Publicado em 1945 na American Economic Review, o artigo “The Use of Knowledge in Society”, de Friedrich August von Hayek, tornou-se um dos textos mais influentes da teoria econômica do século XX. Escrito no contexto do pós-guerra — quando o planejamento central ganhava prestígio como alternativa ao mercado —, o artigo oferece uma crítica seminal, poderosa e duradoura à ideia de que uma economia pode ser eficientemente coordenada por uma autoridade central.
Nos anos 1930 e 1940, economistas como Oskar Lange defendiam que o planejamento socialista poderia replicar a eficiência do mercado por meio de simulações de preços. Hayek responde mostrando que o problema não é apenas computacional, mas informacional. Não se trata de resolver equações com dados — trata-se de acessar informações que simplesmente não estão disponíveis de forma centralizada.
Esse argumento influenciou profundamente o debate sobre o cálculo econômico e ajudou a redefinir o papel dos mercados em economias modernas.
Hayek parte de uma pergunta simples, mas profunda: como uma sociedade utiliza o conhecimento disponível entre milhões de indivíduos? Sua resposta rompe com a visão dominante à época. O conhecimento relevante para decisões econômicas — preferências, custos locais, condições específicas de tempo e lugar — não está concentrado em uma única mente ou instituição. Ele é disperso, fragmentado e frequentemente tácito. Essa constatação tem implicações decisivas. Se o conhecimento está espalhado e disperso, então nenhum planejador central pode agregá-lo plenamente. O problema econômico fundamental deixa de ser apenas a alocação de recursos escassos e passa a ser a coordenação desses conhecimentos dispersos.
A grande contribuição de Hayek neste artigo foi mostrar que o sistema de preços funciona como um mecanismo de comunicação barato e eficiente. Preços não são apenas números: são sinais que sintetizam informações complexas sobre escassez relativa, demanda e custos.
Quando o preço de um insumo sobe, por exemplo, isso indica escassez. Produtores, mesmo sem conhecer a causa exata, ajustam seu comportamento: economizam o insumo, buscam substitutos ou aumentam a oferta. Assim, decisões descentralizadas — baseadas em informação local — tornam-se coordenadas sem necessidade de comando central. Hayek descreve esse processo como uma forma de “ordem espontânea”: uma estrutura organizada que emerge das interações individuais, não de um desenho deliberado.
Décadas depois, a intuição de Hayek permanece atual. Em economias complexas e globalizadas, a informação continua sendo descentralizada. Plataformas digitais, cadeias globais de valor e mercados financeiros operam com base em sinais que agregam milhões de decisões individuais.
Além disso, o artigo oferece lições importantes para políticas públicas. Intervenções que ignoram sinais de preços — como controles artificiais ou subsídios mal calibrados — podem distorcer a coordenação econômica. Ao mesmo tempo, o texto não implica ausência de estado, mas sugere cautela: políticas devem respeitar os mecanismos de informação do mercado.
Na prática, aquela intuição de Hayek explica fenômenos contemporâneos. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, o preço das máscaras cirúrgicas disparou. Mesmo sem intervenção central, produtores em 50 países redirecionaram estoques, aumentaram produção e buscaram substitutos — tudo coordenado apenas pelo sinal do preço. Em contraste, controles de preços em estados como a Venezuela ou o Zimbábue geraram desabastecimento e mercados negros, exatamente como Hayek previu.
No mundo dos negócios, plataformas como Uber e Airbnb funcionam como “mercados hayekianos”: preços dinâmicos (surge pricing) sintetizam informações locais sobre oferta e demanda que nenhum algoritmo central poderia processar em tempo real.
Alguns podem objetar: com Big Data e inteligência artificial, não poderíamos finalmente centralizar aquele conhecimento disperso? Hayek responderia que o problema não é apenas tecnológico, mas ontológico. Grande parte do conhecimento relevante para a tomada de decisões é tácito, não articulado e específico do momento. Você não pode extrair de um banco de dados o que um consumidor sente e vê diante de uma prateleira ou de uma oferta ou a intuição de um fornecedor sobre um gargalo logístico ou uma oportunidade de lucro. Preços capturam isso em tempo real. IA pode ajudar a interpretar preços, mas não pode substituí-los sem reintroduzir os mesmos problemas de coordenação que Hayek havia identificado.
Por que todo economista deveria ler este artigo de Hayek publicado há mais de 80 anos? Porque o artigo ensina a pensar a economia como um sistema de informação. Ele amplia a compreensão além de modelos formais e mostra como instituições — especialmente o mercado — desempenham funções que vão além da simples troca.
Em síntese, Hayek nos lembra que economias não são máquinas a serem controladas, mas sistemas complexos a serem compreendidos. Essa é, talvez, a razão pela qual seu artigo continua sendo leitura obrigatória — ontem, hoje e, muito provavelmente, no futuro.