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Juros altos não caem do céu: a ilusão desenvolvimentista do crédito barato

Em ano de eleição presidencial no Brasil, a pressão pela redução da taxa de juros volta ao centro do debate econômico. Reaparece a narrativa segundo a qual o crescimento do país estaria sendo sufocado por uma política monetária excessivamente restritiva, conduzida por um Banco Central supostamente “obcecado” por juros elevados. Nesse tipo de interpretação, a desaceleração da atividade econômica, o crédito mais caro e o baixo investimento seriam consequência direta da manutenção da taxa Selic em patamares elevados.

Dentro da tradição desenvolvimentista, essa leitura costuma vir acompanhada da ideia de que o Brasil convive com juros artificialmente altos devido à influência do setor financeiro, ao conservadorismo da autoridade monetária ou a uma preferência institucional por políticas contracionistas. A solução, portanto, estaria na expansão do crédito, no estímulo ao investimento e na redução das taxas de juros como forma de acelerar o crescimento econômico.

O problema dessa interpretação é que ela frequentemente confunde causa e consequência. Juros elevados não surgem do nada, tampouco representam apenas uma decisão arbitrária do Bacen. Taxas de juros refletem risco, expectativas, preferência temporal, credibilidade institucional e percepção quanto à estabilidade futura da economia: juros altos não caem do céu.

Sob a ótica da Escola Austríaca de Economia, a taxa de juros não é apenas um instrumento de política econômica destinado a “aquecer” ou “esfriar” a atividade. Como observava Eugen von Böhm-Bawerk em A Teoria Positiva do Capital, os indivíduos tendem a valorizar mais os bens presentes do que os bens futuros. Abrir mão do consumo imediato para obter recursos apenas no futuro exige compensação. É justamente dessa diferença de valoração entre presente e futuro que emerge a taxa de juros.

Nesse sentido, o juro desempenha uma função coordenadora fundamental dentro da economia, pois sinaliza quanto a sociedade está disposta a poupar, quanto risco os agentes econômicos percebem e quais projetos de investimento parecem sustentáveis ao longo do tempo. O problema surge quando essa sinalização deixa de refletir predominantemente as preferências reais dos agentes econômicos e passa a ser fortemente influenciada pela atuação de um Banco Central capaz de expandir liquidez e manipular artificialmente o custo do crédito.

O problema começa quando essa sinalização é artificialmente distorcida. Ao longo das últimas décadas, o Brasil consolidou um modelo econômico marcado pela forte presença do crédito direcionado, pela expansão subsidiada de financiamentos e pela atuação de mecanismos estatais de estímulo ao investimento. Dentro dessa lógica, instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passaram a desempenhar papel central na concessão de crédito favorecido para determinados setores da economia.

O paradoxo é que parte significativa do pensamento desenvolvimentista brasileiro, ao mesmo tempo em que critica os juros elevados, também defende políticas de expansão artificial do crédito e financiamento subsidiado, sob a crença de que o crescimento econômico pode ser impulsionado pela atuação do estado como indutor do investimento, da atividade produtiva e da expansão econômica. Quando determinados setores recebem financiamento subsidiado, parte da economia se torna menos sensível ao aperto monetário. Enquanto a autoridade monetária tenta conter a inflação e desacelerar a economia por meio da elevação dos juros, outra parcela da atividade continua recebendo estímulos creditícios em condições favorecidas.

Como consequência, a política monetária perde parte de sua eficácia. Para produzir o mesmo efeito de contenção inflacionária, a taxa básica de juros tende a precisar subir ainda mais. Em vez de eliminar os juros elevados, o intervencionismo creditício ajuda a reforçar sua persistência.

A crítica austríaca vai além da simples discussão sobre o nível nominal da taxa de juros. O ponto central está na qualidade dos sinais econômicos produzidos pelo sistema de crédito. Quando o crédito se expande sem correspondente aumento da poupança real, cria-se a aparência de maior disponibilidade de recursos do que efetivamente existe. Juros artificialmente reduzidos podem estimular projetos de investimento que parecem viáveis em um ambiente de crédito abundante e crescimento econômico artificialmente acelerado. No entanto, à medida que a expansão monetária pressiona a inflação e exige a elevação da taxa de juros, muitos desses investimentos revelam-se insustentáveis. O resultado tende a ser a necessidade de correções econômicas, aumento das falências e períodos de recessão.

Nesse contexto, o problema brasileiro não pode ser reduzido à atuação conjuntural da política monetária. A própria estrutura institucional da economia contribui para elevar a percepção de risco e dificultar a redução sustentável dos juros ao longo do tempo. O Brasil carrega um histórico marcado por inflação elevada, moratórias, instabilidade fiscal, mudanças frequentes de regras e insegurança jurídica. Esse passado continua influenciando a forma como investidores, poupadores e agentes econômicos avaliam o risco de longo prazo do país.

A taxa de juros incorpora essa memória institucional. Países considerados mais previsíveis, com histórico de estabilidade monetária e elevada confiança institucional, conseguem financiar suas dívidas a custos menores mesmo quando possuem elevado endividamento público. Já economias marcadas por instabilidade recorrente tendem a enfrentar prêmios de risco mais elevados. Não se trata apenas do tamanho da dívida, mas da confiança na capacidade e na disposição de pagamento do estado ao longo do tempo.

Por isso, juros elevados não representam necessariamente uma “escolha ideológica”, mas frequentemente a precificação de um ambiente institucional mais incerto. Quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser a compensação exigida pelos credores para abrir mão de recursos presentes em troca de pagamentos futuros.

Em vez de enfrentar essas fragilidades estruturais, parte significativa do debate econômico brasileiro prefere tratar os juros como uma variável politicamente manipulável. Em anos de eleição presidencial, cresce a tentação de defender crédito barato, expansão de financiamentos subsidiados e redução forçada das taxas de juros como atalhos para estimular a atividade econômica. O problema é que tais medidas frequentemente atacam apenas os sintomas, sem resolver as causas profundas da instabilidade.

A ilusão desenvolvimentista do crédito barato reside justamente nessa tentativa de gerar crescimento por meio da expansão artificial do crédito, ignorando os sinais reais da economia. Juros estruturalmente mais baixos não surgem de decretos, pressão política ou crédito subsidiado. Eles dependem de estabilidade monetária, responsabilidade fiscal, segurança jurídica, previsibilidade institucional e formação genuína de poupança.

Enquanto essas condições não forem enfrentadas, os juros brasileiros continuarão elevados não por conspiração do mercado, mas porque risco, tempo e incerteza possuem preço.

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3 comentários em “Juros altos não caem do céu: a ilusão desenvolvimentista do crédito barato”

  1. Lietzhel Vierner

    Bem, se os juros a que se referem forem a selic, eles são determinados na caneta!
    O risco de o Estado não pagar a dívida denominada na moeda a qual ele é o emissor soberano é “zero”!
    Mais importante ainda, é que nenhuma dessas condições salva o capitalismo de seu problema fundamental: a queda persistente da mediana das taxas de lucro.

    NÃO HÁ SAÍDA PELA ORDEM CAPITALISTA.

    1. Se pagar dívida fosse só imprimir, Argentina, Brasil dos anos 80 e qualquer país inflacionário teriam resolvido o problema. O Estado emissor pode até evitar calote nominal na própria moeda, mas tentar resolver na canetada não evita inflação, câmbio, perda de poder de compra, e prêmio de risco não existiria. Pagar com moeda desvalorizada também é uma forma de calote.

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