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O declínio inevitável da moeda fiduciária dos países desenvolvidos

Os governos presumem que podem imprimir moeda à vontade e que ela continuará sendo aceita pela força. No entanto, a história das moedas fiduciárias é sempre a mesma: primeiro, os governos ultrapassam seus limites de crédito; depois, ignoram todos os sinais de alerta; e, por fim, assistem ao colapso da moeda.

Hoje, estamos vivendo, em tempo real, o declínio das moedas fiduciárias das economias desenvolvidas. O sistema global de reservas está, lenta mas decisivamente, se afastando de uma âncora puramente fiduciária e caminhando para um regime misto no qual o ouro desempenha o papel dominante, e não as moedas fiduciárias.

Os dados do COFER, do FMI, mostram que, embora o dólar americano ainda domine, sua participação nas reservas declaradas caiu para a faixa dos 50%. Pela primeira vez em quarenta anos, o ouro ultrapassou o dólar americano e o euro como principal ativo mantido pelos bancos centrais.

Há uma razão para essa mudança histórica. As economias desenvolvidas ultrapassaram todos os seus limites de endividamento.

A dívida pública é emissão monetária, e a credibilidade das nações desenvolvidas como emissoras está desaparecendo rapidamente. Isso começou quando o Banco Central Europeu (BCE), o Fed e os principais bancos centrais globais passaram a registrar grandes prejuízos. Sua base de ativos estava gerando retornos negativos à medida que os problemas de inflação e solvência se tornavam evidentes. Economistas do mainstream e governos trataram essas perdas como irrelevantes, mas elas demonstravam o risco extremo associado às compras de ativos realizadas nos anos anteriores.

A inflação é uma forma de calote gradual de facto sobre as obrigações emitidas, e os bancos centrais globais estão evitando a dívida das nações desenvolvidas porque enxergam uma deterioração das perspectivas fiscais e inflacionárias. A dívida soberana já não é mais um ativo de reserva.

A dívida pública global atingiu cerca de 102 trilhões de dólares, um novo recorde histórico, muito acima dos níveis anteriores à pandemia e próximo dos picos alcançados durante a fase mais agressiva de expansão monetária. A dívida soberana impulsionou essa alta fenomenal, com países como França e Estados Unidos registrando enormes déficits anuais mesmo em períodos sem crise. A chamada Bidenomics durante o governo de Joe Biden, nos Estados Unidos, foi a evidência mais clara de imprudência fiscal, com déficits recordes e um aumento de gastos superior a dois trilhões de dólares em um período de forte recuperação econômica.

Como ocorreu essa perda de confiança? Nações monetariamente soberanas não possuem capacidade ilimitada de emitir moeda e dívida. Existem limites claros que, quando ultrapassados, geram uma perda imediata de confiança global. As economias desenvolvidas romperam esses três limites, especialmente desde 2021:

O limite econômico é alcançado quando níveis cada vez maiores de endividamento passam a gerar uma redução no crescimento marginal. Os gastos do governo inflaram o PIB, mas a produtividade estagnou, e os salários reais líquidos estão parados ou em queda.

O limite fiscal surge quando os gastos com juros e programas de benefícios sociais deslocam investimentos produtivos. Apesar da repressão financeira, dos juros baixos e dos estímulos monetários, as despesas com juros estão consumindo parcelas cada vez maiores dos orçamentos das nações desenvolvidas, tornando mais caro financiar as obrigações do governo, mesmo com a desaceleração do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) anualizado.

O limite inflacionário é alcançado quando o financiamento monetário recorrente dos gastos do governo corrói a confiança no poder de compra da moeda fiduciária, enquanto a inflação acumulada supera o crescimento dos salários reais, criando uma crise de custo de vida na economia.

A recente combinação de elevada dívida nominal, aumento das despesas com juros e déficits fiscais estruturais nas principais economias avançadas comprova que todos esses limites foram ultrapassados.

Os bancos centrais entendem o funcionamento da moeda fiduciária e sabem que a dívida soberana já não é mais o ativo seguro capaz de proporcionar estabilidade e retornos econômicos reais. Por isso, responderam com uma onda sem precedentes de compras de ouro. As compras líquidas oficiais ultrapassaram 1.100 toneladas em 2022 e permaneceram acima de 1.000 toneladas tanto em 2023 quanto em 2024, mais do que o dobro da média anual registrada entre 2010 e 2021. Em 2024, os bancos centrais compraram oficialmente 1.045 toneladas de ouro, marcando o terceiro ano consecutivo acima do nível de 1.000 toneladas e estendendo para quinze anos consecutivos a sequência de acréscimos líquidos às reservas. No entanto, estima-se que as compras não oficiais sejam significativamente maiores. Pesquisas mostram que cerca de um terço dos bancos centrais globais planeja aumentar suas reservas de ouro nos próximos anos, e mais de quatro quintos esperam que as reservas oficiais globais de ouro continuem crescendo devido às preocupações com inflação persistente, estabilidade financeira e problemas de solvência.

A demanda recorde por ouro é uma resposta direta à falta de confiança na sustentabilidade dos passivos fiduciários emitidos por estados excessivamente endividados. O ouro não possui risco de inadimplência nem está sob controle de bancos centrais, o que o torna um investimento adequado quando os próprios bancos centrais duvidam da credibilidade de longo prazo das moedas das grandes nações.

Muitos gestores de reservas acreditam que a forma como os governos expandem agressivamente a oferta monetária durante crises, combinada com retornos apenas lentos às políticas de períodos “normais”, significa que inflação e controle financeiro agora se tornaram partes permanentes do sistema, e não apenas medidas temporárias. Assim, a compra de reservas de ouro funciona como uma apólice de seguro contra a tributação gradual dos poupadores por meio de rendimentos reais negativos e inflação.

Esse cenário não significa um colapso iminente do dólar americano nem um processo de desdolarização, mas sim uma perda inequívoca de confiança nas moedas fiduciárias como um todo, do euro e da libra ao iene e ao dólar americano. De fato, o dólar americano continua sendo a principal moeda fiduciária, respondendo por 89% das transações globais e por 57% das reservas mundiais. Mas ele lidera um império decadente de dinheiro artificial.

Investidores e bancos centrais estão migrando para uma ordem híbrida de reservas, na qual moedas fiduciárias coexistem com uma alocação estruturalmente maior em ouro e também com o uso crescente de criptomoedas descentralizadas.

Alguns bancos centrais estão em pânico. O BCE pretende impor o uso do euro por meio da implementação de uma moeda digital de banco central, mas essa abordagem equivocada reflete tanto desespero quanto desejo de controle.

Nenhum governo das economias avançadas quer cortar gastos, talvez com a exceção da atual administração americana [Nota da edição: o artigo foi publicado no início de 2025, quando o governo Trump ainda sinalizava alguma preocupação com a responsabilidade fiscal e com o corte de gastos], que o faz modestamente, apesar das evidências que apontam para uma perda de confiança em sua solvência. Com economias enfrentando relações dívida/PIB acima de 100%, déficits primários persistentes e resistência política a cortes sérios de gastos, os emissores de moedas fiduciárias provavelmente continuarão presos além dos limites econômicos, fiscais e inflacionários.

Estamos vivendo uma transformação monetária histórica que terá implicações de longo prazo. Os bancos centrais globais deixaram de acreditar em promessas de papel e passaram a demandar moeda forte. O primeiro país a adotar moeda forte e políticas fiscais sólidas vencerá. Os demais perderão.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute

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