A Escola Austríaca de Economia, gostem os críticos ou não, sempre esteve na vanguarda da história do pensamento econômico como um todo. Nesse sentido, Eugen von Böhm-Bawerk, nascido nesse mesmo 12 de fevereiro, ocupa um lugar central. Como um dos principais expoentes da primeira geração de pensadores da Escola Austríaca – ao lado de Carl Menger e Friedrich von Wieser –, Böhm-Bawerk foi responsável por uma das teorias mais sofisticadas e duradouras sobre capital, juros e tempo na economia.
Sua obra representa um ponto de inflexão teórico no final do século XIX, tanto pela profundidade analítica quanto pela contundente crítica às teorias do valor-trabalho e da exploração, particularmente àquelas oriundas da tradição marxista.
BIOGRAFIA E FORMAÇÃO INTELECTUAL
Eugen von Böhm-Bawerk nasceu em 12 de fevereiro de 1851, na cidade de Brünn, então parte do Império Austro-Húngaro (atual Brno, na República Tcheca). Formou-se em direito pela Universidade de Viena, ambiente intelectual profundamente marcado pela efervescência teórica do final do século XIX. Foi ali que entrou em contato com Carl Menger, fundador da Escola Austríaca, cuja obra Princípios de Economia Política exerceu influência decisiva sobre sua formação.
Foi a partir do contato com Menger que Böhm-Bawerk passou a se afastar das explicações objetivistas do valor e a adotar uma abordagem subjetiva, centrada nas valorações individuais e na utilidade marginal (e esse ponto de partida metodológico moldaria toda a sua produção teórica posterior).
Sua carreira não se limitou ao ambiente acadêmico, Böhm-Bawerk exerceu cargos relevantes na administração pública do Império Austro-Húngaro, chegando a ocupar o posto de Ministro das Finanças em três ocasiões. Essa vivência prática conferiu à sua obra uma preocupação constante com temas monetários, fiscais e institucionais, além de reforçar seu ceticismo quanto a políticas intervencionistas e manipulações artificiais do sistema econômico.
Apesar de suas responsabilidades políticas, manteve intensa produção acadêmica. Seu trabalho mais conhecido, “Capital e Juros”, foi publicado em três volumes entre 1884 e 1912 e consolidou sua reputação internacional. Böhm-Bawerk também teve papel fundamental na formação de novas gerações de economistas austríacos, sendo professor de Ludwig von Mises, que mais tarde levaria adiante, expandiria e aprofundaria muitas de suas contribuições teóricas.
A TEORIA AUSTRÍACA DO CAPITAL: UM GRANDE LEGADO
O núcleo da contribuição de Böhm-Bawerk encontra-se em sua teoria do capital. Para ele, capital não é simplesmente um conjunto homogêneo de bens físicos ou um fundo monetário abstrato. Capital é, antes de tudo, uma estrutura temporal de bens intermediários organizada ao longo do tempo com vistas à produção de bens de consumo futuros.
Essa abordagem rompe com concepções estáticas que tratam capital como um “estoque” indiferenciado. Böhm-Bawerk enfatiza que processos produtivos são necessariamente temporais: bens de consumo não surgem instantaneamente, mas exigem etapas intermediárias que consomem tempo, recursos e coordenação.
Um conceito central nessa teoria é o de métodos de produção indiretos ou roundabout methods. Produções mais longas e indiretas, que envolvem um maior número de etapas intermediárias, tendem a ser mais produtivas fisicamente. Em outras palavras, quanto maior o grau de capitalização de uma economia, maior tende a ser sua produtividade material.
No entanto, esses métodos mais produtivos exigem algo crucial: um tempo de espera. Alguém precisa abrir mão de consumir bens no presente para que recursos sejam alocados em processos produtivos mais longos. Essa renúncia ao consumo imediato é o cerne do processo de formação de poupança e, consequentemente, dos investimentos que culminarão no aumento da quantidade de emprego, produção e renda.
Assim, com uma construção teórica que começa na constituição do tempo e da incerteza na tomada de decisão entre consumir ou poupar, Böhm-Bawerk criou uma teoria sobre o capital e a formação de poupança e consequente enriquecimento da economia através da alocação do risco e a capitalização da sociedade.
POUPANÇA, TEMPO E PRODUÇÃO: A CONSTATAÇÃO GENIAL DE BÖHM-BAWERK
Assim, para Böhm-Bawerk, a poupança não é simplesmente um mero processo de acumulação monetária, mas o direcionamento de recursos reais para usos produtivos que só gerarão bens no futuro. A poupança é, portanto, um fenômeno real, não meramente financeiro e que nos traz a noção clara da relação entre o tempo e a incerteza no processo produtivo.
Essa perspectiva, permitiu aos economistas compreenderem o capital como uma ponte entre o presente e o futuro. Quanto maior a disposição dos indivíduos em poupar, maior a possibilidade de adoção de processos produtivos mais longos, complexos e, portanto, produtivos. O crescimento econômico sustentado então dependeria, nesses termos, da coordenação intertemporal entre as preferências de consumo, poupança e investimento dos agentes –, uma constatação genial, que alterou a forma como víamos a formação e a distribuição do capital no enriquecimento da sociedade.
Por fim, no sentido dessa seção, vale destacar que é dessa contribuição de Böhm-Bawerk que, a frente, residirão as contribuições de Mises e Hayek acerca da importância de analisarmos os desequilíbrios nessa coordenação intertemporal para o estudo da formação dos ciclos econômicos. Ou seja, quando a estrutura de capital é distorcida por incentivos artificiais, especialmente via manipulação da taxa de juros, surgem investimentos incompatíveis com as preferências reais de poupança da sociedade, acarretando em ciclos de boom and bust tão consagrados analiticamente pela Teoria Austríaca de Ciclos Econômicos.
A FAMA POR SUA TEORIA DOS JUROS
Talvez a contribuição mais famosa de Böhm-Bawerk – ainda que eu não considere a mais perspicaz –, seja sobre a sua teoria dos juros. Para ele, os juros não seriam um produto da exploração, nem resultado de simples produtividade física do capital. Os juros decorrem de um fato universal: as pessoas preferem bens presentes a bens futuros equivalentes.
Essa preferência intertemporal, ou seja, a valorização maior do presente em relação ao futuro, explica porque indivíduos exigem um prêmio maior para adiar o consumo presente em relação a um consumo futuro. E é desse prêmio que se dá o juro, ao menos, em sentido abstrato.
Assim, Böhm-Bawerk identificou três causas principais para a formação das nossas preferências intertemporais:
1. Subestimação psicológica do futuro: ou seja, a importância dada ao presente ocorreria pela inerente incerteza com o futuro quando comparado a materialidade do consumo no presente.
2. Diferença de provisão entre presente e futuro: ou seja, a importância de sermos devidamente remunerados para que o futuro seja devidamente atraente em substituição ao disposto, no presente, através do consumo imediato.
3. Maior produtividade de métodos indiretos de produção: embora reconhecesse a importância deste terceiro fator, Böhm-Bawerk insistia que os juros não podiam ser explicados apenas pela produtividade física do capital. Ou seja, mesmo que um investimento fosse altamente produtivo, os juros só existem porque alguém, em algum momento, abriu mão de consumir no presente em prol de um ganho futuro (essa distinção fora crucial para que B6ohm-Bawerk afastasse interpretações mecanicistas dos juros e estabelecesse uma base subjetiva sólida para a sua teoria do capital).
CRÍTICA À TEORIA MARXISTA DA EXPLORAÇÃO: A CONTRIBUIÇÃO DEVASTADORA.
Por fim, no âmbito de suas contribuições teóricas, Böhm-Bawerk tornou-se amplamente reconhecido por sua crítica devastadora à teoria marxista do valor-trabalho e de sua suposta superexploração. Em sua análise, ele demonstra que a alegação de que o lucro capitalista resulta da exploração do trabalhador ignora completamente o papel do tempo e da preferência intertemporal na escolha dos agentes econômicos.
Segundo Marx, o capitalista paga ao trabalhador menos do que o “valor” criado por seu trabalho, apropriando-se do excedente. Böhm-Bawerk rebate esse argumento demostrando que o trabalhador recebe seu salário antecipadamente, enquanto o produto final só será vendido no futuro. O capitalista assume o risco, adianta recursos e lida com a incerteza.
Assim, o lucro não decorre de exploração, mas dessa evidente troca intertemporal: o trabalhador prefere um pagamento imediato menor a um pagamento maior no futuro incerto. O capitalista, por sua vez, aceita esperar e assume o risco correspondente.
Essa crítica revelou uma falha estrutural devastadora na teoria marxista: a ausência de uma teoria consistente do tempo na produção. Ou seja, ao ignorar o caráter intertemporal dos processos produtivos, Marx acabou oferecendo uma explicação incompleta e enganosa sobre lucros, juros e a distribuição do capital produtivo.
A contribuição de Böhm-Bawerk, portanto, contrapôs tecnicamente e com sólida lógica econômica todo o edifício da retórica de superexploração do trabalho sustentado por Marx. Uma crítica contundente e que se provou no tempo, seja pelo sucesso do sistema de produção capitalista, seja pelo fracasso nos experimentos socialistas mundo afora.
LEGADO E IMPORTÂNCIA NO OBSCURANTISMO ECONÔMICO DA ATUALIDADE
O presente e (com o devido pedidos de desculpas) longo artigo, buscou sintetizar o vasto e duradouro legado de Böhm-Bawerk. Uma contribuição secular e que atravessa incólume ao tempo. Sua teoria do capital influenciou profundamente Ludwig von Mises, Friedrich Hayek e toda uma geração de austríacos. Assim, segue sendo referência central em debates sobre crescimento econômico, estrutura produtiva e política monetária.
Em um mundo marcado por taxas de juros artificialmente baixas, expansão monetária e ciclos recorrentes de boom e recessão, as ideias de Böhm-Bawerk permanecem notavelmente atuais. Sua insistência na importância do tempo, da poupança real e da coordenação intertemporal oferece ferramentas analíticas poderosas para compreender os desequilíbrios modernos nas economias desenvolvidas ou não.
Mais do que uma contribuição técnica, Böhm-Bawerk soube integrar teoria, método e realidade institucional. Sua obra continua sendo leitura indispensável para quem deseja compreender os fundamentos da economia de mercado e os limites das intervenções estatais nos juros e nos mercados.
Foi assim que Böhm-Bawerk consolidou uma visão da economia profundamente enraizada no tempo, na ação humana e na escolha intertemporal. Ao desenvolver uma teoria robusta do capital e dos juros, ele forneceu não apenas respostas técnicas, mas uma estrutura conceitual capaz de explicar fenômenos centrais do capitalismo moderno.
Sua crítica à exploração marxista, sua análise sobre a importância da formação de poupança voluntária e sua compreensão do papel dos juros, permanecem como pilares fundamentais do pensamento econômico austríaco.
Para quem deseja livrar-se do pântano das teorias intervencionistas e socialistas; ou mesmo para os interessados em economia política, teoria econômica e história do pensamento, as obras de Böhm-Bawerk seguem sendo uma fonte rica, provocativa e extraordinariamente relevante no debate sobre crescimento e modelos econômicos atuais.
Eu diria que, especialmente no Brasil, ambiente em que pululam teorias que ignoram a importância da formação de poupança voluntária e se disseminam teorias de intervenção nos juros e na estrutura produtiva do país, Böhm-Bawerk deveria ser requisito básico na formação econômica de qualquer um que deseje estudar economia a sério e não por panfletos típicos das ideias marxistas.
Feliz aniversário, professor Bawerk.
Agradeço a oportunidade de ler tão relevante artigo. Sou leigo curioso, ávido por entender como funciona a economia e principalmente ter argumentos para humilhar marxistas.