Há
alguns dias, recebi um email de um leitor que me perguntava sobre algo com que
todos nós já tivemos de lidar. Eis um
trecho:
A coisa fica meio depressiva às vezes. Há momentos em que me sinto meio rancoroso, e
há momentos que simplesmente fico totalmente irritado com o fato de que são
pouquíssimas as pessoas que entendem ou se importam com economia e/ou
filosofia, quando ambas são extremamente importantes.
Sou
totalmente solidário com o sentimento deste leitor, obviamente, dado que eu
mesmo já me senti exatamente assim várias vezes. No entanto, como eu sempre digo, o segredo
está na perspectiva. Todos nós já
reclamamos daquelas pessoas que “simplesmente não entendem o problema”; porém,
o real problema é que somos nós
que realmente ainda não entendemos o problema.
Temos
subestimado completamente o tipo de luta em que estamos. Pensamos que ela se resumia apenas a economia
e política; só que é muito mais do que isso.
A nossa verdadeira batalha é contra a idolatria. Se inicialmente
isso não faz sentido para você, não o culpo; apenas permita-me explicar melhor
essa minha conclusão.
Toda e qualquer idolatria possui a mesma e
única raiz
Todos
nós já ouvimos slogans como este:
Por que não deveríamos tributar o dinheiro
de um milionário que não precisa dele e utilizar esse dinheiro para alimentar
uma criança faminta?
Após
isso, é praticamente impossível oferecer qualquer contra-argumentação sem que
sejamos tachados de insensíveis. E há um
bom motivo para isso: o slogan carrega uma espécie de “monopólio moral” que é
manipulador e fraudulento. Idólatra, na
verdade.
Esse
argumento parte da implícita suposição de que o estado está além do
questionável, e que qualquer falha tem de ser atribuída a algum outro
ente. Se há pobres e crianças famintas, então
jamais pode o estado ser o culpado por isso.
Tal tipo de pensamento é simplesmente inconcebível para essas pessoas.
Arraigada
neste tipo de pergunta (e na mentalidade das pessoas que fazem esse tipo de
pergunta) está a total e inabalada certeza de que o estado sempre funciona como
o agente do bem.
Isso
é idolatria, e está no mesmo nível de povos antigos que adoravam deuses urbanos
ou de pessoas medievais que consideravam sua Santa Igreja acima de todo e
qualquer questionamento. Da mesma
maneira, estados e governos são ídolos para as pessoas modernas. A linha de pensamento é idêntica; a única
coisa que muda são os nomes dos ídolos — as entidades que recebem o benefício
da dúvida continuamente.
O
estado, nosso ídolo moderno, rouba quase metade de tudo aquilo que um
trabalhador ganha. Isso significa que as
pessoas são explicitamente espoliadas pelo simples fato de estarem fazendo a
coisa certa (trabalhando). Mas não há
qualquer compaixão por elas.
E
por que não há compaixão por essas pessoas?
Porque é o estado quem as está despojando, e o estado jamais pode ser
condenado. Afinal, ele só pode ser um
agente do bem!
No
final, tudo realmente se resume a isso:
Qualquer coisa que você aprecie mais
elevadamente do que a realidade é o seu deus.
Em
nossa atualidade, a coisa que é estimada acima da realidade é o estado. As pessoas podem até criticar alguns de seus
aspectos ou alguns de seus integrantes, mas o estado como um todo, como uma
entidade, é algo que só é questionado por pessoas malucas e perigosas. Em outras palavras, por hereges.
Essa
entidade contra a qual lutamos é diferente daquele dogma que mantinha as mentes
medievais acorrentadas. A batalha é muito pior agora.
Nossos inimigos entenderam melhor do que
nós
Todos
nós já tivemos de lidar com pessoas que defendem tão resolutamente a
necessidade da existência do atual sistema estatal, que reagem insana e
virulentamente ao ouvirem nossas ideias.
Pensávamos estar apenas falando sobre economia, mas elas reagiram como
se estivéssemos tentando destruir tudo aquilo que elas mais amam.
Em
outras palavras, nossos inimigos veem
nossas ideias como sendo ainda mais poderosas do que nós mesmos acreditamos que
sejam. E eles estão certos; somos nós
que ainda não entendemos corretamente o que temos em mãos.
Todos
os governos necessariamente agem
contra a vontade humana. Se eles não
forem capazes de fazer com que tenhamos vergonha de nossos desejos e juízos,
então toda a justificativa para a existência de governo corre o risco de entrar
em colapso. O jogo requer que o cidadão
comum se sinta inseguro e cheio de defeitos; o jogo requer que ele precise de
uma babá. Nossa mensagem simplesmente destroça toda essa
fraude.
Nossos
inimigos estão absolutamente corretos em nos temer e em reagir
virulentamente. E nós deveríamos começar
a aceitar o fato de que nossas ideias são poderosas.
As grandes batalhas são vencidas lentamente
Alguns
libertários são ansiosos e desejam ardentemente por uma “revolução”, o que
significa que eles querem mudanças rápidas.
Estes irão se desapontar, pois isso não ocorrerá. As mudanças, sempre e necessariamente, são
lentas. Quem não preparar a mente e as
expectativas para este fato, inevitavelmente enfrentará profundas frustrações.
Nossas
ideias são grandes, e nossos inimigos já conquistaram boa parte da mente de
nossos amigos, familiares e vizinhos.
Isso significa que a maioria deles não irá mudar de ideia da noite para
o dia. É assim que a coisa funciona, por
mais doloroso que seja admitir. Tudo
será muito lento.
Porém,
nesta lenta batalha, temos a carta na manga, que é o poder das ideias, e nossa
estratégia vencedora é trabalhar duro e perseverar. Esqueça a possibilidade de vitórias rápidas;
isso sempre foi uma ilusão. É necessário
construir, e continuar construindo.
O que fazer
A
seguir, algumas sugestões específicas para lidar com as pessoas:
- Em
vez de utilizar palavras, mostre às pessoas o que você já alcançou; ou dê
exemplos práticos de terceiros.
- Dê
às pessoas tempo para pensar melhor suas ideias. Plante a semente, dê um tempo, e retome o
assunto apenas algum tempo depois.
- Não
entre em brigas. Se você cair em uma
emboscada, simplesmente diga ao inimigo que você não aceitará tais
táticas. E então saia.
- As
pessoas mais próximas de você são suas amigas por algum bom motivo. Seja paciente e dê tempo a elas.
- Lembre-se
de que a maioria das pessoas está sempre confusa e insegura. Ofereça a elas coisas que ajudem, e não
coisas que prejudiquem.
- Encontre
outras pessoas que compartilhem ao menos algumas de suas perspectivas, e então trabalhe
com elas. Se não houver ninguém assim ao
seu redor, entre em algum grupo de internet.
Continue
plantando sementes e regando-as sempre que possível. Para nós, a perseverança é o caminho para a
vitória.
Esse texto é muito bom. Me lembra bastante o seguinte artigo: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1841.
A questão é que provavelmente não estaremos aqui pra ver a sociedade que propomos, mas isso não deve ser motivo para acomodação. O mais importante é sabermos como “recrutar” pessoas para o nosso lado e evitar as tais “emboscadas” e ter em mente que algumas pessoas, por mais que você tente, não querem e não vão mudar.
ganhar dinheiro é feio, já dizia a igreja e os governantes populistas
Artigo maravilhoso. Lembra um pouco a minha própria experiência, que desde conhecer o Mises até me tornar um libertário (se é que posso me dizer libertário… me considero minarquista, mas não por achar que é um arranjo superior ao anarquista, e sim por achar difícil, senão impossível, eliminar completamente o estado) levei quase 2 anos lendo artigos diariamente. De conhecer o Mises até começar a comentar fazendo perguntas, levei quase um ano, e ainda tive que aturar arrogantes e irritadinhos que me consideravam um desonesto intelectual simplesmente porque me faltava o embasamento necessaria para entender as idéias que destruiriam a doutrinação estatista que recebi desde criança.
Se nossa batalha é no campo das idéias, dificilmente uma tática diferente da apontada pelo autor vai funcionar. E, realmente, nunca havia pensado no problema dessa forma: idolatria. Isso explica por que os chavões e campanhas com apelo puramente emocional do estado possuem tanto efeito. Mas a razão tem o poder de direcionar as emoções das pessoas para o lado certo, e é nossa tarefa fazer isso.
Segundo certo dicionário, “idolatria” é (1) apego excessivo a algo ou alguém; (2) atribuir qualidades e capacidades sobre-humanas a algo ou alguém. Aplica-se perfeitamente à forma como muitos encaram o Estado. É realmente uma guerra por corações e mentes que tem de ser travada com paciência, empatia, equilíbrio e bom senso.
* * *
Excelente texto. Esclarecedor e educativo. Registro apenas uma ressalva quanto ao polilogismo sempre presente quanto se trata de avaliar historicamente a Igreja. Dependendo da situação dizem que os clérigos achavam “feio” ser rico, outras vezes diziam que os clérigos diziam que ser pobre, apesar de ser “feio” era necessário e que as riquezas, apesar de belas, são muito mais ricas e belas no outro mundo. Por sua vez, a doutrina afirma que ser rico ou pobre não é defeito nem qualidade, por si. Então, temos toda uma miríade de opções a gosto do freguês. Como o critério muda de acordo com a intenção, nunca gostei muito desse tipo de avaliação esteriotipada a respeito da Igreja.
É como eu sempre falo. A igreja e o estado são praticamente sinonimos,e por isso é que eu digo. Existe estado sem Deus,porem não existe Deus sem estado. Paises comunistas conseguem isso sem igreja e deus,porem a igreja não sobrevive sem estado.
O Paul Rosemberg acerta em cheio novamente. Para quem entende inglês, o blog dele é uma ótima leitura.
Para aqueles liberais que necessitam de informações e querem aprofundar seu conhecimento sobre as táticas do inimigo, recomendo que leiam também o blog Ceticismo Político do Luciano Ayan, em que ele desmascara e detona várias “rotinas” que a esquerda e alguns neo-ateus utilizam para intimidar seus oponentes no debate.
vou fazer um contraponto a frase do autor abaixo:
“Porém, nesta lenta batalha, temos a carta na manga, que é o poder das ideias, e nossa estratégia vencedora é trabalhar duro e perseverar. Esqueça a possibilidade de vitórias rápidas; isso sempre foi uma ilusão. É necessário construir, e continuar construindo.”
A maneira que me comporto para a minha meta de meditação pessoal é o pessimismo encontrado nas críticas sem me desorientar das causas.
A primeira obvia é a presença nefasta do Estado. Para mim o Estado intervêm sempre e com a velocidade das respostas não há jeito de elimina-lo como pensam os anarquistas.
A segunda é a ganância da inutilidade produtiva que a sociedade do conhecimento mantém. Contratações de profissionais ultrapassados, improdutividade em todos os setores sem exceção de um país atrasado, para manter em nível alto os indicadores políticos.
Listo um site de humor vazio mas competente:
desciclopedia.org/wiki/Categoria:Profiss%C3%B5es_in%C3%BAteis
E a terceira é que sempre façam as contas (mentalmente) de tudo o que tiver que calcular por que é assim que tudo funciona na racionalidade e na irracionalidade, na frieza dos números, sendo o número algo relativo, mas representativo, momentâneo, e variando com o tempo futuro.
Sei que pensadores gostam de simplicidade, abstenção de valores, idéias curtas e subjetivas, mas se não jogam com números o tempo não absorve.
”A coisa fica meio depressiva às vezes. Há momentos em que me sinto meio rancoroso, e há momentos que simplesmente fico totalmente irritado com o fato de que são pouquíssimas as pessoas que entendem ou se importam com economia e/ou filosofia, quando ambas são extremamente importantes.”
Interessante que até mesmo aqui no site nesses tempos de copa do mundo o numero de cometários diminuiu bastante.
O que é isso aqui ???
exame.abril.com.br/economia/noticias/para-krugman-falta-de-governo-salva-economia-da-belgica
Perfeito. Outro dia conversando com um amigo petista fanático, me dizia ele que a sua mãe era fanática pela igreja e defendia os padres sem qualquer argumento lógico. Dizia que ela simplesmente aceitava tudo o que os padres, bispos e o papa falam e ainda dava dinheiro para a igreja. Dando-lhe razão perguntei a ele qual a diferença entre a atitude da mãe dele em relação à igreja e seus agentes e a atitude dele em relação ao partido e seus dirigentes? O cidadão ficou tão embasbacado que, não tendo resposta, acabou por me chamar de radical. Pois sim. Nem liguei, pois eu soube que havia acertado na veia.
Essa do Krugman, hein???
Pessoal,
Eu enviei este e outros artigos aqui do Mises a um esquerdista da minha classe e o mesmo respondeu com o seguinte texto abaixo.
Por gentileza, quem quiser comentar e refutar os argumentos e as opiniões dele é muito bem vindo. Principalmente, os autores que ele cita Wacquant e Boaventura de Souza Santos.
Então, conforme já afirmei anteriormente, continuo sendo de esquerda e continuo completamente desacreditado com relação a um pretenso sistema liberal, o que para mim, não passa de mais uma utopia. Da mesma forma, penso que um pretenso socialismo, a la URSS, também não seja eficaz.
Todavia, não acredito que fomentar o liberalismo seja a solução dos problemas. Conforme o texto de Loïc Wacquant, Os Condenados da Cidade, texto aqui: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf/article/download/2231/2186
o autor demonstra que o abandono de políticas de bem estar social pelos EUA não significaram ausência do Estado. O que ocorreu foi, tão somente, um transferência dos gastos. Todo o recurso antes utilizado em políticas de bem estar foram utilizado para um aparelhamento policialesco do Estado, aumentado os investimentos em presídios para dar conta do aumento da criminalidade causada pelo crescimento das desigualdades. Essa política apenas contribui para o aumento de subempregos, logo deterioração das condições dos trabalhadores.
Tal sistema, depois propagandeado pelo consenso de Washington, ou consenso neoliberal, imposto pelos Banco Internacionais, ou seja, “diminuição” do Estado, conforme análise de Boaventura de Souza Santos no seu livro A Globalização e as Ciências Sociais apenas contribuiu para o aumento das desigualdades sociais. Não apenas isso. Além das disparidades no campo econômico, Santos chama a atenção para uma deterioração de muitos valores, como o aumento do individualismo e a competitividade nas relações sociais em geral.
Se quiséssemos pensar em um liberalismo ideal, com um tipo de economia equilibrada, com concorrência perfeita, primeiramente, seria preciso fundar uma nova ordem social. Seria preciso uma desapropriação generalizada, conceder um patrimônio para cada cidadão, para daí sim, competirem de igual para igual.
Na situação atual que temos, apenas liberalizar geral seria, na minha opinião, uma abertura para a catástrofe, pois, ao contrário do que prega o liberalismo, no capitalismo não há como se falar em “meritocracia”, pois, aqueles que detém poderio econômico (logo, político), já o possui há várias gerações. Qual o mérito dos herdeiros de um empresário que construiu grande patrimônio?
Penso que o problema se encontra no lucro e na exploração da mão de obra. Como o objetivo no capitalismo é a maximização do lucro, a tendência é sempre haver cada vez mais exploração do ser humano, principalmente os mais pobres e ignorantes.
Não defendo um tipo de Estado em que toda a economia seja controlada por estatais. Mas, penso que as empresas poderiam ser substituídas por cooperativas, de modo a não tirar da iniciativa privada a liberdade de produzir e fazer circular bens de real utilidade. Claro, no meu tipo ideal de cooperativas, o modelo da Unimed estaria reprovado, pois, há distorções.
Penso que alguns serviços, como saúde e educação, principalmente, devem ser 100% estatal para que todos tenham a mesma educação e o mesmo acesso a serviços de saúde, fomentando a prevenção e não somente a medicalização, como é feito hoje.
De tudo o que afirmei até aqui, faço uma observação. Que o Estado atual (e isso não ocorre somente no Brasil), tem servido às grandes Corporações, e não verdadeiramente ao povo. Entretanto, não temos um Estado de Bem Estar, mas, o que temos é um Estado Neoliberal. O PT inclusive é um governo neoliberal, infelizmente.