Os social-democratas modernos, aqueles que defendem a idéia de que o governo deve suprir-nos com as necessidades básicas — ou as supostas necessidades básicas — da vida, raramente percebem que este tipo de assistencialismo se baseia em um sistema de roubo e de escravização em massa que é completamente contrário à sua declarada crença na liberdade. E de fato, os defensores de tal política apresentam-na como se ela fosse verdadeiramente o oposto do que é, como se ela estivesse realmente intensificando nossa liberdade.
Essa controvérsia se deve à alegação conceitual de que só há liberdade quando algumas das nossas necessidades mais básicas são satisfeitas — se necessário, pelas ações de outros. Adeptos dessa visão afirmam que “o esfomeado não é um homem livre”[1] e que, por isso, o estado benevolente e assistencialista tem o dever de livrá-lo da inanição e de outras privações. Somente assim ele poderia ser de fato considerado livre.
Esta típica posição do moderno social democrata foi celebremente demonstrada por Sir William Beveridge em sua defesa de um estado assistencialista britânico:
Liberdade significa mais do que ser livre do poder arbitrário dos governos. Significa ser livre economicamente da servidão da penúria e da miséria e de outras desgraças sociais; significa ser livre do poder arbitrário, qualquer que seja a sua forma. Um homem esfomeado não é livre porque, até que ele seja alimentado, ele não conseguirá pensar em nada que não seja em como satisfazer suas urgentes carências físicas; ele é rebaixado de homem a animal. Um homem que não ouse mostrar seu ressentimento contra aquilo que considera ser uma injustiça da parte de seu empregador ou chefe, por medo de ser condenado ao desemprego crônico, não é um homem livre.[2]
Este conceito combina dois tipos bem diferentes de liberdade: a liberdade contra a coerção de outros homens e a liberdade de se abster da obrigação pessoal de ter de satisfazer as próprias necessidades básicas de sobrevivência. Apesar de serem apresentados como dois requisitos paralelos para que haja liberdade, eles são, na realidade, mutuamente excludentes. A partir do momento em que o homem passa a existir, ele terá necessidades materiais; e a única maneira pela qual ele pode fugir da responsabilidade pessoal de satisfazer essas necessidades é impondo essa responsabilidade sobre outros. Se essa imposição for voluntariamente empreendida por terceiross, então tanto o libertário como o social democrata moderno estão de acordo — ambos aprovam a caridade voluntária.[3] Mas isso não é o que os social-democratas modernos propõem. Ao contrário, eles impõem essa tarefa de ajudar os necessitados fazendo uso da força da lei — tudo sob os auspícios do estado assistencialista. Sob esse sistema, todos são forçados a contribuir com o custo de suprir as necessidades, ou as supostas necessidades, dos outros.
Apesar de qualquer retórica ao contrário, este estado assistencialista estabelecido pelos modernos social-democratas não faz nada para apaziguar a contradição entre a liberdade contra a coerção humana e a liberdade em relação à natureza — ele simplesmente sacrifica a primeira tentando obter a segunda.
Liberdade em relação à “servidão econômica” e os “poderes arbitrários” da natureza
Todos os seres vivos devem se empenhar em ações de auto-sustentação se quiserem sobreviver. Tudo o que se requer é que haja comida suficiente para se evitar a fome, e proteção contra os aspectos mais severos da natureza para se evitar o extermínio — todos têm de comer, beber e dormir. Essa é a “servidão econômica” a que Sir Beveridge se refere. A liberdade que ele e outros social-democratas modernos almejam é a liberdade em relação ao próprio corpo, a liberdade em relação à natureza. As exigências do nosso sistema digestivo, do nosso coração, do nosso cérebro, dos nossos pulmões são os “poderes arbitrários” dos quais devemos ser “libertados” — libertados, nesse caso, significa coagir outros homens, que são roubados e escravizados para satisfazer às necessidades impostas por nosso organismo.
O homem esfomeado realmente precisa de comida — isto é, se ele não ingerir comida suficiente para sustentar seu próprio corpo, irá morrer rapidamente. Essa é a natureza do seu corpo — nenhuma outra pessoa impõe essa necessidade sobre ele. O homem esfomeado nunca estará livre da natureza do seu próprio corpo, mesmo vivendo sob o assistencialismo estatal. Essa é uma questão metafísica, e não uma de filosofia política. Mas o esfomeado deveria sempre estar livre da coerção de outros homens. Ele deveria ser livre para obter comida através de trocas voluntárias com outras pessoas. Se ele for incapaz de oferecer qualquer coisa de valor em troca, então ele deveria ser livre para confiar na caridade voluntária. Mas não se deve permitir que ele roube ou escravize outros homens para poder satisfazer suas necessidades. Da mesma forma que não se deve permitir que outros roubem e escravizem para benefício do esfomeado. Todos têm o direito de estar livre de agressões.
Se é para levarmos a sério este princípio da não-agressão, então devemos reconhecer suas implicações lógicas e ser honestos em relação a essas implicações. Devemos reconhecer que esse princípio nos deixa sem qualquer garantia firme de que seremos alimentados, banhados, vestidos e alojados em qualquer tipo de moradia. Devemos reconhecer que se formos incapazes de obter nossas necessidades básicas através da nossa própria iniciativa, então teremos que contar com a assistência voluntária de outros. Se formos incapazes de convencer esses outros a suprir nossas carências mais básicas, então a liberdade que eles têm contra a nossa coerção pode significar que iremos morrer. Essa pode parecer uma posição insensível, mas é bem mais humana do que ter um estado assistencialista, que escraviza todos os homens por todo o tempo em que estiverem vivos.
E mais ainda: por maior que seja o entusiasmo com que os defensores do estado assistencialista fazem suas hipócritas exposições sobre o alegado “direito” à alimentação, à moradia, à saúde etc., eles têm de aceitar que, em dado momento, uma pessoa será deixada à morte por escassez de recursos — pelo simples fato de que comida, habitação e cuidados médicos são recursos escassos, o que significa que não seria possível prolongar a vida de cada indivíduo ao máximo desejado. Mesmo que todos empenhassem os seus esforços para prolongar a vida daqueles que estão atualmente vivos, é necessário entender que o esforço para prolongar algumas vidas por meio do consumo de recursos escassos inevitavelmente significaria que esses recursos não mais estariam disponíveis para prolongar a vida de outros. Tagarelices piedosas do tipo “nenhuma quantia de dinheiro vale uma vida” não evitam esse fato — servem apenas para massagear o ego daqueles que querem ter uma desculpa para poder desperdiçar recursos ajudando aqueles que lhes são mais importantes, em detrimento daqueles que não são.
A fome sob o Capitalismo e o Socialismo
Conquanto tenhamos de aceitar o fato de que algumas pessoas — particularmente aquelas que já são velhas ou que estejam seriamente adoentadas — irão morrer em um dado momento devido à falta de cuidados ou de recursos, a probabilidade de uma pessoa saudável morrer de fome ainda é bastante improvável. Essa é uma probabilidade que só existe na demagogia dos estatistas adeptos do assistencialismo, mas não no mundo real do capitalismo de livre mercado.
O histórico real do sistema de capitalismo de livre mercado (ou melhor, do sistema de relativo capitalismo de livre-mercado, já que um verdadeiro capitalismo de livre mercado jamais existiu) mostra que esse é o único sistema que permitiu uma enorme prosperidade material conjugada com um setor caritativo voluntário e abundante.[4]
E na verdade, algumas das maiores organizações de caridade do Ocidente que existem hoje foram fundadas no século XIX, durante o apogeu do capitalismo de livre mercado.[5] Desde então, o crescimento do estado assistencialista praticamente aniquilou a caridade privada e fez maciços estragos na ética caritativa.
Apesar de ainda haver apelos polêmicos para que se ajude os esfomeados, essa tática é atualmente mais engodo do que realidade. Poucos realmente crêem que haja qualquer indício de fome em relação aos “pobres” daqueles países ricos que se beneficiaram do capitalismo de livre mercado.[6] Aliás, o maior problema enfrentado pelos “pobres” nos países ocidentais é a obesidade mórbida, e não a inanição.
Apelos contínuos para que se satisfaçam as alegadas “necessidades básicas” dos mais “pobres” não são nada mais do que estratagemas para se criar irreversíveis programas de redistribuição de riqueza em larga escala.
A prosperidade material inerente ao capitalismo de livre mercado apresenta-se em total contraste à pobreza inerente àqueles países que abriram mão da liberdade contra a coerção, e que adotaram idéias impraticáveis que pregavam a liberdade em relação às necessidades da natureza. O que acabou ocorrendo nesses casos foi a fome em massa, incluindo a inanição ocorrida em países sob governos socialistas que arrogavam a si próprios a abrangente tarefa de suprir as necessidades das pessoas.[7]
O contexto é ignorado para que se possa omitir discussões sobre a responsabilidade pessoal
Começar qualquer argumentação pela hipótese de que um homem está esfomeado é um exemplo clássico de como se ignorar o contexto da situação. Afinal, só para começar, como ele foi parar nessa terrível situação? Sob um ambiente de capitalismo de livre mercado, a lei das vantagens comparativas e a divisão do trabalho asseguram que ele sempre estará apto a realizar alguma tarefa valorosa com uma eficiência relativamente maior do que a de outras pessoas. A ausência de interferência governamental no mercado de trabalho garante que ele estará apto a obter trabalho nas áreas em que tem alguma vantagem comparativa, se ele assim o desejar. E o constante aperfeiçoamento da eficiência da produção capitalista assegura que seu salário aumentará ao longo do tempo, e os preços dos bens e serviços básicos irão cair, permitindo que ele se beneficie dos níveis de prosperidade cada vez maiores.
Para o ínfimo número de pessoas genuinamente incapazes de executar qualquer trabalho produtivo em um nível capaz de sustentar suas próprias necessidades básicas — tais como aquelas com sérias deficiências físicas ou mentais –, sempre houve uma ampla oferta de caridade voluntária oferecida por muitas outras pessoas que prosperaram sob o capitalismo. O perigo de essa oferta de caridade se tornar indisponível é aumentado pelos esforços conjuntos de estatistas assistencialistas com o intuito deliberado de confundir a genuína caridade voluntária com a falsa caridade fornecida pelo governo ou por agências financiadas pelo governo. Essa fraude levou algumas pessoas a associar caridade com estatismo (como era a intenção) e, por isso, a rejeitar ambos (o que não era a intenção).
A desonestidade dos estatistas assistencialistas
Esse cândido reconhecimento da contradição entre liberdade, coerção e assistencialismo estatal é mais do que se pode esperar dos defensores do estado assistencialista. A maioria deles não se contenta apenas em admitir sua preferência pelo assistencialismo estatal ao invés da ausência de coerção. Eles também querem encobrir a natureza coerciva de toda a ação governamental. Como um exemplo característico desta postura fraudulenta tem-se a maliciosa declaração de Sir Beveridge, “A liberdade significa mais do que apenas livrar-se do poder arbitrário dos governos”[8] De fato, a “liberdade” concebida por Sir Beveridge e outros estatistas assistencialistas não significa de maneira alguma livrar-se do poder arbitrário dos governos. Significa exatamente o oposto: que as pessoas devem ser sistematicamente escravizadas por seus governos com o intuito de poder fornecer uma sempre crescente lista de bens e serviços àqueles que o governo considera dignos de recebê-los.
Devido à ausência de qualquer genuína possibilidade de inanição nos países desenvolvidos e na maioria daqueles em desenvolvimento, torna-se evidente a falsidade dos apelos de ajuda aos esfomeados. No moderno estado assistencialista, o governo não fornece apenas as necessidades mais indispensáveis para o sustento básico. Além de fazer isso, o estado também se envolve em políticas de redistribuição de riqueza em larga escala, permitindo que os beneficiários deste sistema vivam muito além da mera subsistência,[9] utilizando recursos que foram sistematicamente pilhados dos outros cidadãos.
Para ser bem claro, isso não significa de maneira alguma que se está dizendo que os beneficiários do assistencialismo levam vidas opulentas.[10] Porém, opulência e subsistência são dois padrões muito diferentes; e se os assistencialistas escolherem utilizar os argumentos que defendem a política assistencialista como meio de mera subsistência — como os apelos à suposta falta de liberdade inerente ao esfomeado –, então eles devem se manter nesse padrão. Trata-se de uma fraude enorme quando os assistencialistas impõem redistribuição em massa de riqueza como meio de combater a suposta fome, pois a fome, nesse caso, claramente não é o motivo dessa política. Por mais pobres que os beneficiários das políticas assistencialistas sejam em relação à população geral, eles claramente não estão correndo perigo de inanição.
Mesmo aceitando a imagem do esfomeado como um útil experimento mental, a afirmação de que sua fome anula sua liberdade é insustentável. Em uma sociedade livre — isto é, uma sociedade que não aceite a coerção governamental — ele teria várias oportunidades de satisfazer suas carências no livre mercado. Se ele for genuinamente incapaz de fazê-lo, ele achará um grande número de pessoas mais prósperas dispostas a ajudá-lo voluntariamente. Nesse alegado esforço de nos livrar da “servidão econômica” e de satisfazer nossas carências mais básicas de sobrevivência, o moderno estado assistencialista — a materialização da filosofia dos social-democratas modernos — tem tido mais sucesso em criar dependência do que em criar opulência. Ao escravizar todos os indíviduos ao governo nessa pungente e infindável batalha de suborno político, a única meta atingida pelo estado foi a erosão da ética e dos incentivos que nos levam a cuidar de nós mesmos e dos outros.
[1] Ocasionalmente ouve-se também a versão mais forte, que diz que “o faminto não é livre”. Para os propósitos deste artigo, iremos utilizar a versão mais leve, o que logicamente também irá permitir lidar com a mais forte.
[2] Beveridge, W. Why I am a Liberal (Herbert Jenkins: London, 1945), p. 9.
[3] Apesar do fato de que muitos social-democratas modernos tendem a considerar a caridade como sendo algo aviltante para o donatário, seja porque acreditam que o donatário já tem um “direito” à sua assistência, ou porque acreditam que, na ausência de alguma garantia de sobrevivência, o donatário está sendo forçado a uma relação de subordinação ao doador.
[4] O campo da política mostra um infeliz sinal de degeneração intelectual ao ter que usar o redundante conceito de caridade voluntária.
[5] Por exemplo, a Sociedade São Vicente de Paulo foi fundada em
[6] Escrevo “pobres” entre aspas porque as pessoas mais pobres dos países ricos são de fato tremendamente ricas em comparação à maioria das pessoas em todo o mundo, tanto historicamente como na atualidade. Mesmo o trabalhador mais servil ou qualquer um desempregado nos países ricos atualmente desfruta de um estilo de vida de absoluta opulência comparado às condições vividas pela maior parte da humanidade, historicamente — eles estão longe de estar passando fome. De fato, elas são pobres apenas em comparação às outras pessoas de países ricos que são ainda mais ricas.
[7] Por exemplo, em 1932-1933 o governo da União Soviética intencionalmente matou de fome cinco milhões de camponeses ucranianos. Durante o “Grande Salto Adiante” o governo chinês matou de fome vinte e sete milhões de chineses, o maior caso de morte por inanição da história da humanidade. Ver Rummel, R.J. Death by Government (Transaction Publishers: New Brunswick, 1994), pp. 80, 97.
[8] Beveridge, W. Why I am a Liberal (Herbert Jenkins: London, 1945), p.
[9] Ocasionalmente ouve-se defensores do assistencialismo falando sobre pessoas vivendo “abaixo dos níveis de subsistência”. Esses estatistas precisam de um dicionário, não de um palanque na mídia.
[10] Comparando-se com a população geral do mesmo lugar e da mesma época, certamente que não. Mas, com certeza, quando comparadas às condições históricas em que a maioria das pessoas viveu no decorrer da história, pode-se dizer que sim.
Não consigo imaginar uma maneira de parar esse carro desgovernado chamado “assistencialismo”. Quem desfruta da distribuição não quer sofrer com altos impostos, mas não pode viver sem o benefício. Eles estão presos a uma faixa de renda sem forma de sair da mesma.\n\nUm grande desastre está se formando.
Estado, chamo eu, o lugar onde todos, bons ou malvados, são bebedores de veneno; Estado, o lugar onde todos, bons ou malvados, se perdem a si mesmos; Estado, o lugar onde o lento suicídio de todos chama-se – ‘vida’!\nNIETZSCHE, F., Assim falava Zaratustra
Enquanto as iniciativas privadas ou individuais não sobrepujarem os resultados de ação caritativa realizada pelo Estado, reconhecidamente aqui realizada de forma coerciva, dificilmente se terá argumentação o suficiente para colocar fim a esta realidade, pois se o autor afirma que um incapaz “achará um grande número de pessoas mais prósperas dispostas a ajudá-lo voluntariamente” é certo que ele se refere a um país desenvolvido e não à realidade brasileira ou latino-americana, onde é muito fácil encontrarmos pessoas nas ruas de qualquer cidade solicitando auxílio para satisfação de suas necessidades básicas como alimentação, abrigo e sanidade física.
Francis, mas o brasileiro é ou não um povo caritativo e generoso? Se sim, o texto é válido. Se não, então a forçosa ação estatal só faria piorar as coisas, criando ainda mais ressentimentos e rancor. Eu, por experiência prática, fico com a primeira hipótese.
Olá Leandro! Obrigado pela interação e parabéns pelo trabalho desenvolvido até aqui. Intento ir ao seminário em POA e se tudo der certo, seria uma alegria poder conhecê-lo pessoalmente.
Fraterno abraço!
Obrigado, Francis! A alegria será minha. Cordial abraço!
Infelizmente não foi possível ler todo o trabalho, devido a completa discordância ideológica, pois me considero um adepto de ideais libertários sim, porém, sou um social-democrata também. Jamais me considerei como um pró-ditadura, creio que o capitalismo nos ajudou a evoluir tecnologicamente e também entendo que devemos, sem dúvida, manter tal sistema, com a livre iniciativa e a propriedade privada, mas para isso é indispensável um Estado Democrático de Direito. Por outro lado, a sociedade e o Estado só se justificam enquanto promotores do bem-estar comum e universal, fundamentados em um pensamento ocidental-cristão e na solidariedade humana. Portanto, sem dúvida, acredito que essa sociedade, seja através de nobres atos voluntários ou de programas sociais impostos pela lei e de responsabilidade estatal, tem a obrigação sim de garantir o mínimo para a existência digna de quem quer que seja. Nós, enquanto ocidentais-cristãos, fundados no amor ao próximo, principal mandamento de Cristo, jamais poderíamos admitir que vigorasse uma lógica fria de aceitar apenas e tão somente o voluntariado como meio de socorrer a quem precise. Sem que isso signifique, como afirmado, escravização de quem quer que seja, afinal todo e qualquer sistema tem regras que orientam o jogo. O próprio mercado é assim. Portanto, a exigência moral e cultural da solidariedade não pode ser afastada sob pena de infirmar o próprio significado da vida do homem em sociedade que, conceitualmente, já limita a liberdade plena do homem animal existente na natureza. Caso contrário, não poderíamos condenar ou, ao menos, não haveria legitimidade para esta mesma sociedade condenar que o faminto matasse seu concidadão para saqueá-lo ou mesmo canabalizá-lo, afinal, estaria saciando sua fome, uma necessidade natural de seu corpo como afirmado no trabalho. Porém, justamente devido ao fato que vivemos em sociedade e, portanto, temos nossos direitos e nossas obrigações e, consequentemente, limitações em nossas liberdades é que não é lícito deixar um homem morrer à míngua, nem tampouco que se admita um ato de violência para se auto-sustentar. Afinal, a sociedade e o Estado devem garantir o bem-estar comum, o que não significa dizer que se garantem, via assistencialismo, a riqueza ou ascensão de quem quer que seja, isso vai depender do esforço individual do interessado. \nLogo, caro Leandro, discordo veementemente, das bases argumentativas do Sr. O´Neill, ao menos das quais consegui ler sem me repugnar.
Sandro,
um liberal social democrata? A mim soa, igualmente como se diz em referência ao “socialismo de mercado”, como “círculo quadrado”.
Devo também considerá-lo um ignorante. Não acho que deveria opinar sobre algo que não lês.
Quanto ao tema, a caridade coercitiva perde o sentido de caridade propriamente, o sentido de bondade das pessoas,e torna-se um fardo. A “sociedade” (ente amorfo) está fazendo um bem, mas na verdade ninguém vê para onde vai o dinheiro que lhe foi confiscado, sem falar nos trâmites burocráticos desnecessários e nem sempre corretos como deveriam. A caridade espontânea, por sua vez, é verificável pelo indivíduo, por ser direta, e pelo mesmo motivo prescinde de mais complicações estatais.
E há também o ponto de que o Estado tende a crescer, e como citado no texto (que alguns preferem não ler) ultrapassar em muito as necessidades básicas a título de “combater a fome”. Sempre gerando mais burocracia e desperdício.
Prezado Sandro, obrigado pelo comentário.
Apenas digo o seguinte: tanto você quanto eu temos a responsabilidade pessoal de ajudar um destituído. Mas eu não tenho o direito de roubar de você só porque há pessoas precisando da sua ajuda. Você tem a obrigação moral e pessoal de ajudá-las; mas eu não tenho o direito de interferir nos seus direitos, roubar de você e entregar o roubo para alguém na rua, mesmo que esse alguém esteja em sérias privações.
Portanto, “a obrigação de garantir o mínimo para a existência digna de quem quer que seja”, como você disse, é algo que tem de partir do indivíduo, e não de um aparato institucionalizado de coerção.
Jesus nunca aprovaria o roubo travestido de caridade – como aliás não se nota passagem alguma na Bíblia autorizando tal tipo de comportamento.
Abraços.
“Jesus nunca aprovaria o roubo travestido de caridade – como aliás não se nota passagem alguma na Bíblia autorizando tal tipo de comportamento.” Leandro, parabéns, você conseguiu compilar a solução ao problema da adesão tautócrona ao libetarianismo e cristianismo.
Não existe um erro de tradução grave no início do texto?
No original O’Neill escreve: “This conception of liberty conflates two very different types of freedom: freedom from coercion by other men and freedom from the personal requirement of satisfying our own basic survival needs.”
Não compreendi a tradução: “Este conceito combina dois tipos bem diferentes de liberdade: a liberdade contra a coerção de outros homens e a liberdade de se abster da obrigação pessoal de ter de satisfazer as próprias necessidades básicas de sobrevivência.”
Ao final deste trecho o autor escreve: “Despite any rhetoric to the contrary, this welfare state established by modern “liberals” does nothing to reconcile the contradiction between freedom from men and freedom from nature – it merely sacrifices the former in an attempt to obtain the latter.”
Mas a tradução interpretou: “Apesar de qualquer retórica ao contrário, este estado assistencialista estabelecido pelos modernos social-democratas não faz nada para apaziguar a contradição entre a liberdade contra a coerção humana e a liberdade em relação à natureza – ele simplesmente sacrifica a primeira tentando obter a segunda.”
No primeiro trecho, o autor não fala em “liberdade de se abster” e no segundo trecho ele não fala de coerção.
Celeti, freedom from the personal requirement é igual a liberdade de se abster da obrigação pessoal. Não há erro aí.
E freedom from men é igual a liberdade contra a coerção humana. Traduzi assim porque se fosse traduzir ao pé da letra ficaria liberdade em relação aos homens, algo que soaria um tanto estranho.
Pode observar que não há erro algum.
Leandro:
“Liberdade da obrigação” ou “liberdade de se abster da obrigação”? É esta a minha dúvida.
Se for o segundo caso, como você traduziu, não anularia o sentido da frase?
“Liberdade da obrigação” e “liberdade de se abster da obrigação” são exatamente a mesma coisa. Optei por traduzir da segunda maneira pois esta deixa o sentido mais claro.
Observe que, ao contrário, não só não há uma anulação do sentido da frase, como ela fica mais clara:
“liberdade contra a coerção de outros homens” significa que ninguém pode iniciar violência contra você. E “liberdade de se abster da obrigação pessoal de ter de satisfazer as próprias necessidades básicas de sobrevivência” significa que você quer que os outros provenham suas necessidades.
Obviamente, como diz o autor, essas são duas coisas contraditórias.
Leandro, tenho uma dúvida.
Conheci só recentemente a Escola Austríaca e achei fantasticamente lógico o encadeamento de argumentos feito pelos teóricos.
Contudo, tenho uma dúvida. Um filho de uma família rica, que tem, em tese, acesos às melhores escolas e condições de alimentação estaria na frente de um filho de família pobre que parte de grupo menos capitalizado.
Aqui não haveria uma subversão da lógica do mérito?
Desculpe se a pergunta é ignorante, mas é uma dúvida que me surgiu lendo os textos.
Aproveitar o artigo pra dizer que, ao contrário do que a grande maioria diz, acho MUITO mais fácil mudar na cabeça das pessoas conceitos econômicos de um Welfare State (Fascismo Econômico) do que conceitos morais dos Fascista Morais.
Acho que o “Estado deus salvador” como o único que pode salvar a moral ta mais enraizado nas nossas cabeças (tanto que existem mais libertários Minarquistas do que Anarco – eu acho) do que um “Estado deus salvador” no campo econômico e de propriedade privada.
Há sempre como argumentar que os EUA, e um penca de país desenvolvido, só ficou rico por causa da liberdade econômica. Mas o medo de uma sociedade anarquista (ou “não-anarquistas”- não-estatistas) faz as pessoas morrerem de medo, não só conservadores, mas até libertários.
Trata-se de um embuste através do uso fraudulento da semantica.
Liberdade é uma palavra que traz em si um conceito positivo já cristalizado e portanto, dizer-se contra ela é algo um tanto repulsivo às pessoas de algum bom senso.
Assim, para não se dizerem avessos à liberdade (sobretudo alheia) tentam nublar o entendimento do que estão falando com sofismas e idiotices verborrágicas sem sentido algum, alterando desavergonhadamente o sentido das palavras para nelas colar um conceito negativo, positivo ou relativo.
É uma técnica intuitiva. Uma safadeza intelectual.
Assim afirmam que um pobre não tem liberdade e portanto defender que se não o tire da pobreza é priva-lo de seu direito a liberdade. Não mencionam que precisam violar ou impedir a liberdade alheia para “dar liberdade” ao pobre. É algo canalha, mas para quem admite a violação do legitimo direito alheio, isso é só o seu modus vivendi gracioso.
Gostei da idéia do monumento! Barbieri rocks!
Os dois tipos de liberdade aos quais o artigo se refere são a liberdade negativa e a liberdade positiva. Na liberdade negativa, ninguém pode nos impedir de efetuar uma ação (como a liberdade de ir e vir). Na liberdade positiva, teríamos o direito de fazer algo e nós ou alguém teria que arcar com os custos (como o direito ao transporte).
Se eu for arbitrariamente impedido de visitar outra cidade, minha liberdade negativa está sendo desrespeitada. Se ninguém me impede, mas eu não tenho recursos para isso, minha liberdade negativa está sendo respeitada. Se eu não tenho o dinheiro, mas tenho o direito de ir (liberdade positiva), outras pessoas terão que me financiar.
Esquerdistas amam fazer caridade… com o dinheiro de terceiros.
Se alguém é realmente incapacitado, ele precisa de ajuda. Mas quem possui a capacidade de fazer algum trabalho em troca dos benefícios que recebe, deve fazê-lo. E se os brasileiros pagassem menos impostos, poderiam ajudar e com certeza ajudariam bem mais os necessitados, sem coerção.
* * *
Apesar de achar o assistencialismo uma das ideologias mais daninhas, é problemático achar que caridade e livre mercado vão criar justiça e condições dignas de vida para todos. O problema desta ideologia é que na prática, o liberalismo é darwinismo social e dita a lei do mais forte e não do mais ético. E a própria história nos demonstra que esperar que não haja ganância, desonestidade e injustiça em quaisquer sistema é utopia. Não vejo este como pior do que as utopias socialistas, mas qualquer sistema sem mecanismos de controle e correção das injustiças que fatalmente ocorrerão é perigoso e benefecia poucos em detrimento de muitos. Colocar (na prática e não no discurso) que um faxineiro, pedreiro e o “chão de fábrica” é inapto e por isso merece viver sem direito a saúde, educação e outros direitos básicos é muito mesquinho, insustentável e daninho para todos a longo prazo.
“…a probabilidade de uma pessoa saudável morrer de fome ainda é bastante improvável…”
Legal !
Não morrem pessoas de fome e desnutrição em muitos países da África !
Quanto às possibilidades de subsistência, muitas são indignas. E a função do Estado é também considerar aspectos éticos e morais, entre eles, a sobrevivência das pessoas. Afastar a questão moral da responsabilidade do Estado (inclusive, a moralidade é um princípio constitucional) ou afastar a moralidade dos problemas econômicos, torna essa ciência meramente utilitarista.
Mas quando esse utilitarismo da economia, e mais, do Estado, serve para garantir o lucro de empresas ou manter o status quo social de poucos, daí ninguém questiona.
Rei Carlos
Você fala em chavões, mas ao falar das colonizações, incorre em um absurdo chavão.
Basta me dizer se o processo de colonização promovido no Canadá foi igual à colonização da América Latina, por exemplo.
E segundo: parece que você não foi capaz de distinguir a diferença entre colonização e imperialismo. Imperialismo que ainda está presente na África !
Ninguém está duplipensando, Magno. Apenas usando o bom senso e vendo o óbvio ululante que as colonizações não foram todas iguais.
Para responder sobre a Austrália, basta ler o parágrafo acima. Não se trata de emitir juízo qualitativo de valor, de dizer que a colonização é boa ou ruim de forma absoluta. Basta ter bom senso e entender as diferentes formas de colonização e o quanto cada uma delas favoreceu o desenvolvimento ou evitou a formação de oligarquias como no Brasil.
FICA OUTRO DESAFIO: me diga quais países passaram pela colonização de povoamento e hoje são desenvolvidos e quantos e quais passaram pela colonização de exploração, com forte pacto colonial e hoje são desenvolvidas, caro Magno.
Sou a favor do livre mercado total, mas me digam, se não for incomodo, como haveria empregos para pessoas com baixa instrução, com condições fisicas, sendo que constantemente o mercado está se mecanizando e evoluindo?