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A preocupante influência do mundo árabe no futebol

Nota da edição:

Este artigo integra o e-book especial do Instituto Mises Brasil para a Copa do Mundo de 2026, que pode ser acessado aqui.


Ao longo dos últimos vinte anos, o mundo do futebol assistiu à crescente influência árabe em seus bastidores. Grandes clubes europeus foram comprados por governos da península arábica, craques no auge da carreira foram seduzidos por salários astronômicos para atuar em campeonatos do Golfo e a relação da Fifa com os árabes nunca esteve tão promíscua. Diversos eventos da entidade foram sediados nos Emirados Árabes e no Catar e, mais recentemente, a Arábia Saudita tem pleiteado um espaço cada vez maior dentro do futebol mundial.

Essa crescente influência faz parte de uma estratégia de marketing desenvolvida pelos países do Golfo. Os governos dos Emirados Árabes Unidos, do Catar e da Arábia Saudita — todos tiranias que mantêm um controle rígido sobre suas populações — enxergaram no esporte mais popular do planeta uma ferramenta barata e eficiente para lavar suas imagens em relação ao público ocidental. O futebol virou uma fachada para esses regimes. Além do problema moral, a influência desses estados também distorce completamente a lógica do mercado esportivo, criando cenários artificiais onde seus clubes são mais ricos e conseguem manter a dominância esportiva. Ao mesmo tempo, sua influência política e financeira garante um favorecimento político dentro da FIFA, em detrimento de locais onde o futebol possui uma paixão mais enraizada.

A imagem árabe

Há cerca de cem anos, grande parte da península arábica não passava de um deserto com alguns pontos de importância espiritual para o islã. Tudo mudou quando se descobriu que algumas das maiores reservas de petróleo do planeta jaziam sob aquela areia.

Em 1974, veio o acordo do petrodólar, onde o petróleo árabe passou a ser negociado exclusivamente em dólares e vinculou os interesses americanos aos do regime saudita. Isso, na prática, garantiu, ainda que informalmente, que os Estados Unidos sempre viriam em sua defesa. Foi essa aliança que consolidou a relação dos sauditas com o Ocidente como inabalável, mesmo diante dos atos mais brutais cometidos por Riade. Seus vizinhos, o Catar e os Emirados Árabes Unidos, historicamente orbitam a mesma esfera de influência, embora o Catar tenha tentado traçar um rumo mais independente na última década.

Com uma enorme receita advinda do petróleo, esses países criaram fundos soberanos com o objetivo de diversificar seus investimentos e blindar suas economias. Esses investimentos também trouxeram uma imagem de riqueza e modernidade, algo que veio a ser útil para a projeção internacional desses países e, por consequência, para preservar sua relação com o Ocidente.

Foram desenvolvidas cidades futurísticas e arranha-céus colossais. Doha, Dubai e Abu Dhabi se promoveram para o mundo como destinos de turismo de luxo. O Catar e os Emirados investiram em companhias aéreas modernas, e o Catar é dono da Al Jazeera, um conglomerado de mídia que se apresenta como neutro e respeitável (mesmo que, na prática, seja uma gigantesca máquina de propaganda catari). E, acima de tudo, vieram os investimentos no esporte.

Há cerca de vinte anos, o Catar e os Emirados começaram a investir pesadamente no futebol. Os Emirados compraram o Manchester City em 2008, e o Catar adquiriu o PSG em 2011. Ambos passaram a sediar Mundiais de Clubes da FIFA, e o Catar ainda sediou a Copa do Mundo de 2022. A Arábia Saudita entrou na disputa um pouco mais tarde, comprando o Newcastle em 2021, investindo rios de dinheiro em seu campeonato nacional, sediando uma edição recente da Copa do Mundo de Clubes e garantido como sede da Copa do Mundo de 2034. O futebol, no entanto, não foi o único esporte com esse fluxo de gastos governamentais. Os sauditas exercem grande influência no golfe, e os países sediam corridas anuais da Fórmula 1.

O problema é que grande parte do mundo continua a vê-los pelo que ainda são: regimes islâmicos autocráticos. E a Arábia Saudita parece ser o pior de todos. O país foi fundado por Ibn Saud com base no wahabismo, uma vertente mais radical, puritana e fundamentalista do islamismo sunita, que o reino vem tentando exportar para o mundo há décadas.

Graças ao acordo do petrodólar, o governo saudita ainda desfruta do apoio quase incondicional de Washington — apoio que inclui até mesmo ajuda dos EUA para financiar a guerra no Iêmen. Mesmo com o governo saudita tendo financiado os mujahideen e o Talibã, e com figuras sauditas de alto escalão possivelmente tendo ligações com a Al Qaeda e o Talibã. Há também evidências de que membros seniores de seu serviço de inteligência tinham conhecimento prévio dos ataques de 11 de setembro. Mesmo assim, a Arábia Saudita não perdeu seu status de aliado.

É verdade que o regime apresenta sinais de suavização em suas políticas mais fundamentalistas. O atual monarca tenta se apresentar como um déspota esclarecido, jovem e reformista. Mas a Arábia Saudita continua sendo um estado policial, com um poder político extremamente centralizado. O país também se encontra em uma Guerra Fria com o Irã e participa ativamente dos massacres no Iêmen (embora os houthis, do outro lado, sejam igualmente problemáticos).

O Catar e os Emirados, embora mais tolerantes, não são diferentes em sua essência. Continuam sendo estados policiais, com pesadas restrições à liberdade individual, e os Emirados Árabes também vêm auxiliando os sauditas no Iêmen, com ambos os regimes prendendo — e torturando — dissidentes políticos.

Todos esses países enfrentam acusações de condições de trabalho análogas à escravidão – o Catar, em específico, teve muitos problemas com isso na construção de sua infraestrutura para a Copa de 2022. Imigrantes são atraídos para construir suas estruturas megalomaníacas e, uma vez lá, seus passaportes são frequentemente retidos (mesmo que a prática de reter passaportes seja ilegal). 

Esses países possuem um grande histórico problemático com a escravidão. Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes aboliram oficialmente a escravidão apenas em 1952, 1962 e 1963, respectivamente. E isso só ocorreu devido a muita pressão ocidental.

A península arábica moderna apresenta um contraste incrível. Por um lado, tentam se apresentar como nações modernas, prósperas e cosmopolitas, mas suas reais naturezas são de autocracias fundamentalistas.

Mesmo com essa tentativa de se apresentar de maneira positiva, esses governos ainda precisam gastar milhões em lobby em Washington, para garantir o perpétuo apoio militar, financeiro e em armamentos vindo do governo americano.

O futebol, no fim das contas, é apenas mais uma ferramenta que esses regimes usam para limpar suas imagens.

Os clubes de futebol estatais

Os investimentos mais notáveis desses fundos soberanos no futebol vieram dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, que, como mencionado anteriormente, adquiriram o Manchester City e o PSG, respectivamente. A Arábia Saudita, como mencionado anteriormente, entrou na disputa mais tarde, adquirindo o Newcastle apenas em 2021. Mais recentemente, o Bahrein também começou a se aventurar nessa arena.

Após a compra, tanto PSG quanto Manchester City passaram a dominar suas ligas nacionais. No caso do PSG, a façanha foi relativamente mais simples, já que o futebol francês nunca foi exatamente um modelo de competitividade. Mas o domínio que o Manchester City impôs na Inglaterra expõe o quanto o investimento estatal pode ser prejudicial a um campeonato.

Como um bom defensor do capitalismo, sempre fui a favor de que os clubes de futebol tenham proprietários. Mas, igualmente, como um amante da tradição do futebol, me incomoda profundamente quando os governos entram nessa equação e distorcem completamente o mercado.

O objetivo de uma liga é oferecer um espetáculo que entretenha o consumidor e, ao fazer isso, gere receita. E, na maioria das vezes, isso requer um certo equilíbrio competitivo, já que a previsibilidade de sempre ter a mesma equipe vencendo é prejudicial para manter uma audiência engajada. Foi com isso em mente que ligas criaram mecanismos perfeitamente válidos como o fair play financeiro, o qual permite que os clubes gastem apenas na proporção de sua receita. A regra tem dois objetivos: impedir que injeções artificiais de dinheiro destruam o equilíbrio entre os clubes e, mais importante, evitar que eles venham à falência por gastar, no curto prazo, mais do que podem sustentar.

Mesmo assim, tanto City quanto PSG foram alvo de investigações sobre o cumprimento dessas regras na última década. O PSG já foi punido pela UEFA em mais de uma ocasião, enquanto o Manchester City também já foi punido pela UEFA e agora espera o veredicto de uma enorme investigação, conduzida desta vez pela Premier League. A punição de ambos na UEFA acabou ficando barata, uma vez que muitas das acusações foram descartadas por tecnicalidades. Nos resta ver como será o resultado da investigação do campeonato inglês.

Independentemente do fair play financeiro, no entanto, há algo fundamentalmente problemático em um governo ser dono de um clube. Todos os outros times ficam automaticamente em desvantagem porque operam sob restrições financeiras naturais, assim como qualquer empresa. Quando o dono é um estado, essas limitações simplesmente deixam de existir, já que um governo sempre pode recorrer ao pagador de impostos para bancar seus gastos. Manchester City e PSG, ao contrário de seus rivais, que possuem donos privados, nunca terão que passar por um período de austeridade, não possuindo riscos de prejuízo e, assim, operando fora de uma lógica de cálculo econômico.

Além do meu lado romântico, que se incomoda com arranjos que distorcem o mercado em favor de alguns clubes, há também o problema moral. Dado o histórico desses governos, conforme descrito na seção anterior, é realmente aceitável que eles entrem em cena e comprem clubes tradicionais, com seu histórico de tirania?

Ao permitir que governos sejam donos de clubes, as ligas estão não apenas degradando seu próprio produto, mas também ajudando tiranias a limpar suas imagens.

As copas de 2022, 2030 e 2034

Como já mencionado, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes mantêm uma relação promíscua com a FIFA, e diversas edições do Mundial de Clubes já foram disputadas naquelas terras. O problema mais grave, porém, está nas Copas do Mundo e nas insanidades que a FIFA cria para agradar esses governos.

Em 2010, de forma suspeita, o Catar desbancou as candidaturas de Estados Unidos, Austrália, Japão e Coreia do Sul para sediar, sozinho, a Copa do Mundo de 2022. Um país pequeno, sem qualquer tradição no esporte e com apenas uma única cidade grande, não era uma escolha lógica para sediar um evento desse porte — ainda por cima, o calor do deserto obrigou a FIFA a alterar a data da Copa para o fim do ano. Não por acaso, dos 22 executivos que participaram daquela votação, mais da metade acabou sendo acusada, indiciada ou banida por corrupção. 

Para piorar, como já mencionado, o país acumulou denúncias de condições de trabalho similares à escravidão, com as práticas, habituais na região, de confisco de passaportes e com trabalhadores já chegando endividados por taxas de recrutamento e ficando presos ao empregador. Em fevereiro de 2021, o jornal The Guardian apontou que mais de 6.500 trabalhadores migrantes haviam morrido no Catar desde a escolha em 2010. Vale ressaltar: esse número não se refere apenas às obras dos estádios, mas ao total de mortes de trabalhadores no país, por todas as causas, ao longo de uma década. 

Mesmo diante de tamanho pesadelo de relações públicas, a FIFA comprometeu-se a voltar ao Oriente Médio em 2034. Para isso, ela precisou sacrificar a Copa de 2030, onde a entidade criou uma verdadeira zorra organizacional, distribuindo as sedes por seis países e três continentes.

A edição de 2030 marcará os cem anos da primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai em 1930. Pensando nisso, o Uruguai se juntou às federações de Argentina, Paraguai e Chile para lançar uma candidatura sul-americana. A ideia, no entanto, desagradou à Europa, que fez forte lobby para não ficar um longo período de tempo sem uma Copa no continente. Surgiu então a solução de acrescentar Marrocos à candidatura de Portugal e Espanha, fazendo com que a federação africana votasse em bloco, ao lado da europeia.

Isso, por si só, já é uma bizarrice — ainda que compreensível, sobretudo por se tratar de países geograficamente próximos. O maior problema surgiu quando a FIFA decidiu conceder à Argentina, ao Uruguai e ao Paraguai uma partida cada, a título de comemoração do centenário, e assim agradar a Conmebol sob o argumento de que a América do Sul “também seria sede”. Com isso, ficou livre para colocar a Copa de 2034 onde bem entendesse.

Assim, a Arábia Saudita eliminou a concorrência e poderá sediar sozinha a Copa de 2034, já que, ao distribuir a Copa de 2030 por três continentes, a FIFA fez com que apenas as federações da Ásia e da Oceania pudessem se candidatar para 2034, concedendo-lhes menos de quatro semanas para isso. A Austrália, única adversária realista, desistiu, e a Arábia Saudita acabou sendo a única candidata. 

Conclusão

As participações dos governos árabes no futebol distorcem o mercado de uma forma que aos poucos destrói os principais campeonatos, atacando aspectos essenciais da alma do jogo. Mas não são apenas eles que devem ser responsabilizados, já que qualquer participação governamental no esporte causa esse tipo de distorção, e isso poderá acontecer indefinidamente enquanto organizações futebolísticas aceitarem dinheiro de governos. Os árabes apenas são o principal exemplo do ponto ilustrado e também possuem o adendo de serem mais autocráticos do que o governo ocidental médio.

Mas, além do futebol, a relação promíscua com o mundo árabe é compartilhada pela própria liderança ocidental que, há mais de um século, já é aliada desses regimes e os protege, em troca de petróleo. É uma parceria que não beneficia ninguém, além de uma elite específica no Ocidente e nos países árabes.

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