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Uma lição de economia nos filmes de John Wick: nem os assassinos confiam em moedas fiduciárias

O universo de John Wick é uma série de filmes de ação neo-noir criada por Derek Kolstad, centrada no personagem John Wick, um assassino de elite aposentado, interpretado por Keanu Reeves, que é forçado a voltar ao mundo do crime após tragédias pessoais. A história envolve um submundo de assassinos regido por regras estritas, com muita violência estilizada, coreografias de luta incríveis e um toque de mitologia. Essa série de filmes permite empreender uma análise econômico-monetária sob uma ótica libertária, observando como se estruturam as operações financeiras e as relações de troca entre um grupo seleto de agentes que compõem esse universo.

Contexto do escopo analisado

As bullion coins serão o elemento principal analisado no texto. Essas moedas de ouro que aparecem na franquia são todas do mesmo tipo: as “gold coins” usadas como moeda no submundo dos assassinos. Elas não variam em design ou composição ao longo dos filmes. Cada moeda é representada como contendo 1 onça troy de ouro puro (equivalente a aproximadamente 31,1 gramas). Essa informação sobre o peso vem de fontes como o site de réplicas de props, que detalha as especificações baseadas nos adereços usados nas filmagens, comparando-as a moedas reais como a US Gold Eagle, e de análises em sites como Hero Bullion, que presumem o peso com base no tamanho e na lore do universo.

A filosofia por trás das moedas

A filosofia por trás das moedas no universo de John Wick vai muito além do seu valor material em ouro. Segundo o diretor Chad Stahelski, a moeda não tem um valor nominal específico; ela simboliza “estar por dentro”. Os principais aspectos da filosofia das moedas são:

Ponto de entrada e acesso: a moeda funciona como um ingresso para a comunidade criminosa. Ela garante acesso a serviços essenciais como hospedagem no Continental Hotel, armas, ternos à prova de balas e serviços de limpeza de cadáveres.

Símbolo de pertencimento: ter uma moeda significa fazer parte de uma sociedade secreta com regras próprias. Quando se gasta a moeda, perde-se temporariamente o acesso a essa comunidade até adquirir outra.

A filosofia da igualdade no custo: a ideia de que um drinque custa a mesma moeda que uma noite de hotel ou armas reforça a noção de que o valor está no serviço de elite e na segurança proporcionados pela rede do Hotel, não no objeto físico em si.

Networth de John Wick

O preço de cada moeda de ouro da franquia John Wick (considerando 1 onça troy de ouro puro) é de US$ 5.196,68, baseado no preço spot do ouro em 10 de março de 2026. Considerando o montante pessoal estimado de John Wick sozinho (cerca de 556 moedas, conforme análises de cenas dos filmes), o valor total seria de US$ 2.889.354,08.

Porém, é necessário adicionar o preço de cunhagem em cada moeda (minting premium). Para uma moeda como a gold coin de John Wick (equivalente a uma American Gold Eagle de 1 oz), o preço é de 3% sobre o preço spot do ouro, ou seja, US$ 155,90 por moeda. Adicionando isso ao valor anterior, temos que o preço individual em dólares (spot + cunhagem) é US$ 5.352,58, enquanto o total em dólares para o montante de John Wick (556 moedas) é US$ 2.976.034,48.

O Hotel Continental (banco privado) em uma sociedade sem bancos centrais e dinheiro fiat

Baseado nas informações fornecidas sobre o universo de John Wick — onde o Hotel Continental monitora rigorosamente a qualidade das moedas de ouro para prevenir falsificações, inspecionando meticulosamente as moedas em circulação e removendo as desgastadas para evitar que sejam facilmente falsificada –, podemos traçar paralelos com o papel de um banco privado em um sistema de “free banking“, comum em sociedades históricas baseadas em padrão-ouro, bi-metalismo ou commodity money, sem bancos centrais emitindo fiat (dinheiro sem lastro intrínseco). Nesses sistemas, como o da Escócia no século XIX ou dos EUA antes da criação do Federal Reserve em 1913, bancos privados emitem ou gerenciam moeda lastreada em ouro, competindo por reputação e eficiência.

No universo de John Wick, o Continental não é apenas um hotel para assassinos, mas atua como uma instituição financeira centralizada no submundo, responsável por cunhar moedas de ouro, distribuir contratos e garantir a integridade da economia baseada nessas moedas, semelhante a um “banco central” privado, mas operando em um ecossistema sem fiat ou autoridade governamental tradicional. Em contraste, bancos privados em free banking são entidades competitivas que emitem notas ou gerenciam moedas não necessariamente de ouro, com incentivos de mercado para manter a confiança e evitar fraudes, sem um monopólio estatal. Ambas as estruturas visam preservar o valor da moeda por meio de verificação e controle de qualidade, mas diferem em escopo, competição e contexto (criminal vs. econômico geral).

A High Table (organização oculta dos assassinos) existe a mais de 2000 anos no universo de John Wick, e isto não é por acaso. Desde o início, eles prezaram por uma moeda forte (sound money) como seu meio de troca. O ouro não é a moeda perfeita para um sistema de trocas, mas é melhor que o sistema fiat. Ludwig Von Mises explica sobre isso em seu livro Sobre moeda e inflação:

A vantagem do sistema monetário baseado no ouro, assim como qualquer sistema monetário não-governamental, é que o aumento da quantidade de dinheiro em circulação não depende de decisões do governo. A vantagem do padrão ouro é que a quantidade de ouro disponível não depende das ações, desejos, projetos e, eu diria, “crimes” de governos diversos. O ouro pode até não ser a moeda ideal, certamente não; nada é ideal no mundo real. Mas podemos usar o ouro como meio de troca porque sua quantidade é, até certo ponto, limitada, e a produção de mais moeda exige um gasto que não tem influência sobre o poder de compra do ouro que já existe, pelo menos não mais do que têm as mudanças que ocorrem todos os dias. Usando o ouro como moeda, não corremos o risco de acontecer uma grande revolução nos preços. A vantagem do padrão ouro não é que o ouro é amarelo, brilhante e pesado, mas que a sua produção, como a de qualquer outra coisa, depende de atores que não podem ser manipulados pelo governo da mesma forma que a impressão de papel-moeda pode. Quando um governo imprime um pedaço de papel, não gasta mais imprimindo “100” do que imprimindo “10” ou “1” no mesmo papel. A situação do mercado, isto é, de todas as transações humanas, é determinada, e destruída, pelo governo, quando ele acha oportuno aumentar a quantidade de moeda impressa.

E é principalmente por essa razão que a High Table pode ter escolhido o ouro ao invés de moeda fiat (ou, como alguns costumam brincar, “dinheiro do banco imobiliário”). É impossível criar um projeto milenar apenas na confiança de um governante, acreditando na promessa que ele não vai inflacionar a moeda.

Crítica ao sistema monetário de John Wick

Embora as moedas de ouro tenham sobrevivido por décadas como meio de troca entre os integrantes desse universo, um padrão bimetálico pareceria mais adequado. Em qualquer relação de troca minimamente estável, os bens possuem valores distintos e, portanto, deveriam corresponder a preços diferentes. Isso, porém, muitas vezes não ocorre nos filmes: em um momento, uma moeda de ouro é usada para pagar um drink; em outro, a mesma moeda serve para adquirir uma arma. Evidentemente, uma arma deveria custar muito mais do que um copo de whisky, visto que num sistema monetário minimamente coerente, preços iguais sugerem valores de troca comparáveis, e um copo de whisky e uma arma não são bens economicamente equivalentes. O copo de whisky exige menos recursos, risco e complexidade, enquanto uma arma envolve maiores custos, escassez e valor estratégico.

A adoção de um sistema complementar com diferentes denominações metálicas resolveria esse problema. No Hotel Continental, por exemplo, poderia haver uma taxa de conversão em que uma moeda de ouro equivalesse a dez de prata, permitindo transações mais compatíveis com o valor relativo dos bens e serviços. Caso não se quisesse utilizar a prata como meio de troca, uma alternativa plausível seria a cunhagem de moedas menores de ouro, o que também possibilitaria maior precisão nas trocas e tornaria o sistema monetário daquele universo mais coerente.

Ao que parece, os criadores da franquia preferiram não desenvolver um modelo monetário mais complexo, talvez por conveniência narrativa, talvez por optarem por um certo romantismo simbólico: a moeda não representaria apenas valor econômico, mas também pertencimento, favor, honra e inserção naquela sociedade paralela.

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