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A inflação infinita não é o bastante


que ninguém parece se importar com o fato de que o Titanic está se enchendo de
água, por que não abrir outro buraco no casco? 
Este parece ser o modus operandi
do Federal Reserve sob o comando de Ben Bernanke.  Após o anúncio do QE3 (também rotulado de “QE infinito“) ter
criado mais uma rodada de tagarelice na mídia a respeito de uma “inevitável”
recuperação econômica, o Comitê de Política Monetária do Fed decidiu levar o
conceito de infinidade um pouco mais além. 
A última medida envolve a rolagem dos títulos de longo prazo comprados
pelo Fed durante a Operação
Twist
, desta maneira mais do que duplicando o valor original do QE3 (US$40
bilhões mensais) para um influxo mensal de US$85 bilhões, dinheiro esse que
será criado do nada a partir de dezembro. 
Eu rotulo essa operação de “QE3 Mais” — agora com mais inflação!

Inflação por qualquer outro nome

Caso
você já tenha perdido as contas de todos os diferentes estratagemas criados
pelo Fed com o intuito de distorcer a economia, aqui vai uma recapitulação da Operation Twist: o Fed vende títulos do
Tesouro com vencimento de três anos ou menos e utiliza esse dinheiro arrecadado
para comprar títulos de prazo mais longo. 
Ao comprar títulos de longo prazo, ele atua para reduzir os juros desses
títulos.  Esse “twist” [torção] de seu
portfólio tem o intuito de fazer com que a economia americana pareça estar mais
forte e que a inflação de preços pareça estar menor do que realmente está.

O
Fed alega que a Operation Twist é neutra em termos de inflação monetária porque
o seu balancete permanece constante, isto é, ele não comprou mais ativos (apenas
trocou títulos de menor maturação por títulos de maior maturação) e não
aumentou seus passivos (não emitiu moeda para comprar esses títulos).  No entanto, tal processo continua enviando
sinais distorcidos para os agentes de mercado, que podem agora tomar emprestado
a juros mais baixos para financiar projetos de prazo mais longo pelos quais não
há demanda legítima.  Eu já havia dito
ano passado quando a Operation Twist foi anunciada e continuarei dizendo: taxas
de juros baixas são parte do problema, e não a solução.

Intervenções nunca são neutras

Assim
como o Fed utilizou seu poder de manipular os juros para fazer com que as
empresas pontocom e depois o setor imobiliário parecessem investimentos de
longo prazo viáveis, ele está hoje utilizando o QE3 Mais para ocultar o precipício fiscal com o
qual o governo americano irá se defrontar no futuro próximo. 

À
medida que o Fed expande o prazo médio de vencimento dos títulos em seu
portfólio, ele vai se prendendo cada vez mais à inflação monetária que ele
próprio criou na esteira da crise do crédito de 2008, tornando cada vez mais
difícil retroceder e retirar toda essa liquidez da economia.  Naquela época, prometeu-se que o Fed iria “desfazer”
toda essa injeção monetária quando chegasse a época certa.  Mas como ele fará isso agora?  Títulos de vencimento mais longo reduzem a
qualidade e a liquidez do balancete do Fed, fazendo com que o prometido “pouso
suave” seja muito mais difícil de ser alcançado.

O
Fed não pode continuar imprimindo de maneira indefinida sem que os preços ao
consumidor disparem.  De várias formas,
isso já começou a ocorrer nos EUA.  É só
olhar para o preço da gasolina ou para o preço de um hambúrguer.  Se o Fed ainda tem a esperança de manter
estes preços sob controle, inevitavelmente chegará o dia em que ele terá de
vender seu portfólio de títulos de longo prazo. 
Ao passo que títulos de curto prazo podem ser facilmente vendidos,
títulos de longo prazo terão de ser vendidos a preços extremamente baixos, o
que significa juros bastante altos, gerando efeitos devastadores sobre a curva
de juros.  Não será sequer possível
escolher entre taxas de juros um pouco menores hoje em troca de taxas de juros
um pouco maiores no futuro.

A
questão é que Bernanke & Cia. se recusam a confessar que os EUA estão
fundamentalmente insolventes.  Tal recusa
é um incentivo extremamente forte para se continuar suprimindo as taxas de
juros até que uma mega crise os obrigue a isso. 

Adicionalmente,
quando os juros finalmente voltarem a subir — tal subida sendo ainda mais
forte por causa das vendas de títulos que terão de ser feitas pelo Fed –, o
Fed terá enormes prejuízos em seu portfólio, pois os títulos em sua posse agora
valerão menos.  O que isso acarretará?  Graças a uma nova lei federal, prejuízos
incorridos pelo Fed agora são um passivo que deve ser coberto diretamente pelo
Tesouro americano, isto é, pelos pagadores de impostos dos EUA.

É
claro que o Fed se recusa a aceitar esta realidade.  Mesmo que uma dolorosa correção seja
necessária, nenhum indivíduo quer que isso realmente aconteça quando ele está
no comando das coisas.  Sendo assim,
Bernanke irá se limitar a continuar proferindo suas falas bem ensaiadas: o dinheiro
continuará fluindo até que haja uma “melhora substantiva” no desemprego.

Bernanke realmente acredita nisso?

Até
mesmo Bernanke deve saber que não haverá uma “melhora substantiva” no curto
prazo.  Eu havia dito, ainda antes do
anúncio do QE3, que uma nova rodada de estímulos seria a única maneira de
Bernanke assegurar seu emprego.  Porém,
recentes especulações garantem que ele realmente irá sair de seu cargo assim
que seu mandato terminar em janeiro de 2014. 
Talvez ele seja mais esperto do que imaginei.  Ele deixará um tijolo no acelerador de uma
economia que se direciona velozmente para um precipício fiscal, e pulará assim
que ela estiver próxima da beira do penhasco. 
Quem quer que assuma o assento, terá de juntar os cacos e arcar com a
culpa pela crise que Bernanke e seu antecessor inflamaram.

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40 comentários em “A inflação infinita não é o bastante”

  1. Leandro Torricelli

    Estou lendo o livro “The Real Crash” do Peter Schiff e às vezes fico impressionado com as semelhanças acá, em como nós aqui em terras tupiniquins estamos copiando muito do mau exemplo praticado lá e o futuro que nos aguarda após as explosões das gigantes bolhas, má alocações de capital e toda a distorção de preços atualmente.
    Tenho uma microempresa e quase semanalmente recebo malas-diretas do BB e CEF me intimando a comparecer na agência mais próxima (não sou correntista) e ir pegar meu crédito subsidiado (0,64% am). Ao meu redor vejo uma verdadeira orgia creditícia e várias pessoas vivendo acima de suas condições com um dinheiro que não é seu e provavelmente não pagará depois.
    Caro Leandro, se não fosse pedir muito, seria muito informativo não só a mim como aos outros leitores do site um novo ensaio sobre nossa economia (caso você considere que houve mudanças significativas desde sua última análise!).
    Obrigado pelas elucidações num mar de desinformações do mainstream!

  2. Boa tarde!
    “A questão é que Bernanke & Cia. se recusam a confessar que os EUA estão fundamentalmente insolventes”
    O que deve ser feito? É a formula que Obama disse logo após ser reeleito?
    "Nós não podemos nos desviar do nosso caminho para a prosperidade. Nós precisamos harmonizar cortes de gastos com mais arrecadação. Isso significa pedir aos americanos mais ricos que paguem um pouco mais de impostos".
    abs

  3. Leandro;

    O que mais deixa a gente confuso é que todos os comentaristas de economia já falam em recuperação dos EUA. O que acabamos de ver é um verdadeiro perigo, e o Brasil como fica
    com essas politicas cada vez mais de intervenção na economia. As chamadas politicas de companheiro e criação de mais ministérios. Essa reeleição do Obama já é um desastre pronto? ou dá para ter esperança?

  4. Então a bomba pode explodir no colo do messias Obama? Bem, ele é messias, algum milagre vai fazer. E isso vai ser noticiado pela Folha, pelo Jornal Nacional, e comemorado pelo Jabor.

  5. o que vai acontecer é um estouro geral na economia e, quando agente acordar na 2ª pela manhã os mercados estarão loucos e caóticos, muitos perderão tudo, e poucos conseguirão se reerguer do nada.

  6. Adicionalmente, quando os juros finalmente voltarem a subir — tal subida sendo ainda mais forte por causa das vendas de títulos que terão de ser feitas pelo Fed

    Ele quis dizer quando o Fed voltar a subir o juro por causa da inflação?

  7. Ao passo que títulos de curto prazo podem ser facilmente vendidos, títulos de longo prazo terão de ser vendidos a preços extremamente baixos, o que significa juros bastante altos, gerando efeitos devastadores sobre a curva de juros. Não será sequer possível escolher entre taxas de juros um pouco menores hoje em troca de taxas de juros um pouco maiores no futuro.

    Juro de longo prazo alto nos títulos do tesouro americano significa que as empresas vão ter que paga caro para captar recursos de prazo longo, porque elas competirão com o tesouro? Isso quer dizer também que governos de países emergentes vão pagar mais por títulos de longo prazo?

  8. Será que alguém me poderia explicar o que é alavancagem e como funciona. É porquê não consigo entender como se pode impedir os bancos de expandirem a oferta de moeda sem que um Banco Central o restrinja.

    Obrigado

  9. Eu nao entendo direito essa distinção de taxa de juros para prazos longos e curtos, o fato do fed comprar os titulos de prazo longo, faz com que os juros desses titulos sejam menores no mercado, eu entendo que os juros interbancarios vao se tornar menores por causa disso, mas de fato existe um juros interbancario para longo e um outro para curto prazo? No nosso caso a selic é o que, para curto prazo? Ou quando a selic eh alterada ela altera todos os juros, de curto e longo prazo?

  10. Bom dia Leandro!
    Discutindo com conhecidos petistas sobre o crescimento do Brasil, eu disse o que fez o PT com a politica economica herdada do PSDB? Nao fez absolutamente nada, eu mesmo respondi. A retorica agora é esta:
    “A política econômica não mudou e não tem como mudar, pois, com o desmanche do parque industrial do nos anos 90, não podemos desagradar os investidores que ainda mantém industrias funcionando e gerando empregos no território nacional.
    Não podemos contrariar os investidores que estão de posse de nossa infra-estrutura, pois eles podem parar o País (é o dedo lá que lhe digo).
    O que mudou foi a maneira de escolher o que, quando e como fazer.”
    É assim mesmo?
    abs

  11. Creio que o que vai se tornar comum daqui pra frente são as taxas de juros nominalmente negativas.

    Isto é, emprestar 1000 dólares e receber 950 daqui um ano, por exemplo.

    Você: Mas porque alguém faria isso ?
    Resposta: Pra não deixar o dinheiro debaixo do colchão…

    Acha que é viagem ? Pois parece que já está acontecendo..

    Abs!

  12. Prezado Leandro

    O chefe de campanha de reeleição de Barack Obama afirmou que o presidente tem o mandato das urnas para aumentar impostos, ou não renovar o corte de impostos dos mais ricos, efetuado no governo de George W. Bush. A seu ver, esse aumento pode impedir a tragédia do aumento da dívida? Abs.

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