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Um argumento Rothbardiano contra más políticas de data centers

Os data centers de Inteligência Artificial (IA) estão rapidamente se tornando uma das grandes questões políticas do momento.

Esses grandes galpões repletos de servidores de computador responsáveis por processar, armazenar e distribuir informações digitais não são novidade. Eles já são uma parte predominante da infraestrutura digital mundial desde que a internet — e, especialmente, o armazenamento em nuvem e o processamento remoto — se tornaram onipresentes na vida moderna.

No entanto, os avanços repentinos e extremamente produtivos das ferramentas de IA voltadas ao consumidor e amplamente acessíveis para uso profissional nos últimos anos elevaram a demanda por capacidade de processamento — uma demanda que, ao que tudo indica, continuará aumentando ainda mais no futuro próximo.

Isso levou empresas de IA e companhias intermediárias a correrem para construir novos data centers. O problema, evidentemente, é decidir onde instalá-los. A IA generativa exige uma enorme capacidade computacional. Os novos data centers voltados para IA tendem a ser muito grandes — abrigando milhares de servidores baseados em unidades de processamento gráfico [as chamadas GPUs na sigla em inglês] — e demandam grandes quantidades de eletricidade para alimentação energética e água para evitar o superaquecimento dos computadores.

As exigências técnicas e espaciais de um edifício que abriga milhares de servidores de computador também praticamente garantem que ele será visualmente desagradável. Além disso, muitos moradores das proximidades relatam que o ruído constante e a iluminação emitidos por esses data centers podem se tornar um incômodo.

Em todo o país, novos projetos de data centers vêm enfrentando forte oposição de moradores locais que detestam a forma como esses grandes edifícios alterarão seus bairros e temem que um aumento acentuado na demanda por eletricidade faça disparar suas contas de energia.

De fato, segundo uma nova pesquisa da Gallup divulgada recentemente, 71% dos americanos se opõem à construção de data centers em suas comunidades locais.

Presumivelmente, então, a solução seria construir data centers em áreas remotas, longe de regiões residenciais que possam ser incomodadas por eles. No entanto, a maior parte das terras nos Estados Unidos remotas o suficiente para se enquadrar nessa categoria está localizada no oeste do país, onde as temperaturas frequentemente são elevadas e o abastecimento de água disponível já representa um problema urgente.

Por exemplo, um plano para construir um dos maiores data centers do mundo em um vale remoto no oeste de Utah está enfrentando forte oposição de moradores do estado, que apontam preocupações sobre como a instalação afetaria o já sobrecarregado abastecimento de água da região.

Ambientalistas também se uniram à oposição ao empreendimento, que eles enxergam como uma enorme infraestrutura de alto consumo energético cobrindo belas paisagens naturais do país enquanto drena nascentes, córregos e aquíferos próximos.

E ambos os grupos receberam o apoio do crescente movimento de neoluditas, que querem que o governo desacelere, interrompa ou reverta a adoção da IA devido a várias preocupações sobre como essa tecnologia afetará o mercado de trabalho, a democracia e a sociedade em geral. Essas pessoas podem realmente concordar com as pessoas conhecidas como adeptas do movimento NIMBY [da sigla em inglês para Not In My Back Yard — ou “no meu quintal não!”, em tradução livre — grupo de moradores de bairros que se opõem a construções de prédios e ao adensamento urbano no geral na vizinhança] ou com os ambientalistas. Mas, para elas, a principal motivação decorre do fato de que bloquear a construção de data centers é uma maneira muito eficaz de impor fortes restrições ao desenvolvimento da IA.

Muito já foi escrito sobre as falhas e as falácias que levam muitas pessoas a acreditar que a IA desencadeará um apocalipse do emprego que deixará todos — exceto uma pequena parcela da população — muito mais pobres. Também existem razões para esperar desdobramentos políticos positivos à medida que a IA começar a automatizar exatamente o tipo de trabalho administrativo, burocrático e de escritório que define a chamada classe gerencial e tornou suas posições necessárias. E a ameaça ambiental representada pelos data centers é frequentemente exagerada por projeções infladas baseadas em formas anteriores e menos eficientes da tecnologia, que hoje já estão obsoletas.

Onde a oposição aos data centers possui alguma legitimidade, contudo, é justamente na frente NIMBY.

Existe a percepção de que a posição libertária ou favorável ao livre mercado nessa questão é a de que as comunidades devem aceitar a construção de data centers gigantescos literalmente ao lado de suas casas porque os incorporadores têm direito à sua propriedade privada e porque essa infraestrutura seria excelente para a eficiência econômica. Mas, ao menos quando se trata da posição rothbardiana, a questão é um pouco mais complexa.

Rothbard publicou um longo ensaio em 1982 que buscava estabelecer a posição libertária correta, baseada em direitos de propriedade, sobre a poluição do ar. O fato de proprietários legítimos poderem emitir partículas nocivas transportadas pelo ar — ou até mesmo excesso de luz e barulho — que afetam negativamente proprietários vizinhos é há muito tempo apontado como uma falha em qualquer teoria de direitos de propriedade absolutos que justifique, ou até mesmo exija, a intervenção governamental.

No ensaio, Rothbard desmonta completamente esse argumento e demonstra que um sistema baseado em direitos de propriedade absolutos e ética libertária lidaria com a poluição do ar muito melhor do que nosso arranjo político atual.

Mas, embora grande parte do ensaio se concentre na emissão de substâncias químicas nocivas que causam danos físicos e destruição de propriedade — algo que Rothbard considera um crime que justifica a cobrança coercitiva de restituição, desde que haja comprovação além de qualquer dúvida razoável — ele também dedica parte do texto à poluição sonora e luminosa.

Obviamente, é irracional e totalmente irrealista argumentar que todos têm direito a silêncio e escuridão completos e absolutos em relação a todos os seus vizinhos o tempo todo. Contudo, também existe algo como poluição sonora e luminosa excessiva que interfere no uso ou no desfrute que um proprietário faz de sua propriedade, algo que, a partir de certo ponto, não é categoricamente diferente das outras formas injustificadas de poluição sobre as quais Rothbard escrevia.

Para contornar esse aparente dilema, ele recorre a uma aplicação do princípio da apropriação original (homesteading) que possui precedentes na common law.

Imagine que um aeroporto seja construído próximo a uma grande extensão de terra vazia. Os jatos decolando e pousando produziriam muito barulho. Mas essas ondas sonoras estariam se propagando sobre terras desocupadas. O que aconteceria, então, se alguém comprasse ou se apropriasse originalmente de um terreno ao lado do aeroporto e construísse uma casa ali? Esse proprietário poderia depois processar os donos do aeroporto pelo excesso de ruído?

Não, não poderia. Em razão de sua reivindicação anterior, o aeroporto havia se apropriado originalmente do direito de emitir um determinado nível de ruído. E o proprietário da casa, ao escolher entrar em uma situação em que aquele nível de barulho já existia, efetivamente concedeu ao aeroporto um direito de uso para produzir a quantidade de ruído que estivesse gerando no momento em que a casa foi construída.

Contudo, se o aeroporto começasse a aumentar os níveis de ruído além daquilo de que havia se apropriado originalmente, ou se a situação fosse inversa, isto é, se as casas tivessem sido construídas primeiro e o aeroporto surgisse depois, passando a emitir ruídos que interferissem no uso que o proprietário faz de sua propriedade, isso constituiria uma forma de agressão pela qual o dono do aeroporto seria responsabilizado.

O mesmo vale para qualquer outro tipo de poluição. E, em um sistema mais justo do que o atual, o mesmo também se aplicaria a qualquer potencial data center que gerasse níveis excessivos de ruído e iluminação capazes de interferir no uso que proprietários vizinhos fazem de suas próprias propriedades.

Tudo isso serve para mostrar que, embora existam de fato muitas maneiras pelas quais o sistema jurídico atual concede ao governo — ou a coalizões de moradores locais e grupos de interesse que utilizam o governo — a capacidade de bloquear injustamente o desenvolvimento de propriedades privadas de formas que violam direitos e tornam a sociedade como um todo mais pobre, também é perfeitamente possível que parte da oposição à construção de data centers em bairros residenciais e em suas proximidades seja justificável do ponto de vista dos direitos de propriedade.

Mas, além disso, também é importante lembrar que muitos dos problemas que alimentam o debate cada vez mais intenso sobre os data centers decorrem da ausência de forças de mercado.

O fato continua sendo que, como mencionei no início, atualmente existe uma enorme demanda por IA. E isso, por sua vez, se traduz em uma forte demanda por capacidade de processamento. Mas os consumidores há muito tempo deixam claro que preferem que a maior parte do processamento computacional ocorra longe de onde possam ver.

As pessoas querem que sua internet e suas ferramentas de IA funcionem rapidamente em seus laptops e celulares e, portanto, que o processamento pesado exigido por suas atividades digitais aconteça em outro lugar. Isso exige data centers. E, a menos que o governo comece a criminalizar ferramentas de IA ou impor fortes restrições sobre o quanto todos nós podemos utilizar essa tecnologia, esses data centers precisam ser instalados em algum lugar.

O frustrante é que esse problema provavelmente seria resolvido de maneira discreta e relativamente pouco traumática se houvesse um processo de mercado funcional atuando em conjunto com todos os seus diferentes componentes.

Mais uma vez, as pessoas não querem esses data centers dentro ou nas proximidades de seus bairros. E, se existisse um livre mercado total no setor de terrenos, provavelmente seria proibitivamente caro desenvolver grandes data centers em terrenos que poderiam ser utilizados para múltiplas casas ou residências que as pessoas desejariam comprar. O custo de oportunidade seria elevado.

As forças de mercado, especialmente quando fundamentadas em um sistema de direitos absolutos de propriedade, empurrariam os incorporadores para longe dos bairros residenciais e em direção a áreas onde grandes extensões de terra fossem baratas — como regiões próximas a outras instalações “desagradáveis”, mas necessárias, como ferros-velhos, fábricas ou aterros sanitários. Mas o zoneamento governamental atualmente consegue contornar ou distorcer esse efeito.

Áreas mais remotas podem ser uma boa opção para data centers excepcionalmente grandes. Mas também pode ser caro levar água e energia elétrica até esses locais. Determinar se isso compensaria os custos seria algo relativamente simples se existisse um mercado funcional para eletricidade e água. Mas esse não é o caso.

Além do fato de que grande parte das terras desocupadas nos Estados Unidos pertence ao governo — o que significa que seu uso é determinado por autoridades políticas, e não pelos desejos e necessidades dos consumidores finais — o abastecimento de água e energia também é altamente politizado. Isso significa que o custo de alimentar energeticamente e resfriar um data center frequentemente não recai integralmente sobre seus proprietários.

As necessidades de recursos até mesmo dos grandes data centers frequentemente são um tanto exageradas por seus opositores. No entanto, especialmente quando se trata de água, o impacto sentido pelas comunidades vizinhas é real. Mas isso não ocorre por causa da quantidade de água que os data centers necessitam; ocorre porque o governo restringiu a oferta de água disponível ao conceder privilégios monopolísticos e controlar o uso da água. Problemas semelhantes afetam a rede elétrica, cuja dimensão e capacidade são determinadas principalmente por autoridades governamentais, e não pelas necessidades dos consumidores.

Em outras palavras, os efeitos de restrição da oferta e de distorção de incentivos provocados pelo controle governamental sobre terras, água e eletricidade estão na raiz de grande parte dessa controvérsia crescente envolvendo os data centers. E, enquanto o foco público e político continuar concentrado em falsas soluções que ou mantêm essas restrições ou impõem ainda mais delas, os problemas persistirão.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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