Nota da edição:
Harry Browne foi uma figura importante para o movimento libertário americano. Browne foi um escritor, ativista político, candidato à presidência pelo partido libertário em 1996 e em 2000 e consultor de investimentos que fez muito para espalhar as ideias de liberdade. No texto a seguir – originalmente publicado como uma coluna de jornal – , o autor decide escrever uma carta de natal para sua filha com uma lição extremamente valiosa sobre a vida.
É Natal e tenho o problema de sempre: decidir o que dar a você. Sei que você poderia gostar de muitas coisas — livros, jogos, roupas.
Mas eu sou muito egoísta. Quero te dar algo que permaneça com você por mais do que alguns meses ou anos. Quero te dar um presente que talvez te faça lembrar de mim a cada Natal.
Se eu pudesse te dar apenas uma coisa, gostaria que fosse uma verdade simples que me levou muitos anos para aprender. Se você a aprender agora, ela poderá enriquecer sua vida de centenas de maneiras. E poderá te poupar de enfrentar muitos problemas que machucaram pessoas que jamais a aprenderam.
A verdade é simplesmente esta:
Ninguém te deve nada.
Importância
Como uma afirmação tão simples pode ser importante? Pode não parecer, mas entendê-la pode abençoar toda a sua vida.
Ninguém te deve nada.
Isso significa que ninguém mais está vivendo por você, minha filha. Porque ninguém é você. Cada pessoa vive por si mesma; a própria felicidade é tudo o que cada um pode sentir pessoalmente.
Quando você perceber que ninguém te deve felicidade ou qualquer outra coisa, você ficará livre de esperar aquilo que provavelmente nunca virá a acontecer.
Isso significa que ninguém é obrigado a te amar. Se alguém te ama, é porque há algo especial em você que lhe dá felicidade. Descubra o que é esse algo especial e tente fortalecê-lo em você, para que seja ainda mais amada.
Quando as pessoas fazem coisas por você, é porque elas querem — porque você, de algum modo, lhes dá algo significativo que as faz querer te agradar, não porque alguém te deve alguma coisa.
Ninguém é obrigado a gostar de você. Se seus amigos querem estar com você, não é por dever ou obrigação. Descubra o que faz os outros felizes, para que eles queiram estar perto de você.
Ninguém é obrigado a te respeitar. Algumas pessoas podem até ser cruéis com você. Mas, quando você perceber que as pessoas não têm que ser boas com você, e que talvez não o sejam, aprenderá a evitar aqueles que poderiam te machucar. Pois você também não deve nada a eles.
Vivendo a sua vida:
Ninguém te deve nada.
Você deve a si mesma ser a melhor pessoa possível. Porque, se for, os outros vão querer estar com você, vão querer te oferecer as coisas que você deseja em troca do que você lhes proporciona.
Algumas pessoas vão escolher não ficar ao seu lado por motivos que nada têm a ver com você. Quando isso acontecer, procure em outro lugar os relacionamentos que deseja. Não transforme o problema de outra pessoa no seu próprio.
Quando você aprender que precisa conquistar o amor e o respeito dos outros, nunca vai esperar o impossível — e não vai se decepcionar. Os outros não precisam compartilhar a propriedade deles com você, nem seus sentimentos ou pensamentos.
Se o fizerem, é porque você conquistou isso. E você tem todo motivo para se orgulhar do amor que recebe, do respeito de seus amigos, dos bens que ganhou. Mas nunca tome nada disso como garantido. Se fizer isso, poderá perder tudo. Essas coisas não são suas por direito; você precisa conquistá-las sempre.
Minha experiência:
Um grande fardo foi retirado dos meus ombros no dia em que finalmente entendi que o mundo não devia nada a mim. Por muitos anos acreditei que havia coisas a que eu tinha direito pelo simples fato de ter nascido. E isso fez com que eu passasse por grandes desgastes — físicos e emocionais — em minha tentativa de coletar esses “direitos”.
Ninguém deve a mim respeito, amizade, amor, cortesia, conduta moral ou inteligência. O mundo não me deve nada. E tão logo eu passei a reconhecer isso, todas as minhas relações imediatamente se tornaram muito mais gratificantes. Concentrei-me apenas em estar com aquelas pessoas que queriam fazer as coisas que eu queria que elas fizessem.
Essa compreensão de mundo permitiu que eu me desse bem com amigos, sócios comerciais, clientes, amores e estranhos. Sou constantemente relembrado de que só irei conseguir o que quero se puder entrar no mundo da outra pessoa. Eu tenho de entender como ela pensa, o que ela crê ser importante e o que ela quer. Somente assim eu poderei ser útil para ela e, com isso, conseguir as coisas que eu quero.
E somente então eu serei capaz de discernir se eu realmente quero estar envolvido com tal pessoa. Isso me permite selecionar bem as minhas relações, poupando-me de dissabores; e me permite também direcionar minhas energias apenas para aquelas pessoas com as quais eu realmente tenho mais coisas em comum.
Não é fácil resumir em poucas palavras aquilo que levei anos para aprender. Porém, talvez se você reler esse presente a cada Natal, seu significado ficará mais claro a cada ano.
Eu realmente espero que isso aconteça. Sendo seu pai, quero acima de tudo que você entenda essa simples verdade, a qual pode libertá-la para sempre.
Um Feliz Natal, minha filha!
Este artigo está disponível no site do Mises Brasil.
Muito bom, o melhor artigo que já li nesse site. Serve muito bem ao momento da vida que estou vivendo.
Obrigado, Mises Brasil!