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Quem cria o valor? O trabalhador ou o consumidor?

O ventilador girava lentamente no teto da pequena loja de ferramentas. João Pereira fechava o caixa, conferindo as notas com atenção, quando Carlos Marques entrou, encostou no balcão e começou a observar o movimento.

Carlos comentou que o lugar parecia ir bem. João respondeu que dependia do dia, havia semanas boas e outras bem fracas. Carlos então perguntou quanto ele ganhava. João estranhou a pergunta, mas respondeu. Carlos fez um leve sorriso e disse que ali estava um exemplo claro de exploração.

João levantou os olhos, curioso. Perguntou como assim.

Carlos explicou que João produzia mais valor do que recebia e que o dono da loja ficava com a diferença. Disse que aquilo tinha nome na teoria de Marx, chamava-se mais-valia. João ouviu em silêncio, apoiado no balcão, e depois fez uma pergunta simples.

Se eu produzo esse valor todo, como é que a gente mede isso exatamente?

Carlos respondeu que era o valor do trabalho dele ao longo do dia, incorporado nas vendas. João pensou por um instante e apontou para a loja.

Então quer dizer que, se amanhã ninguém entrar aqui, meu trabalho não vale nada?

Carlos hesitou e disse que o valor estava no trabalho, não na venda em si. João balançou a cabeça devagar.

Mas eu faço praticamente a mesma coisa todos os dias. Tem dia que vendo muito, tem dia que não vendo quase nada. Meu esforço é parecido. O resultado muda. Então o valor está onde, exatamente?

Carlos tentou retomar o argumento dizendo que, no longo prazo, o trabalho era a base do valor. João não recuou.

E o ponto da loja, não conta? E os produtos? E o preço que o dono paga no fornecedor? E o fato de ter gente querendo comprar ou não? Se ninguém quiser, não adianta eu trabalhar o dia inteiro.

Carlos cruzou os braços, agora mais sério.

Mas sem o seu trabalho, nada disso acontece.

João concordou.

Claro. Mas também sem cliente, sem produto e sem o dinheiro que já foi investido aqui antes de eu chegar, também não acontece. Por que só o meu trabalho é que explica o valor?

Carlos tentou voltar à ideia de exploração, dizendo que o patrão lucrava sem trabalhar no balcão. João deu um leve sorriso.

Ele pode não estar aqui agora, mas foi ele que montou tudo isso. Se der prejuízo, sou eu que pago ou é ele?

Carlos ficou em silêncio por um momento.

João continuou, agora com mais segurança.

Outra coisa. Se o que eu faço aqui gera tanto valor assim, por que meu salário não é o mesmo em qualquer loja? Já trabalhei em lugar que vendia muito mais e ganhava quase igual. E em outro que vendia menos. Meu trabalho não mudou tanto assim.

Carlos começou a perceber que a explicação não era tão simples quanto parecia no início.

João concluiu, voltando ao caixa.

Eu acho que o valor não vem só do trabalho. Parece que depende mais do quanto as pessoas querem comprar e do que elas estão dispostas a pagar. Se ninguém quiser, não tem valor nenhum, por mais que eu trabalhe.

O ventilador continuava girando lentamente. Do lado de fora, um cliente se aproximava da vitrine. Carlos olhou para João, depois para a rua, e pela primeira vez pareceu considerar que talvez a pergunta fosse mais profunda do que a resposta que ele tinha decorado.

Talvez sem perceber, os dois haviam chegado ao coração de um dos debates mais importantes da teoria econômica. A partir daquela conversa simples, surgia uma questão decisiva. O valor das coisas vem realmente do trabalho que as produziu ou da forma como as pessoas as avaliam e desejam.

A explicação apresentada por Carlos a João não surge isoladamente, mas depende de uma teoria mais profunda sobre a origem do valor econômico. É nesse ponto que entra a teoria do valor-trabalho, que serve de base para a formulação marxista da mais-valia.

Mais trabalho, mais valor

A teoria do valor-trabalho ocupa um lugar central na história do pensamento econômico e parte da ideia de que o valor de uma mercadoria está relacionado, de algum modo, à quantidade de trabalho necessária para produzi-la. Essa concepção aparece tanto em Adam Smith quanto em Karl Marx, ainda que com significados e implicações bastante distintos.

Em Smith, especialmente em sua obra clássica sobre a riqueza das nações, o trabalho é apresentado como medida do valor de troca em sociedades simples, nas quais ainda não se consolidaram plenamente o capital e a renda da terra. Nesse contexto, os bens tenderiam a ser trocados de acordo com o trabalho neles incorporado.

No entanto, sua análise não se mantém inteiramente consistente, pois em diversos momentos ele alterna entre explicações baseadas no trabalho, nos custos de produção e nas forças de oferta e demanda, o que confere ao seu tratamento do tema um caráter mais descritivo e histórico do que propriamente sistemático.

Em Karl Marx, por outro lado, a teoria do valor-trabalho é retomada e transformada em um sistema coerente que sustenta toda a sua crítica ao capitalismo. Para Marx, o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção, e a força de trabalho assume um papel peculiar, pois é capaz de gerar mais valor do que aquele que custa.

A diferença entre o valor produzido e o salário pago ao trabalhador constitui a mais-valia, que, em sua análise, expressa a exploração inerente ao sistema capitalista. Nesse sentido, o valor-trabalho não é apenas uma ferramenta analítica, mas o fundamento teórico de uma interpretação abrangente da economia e da sociedade.

Apesar de sua influência, essa abordagem enfrenta dificuldades significativas. O problema central reside no fato de que as pessoas não atribuem valor aos bens com base no trabalho passado, mas na utilidade que esperam obter deles. Um esforço intenso não garante que algo será valorizado, assim como um produto simples pode alcançar grande valor se atender a desejos relevantes.

Um buraco cavado e imediatamente preenchido novamente exige trabalho, mas não cria valor econômico. Um quadro pode ser produzido em poucas horas e, ainda assim, alcançar preços elevados. Da mesma forma, um bem que exigiu enorme esforço pode simplesmente não encontrar compradores. Esses exemplos revelam que o trabalho, por si só, não é capaz de explicar por que as coisas têm valor.

O valor é subjetivo e marginal

É nesse ponto que a Escola Austríaca de Economia propõe uma mudança decisiva de perspectiva. Em vez de buscar o valor nos objetos ou no trabalho que os produziu, os austríacos afirmam que o valor é um fenômeno subjetivo, que emerge da avaliação feita pelos indivíduos.

A consolidação dessa mudança de paradigma tem início com Carl Menger, fundador da Escola Austríaca, que rompe de maneira decisiva com qualquer explicação objetiva do valor. Para Menger, o valor não está contido no bem nem decorre do trabalho nele incorporado, mas surge da relação entre o bem e as necessidades humanas.

Um objeto só adquire valor quando é capaz de satisfazer uma necessidade efetiva, quando essa necessidade é reconhecida pelo indivíduo e quando o bem se apresenta como escasso em relação a ela. O valor, portanto, não é uma propriedade física das coisas, mas um juízo humano sobre sua capacidade de atender fins específicos.

A partir dessa perspectiva, Menger demonstra que o trabalho não cria valor, mas é o valor esperado do bem final que confere importância aos fatores de produção, inclusive ao próprio trabalho. O fluxo causal é invertido em relação à tradição clássica, pois não são os custos que determinam o valor dos bens, mas o valor atribuído aos bens de consumo que se transmite, por imputação, aos meios utilizados em sua produção. Essa formulação inaugura de maneira consistente a teoria do valor subjetivo e prepara o terreno para o desenvolvimento da utilidade marginal.

Esse princípio permite compreender de forma clara o chamado paradoxo da água e do diamante. A água é indispensável à vida e, no entanto, costuma ser barata, enquanto o diamante, que não possui a mesma relevância vital, alcança preços elevados. A explicação não reside no trabalho incorporado, mas na relação entre escassez e utilidade marginal.

Como a água é abundante na maioria dos contextos, a última unidade disponível atende a uma necessidade pouco urgente, o que reduz seu valor. Já os diamantes são escassos, e a última unidade disponível corresponde a uma necessidade mais valorizada, o que eleva seu preço. Dessa forma, o valor não depende do esforço passado, mas da importância atribuída à satisfação de necessidades em condições de escassez.

Essa intuição é aprofundada por Eugen von Böhm-Bawerk, que sistematiza a crítica ao valor-trabalho, especialmente na forma proposta por Marx. Böhm-Bawerk demonstra que o trabalho não pode servir como medida objetiva de valor, uma vez que não é homogêneo e não pode ser reduzido a uma unidade comum sem pressupor previamente uma escala de valoração.

Além disso, observa que os bens não se trocam de acordo com o trabalho incorporado, mas conforme a avaliação subjetiva dos indivíduos envolvidos na troca. A tentativa de explicar os preços a partir do trabalho incorre, assim, em uma circularidade lógica, pois o próprio valor do trabalho depende dos bens que ele ajuda a produzir.

Sua crítica à teoria da mais-valia segue a mesma linha, ao mostrar que o lucro e o juro não são fruto de exploração, mas expressão da preferência temporal, isto é, da tendência humana de valorizar mais intensamente os bens presentes do que os bens futuros. O capitalista, ao antecipar salários e assumir riscos ao longo do processo produtivo, é remunerado por abrir mão de consumo presente e por coordenar a produção ao longo do tempo.

Essa linha de pensamento é levada a um nível ainda mais amplo por Ludwig von Mises, que insere a teoria do valor subjetivo no interior de uma teoria geral da ação humana. Para Mises, toda economia deve ser compreendida como resultado de escolhas intencionais feitas por indivíduos que buscam substituir estados menos satisfatórios por estados mais satisfatórios.

O valor não é mensurável em termos objetivos nem comparável entre pessoas, pois consiste em uma ordenação subjetiva de preferências. Os preços de mercado emergem da interação dessas avaliações individuais e não podem ser reduzidos a custos ou quantidades de trabalho. Nesse sentido, a teoria do valor subjetivo torna-se o fundamento da própria ciência econômica, entendida como praxeologia, ou seja, como o estudo lógico da ação humana.

Por sua vez, Murray Rothbard aprofunda e radicaliza essa tradição ao aplicar de maneira rigorosa o subjetivismo a todos os aspectos da teoria econômica. Para Rothbard, não apenas os bens de consumo, mas também os fatores de produção, os salários, os juros e os lucros são determinados por avaliações individuais em um processo de mercado.

A ideia de que o trabalho seria a fonte do valor é, para ele, um equívoco fundamental, pois ignora o fato de que o próprio trabalho só é valorizado porque contribui para a produção de bens que já são desejados. Ao insistir que todo valor é necessariamente subjetivo, Rothbard reforça a conclusão de que não há base econômica para teorias que atribuem ao trabalho um papel originário na determinação do valor.

Considerações finais

Dessa forma, a tradição austríaca, desde Carl Menger até Ludwig von Mises e Murray Rothbard, estabelece uma ruptura profunda com a teoria do valor-trabalho ao afirmar que o valor não nasce da produção, mas da avaliação humana.

O trabalho, longe de ser a fonte do valor, é ele próprio um meio cuja importância deriva do fim que ajuda a alcançar. Em última análise, como intuía o próprio João em sua experiência cotidiana, o valor não se revela no esforço empregado, mas naquilo que as pessoas estão dispostas a reconhecer e escolher.

O valor, portanto, não flui do esforço para o bem, mas do bem para o esforço, sempre mediado pela mente daquele que decide em um mundo marcado pela escassez.

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