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Missão a Moscou: o mistério dos “papéis perdidos” de Ludwig von Mises

O texto a seguir é uma versão condensada de uma palestra proferida nos “Evenings at FEE”, em junho de 2004.

Ludwig von Mises foi um dos mais importantes economistas de livre mercado e filósofos da liberdade de nosso tempo. Nascido em Lemberg, em 1881, no antigo Império Austro-Húngaro, sua carreira profissional atravessou as primeiras sete décadas do século XX. Em duas dezenas de livros e centenas de artigos e palestras, ele demoliu todos os sonhos coletivistas e delírios estatistas então predominantes.

Mises demonstrou que o planejamento central socialista estava condenado ao fracasso em uma época em que o falso ideal da engenharia social se encontrava próximo de seu auge. Ele mostrou como e por que as políticas intervencionistas e o Estado de bem-estar social minam a liberdade, a prosperidade e a moralidade dos homens. Explicou que o controle estatal e a má gestão governamental do sistema monetário e bancário causam inflações e depressões. Demonstrou de maneira irrefutável que somente uma economia de livre mercado pode proteger a liberdade individual, assegurar padrões de vida crescentes, promover a inovação empresarial e coordenar com êxito um mundo em transformação incessante.

Uma potência intelectual da liberdade

Na Áustria das décadas de 1920 e início de 1930, Mises era uma verdadeira potência intelectual da liberdade. Como analista econômico sênior da Câmara de Comércio de Viena, tentou conter a onda avassaladora de legislação intervencionista e socialista que vinha sendo implementada pelo Parlamento austríaco. Na Universidade de Viena, ministrava, a cada semestre, um seminário popular e muito frequentado. Em seu escritório na Câmara de Comércio e em sua casa, organizava um “seminário privado” (private seminar), reunindo algumas das melhores mentes jovens de Viena para discutir as questões sociais, econômicas e filosóficas da época. Em 1926, fundou o Instituto Austríaco de Pesquisa sobre Ciclos Econômicos, tendo o jovem Friedrich A. Hayek como seu primeiro diretor.

Tanto fascistas quanto comunistas o odiavam. Afinal, como um dos principais opositores intelectuais de todas as formas de coletivismo, ele havia apontado sistematicamente todas as falácias presentes em suas perversas fantasias utópicas. Quando os nazistas chegaram ao poder na Alemanha, em 1933, Mises percebeu que o futuro político e econômico da Áustria era sombrio. Como liberal clássico intransigente e judeu, sabia que a inevitável tomada da Áustria pelos nazistas ameaçaria não apenas seu trabalho, mas também sua vida. Em 1934, Ludwig von Mises aceitou o convite para tornar-se professor de relações econômicas internacionais no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais, em Genebra, na Suíça, e deixou a Áustria.

O saque nazista e a captura soviética dos documentos de Mises

Após a morte de sua mãe, no início de 1937, Mises devolveu ao proprietário seu apartamento vienense na Wollseile 24, Distrito III, mas sublocou dos novos inquilinos o cômodo que havia sido seu quarto. Ali armazenou objetos familiares e pessoais, sua volumosa correspondência com muitos dos grandes pensadores de seu tempo, manuscritos e documentos inéditos, documentos profissionais e militares — ele servira no Exército austríaco durante a Primeira Guerra Mundial e fora condecorado três vezes por bravura sob fogo inimigo na Frente Oriental —, materiais relativos ao seu ensino universitário e ao seminário privado, bem como uma parte significativa de sua vasta biblioteca.

Em 12 de março de 1938, o Exército alemão marchou sobre a Áustria, e a terra natal de Mises foi incorporada ao Grande Reich Alemão de Hitler. Em poucos dias, a Gestapo foi procurá-lo em seu apartamento em Viena. Ele estava a salvo na Suíça, mas os nazistas encaixotaram e levaram embora todos os seus pertences. Mises pediu a amigos que intercedessem em seu favor, numa tentativa inútil de recuperar seus documentos e objetos familiares, mas a Gestapo insistiu que tudo havia sido “extraviado”. Até sua morte, em Nova York, em 1973, Mises acreditou que todos os seus bens haviam sido destruídos, fosse pelos nazistas, fosse no caldeirão de violência da Segunda Guerra Mundial.

Mas, na verdade, seus documentos não haviam sido destruídos. Eles foram preservados pelos nazistas e acabaram armazenados em uma pequena cidade da Boêmia ocidental, na Tchecoslováquia, juntamente com milhões de outros documentos saqueados pelos nazistas de indivíduos particulares e de governos, à medida que a Wehrmacht ocupava um país após o outro no tumulto da guerra.

Em maio de 1945, a Boêmia foi “libertada” pelo Exército soviético. Em uma estação ferroviária, os soldados descobriram 24 vagões preparados para evacuação. Dentro deles havia apenas papéis — nada além de papéis. Depois que o NKVD — mais tarde rebatizado como KGB — chegou ao local, seus agentes examinaram rapidamente o material e perceberam que haviam encontrado um tesouro. Stalin foi imediatamente informado e ordenou que os vagões fossem levados para Moscou. Um edifício enganosamente discreto foi rapidamente construído para arquivar secretamente mais de 20 milhões de páginas de documentos capturados, provenientes de 20 países anteriormente ocupados pelos nazistas. E ali os documentos permaneceram, em Moscou, organizados e preservados por arquivistas da KGB durante quase meio século. Apenas a polícia secreta soviética e o Ministério das Relações Exteriores soviético tinham acesso a esse arquivo secreto.

Em uma das grandes ironias da história, os documentos de Ludwig von Mises, o mais destacado opositor intelectual do socialismo no século XX, acabaram sob os zelosos cuidados do Partido Comunista da União Soviética!

No rastro dos “papéis perdidos” de Mises

Ouvi pela primeira vez que os “papéis perdidos” de Mises talvez tivessem sobrevivido à guerra no verão de 1993. Minha esposa, Anna, e eu estávamos em Viena realizando pesquisas em arquivos sobre Mises. Um amigo meu da Câmara do Trabalho austríaca mencionou que alguns diplomatas alemães haviam estado recentemente em Moscou à procura de material sobre alemães antifascistas do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Em um dos índices de arquivo, encontraram uma referência a Ludwig Mises, mas, como ele era austríaco, e não alemão, não prosseguiram com a investigação.

Apesar de inúmeras tentativas, não conseguimos localizar nenhuma informação adicional. No verão de 1996, fizemos uma viagem ao Museu do Holocausto, em Washington, D.C., para verificar se, por acaso, algum arquivo da Gestapo sobre Mises havia sobrevivido à guerra. Mas os pesquisadores do museu não conseguiram encontrar nenhum registro de tal arquivo em sua base de dados. “E Moscou?”, perguntei. “Será que poderia haver algo relacionado a Mises em Moscou?”

Fomos então apresentados a Karl Modek, funcionário do museu responsável por pesquisar o Holocausto na antiga União Soviética. Ele nos disse que um arquivo soviético anteriormente secreto, contendo documentos estrangeiros e coleções documentais capturadas durante a guerra, havia sido recentemente desclassificado e agora estava disponível aos pesquisadores. O nome do arquivo era Centro de Coleções Históricas e Documentais. Na verdade, ele acabara de receber um índice da coleção do arquivo. Começou a virar as páginas do índice. Uma página após a outra, e… lá estava! Impresso na lista de coleções aparecia o “Fundo nº 623”, com o nome “Ludwig Mises” ao lado. E nada mais.

Na época, eu era Professor Ludwig von Mises de Economia no Hillsdale College. Quando retornamos ao campus, contei ao Dr. George Roche o que talvez tivéssemos encontrado. Antes de ser nomeado presidente do College, em 1971, o Dr. Roche havia atuado como Diretor de Programas e Seminários da FEE; conhecera Mises relativamente bem e o admirava profundamente. Ele providenciou imediatamente o financiamento para que minha esposa e eu viajássemos a Moscou e ao antigo arquivo secreto que abrigava os “papéis perdidos de Ludwig von Mises”.

Nossa missão a Moscou e o arquivo secreto

Minha esposa Anna, nascida na Rússia, organizou a documentação e os vistos para a viagem. Uma amiga sua, em posição de destaque na Academia Russa de Ciências, providenciou nosso acesso ao arquivo e, em 17 de outubro de 1996, chegamos a Moscou. Nos dez dias seguintes, examinamos meticulosamente toda a coleção multilíngue dos documentos de Mises. Os arquivistas da KGB haviam catalogado e organizado cuidadosamente seus papéis em 196 arquivos separados, totalizando mais de 10 mil páginas de material.

Nem o diretor do arquivo nem qualquer membro de sua equipe compreendiam a importância daqueles documentos. Eles nos perguntavam repetidamente: por que Mises? Ninguém jamais demonstrou qualquer interesse por ele! Por que não o diário do ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, ou as cartas de Albert Einstein e os manuscritos de Immanuel Kant? E as partituras originais de Mozart? Chegaram até mesmo a nos oferecer o arquivo inteiro da polícia secreta francesa, que os nazistas haviam capturado quando ocuparam Paris em junho de 1940. Mas tudo o que queríamos era Ludwig von Mises.

Na verdade, fomos os primeiros ocidentais a solicitar e efetivamente examinar os documentos de Mises. O diretor do arquivo à época, Dr. Mansur Mukhamedjanov, declarou em seu discurso no Hillsdale College, em março de 1997: “O Fundo Ludwig von Mises esteve acessível a pesquisadores durante vários anos. Mas, desde o momento em que o arquivo foi desclassificado, nenhum pesquisador demonstrou interesse, consultou ou trabalhou com os materiais desse fundo. […] Pesquisadores estrangeiros se interessavam por qualquer coisa, menos por Mises. Alguns deles provavelmente viram o índice e sabiam que tal fundo existia. […] Mas nossos registros cuidadosos mostram que nenhum pesquisador jamais solicitou o ‘Fundo 623 — Ludwig Mises’ até Richard e Anna Ebeling.”

Retornamos aos Estados Unidos com mais de 8 mil páginas de fotocópias da coleção de Mises. Pouco depois de nosso retorno, o Liberty Fund, de Indianápolis, entrou em contato comigo e manifestou interesse em providenciar a tradução e a publicação de uma ampla seleção dos “papéis perdidos”. Dois dos três volumes da série já foram publicados, estando o último volume próximo da conclusão, sob o título geral Selected Writings of Ludwig von Mises.

O legado dos “papéis perdidos” de Ludwig von Mises

Essas milhares de páginas de material arquivístico trazem à luz uma nova dimensão de Ludwig von Mises. Nelas, vemos Mises como mais do que o brilhante teórico econômico que demonstrou a inviabilidade do planejamento central socialista e as contradições inerentes ao Estado intervencionista; mais do que o grande expositor de uma teoria universal da ação humana e do processo de mercado.

Vemos Mises como um analista de políticas públicas sério e metódico nos vinte anos entre as duas guerras mundiais — alguém que explica como salvar uma sociedade diante de uma hiperinflação mediante a introdução de uma moeda alternativa em substituição ao dinheiro governamental depreciado; como retirar uma economia de uma grande depressão; como conter uma burocracia intervencionista que estrangula uma economia de mercado; como encerrar controles cambiais que distorcem e dificultam o comércio internacional; ou como construir uma política fiscal que deixe de sufocar o investimento e a formação de capital.

Em outras palavras, a descoberta dos “papéis perdidos” de Ludwig von Mises remove o véu que encobria a vida e a obra desse grande economista de livre mercado e defensor da liberdade. Por meio dessas milhares de páginas, Mises emerge como uma figura ainda mais influente e importante do que até mesmo seus maiores admiradores haviam imaginado.

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