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Jerome Powell deveria ser considerado um grande vilão americano, mas Washington o retratará como herói

As tensões, que vinham se acumulando havia muito tempo, entre a administração Trump e o Federal Reserve de Jerome Powell se intensificaram no fim de semana passado, após uma reportagem do New York Times e uma declaração pública posterior de Powell sobre a abertura de uma acusação criminal federal relacionada a supostas declarações falsas a respeito das reformas no prédio do Federal Reserve. Como Ryan McMaken já observou neste site, a investigação é uma fachada para uma discordância mais profunda sobre “como exatamente usar os muitos poderes do Fed para inflar, explorar e ajudar a financiar um governo federal em constante expansão”.

A resposta previsível de Powell é enquadrar isso como um ataque ao mito essencial da “independência” do Federal Reserve. Para os leais defensores do Fed, independência é a renúncia definitiva de responsabilidade. Os bancos centrais estão acima de qualquer reprovação, suas motivações jamais deveriam ser questionadas por pessoas sérias, e qualquer noção de supervisão séria pelo Congresso deveria ser descartada de imediato. A campanha presidencial de Ron Paul conseguiu tornar a auditoria do Federal Reserve uma pauta comum na Câmara de Deputadox republicana, mas, assim como slogans para abolir o Departamento de Educação ou o IRS [Receita Federal americana], esses são temas de que os republicanos falam em eventos de campanha e que, convenientemente, nunca são levados a sério por ambas as casas do Congresso dos Estados Unidos.

Até aqui, é o Senado que sempre atua como o guardião confiável da reforma do Federal Reserve, e é no Senado que as repercussões da escalada da administração Trump contra o Fed serão mais significativas. Há duas vagas programadas no Conselho do Federal Reserve em 2026, incluindo um substituto para Powell como presidente e a reeleição do indicado de Trump, Stephen Miran. Miran tem sido, compreensivelmente, visto como um fiel defensor de Trump, que votou em linha com os apelos da administração por cortes maiores nas taxas de juros do que o restante do conselho.

O impacto imediato após a divulgação pública da investigação veio com uma resposta previsível de senadores institucionalistas. O senador da Carolina do Norte que está deixando o cargo, Tom Tillis, anunciou que votará contra quaisquer novas nomeações. Vários outros também anunciaram suas próprias preocupações. Considerando que a nomeação original de Miran só foi aprovada por um único voto no ano passado (48 a 47), a administração já estava trabalhando com margens estreitas. Uma rebelião de senadores republicanos poderia muito bem garantir que o Fed fique mais alinhado com Powell no futuro.

As preocupações vindas do Senado devem, é claro, ser vistas como nada mais do que reflexos de defensores do status quo de Washington, e não como alguma postura corajosa contra o poder executivo. O Federal Reserve moderno, antes e continuando com Powell, tem sido o grande facilitador do poder executivo em particular e do leviatã federal de forma mais ampla. Aqueles que agora expressam preocupações sobre normas e instituições não agiram diante de um banco central que cronicamente não atingiu sua própria meta de inflação, que tem sido incapaz de restaurar seu balanço patrimonial aos níveis anteriores a 2008 e que criou corporações de propósito especial como uma brecha para resgatar bancos estrangeiros contra suas próprias regras estabelecidas.

O Federal Reserve moderno há muito tempo tem agido como uma instituição acima de regras; a reação agora tem sido contra o desejo da administração Trump de tornar mais explícito aquilo que há muito permanecia implícito. Isso, é claro, não significa que não existam preocupações importantes sobre a política monetária desejada pela administração. Em ambos os seus mandatos, Trump quis intensificar a política monetária frouxa que alimentou muitos dos problemas econômicos e culturais dos Estados Unidos — incluindo desigualdade de riqueza, transferência de empregos para o exterior e até mesmo a formação de famílias. Mas a reação dos senadores não está direcionada aos danos dessas políticas, e sim à reverência simbólica ao banco central.

Em um mundo sensato, Powell seria justamente visto como um dos grandes vilões de política pública da era moderna, ao lado de seus predecessores Greenspan, Bernanke e Yellen. Em vez disso, ele quase certamente será celebrado como um herói corajoso que enfrentou o autoritarismo e os excessos do poder executivo, assim como seus predecessores foram celebrados por seu próprio serviço à agenda de Washington.

O custo para a administração, no entanto, pode ir muito além da canonização de um inimigo político. A natureza essencial do Federal Reserve no Washington moderno existe precisamente porque, ao contrário do Congresso, ele funciona. Embora não seja independente da pressão política, ele é independente dos eleitores, em grande medida independente do partidarismo tradicional e, muitas vezes, independente de um escrutínio relevante da mídia. O presidente do Fed, de modo consistente, consegue implementar a política que ele deseja.

Para uma administração presidencial que valoriza a ação acima de tudo — o que explica tanto o uso generalizado de tarifas quanto uma forte guinada para a política externa — a reação do Senado em relação ao banco central pode muito bem acabar tendo impactos duradouros sobre muitos objetivos futuros da agenda doméstica.

Infelizmente para os americanos, o impacto mais recente de uma investigação criminal sobre o Federal Reserve — algo que pode, de fato, ser totalmente justificável — provavelmente apenas fortalecerá ainda mais as próprias instituições que merecem a maior parte da culpa por criar as dificuldades que ajudaram a alimentar os impulsos populistas que, em primeiro lugar, deram força ao trumpismo.

É assim que Washington funciona.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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1 comentário em “Jerome Powell deveria ser considerado um grande vilão americano, mas Washington o retratará como herói”

  1. A questão é que o FED não deveria existir. Mas o fim do banco central é uma realidade que nunca vai acontecer.

    Tem o presidente querendo mais credito,assim como as empresas querendo mais. Dinheiro gratis para todos e o povo pagando a conta dessas crises.

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