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Como educar seus filhos

Pelo fato de eu escrever muito sobre política, as pessoas sempre me perguntam qual a melhor maneira de ensinar às crianças como funciona nosso sistema de governo. E eu sempre respondo que elas podem, em suas próprias casas, dar a seus filhos um curso básico de cívica.

Por meio de minha experiência pessoal como pai, fui capaz de descobrir várias artimanhas simples capazes de ilustrar, de maneira facilmente compreensível para a mente de uma criança, os princípios através dos quais o estado moderno lida com seus cidadãos. Creio que esses métodos também serão úteis para você.

Tudo começou na época em que eu costumava jogar com meu filho um simples jogo de cartas chamado WAR. Após algum tempo, depois de ele ter entendido por completo que as cartas mais altas sempre batiam as mais baixas, decidi que era hora de criar um novo jogo. E a esse jogo dei o nome de GOVERNO. Nele, eu era o Governo e, sendo assim, eu sempre ganhava cada embate, independentemente de quem tivesse a melhor carta. Meu filho, é óbvio, rapidamente perdeu todo o interesse por esse novo jogo, mas gosto de pensar que foi exatamente esse jogo quem ensinou a ele uma valiosa lição para todo o resto de sua vida.

Eis como ele funciona.

Quando seu filho já estiver um pouco mais maduro, você poderá ensiná-lo sobre o funcionamento do nosso sistema tributário de uma maneira fácil dele entender. Ofereça a ele, digamos, $10 para lavar o carro. Quando ele tiver terminado de lavar e vier pedir o pagamento, dê-lhe apenas $5 e diga que os outros $5 ficaram como imposto de renda retido na fonte. Dê $1 para o irmão mais novo e diga a seu filho que isso é "justo", pois assim ele estaria "fazendo pelo social". Também diga a ele que você, o Governo, precisa dos $4 restantes para se auto-financiar, isto é, para cobrir os custos oriundos desse "trabalho" de redistribuir o dinheiro. Quando ele chorar e disser que isso é injusto, diga-lhe que ele está sendo "egoísta" e "ganancioso".

Crie o maior número possível de regras e nunca explique as razões por que elas foram criadas. Aplique-as arbitrariamente. Sempre acuse seu filho de quebrar regras sobre as quais você nunca havia lhe contado. Mantenha-o angustiado, temeroso de estar violando ordens que você ainda não expediu abertamente. Inculque nele o sentimento de que regras governamentais são coisas completamente irracionais, mas que, não obstante, devem ser seguidas à risca, sem qualquer tipo de questionamento. Isso irá prepará-lo para viver sob um regime democrático de governo.

Quando seu filho já estiver maduro o suficiente para entender como o sistema judicial funciona, determine um horário para ele ir dormir. E então descumpra o combinado e mande-o pra cama uma hora mais cedo, ameaçando-o com punições caso ele não obedeça. Quando ele lacrimosamente acusar você de estar quebrando as regras, diga a ele que foi você quem as criou e que, por isso, você pode interpretá-las da maneira que mais lhe aprouver, adequando-as sempre às condições que mais lhe forem convenientes. Isso irá prepará-lo para o peculiar conceito de que as leis estatais são regras "sérias, sensatas, democraticamente benéficas e inquestionáveis".

Prometa frequentemente levá-lo ao cinema ou ao parque. Na hora marcada, recline-se confortavelmente numa poltrona e, com um jornal à mão e um charuto na boca, diga-lhe que você mudou seus planos. Quando ele gritar "Mas você prometeu!", diga a ele que aquilo era apenas uma promessa de campanha.

De vez em quando, sem qualquer aviso, dê um tapa no seu filho. Depois explique que isso era apenas uma forma de auto-defesa. Diga a ele que você, o Governo, tem de estar sempre vigilante, a todo e qualquer momento, para evitar que qualquer inimigo em potencial - possíveis questionadores - cresça e se torne uma ameaça capaz de lhe prejudicar. Quanto a isso, também, seu filho lhe será grato. Não naquele momento, mas mais tarde, no decorrer da vida.

Em alguns momentos seu filho irá naturalmente expressar descontentamento com seus métodos. Ele pode até mesmo vocalizar o petulante desejo de querer viver com outra família. Para evitar e/ou minimizar essa reação, diga-lhe o quão sortudo ele é por ter você, o pai mais tolerante e amoroso do mundo. E então comece a contar histórias lúgubres sobre a crueldade de outros pais. Isso irá torná-lo completamente leal a você e, posteriormente, irá fazê-lo aceitar a idéia amplamente difundida pelas escolas de que o estado assistencialista pós-moderno é o melhor e mais livre método de organização política já concebido. Se seu filho for mais esperto e contra-atacar, utilizando argumentos como estes ou estes, interrompa imediatamente a conversa, repreenda-o por ter a ousadia de fazer questionamentos e obrigue-o a estudar mais literatura marxista e social-democrata.

O que nos leva finalmente à técnica de educação infantil mais importante de todas: a mentira. Minta para seu filho constantemente. Ensine a ele que as palavras não valem absolutamente nada - ou, ainda melhor, que os significados das palavras estão em contínua "evolução", e que amanhã elas podem significar exatamente o oposto do que significam hoje.

Alguns leitores podem contestar, reclamando que esse é um método muito falho de se educar uma criança. Mas esse é exatamente o ponto: o abuso psicológico infantil é o melhor método de preparo para a vida adulta sob a atual forma de GOVERNO.

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Artigo recomendado: O Homeschooling nos EUA (e no Brasil)

 


autor

Joseph Sobran
(1946-2010) era um jornalista conservador que se converteu ao anarcocapitalismo em sua última década de existência.  Foi um dos mais importantes e prolíficos escritores americanos.  Veja seu website


  • mcmoraes  05/06/2010 22:22
    Sobran disse: "Quando seu filho já estiver um pouco mais maduro, você poderá ensiná-lo sobre o funcionamento do nosso sistema tributário de uma maneira fácil dele entender. Ofereça a ele, digamos, $10 para lavar o carro. Quando ele tiver terminado de lavar e vier pedir o pagamento, dê-lhe apenas $5 e diga que os outros $5 ficaram como imposto de renda retido na fonte. Dê $1 para o irmão mais novo e diga a seu filho que isso é "justo", pois assim ele estaria "fazendo pelo social". Também diga a ele que você, o Governo, precisa dos $4 restantes para se auto-financiar, isto é, para cobrir os custos oriundos desse "trabalho" de redistribuir o dinheiro. Quando ele chorar e disser que isso é injusto, diga-lhe que ele está sendo "egoísta" e "ganancioso"."

    O que mais me cativa nos libertários é a sua clareza, concisão e simplicidade. Tabus não existem. Bombas de fumaça, espelhos e ilusionismos não são usados. Aparências e fachadas sem conteúdo são demolidas sem dó.
  • Renan M. Ramos  28/04/2011 15:11
    Fantástico.

    Meus pais sem perceber seguiram este método. Minha infância foi recheada de normas autoritárias e contraditórias, como costumamos ver constantemente vindo de nossos "reis".

    Vai ver é por isto que eu sou o extremo do libertario. Não aceito imposição de ninguem, nem mesmo respeito "autoridades"...
  • Emerson Luis, um Psicologo  29/04/2014 18:53

    Claro que o autor foi sarcástico: um pai que agisse assim seria sociopata.

    * * *
  • Aghata Resende  20/10/2015 17:07
    Achei genial a comparação da figura patriarcal com a do estado assistencialista de esquerda.

    Infelizmente esse tipo de manipulação a qual o autor se referiu no texto é muito comum em países que vêm seguindo a nova tendência bolivariana do socialismo aqui da nossa América Latina.

    O interessante é que nesses países, cerca de 80% dos recursos são geridos de forma centralizada, enquanto 20% de forma local. Nos países com maior índice de desenvolvimento humano, como a Suécia, esses números se invertem, segundo a famosa socióloga Tânia Zapata.

    Ou seja, esses governos se sustentam no aparelhamento das instituições públicas e na minha opinião é esse ponto que devemos lutar para que o Brasil mude.

    Caso contrário, ninguém mais tira a esquerda do poder.


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