Nota da edição:
O artigo a seguir reproduz o editorial da MISES Journal (2026) e celebra a ascensão do periódico ao estrato B2 no Qualis CAPES, consolidando seu rigor científico e seu processo de internacionalização iniciado em 2013. Simultaneamente, comemoramos os dez anos da Pós-Graduação em Escola Austríaca (PGEA), destacando a profícua integração entre o corpo discente e a produção acadêmica.
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A abertura da edição de 2026 da Mises Journal (vol. 14) é repleta de grandes notícias e novidades, trazendo ventos ainda mais favoráveis à pesquisa científica da Escola Austríaca de Economia.
A primeira notícia de destaque é a nova nota que nossa revista acadêmica alcançou na última avaliação do Qualis CAPES, que é um sistema brasileiro utilizado para classificar a produção científica dos programas de pós-graduação stricto sensu no que se refere aos artigos publicados em periódicos científicos. Ela é mantida pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC). As avaliações são quadrienais e, na primeira vez em que nosso periódico foi avaliado (2013-2016), recebemos a nota do estrato C1, conferida a periódicos com peso zero para a avaliação ou que não atendem aos critérios mínimos. Após 2018, diversas mudanças realizadas para modernizar e impactar a comunidade acadêmica surtiram efeito: no quadriênio 2017-2020, a nota assinalada foi B3.
Quais foram essas mudanças? Internacionalização, a presença em importantes indexadores como Redalyc, Latindex e Google Scholar — elevando o “Fator de Impacto” calculado pela CAPES —, rigor editorial (com a manutenção do sistema de avaliação duplo-cega, ou double-blind peer review) e a pontualidade das edições.
As notas do último quadriênio (2021-2024), divulgadas em janeiro de 2026, incluíram a MISES Journal no estrato B2, apresentando uma trajetória de crescimento e consolidação nos critérios da CAPES desde a sua fundação, em 2013. Esse grande reconhecimento do trabalho acadêmico do Instituto Mises Brasil é apenas a primeira grande comemoração que temos neste ano de 2026.
A outra grande comemoração que realizaremos ao longo deste ano é a celebração dos 10 anos da Pós-Graduação em Escola Austríaca (PGEA), um curso lato sensu de nossa instituição que abre turmas de forma ininterrupta nesta primeira década de existência.
A relação entre a Pós-Graduação em Escola Austríaca e a MISES Journal é fortemente entrelaçada: mais do que uma fonte de consulta para o nosso corpo discente em termos de conteúdo científico, a revista também contribui para o amadurecimento acadêmico dos alunos que buscam trilhar a carreira docente ou de pesquisa. Sejam escrevendo resenhas, ensaios, artigos ou até mesmo publicando Trabalhos de Conclusão de Curso, existe uma sinergia entre essas duas grandes “áreas” do Instituto Mises.
Como forma de homenagear essa conquista, a capa desta edição foi produzida com o Emblema Acadêmico da PGEA de forma estilizada e nos acompanhará ao longo de todo este volume. Mas você sabe o significado de cada elemento do emblema?
Helio Beltrão, fundador e atualmente Chairman (Presidente do Conselho) do Instituto Mises, já me explicou, em algumas ocasiões, o significado de cada componente; tentarei aqui reproduzir o que me recordo, mas nada impedirá que eu use de licença poética para contar minha versão dos significados. O Emblema Acadêmico (que muitos chamam de logomarca) da Pós-Graduação em Escola Austríaca é composto por elementos da heráldica clássica2 e símbolos acadêmicos que representam os pilares dessa vertente econômica. A pequena flor vermelha e branca no topo é uma Edelweiss. Trata-se da flor nacional da Áustria e um símbolo de resiliência e pureza. Ela reforça a identidade geográfica e histórica da escola, fundada por Carl Menger em Viena. Outra mensagem importante é que esta flor consegue crescer em altitudes elevadas, em condições difíceis. A mensagem aqui é direta: Mises foi exilado, marginalizado academicamente, recusou compromissos com o keynesianismo e o estatismo, manteve coerência até o fim. Hoje, a Escola Austríaca sobrevive e floresce fora do mainstream econômico, em terreno hostil, sem subsídios intelectuais do estado ou da academia dominante. O bastão com duas serpentes entrelaçadas e asas no topo (Caduceu), ao centro, é o símbolo de Mercúrio (ou Hermes), o deus do comércio, da eloquência e das trocas3. Representa a atividade econômica de mercado, o livre intercâmbio de bens e serviços e a cooperação social por meio do comércio, que são temas centrais da Escola Austríaca.
Abaixo do Caduceu, há um livro aberto. Na página da esquerda, constam os números ímpares (I, III, V, VII, IX) e, na da direita, os pares (II, IV, VI, VIII, X). O uso de algarismos romanos em um livro aberto é uma convenção visual clássica para representar “leis universais” ou “princípios imutáveis”, uma referência ao Decálogo Bíblico, dos dez mandamentos escritos em duas tábuas de pedra. Muitos economistas da tradição austríaca, como Mises (2010; 2014) e Rothbard (1960;1974), bem como precursores (como Frédéric Bastiat) fundamentam suas teorias na ideia de Direito Natural. Uma sistematização de ‘dez leis fundamentais de economia’ à luz da teoria austríaca pode ser consultada em Iorio (2013) e em Mueller (2016). Assim como os Dez Mandamentos são vistos como leis morais universais e absolutas, os austríacos defendem que a economia possui leis que não dependem da vontade de governantes. Ao usar a estética das tábuas ou de um decálogo, o Emblema Acadêmico comunica visualmente que a economia não é algo “inventado” por políticos, mas algo “descoberto” na natureza humana, com a mesma autoridade de leis fundamentais4.
Ao fundo, nota-se um globo terrestre estilizado. Na heráldica clássica, um globo com faixas (como a Esfera Armilar) representa o universo, a totalidade e a navegação ou descoberta. Podemos aqui indicar que as leis da economia são leis universais. Assim como a gravidade ou as órbitas celestes, a Escola Austríaca defende que a lógica da ação humana funciona em qualquer lugar do globo, independentemente de fronteiras geográficas. Acredito que exista uma provocação filosófica sutil aqui. A bandeira do Brasil Império possuía uma Esfera Armilar, e a bandeira do Brasil República estiliza esse globo com faixa escrita “Ordem e Progresso” reforçando a ação estatal. Ao visualizarmos o Caduceu (símbolo do comércio e das trocas voluntárias) à frente do globo com a faixa, sugere-se que a verdadeira “Ordem” de uma nação nasce de baixo para cima, através das trocas de mercado e do respeito à propriedade, e não por decreto governamental: Não há coroa, não há estado, não há espada. É o conceito de Ordem Espontânea de Friedrich Hayek (1937; 1945; 1960; 1967).
As folhas que circundam o brasão na verdade são vagens de soja. No brasão do Brasil Império temos as folhas de café e tabaco, representando a origem da riqueza produtiva. Hoje, a força produtiva que traz a verdadeira riqueza ao Brasil está no Agronegócio. Temos muitos produtos que somos líderes mundiais, mas a soja exerce um papel importante.
Por fim, observamos duas estrelas simétricas. Acredito ser uma homenagem aos gigantes da Escola Austríaca, que também estão presentes no Brasão do Instituto Ludwig von Mises Brasil: Mises e Rothbard. Na heráldica, a estrela é o símbolo da luz, da verdade e da sabedoria. Mises e Rothbard estão ali para indicar que o conhecimento econômico serve como um “guia” em meio à escuridão da incerteza e do intervencionismo. Elas representam a clareza intelectual que o aluno deve alcançar.
Finalizo este editorial na crença de que esta edição, bem como as anteriores, possa iluminar a jornada não só de nossos novos alunos, que iniciam essa turma histórica de 10 anos da PGEA, mas de todos os estudantes e pesquisadores da Escola Austríaca de Economia. Para os que desejam contribuir com seus achados teóricos e pesquisas aplicadas, sugiro fortemente a leitura do editorial da edição anterior (Paranaiba & D´Andrea, 2025) para uma submissão bem-sucedida.
Referências:
Hayek, F. A. (1937). Economics and knowledge. Economica, 4(13), 33–54. https://doi.org/10.2307/2548243
Hayek, F. A. (1945). The use of knowledge in society. The American Economic Review, 35(4), 519–530.
Hayek, F. A. (1960). The constitution of liberty. University of Chicago Press.
Hayek, F. A. (1967). The result of human action but not of human design. In Studies in philosophy, politics and economics (pp. 96–105). University of Chicago Press.
Iorio, U. J. (2013). Dez lições fundamentais de economia austríaca. Instituto Ludwig von Mises Brasil. https://mises.org.br/livros/16671/dez-licoes-fundamentais-de-economia-austriaca/
Mises, L. v. (2010). Ação humana: Um tratado de economia (D. M. de Barros, Trad.). Instituto Ludwig von Mises Brasil. (Obra original publicada em 1949).
Mises, L. v. (2014). Teoria e história: Uma interpretação da evolução social e econômica (M. de Barros, Trad.). Instituto Ludwig von Mises Brasil. (Obra original publicada em 1957).
Mueller, A. (2016). As dez leis fundamentais da economia. Mises Brasil. https://mises.org.br/artigos/2373/asdezleisfundamentaisdaeconomia/
Paranaiba, A., & D’Andrea, F. (2025). O que queremos publicar em 2025. MISES: Interdisciplinary Journal of Philosophy, Law and Economics, 13. https://doi.org/10.30800/mises.2025.v13.1580
Rothbard, M. N. (1960). The mantle of science. In H. Schoeck & J. W. Wiggins (Eds.), Scientism and values (pp. 159–180). D. Van Nostrand.
Rothbard, M. N. (1974). Justice and property rights. In S. L. Blumenfeld (Ed.), Property in a humane economy (pp. 101–122). Open Court Publishing.
- As notas do Qualis CAPES classificam periódicos científicos em estratos (A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4, B5 e C), sendo A1 o de maior excelência internacional e C o de menor relevância. ↩︎
- Heráldica é a ciência e arte de criar, descrever e estudar brasões (escudos de armas). ↩︎
- Frequentemente confundido com o Bastão de Esculápio (da medicina), o Caduceu com duas serpentes é o símbolo histórico das faculdades de Ciências Econômicas e Contábeis. ↩︎
- Existe um ponto específico onde os “Dois Decálogos” (o bíblico e o econômico) se encontram explicitamente: o mandamento “Não furtarás”. Para a Escola Austríaca, o direito à propriedade privada é o axioma ético central. Autores como Hans-Hermann Hoppe e o próprio Mises (em sua defesa da moralidade ocidental) frequentemente apontam que a civilização e o mercado só são possíveis porque existe uma base moral que proíbe a violação da propriedade alheia. ↩︎