. Esse deve ser o nosso foco permanente.
Helio apresentou sua analogia na Conferência de Escola Austríaca de 2017, na cidade de São Paulo. Ele também a utilizou na edição de 2022 do LibertyOpen, em Aracaju.