Frequentemente se observa que as opiniões políticas de Rothbard eram controversas, especialmente em seus últimos anos, quando ele forjou uma aliança com paleo conservadores. Ele defendeu os direitos dos estados e saudou os heróis do Sul — Jefferson Davis, Robert E. Lee, Stonewall Jackson e Nathan Bedford Forrest — e isso certamente é controverso. Também é controverso o fato de que, como estudante na Columbia, ele se juntou à Strom Thurmond Society, e ao longo de sua vida se opôs de forma consistente ao que ele chamava de direitos civis falsos.
Mas não basta caracterizar a análise política de Rothbard como controversa. Fazer isso seria prestar-lhe um grave desserviço. Também é importante observar que suas posições sempre estiveram enraizadas na defesa da liberdade, e que ele jamais abandonou seus princípios. Em seu comentário sobre como Alan Greenspan abandonou seus princípios na tentativa de se tornar bem-visto pelo establishment, David Gordon observa que,
“Em sua atitude em relação à conciliação, Greenspan é o oposto polar de Murray Rothbard. Rothbard poderia ter moldado suas posições para ser favorecido por Arthur Burns, que era amigo de sua família, mas se recusou a fazê-lo. Ele nunca abandonou seus princípios”.
Isso é verdadeiro não apenas em relação a seus princípios econômicos, mas também em relação a seus princípios políticos. As posições políticas de Rothbard não eram meramente aleatórias, reacionárias ou meramente contrárias por espírito de oposição. Seu objetivo não era simplesmente provocar controvérsia ou inspirar populismo, à maneira de um provocador midiático. Ele não falava de forma descuidada ou impensada, sem preocupação com as implicações éticas do que dizia.
Rothbard certamente era conhecido como um “guerreiro alegre”, com um estilo de escrita agradavelmente espirituoso e bem-humorado, mas seria errado supor que isso signifique que ele fosse algum tipo de bobo da corte político que não atribuía importância aos princípios fundamentais de justiça em sua análise política. Pelo contrário, suas posições estavam consistentemente fundamentadas nos princípios filosóficos que ele expôs em A Ética da Liberdade.
Em sua introdução a esse tratado, Hans-Hermann Hoppe explica que Rothbard não esqueceu nem abandonou seus princípios ao discutir problemas políticos específicos. Sua filosofia não era meramente acadêmica ou teórica, sem relação com sua análise de problemas do mundo real.
Hoppe descreve o Rothbard-Rockwell Report como “o principal veículo dos comentários políticos, sociológicos, culturais e religiosos de Rothbard” durante os anos em que foi publicado, acrescentando que os princípios essenciais que fundamentavam a análise presente no RRR “já estavam contidos em seu tratado anterior. Em nítido contraste com Nozick, Rothbard não mudou de posição em questões essenciais”.Portanto, é claro que Rothbard não abandonou seus princípios filosóficos em seus comentários sobre a política contemporânea. Pelo contrário, Hoppe destaca a consistência desses princípios no pensamento de Rothbard:
“De fato, olhando retrospectivamente para toda a sua carreira, pode-se dizer que, desde o final da década de 1950, quando ele chegou pela primeira vez àquilo que mais tarde se tornaria o sistema rothbardiano, até o fim de sua vida, Rothbard não vacilou em questões fundamentais de teoria econômica ou política. Contudo, em razão do longo e intenso trabalho na história do pensamento econômico e político, uma ênfase temática diferente tornou-se aparente em seus escritos posteriores, especialmente nas várias centenas de artigos publicados durante os últimos anos de sua vida. Além das preocupações econômicas e políticas, Rothbard passou a concentrar cada vez mais sua atenção na cultura e a enfatizar sua importância como um pré-requisito sociológico do libertarianismo”.
Hoppe explica que Rothbard não via esses princípios meramente como um conjunto de sugestões opcionais, que poderiam ser aceitas ou rejeitadas, nem apenas como um conjunto de fatores relevantes que poderiam ser utilizados na resolução de problemas éticos. Tampouco a ética rothbardiana é meramente “uma análise da semântica de conceitos normativos e do discurso normativo”, como havia sido anteriormente a norma nas discussões sobre ética.Em vez disso, A Ética da Liberdade oferece um desenvolvimento sistemático de sua filosofia política, que se baseia em uma metodologia “axiomático-dedutiva”. Os objetivos e a metodologia de A Ética da Liberdade são explicados por Hoppe:
“O libertarianismo, tal como desenvolvido em A Ética da Liberdade, não era nem mais nem menos do que uma filosofia política. Ele fornecia uma resposta à questão de quais ações são lícitas e, portanto, não podem ser legitimamente ameaçadas com violência física, e quais ações são ilícitas e podem, por isso, ser punidas dessa maneira”.
As raízes profundas da filosofia de Rothbard permitiram que ele permanecesse firme ao analisar problemas políticos. Como explica Hoppe, Rothbard fundamentou sua filosofia “na noção de propriedade privada nas obras dos escolásticos tardios e, seguindo seus passos, em teóricos ‘modernos’ do direito natural como Grotius, Pufendorf e Locke”, em “verdades antigas, herdadas”.
Portanto, devemos recorrer à filosofia dos direitos naturais, aos princípios de propriedade e de autopropriedade, para compreender o significado do arcabouço conceitual de Rothbard — seu “uso sem concessões da linguagem dos direitos naturais”.
Compreender a filosofia de Rothbard não é uma simples questão de consultar o dicionário e debater nossas diferentes visões sobre o que pensamos que “direitos de propriedade” deveriam significar. O dicionário nos diz que propriedade significa “o direito exclusivo de possuir, usufruir e dispor de uma coisa”. Esse é, de fato, o conceito de propriedade que sustenta a common law, mas isso, por si só, não nos diz o que é justo ou ético. Esse é justamente o ponto central da teoria ética de Rothbard — ele argumenta que há mais na justiça do que mera equidade procedimental ou compensações eficientes.
Para destacar a importância da filosofia política de Rothbard, Hoppe contrasta Rothbard como um “pensador sistemático” com Robert Nozick como um pensador conjectural, “assistemático, associacionista ou até impressionista”. Nozick era exploratório e “não comprometido”, considerando suas ideias mais como sugestões provisórias que valeriam a pena serem examinadas. Em contraste, a filosofia política de Rothbard não é meramente um conjunto de “conjecturas provisórias e questões em aberto”. Hoppe explica:
“A ética, ou mais especificamente a filosofia política, é o segundo pilar do sistema rothbardiano, estritamente separado da economia, mas igualmente fundamentado na natureza atuante do homem e complementando-a para formar um sistema unificado de filosofia social racionalista”.
Rothbard não estava meramente se entregando a especulações gerais sobre as nuances de palavras como “justiça” e “liberdade”, com as quais todos os filósofos lidam de diferentes maneiras. Ele não considerava seus princípios éticos como meras sugestões às quais não estivesse particularmente comprometido e que pudesse prontamente abandonar caso se mostrasse politicamente conveniente fazê-lo. Pelo contrário, ele estabeleceu princípios pelos quais podemos determinar o que é “moralmente justificado e correto”, e manteve-se fiel a esses princípios até sua morte prematura.
Hoppe enfatiza que os princípios rothbardianos resistem ao teste do tempo precisamente porque se baseiam em um fundamento sistemático:
“Mesmo que acadêmicos modernos, livres da obrigação de ter de fornecer uma justificativa para suas atividades, possam se envolver em uma ‘conversa’ assistemática e aberta, homens reais, e especialmente homens bem-sucedidos, precisam agir e pensar de forma sistemática e metódica, e tais indivíduos que planejam e são orientados para o futuro, com baixa preferência temporal, também não se satisfarão com nada além de respostas sistemáticas e metódicas para suas próprias preocupações morais práticas”.
Segue-se que a busca por uma explicação das posições políticas de Rothbard deve começar com um exame de seus próprios princípios filosóficos. Por exemplo, a aliança de Rothbard com conservadores do Sul, e sua declarada admiração por John Randolph de Roanoke e John C. Calhoun, não constitui algum tipo de afastamento descuidado de seus próprios princípios — é consistente com sua defesa baseada em princípios dos direitos dos estados. Sobre a questão da defesa dos direitos dos estados, Hoppe observa,
“E, embora todo estado, pequeno ou grande, viole os direitos dos proprietários privados e deva ser temido e combatido, estados centrais grandes violam os direitos de mais pessoas e devem ser ainda mais temidos(…) Portanto, um libertário, como sua solução menos pior, deve sempre discriminar em favor do governo local e contra o governo central(…)”
Isso não significa, é claro, que Rothbard fosse infalível ou que não deva ser criticado ou alvo de discordância. Isso deveria ser evidente. Tampouco significa que sua filosofia política não contenha ambiguidades ou que só possa ser interpretada de uma única maneira. O que isso significa, como ressalta Hoppe, é que os princípios de Rothbard devem ser levados a sério para compreender seu pensamento político.
Os princípios filosóficos de Rothbard não podem simplesmente ser descartados como irrelevantes para suas posições políticas, muito menos por meio de ataques ad hominem dirigidos à sua personalidade. Seu sistema de ética é fundacional e fundamental para sua análise política. Como explica Hoppe:
“Em conformidade com a tradição da filosofia racionalista, [Rothbard] apenas insistiu que argumentos axiomático-dedutivos podem ser atacados e, possivelmente, refutados, exclusivamente por outros argumentos do mesmo status lógico”.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
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