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Minha trajetória intelectual em busca de uma ordem social além do estado e da política

Nota da edição:

Ainda em luto pelo falecimento do professor Antony Mueller, publicamos uma breve autobiografia intelectual escrita originalmente em 2023 para o livro Libertarian Autobiographies: Moving Toward Freedom in Today’s World, na qual revisita sua trajetória acadêmica, seu encontro com a Escola Austríaca e o caminho intelectual que o levou ao libertarianismo.


Eu nasci em 1948 e fui criado no norte da Baviera, bem perto da fronteira com a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia. Ninguém, durante aquele período da Guerra Fria, podia descartar a possibilidade de que uma invasão das tropas do Pacto de Varsóvia começasse da hora para a outra a partindo daquele território. A União Soviética estava expandindo seu poderio nuclear em uma corrida armamentista com os Estados Unidos. Todos nós estávamos bem cientes de que, a qualquer momento, o conflito poderia se transformar em uma guerra que aniquilaria grande parte do mundo, tendo a Europa como seu centro de destruição.

No entanto, durante a minha juventude, esses territórios a leste da fronteira da Alemanha Ocidental não tinham grande importância para mim, pessoalmente. Eles eram praticamente inexistentes, e eu não sentia qualquer vontade de visitar nenhum deles. Meu foco estava no Ocidente, e minhas primeiras viagens ao exterior, a partir dos 16 anos, me levaram a todas as Ilhas Britânicas, França, Espanha e Escandinávia. Também fiz uma viagem pela Iugoslávia e pela Bulgária, mas apenas com o objetivo de visitar a Grécia e a Turquia. Tive a sorte de estar em Londres durante o “verão do amor” de 1967.

No início da minha trajetória como estudante na Universidade de Erlangen-Nuremberg (FAU-EN), em Erlangen, Alemanha, no final da década de 1960 e início da década de 1970, havia muitos grupos estudantis radicais que afirmavam representar a “rebelião estudantil” por meio de algum tipo de “socialismo”, “marxismo” ou “maoísmo”. Eles lutavam principalmente uns contra os outros, mais do que contra seu suposto inimigo comum, ao qual, devido à falta de uma definição mais precisa, chamavam simplesmente de “establishment”. De fato, o rótulo “socialista” era às vezes usado como forma de se distinguir da “visão do establishment” convencional. Como tal, o movimento estudantil também tinha um toque rebelde e anarquista. Aquela foi uma época anterior ao “ativismo”, que surgiu mais tarde — na forma horrível do terrorismo, como o praticado pela “Fração do Exército Vermelho”. Um tema em alta era a Guerra do Vietnã, é claro, sob diferentes ângulos ideológicos.

Embora nunca tenha me filiado a nenhum desses grupos, participei de suas discussões. Durante um “Oficina de Formação Marxista” oferecida pela “Associação Universitária Socialista”, surgiu o tema da “Escola Austríaca” e me ofereci para preparar um relatório sobre “O Conceito de Valor na Escola Austríaca de Economia”. Sem saber, mergulhei direto no cerne da questão — a diferença decisiva não apenas entre todas as variantes dos movimentos socialistas, mas, de modo geral, entre todos os tipos de estatismo, de um lado, e o movimento em direção à liberdade que comecei a associar à Escola Austríaca, do outro. A avaliação subjetiva versus algum tipo de avaliação objetiva imposta me atraiu para os austríacos desde o início. Assim, tornei-me um austríaco ao participar de um workshop marxista! As bases estavam lançadas e, sem saber que esse conceito existia, eu também havia me tornado um libertário. A percepção de Carl Menger sobre a natureza subjetiva dos valores e o individualismo que a acompanha tornou-se fundamental para minhas visões políticas.

Embora eu tenha estudado a literatura socialista clássica, meus autores favoritos eram os liberais clássicos e os anarquistas individualistas. No entanto, eu ainda simpatizava com algumas das posições de esquerda que eram tão populares entre os estudantes, mas que sempre se revelavam superficiais. Minha adesão ao capitalismo de livre mercado veio mais tarde, como resultado de meus estudos de economia. Na época em que entrei na universidade, ainda era possível escolher várias áreas de especialização e me matriculei em economia e direito como disciplinas principais, e ciência política, filosofia e línguas estrangeiras como disciplinas secundárias. Na verdade, a forma de estudar durante esse período ainda era semelhante à forma como a universidade era organizada na época de Mises e Hayek. Escolhia-se certos professores mais do que disciplinas específicas e, além de algumas áreas centrais, era possível criar seu próprio conjunto de estudos. Apenas a prova final importava.

Em preparação para uma tese de mestrado sobre a teoria da escolha pública, passei um curto período em 1978 no Centro de Estudos da Escolha Pública, na época ainda localizado em Blacksburg, Virgínia, onde conheci James M. Buchanan e Gordon Tullock e participei de suas aulas. Em retrospecto, diria que meu estudo da Escolha Pública despertou novamente meu interesse pela economia austríaca. Assim, quando comecei a lecionar economia convencional na universidade e mesmo ao utilizar modelos macroeconômicos, sempre procurei integrar a perspectiva do individualismo metodológico.

Tive a sorte de que o departamento onde comecei a lecionar como professor substituto, no Campus de Erlangen da Universidade de Erlangen-Nuremberg (FAUEN), era um dos mais antigos departamentos de economia da Alemanha. O instituto ainda mantinha em seu nome a tradicional designação de “Staatswissenschaft” (“ciência do estado”) para a economia. Meu verdadeiro tesouro era a biblioteca do instituto, repleta dos clássicos da Escola Austríaca. Naquela época, no final da década de 1970, enquanto preparava minha tese de doutorado e trabalhava como professor assistente, li quase todas as principais obras da Escola Austríaca em suas edições originais. Eu sempre tinha uma pilha desses livros antigos do final do século XIX e do início do século XX em minha mesa — para o espanto de meus colegas e alunos.

O instituto onde iniciei minha carreira acadêmica era especializado em política social, e minhas contribuições, sob a perspectiva da Escola Austríaca, foram de fato bem recebidas como fonte de contra-argumentos contra a expansão do estado de bem-estar social, que estava em plena ascensão na Alemanha Ocidental dos anos 1970. No entanto, isso mudou rapidamente, e tornou-se cada vez mais difícil manifestar-se contra a expansão do estado. Ao mesmo tempo em que o estado social-democrata iniciava seu domínio político e ideológico, tornei-me um libertário declarado, embora ainda não tivesse consciência de que esse conceito existisse. Em vez de ver o estado como uma solução, comecei a perceber que o próprio governo é o problema.

Os livros Anarquia, Estado e Utopia, de Robert Nozick, e Concorrência e Empreendedorismo, de Israel Kirzner, ambos já publicados em alemão, ajudaram a definir com maior clareza meu posicionamento intelectual. Infelizmente, o livro Defendendo o Indefensável, de Walter Block, não estava disponível em alemão e eu não o conhecia. Quando o li muito mais tarde, eu já era um libertário tão convicto que pude concordar com ele.

Estudei a economia dos austríacos como um antídoto contra o estado de bem-estar social. Numa época em que havia um consenso quase total de que a política social era algo positivo e que sua expansão constituía a grande missão do estado moderno, tornei-me cada vez mais seu opositor e, consequentemente, fui ficando cada vez mais isolado. Mesmo que tivesse desejado fazê-lo, não teria conseguido refutar os argumentos a favor do livre mercado e do estado mínimo que aprendi ao estudar as obras de Carl Menger, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Eugen von Böhm-Bawerk e muitos outros, incluindo vários dos austríacos menos conhecidos.

Em minha tese de doutorado, abordei a questão do orçamento público como instrumento de política social. Esse trabalho está repleto de citações da Escola Austríaca. Ao analisar a Economia Social, que tratava essencialmente de problemas de redistribuição e seguridade social, comparei as ideias dos austríacos com outras abordagens, particularmente as concepções de política social da Escola Histórica Alemã, mas também com aspectos desenvolvidos por Vilfredo Pareto e Joseph Schumpeter e por alguns economistas contemporâneos da área de finanças públicas.

Na Alemanha, naquela época, o processo para se tornar professor exigia não apenas uma tese de doutorado, mas também uma extensa tese de pós-doutorado. Imaginei que uma área adicional de especialização, como economia internacional, seria útil e, assim, no início da década de 1980, comecei meus estudos em finanças internacionais. Realizei estudos empíricos sobre a crise da dívida externa e, mesmo aqui, pude utilizar alguns aspectos da abordagem austríaca que constituiu a base do meu modelo de classificação. Com minha pesquisa sobre a crise da dívida internacional, surgiu a próxima percepção sobre os males do intervencionismo estatal, desta vez em questões monetárias.

O outro grande tema que surgiu foi a preparação do Mercado Único Europeu e o lançamento da União Monetária Europeia. Tratava-se, naturalmente, de áreas multidisciplinares e, como as universidades foram oficialmente incentivadas a oferecer cursos para estudantes de todas as disciplinas sobre as questões da integração europeia, realizei seminários e fiz apresentações nessa área durante muitos anos. Embora inicialmente entusiasmado com a integração europeia, tornei-me cético à medida que fui aprendendo mais sobre o assunto.

No entanto, minha especialização em finanças internacionais e integração econômica e monetária europeia revelou-se muito útil para conseguir uma bolsa Fulbright para os Estados Unidos e, posteriormente, uma bolsa para o Brasil concedida pelo Programa de Intercâmbio Acadêmico Alemão-Brasileiro. A ampliação do meu campo de atuação também contribuiu para alargar meus horizontes e, no âmbito do trabalho de consultoria, visitei muitas partes do mundo, especialmente países em desenvolvimento. Realizei uma série de estudos de caso sobre o crescimento da Comunidade Europeia para o sul e avaliei a situação da dívida externa de vários países em desenvolvimento.

Embora o domínio do keynesianismo já tivesse sido quebrado pela contrarrevolução monetarista, mesmo na década de 1990 ainda não se ouvia falar muito da Escola Austríaca no meu meio acadêmico, e eu sentia que era o único austro-libertário. Não via nenhuma chance de publicar nessa área e, por isso, não realizei pesquisas sistemáticas a partir dessa perspectiva.

À medida que fui ficando cada vez mais cético em relação à integração europeia — uma área da minha pesquisa e do meu ensino naquela época —, a crise da dívida internacional também deixou de ser um tema tão em voga. Meus interesses começaram a se afastar de estudos acadêmicos específicos e a se voltar para a especulação financeira. Naquela época, dediquei-me cada vez menos ao trabalho acadêmico em favor da especulação financeira, especialmente com moedas. Na segunda metade da década de 1990, entrei em um período de muito baixa satisfação profissional.

Quando recebi, em 1999, uma proposta para passar alguns anos como professor visitante no Brasil, eu estava pronto para aproveitar a oportunidade. Eu tinha planejado me aposentar depois disso. No entanto, a mudança para o Brasil marcou uma nova era na minha vida. Foi somente depois que cheguei ao Brasil que comecei a escrever explicitamente a partir de uma perspectiva austríaca, e esses estudos me levaram a descobrir o Mises Institute em Auburn, Alabama — simplesmente por meio de pesquisas na Internet. Desde 2000, tenho participado frequentemente das conferências anuais do instituto, passando assim a conhecer muitos de seus estudiosos e fazendo muitas amizades. Desde então, também tenho contribuído regularmente com artigos para o site do Mises Institute.

O próximo grande passo para me tornar um libertário de pleno direito foi a fundação do Instituto Mises Brasil, em 2007. Participei de sua formação como seu primeiro diretor acadêmico e tenho contribuído regularmente para sua plataforma escrevendo artigos e trabalhos acadêmicos, palestrando em suas principais conferências e lecionando em seu programa de pós-graduação. Desde sua fundação, o Instituto Mises Brasil (IMB) tem experimentado um enorme crescimento. Possui uma revista acadêmica de renome com edições especiais e a Mises Academy como seu think tank. O impacto dessa instituição na vida intelectual e política brasileira é de proporções históricas.

Minha estadia no Brasil foi interrompida por duas visitas à Universidade Francisco Marroquin (UFM), na Guatemala. Lá, proferi uma série de palestras em 2004 e ministrei um curso sobre Economia Austríaca em 2006. Continuei minha colaboração com a UFM em seus cursos on-line, incluindo a expansão desses cursos para a Espanha e o Brasil.

Para minha alegria, foi criado em 2012 um Instituto Mises na Alemanha, que começou a prosperar. Desde 2014, tenho colaborado regularmente como autor. Em 2019, fui palestrante na conferência anual do instituto, realizada em Munique. Cada voz conta, e é ótimo constatar que tenho mais repercussão do que esperava.

Em retrospecto, pode-se dizer que sou libertário desde a minha juventude, embora na época não tivesse consciência desse conceito. Meu primeiro contato com a Economia Austríaca, em um seminário marxista organizado pela Associação de Estudantes Socialistas, fez de mim um adepto da escola austríaca, e o estudo aprofundado da Teoria da Escolha Pública levou-me a tornar-me um economista austríaco de convicção. Após um desvio pelas áreas de finanças internacionais e integração europeia, devido a exigências profissionais, meu caminho acabou por me conduzir ao anarcocapitalismo. Como uma espécie de resumo da minha jornada intelectual, publiquei um livro abrangente em alemão em setembro de 2021 e espero ter uma versão em inglês pronta para ser publicada sob o título Capitalismo, Socialismo e Anarquia. Rumo a uma Ordem Social além do Estado e da Política.

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