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“Democracia: o deus que falhou” - novo lançamento do IMB


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Liberais clássicos veem o estado com desconfiança.  Com efeito, alguns deles — dos quais Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe são exemplos mais radicais — querem abolir o estado completamente. 

Por mais convincente que sejam os argumentos a favor de uma ordem social inteiramente baseada na propriedade privada, o fato é que hoje vivemos em um mundo completamente estatal, com governos por todos os lados.  Considerando-se então este fato, qual tipo de estado é o melhor?  Se, como famosamente disse Albert Jay Nock, o estado é nosso inimigo, qual regime seria o menos ameaçador?  Vários sugerem a democracia, mas Hoppe discorda.

Em seu livro Democracia - o deus que falhou, Hoppe explica em detalhes como a democracia gerou exatamente aquele aumento no poder estatal que os liberais clássicos deploravam: "Explicarei por que esse rápido crescimento do poder estatal observado ao longo do século XX — tão lamentado por Mises e Rothbard — deve ser atribuído à democracia e à mentalidade democrática, isto é, à (errônea e falsa) crença na eficiência e na justiça da propriedade pública e nas virtudes de um governo da maioria."

E prossegue: Embora Mises e Rothbard "fossem conscientes quanto às deficiências éticas e econômicas da democracia", ambos "tinham uma leve queda por ela e tendiam a ver de forma positiva a transição da monarquia para a democracia, considerando-a um progresso".

A monarquia preserva as liberdades de maneira muito mais consistente do que a democracia; e quando Hoppe diz "monarquia", ele realmente leva o conceito a sério.  Ele não está se referindo a reinos constitucionais, ao estilo da atual Grã-Bretanha, onde o monarca reina, mas não administra.  Ao contrário, ele se refere aos reis integrais do Antigo Regime, com os Habsburgos sendo especialmente seus favoritos.

Mas como pode Hoppe dizer isso?  Um rei governa em benefício próprio.  E, além de beneficiar apenas a si próprio, ele não tem de dar satisfações a ninguém.  Já em uma democracia, ao contrário, um governo que desagrada o povo pode ser substituído.  Será que a possibilidade de ser substituído já nas próximas eleições não contribui para restringir a sanha do governo que está atualmente no poder?

Hoppe consegue reverter toda essa crença popular.  Sim, é verdade que um rei considera o governo como sendo sua propriedade particular; mas é exatamente esta crença que irá induzi-lo a agir com bom senso — ao menos, melhor que políticos em uma democracia.  Em vez de dilapidar os recursos da nação, ele irá geri-los com mais prudência, principalmente se quiser legar seu reinado a seus herdeiros.

Diz Hoppe: "Partindo do princípio do interesse próprio, o monarca irá querer maximizar a sua riqueza — isto é, o valor presente da sua propriedade e as suas receitas correntes.  No entanto, não é do seu interesse aumentar as suas receitas correntes à custa de uma redução mais do que proporcional no valor presente dos seus ativos."

A princípio, é fácil pensar que este argumento não prova nada.  O governante, é fato, pode querer conservar sua propriedade; mas e quanto ao resto do país?  O que o impede de saquear a propriedade de seus súditos?  Hoppe apresenta uma resposta engenhosa.  Uma sociedade próspera e segura irá elevar o valor da propriedade do monarca.  Por conseguinte, o monarca terá um grande incentivo para restringir e limitar suas depredações sobre o resto da população.

Explica Hoppe: "Para preservar ou até mesmo elevar o valor da sua propriedade pessoal, o monarca irá sistematicamente restringir as suas políticas tributárias, pois, quanto menor for o grau de tributação, mais produtivos serão os súditos; e, quanto mais produtivos forem os governados, maior será o valor apropriado pelo reinado, isto é, maior será o valor extraído pelo rei e seu monopólio da expropriação".

Pense o leitor o que quiser, mas é inegável tratar-se de uma observação de enorme importância.  Não foi à toa que tal constatação impressionou enormemente o distinto liberal-clássico austríaco e monarquista Erik von Kuehnelt-Leddihn.  

Ainda assim, seria possível aduzir uma tendência oposta, a de que o monarca irá querer transferir para a sua propriedade o máximo possível de seus súditos.  Afinal, não seria verdade que a prosperidade de seus súditos teria de se comprovar maior do que aquilo que o rei imaginaria ser capaz de auferir por meio da expropriação direta?  Hoppe, no entanto, ao menos mostrou que há um poderoso incentivo para limitar o crescimento do governo em uma monarquia.  Até mesmo Jean Bodin, o grande teórico francês do absolutismo, afirmou que o rei deveria, se possível, se sustentar exclusivamente por meio de suas posses.

Em uma democracia, em contraste, o governo irá confiscar o máximo possível, sem consideração quanto ao futuro.  Exatamente porque os detentores do poder são temporários, exatamente porque eles não são os donos do governo, eles não possuem os incentivos para pensar no longo prazo.

Explica Hoppe: "Um governante democrático pode utilizar o aparato do governo em benefício próprio, mas este não lhe pertence.  Ele sabe que está ali apenas temporariamente . . .  Ele detém o uso atual dos recursos governamentais, mas não é o proprietário do valor do capital.  Em distinto contraste com um rei, um político democraticamente eleito desejará maximizar não a riqueza total do governo (seus ativos), mas sim as receitas correntes (quase sempre à custa da valorização dos ativos)."

Mais uma vez, Hoppe antecipa e desmonta uma objeção.  Se um governo democrático age exatamente como ele explica, não irá o povo removê-lo nas próximas eleições?  Afinal, todo o objetivo da democracia é fazer com que aqueles que buscam o poder concorram entre si pela preferência da maioria.  O temor de ser retirado do poder irá, desta maneira, restringir as depredações do governante do momento.

No entanto, e infelizmente, as próprias estruturas de um governo democrático fazem com que esta suposta restrição não exista.  Os governantes compram votos ao prometerem aos pobres benefícios assistencialistas e aos grandes empresários, subsídios e protecionismo.  A classe média e os pequenos empresários pagam a conta, mas a insatisfação deles não é suficiente para derrubar o governo.  O número total deles é pequeno comparado aos outros grupos que o governo subsidia.  Logo, a depredação democrática segue impávida, e para benefício daqueles que ocupam o governo.

Embora prefira a monarquia à democracia, Hoppe não é um entusiasta deste arranjo.  Muito pelo contrário: ele se opõe completamente à existência de um estado.  "Com efeito, uma entidade que detém o monopólio da decisão judicial suprema e equipada com o poder de tributar não apenas produzirá menos justiça e em menor qualidade, como na realidade produzirá mais injustiça e mais agressão. Portanto, a escolha entre monarquia e democracia diz respeito a uma opção entre duas ordens sociais defeituosas."

Hoppe vai ainda mais longe e atribui o fracasso do liberalismo clássico à ignorância deste fato fundamental.  Os liberais clássicos do século XIX, e seus sucessores atuais, se esforçaram em alcançar a quimera de um governo limitado; este foi seu "principal e monumental erro".  O governo, pela sua própria natureza, tende a se expandir.

O autor ainda intensifica sua posição.  Ele afirma que, a partir do momento em que você aceita que a propriedade privada, inclusive a propriedade sobre si próprio, é um direito inviolável, então você não pode aceitar a legitimidade de uma instituição que detenha o monopólio de impingir direitos. 

Explica Hoppe: "Esse tipo de monopólio contratual implicaria que qualquer dono de propriedade tivesse de ceder a terceiros, e de forma permanente, a proteção de seu corpo e de sua propriedade, bem como seu direito de ser o tomador supremo de suas decisões. Com efeito, ao transferir esse direito para outro indivíduo, tal pessoa estaria se submetendo a uma escravidão permanente."

Com efeito, pessoas que consentem com a existência de um estado que detém o monopólio da violência, da força policial e da tomada suprema de decisões judiciais estão se colocando em risco iminente de perder suas liberdades.  Ao nos ajudar a perceber isso, Hoppe prestou um grande serviço, um dentre vários em sua obra de enorme mérito.

Empregando teoria política e econômica, o livro Democracia - o deus que falhou faz uma reconstrução revisionista da moderna história Ocidental.  Ele cobre desde o surgimento dos estados monárquicos absolutistas, que saíram das ordens feudais onde não havia estado, até a transformação — começando com a Revolução Francesa e praticamente completada com o fim da Primeira Guerra Mundial — do mundo Ocidental desde os estados monárquicos até os democráticos, culminando com a ascensão dos EUA até o posto de "império universal".

Finalizo com essas palavras de Hoppe sobre a democracia:

Em uma democracia, a entrada no aparato governamental é livre.  Qualquer um pode se tornar presidente, primeiro-ministro, senador, deputado, prefeito, vereador etc.  No entanto, liberdade de entrada nem sempre é algo bom.  Liberdade de entrada e livre concorrência na produção de bens é algo positivo, porém livre concorrência na produção de maus é algo negativo. 

Que tipo de "empreendimento" é o governo?  Resposta: ele não é um produtor convencional de bens que serão vendidos a consumidores voluntários.  Ao contrário: trata-se de um "negócio" voltado para a expropriação — por meio de impostos e inflação monetária (que nada mais é do que falsificação de dinheiro) — e receptação de bens roubados.  Por conseguinte, liberdade de entrada no governo não tem o efeito de melhorar algo bom.  Pelo contrário: torna as coisas piores do que más, isto é, aprimora o mal.

Dado que o homem é como ele é, em todas as sociedades existem pessoas que cobiçam a propriedade de outros.  Algumas pessoas são mais afligidas por esse sentimento do que outras, mas os indivíduos normalmente aprendem a não agir de acordo com tal sentimento, ou até mesmo chegam a se sentir envergonhados por possuí-lo.  Geralmente, somente alguns poucos indivíduos são incapazes de suprimir com êxito seu desejo pela propriedade alheia, e são tratados como criminosos por seus semelhantes e reprimidos pela ameaça de punição física.

Quando a entrada no aparato governamental é livre, qualquer um pode expressar abertamente seu desejo pela propriedade alheia.  O que antes era considerado imoral e era adequadamente suprimido, agora passa a ser considerado um sentimento legítimo.  Todos agora podem cobiçar abertamente a propriedade de outros em nome da democracia; e todos podem agir de acordo com esse desejo pela propriedade alheia, desde que ele já tenha conseguido entrar no governo.  Assim, em uma democracia, qualquer um pode legalmente se tornar uma ameaça.

Consequentemente, sob condições democráticas, o popular — embora imoral e anti-social — desejo pela propriedade de outro homem é sistematicamente fortalecido.  Toda e qualquer exigência passa a ser legítima, desde que seja proclamada publicamente.  Em nome da "liberdade de expressão", todos são livres para exigir a tomada e a consequente redistribuição da propriedade alheia.  Tudo pode ser dito e reivindicado, e tudo passa a ser de todos.  Nem mesmo o mais aparentemente seguro direito de propriedade está isento das demandas redistributivas. 

Pior: em decorrência da existência de eleições em massa, aqueles membros da sociedade com pouca ou nenhuma inibição em relação ao confisco da propriedade de terceiros — ou seja, amorais vulgares que possuem enorme talento em agregar uma turba de seguidores adeptos de demandas populares moralmente desinibidas e mutuamente incompatíveis (demagogos eficientes) — terão as maiores chances de entrar no aparato governamental e ascender até o topo da linha de comando.  Daí, uma situação ruim se torna ainda pior.

A seleção de regentes governamentais por meio de eleições populares faz com que seja praticamente impossível uma pessoa boa ou inofensiva chegar ao topo da linha de comando.  Políticos são escolhidos em decorrência de sua comprovada eficiência em serem demagogos moralmente desinibidos.  Assim, a democracia virtualmente garante que somente os maus e perigosos cheguem ao topo do governo. 

Nesse cenário, as pessoas passam a desenvolver a habilidade de mobilizar apoio público em favor de suas próprias posições e opiniões, utilizando-se de artifícios como demagogia, poder de persuasão retórica, promessas, esmolas e ameaças.  Quanto mais alto você olhar para uma hierarquia estatal, mais você encontrará pessoas excessivamente incompetentes para fazer o trabalho que supostamente deveriam fazer.  Não é nenhum obstáculo para a carreira de um político ser imbecil, indolente, ineficiente e negligente.  Ele só precisa ter boas habilidades políticas.  Isso também contribui para o empobrecimento da sociedade.



autor

David Gordon
é membro sênior do Mises Institute, analisa livros recém-lançados sobre economia, política, filosofia e direito para o periódico The Mises Review, publicado desde 1995 pelo Mises Institute. É também o autor de The Essential Rothbard.

  • rodrigo Otavio Moraes  15/05/2014 14:03
    Opa, existe algum plano pra o lançamento do livro tbm em epub?
    (:

    Obrigado.
  • Leandro  15/05/2014 14:10
    Este livro, infelizmente, é protegido por direitos autorais. Sua editora original não permite sua disponibilização gratuita, como o IMB sempre faz com todos os seus outros livros. Este livro será nossa primeira exceção.
  • Ali Baba  15/05/2014 15:06
    OK, mas eu estaria disposto a comprar um epub desse livro. É que tenho preferência por ler no tablet e não em um volume de papel. Lançar o livro em epub nada tem a ver com a gratuidade no download.
  • Fernando Chiocca  15/05/2014 19:15
    Lançar o livro também em ePub tem a ver com ter que pagar mais alguns milhares de dólares também para ter o direito para lançar essa versao.

    Como nossos recursos são escassos, tinhamos que optar por papel ou digital.
  • Ali Baba  16/05/2014 12:15
    Entendido. Assim que chegar em um computador confiável encomendarei o meu.

    Uma sugestão para futuras situações semelhantes é vender junto com a versão impressa o direito de baixar uma versão eletrônica caso ela se torne viável no futuro.
  • Marconi  15/05/2014 14:14
    Um dos ícones libertários cobrando direitos autorais? Humm..
  • Equipe IMB  15/05/2014 14:20
    Não, cidadão. O Hoppe até hoje lamenta ter utilizado -- em 2001, quando era desconhecido -- uma editora que mais tarde revelou cobrar direitos autorais. No que dependesse do Hoppe, o livro seria distribuído de graça. Mas contrato é contrato, embora você já tenha dado seguidas provas aqui na área de comentários que desconheça isso...
  • Alfredo Gontijo  15/05/2014 14:21
    O Marconi segue sua irrefreável vocação de Nhonho, do Chaves. Ninguém lembra que ele existe, e sempre que ele aparece, apanha.
  • Cassim  15/05/2014 14:23
    Hoppe basicamente criou toda minha argumentação contra direitos autorais.
    Estou certo que deve haver um grande motivo para isto.
  • anônimo  15/05/2014 14:15
    Opa, opa opa! Estou vendo que vou comprar mais um lote de livros do IMB, quem sabe eu completo minha coleção agora :)
  • Rodrigo Amado  15/05/2014 15:04
    Excelente argumentação do Hoppe!
    Com o tempo todas as democracias vão apodrecendo. Mesmo as melhores!
  • Wanderson  15/05/2014 15:59
    A Constituição Americana é baseada no republicanismo, há poucas referências dos Founding Fathers sobre a democracia. Sou conservador e penso como Thomas Sowell, a solução não está em idéias dos intelectuais ungidos, mas no processo lento de demorado de escolhas individuais que vão se mostrando as mais vantajosas. Esse princípio conservador está plenamente de acordo com os princípios da escola austríaca (da minha grande estima) e é exatamente o contrário do que pensam libertários, anarquistas e socialistas: todos pretendem destruir as instituições "repressoras" a fim de se libertar o homem das prisões impostas por qualquer tipo de ordem: É PROIBIDO PROIBIR. O libertarianismo é, ao meu ver, um desvio grave das bases firmes da escola austríaca.
  • Mr. Magoo  15/05/2014 16:45
    Tu tá fumando coisa estragaaada mano!
  • Pedro Ivo  02/09/2014 14:39
    Wanderson, vou comentar o que você disse:

    "A Constituição Americana é baseada no republicanismo, há poucas referências dos Founding Fathers sobre a democracia. Sou conservador e penso como Thomas Sowell, a solução não está em idéias dos intelectuais ungidos, mas no processo lento de demorado de escolhas individuais que vão se mostrando as mais vantajosas."

    - Concordo com o processo de escolhas que vão sendo selecionadas, mas penso que uma lei privada e policêntrica faça isto melhor que a democracia (exs. sobre lei policêntrica podem ser encontrados aqui, aqui, e há uns 30 artigos sobre isto no portal do libertarianismo. O ensaio Casamento de Ron Paul também exemplifica o policentrismo legal)

    "Esse princípio conservador está plenamente de acordo com os princípios da escola austríaca(da minha grande estima)..." - verdade. Sem nada a acrescentar.

    "... e é exatamente o contrário do que pensam libertários, anarquistas e socialistas: todos pretendem destruir as instituições "repressoras" a fim de se libertar o homem das prisões impostas por qualquer tipo de ordem: É PROIBIDO PROIBIR. O libertarianismo é, ao meu ver, um desvio grave das bases firmes da escola austríaca."

    - Posso concordar caso a democracia seja mui estrita. Primeiro conceitualmente (vide Por que a democracia precisa de aristocracia) e 2º quanto à abrangência (o Ron Paul fala sobre o ecesso de abrangência da esfera federal sobre os estados e municípios, por ex. em nos ensaios Direitos dos estados, Terras do governo e Controle de Armas). Se você estiver falando de democracia no nível do município ou condado, em que as pessoas tem liberdade de secessão e de votar com os próprios pés, tende (e apenas tende) a ser sensato. HHH esclarece-o em Os problemas com o conservadorismo atual e com uma ala do libertarianismo e A esperança para a liberdade está na secessão - Hans Hoppe sobre economia, filosofia e política
    além de Democracia, estado, ouro, liberdade, direitos autorais, bancos e governo mundial, Parte 1 e Parte 2




  • Carlucio  15/05/2014 16:51
    O problema da Monarquia é que assim como você ter um Augusto, pode também ter um Calígula. Na Democracia você consegue vários FHCs.
  • Leonardo Faccioni  15/05/2014 18:23
    A esse respeito dizia Gómez Dávila (depurado por nossa livre tradução): "— Os monarcas, em quase todas as dinastias, foram tão medíocres que até parecem presidentes."

    Entende-se que mesmo o monarca inepto tende a ser menos prejudicial ao território do que o gestor democrático igualmente vulgar. Medíocre é aquele que em pouco ou nada dista da média e, portanto, encontra-se regularmente na posição em cotejo. O medíocre é o democrata padrão, reconhecido por seus pares como representante excelente da maioria.

    Se seguíssemos nisto Aristóteles, poderíamos considerar que o monarca situado na média de seus pares - o monarca medíocre entre monarcas, pois - será seguramente um magistrado de melhor qualidade que o democrata ordinário. Contudo, também no dizer de Aristóteles (Ética), a corrupção do melhor produz o pior, como a do ótimo produz o péssimo, e um monarca realmente capaz de se destacar por sua má conduta teria potencial destrutivo considerável.

    Nisto se revela salvífico o contexto pelo qual uma monarquia tradicional faz-se possível: uma configuração de sociedade orgânica, na qual a noção de pesos e contrapesos não é um construto abstrato e contraditório, como nas constituições democráticas, mas a natureza da sociedade mesma, que circunscreve o estado monárquico e o domina por sua legitimação consuetudinária e, em última instância, pela bastante crua evidência de que os governados são, em número e qualidade, muito superiores ao governante. É a realidade, não apenas as intenções, o que limita as ambições mesmo do monarca mais "absoluto". Daí as monarquias tradicionais serem tão impopulares entre intelectuais modernos e contemporâneos -- Hoppe destoando como rasgo luminoso nesse céu nublado: mesmo sua degradação em monarquia absoluta, lá na gênese do Estado-nação, não concentra no estado poder absoluto o bastante para atender ao idealismo e à fome de prebendas dos engenheiros sociais e dos muitos potenciais Napoleões que, pelo caráter de propriedade hereditária intransferível, as monarquias relegam aos hospícios.
  • Jorge Amado  15/05/2014 20:41
    Tais insinuando que ter um FHC no poder é algo bom? Ou interpretei-te erroneamente?
  • Ricardo  15/05/2014 20:56
    E consegue também vários Sarneys, Lulas, Dilmas, Collors, Quadros, Dutras etc.

    Passo.
  • Rhyan  15/05/2014 19:36
    É possível encontrar em livrarias ou só está a venda pela internet (lojasingular)?
  • Torrano  15/05/2014 21:17
    Uma analogia que faço pra quem questiona sobre o desenvolvimento na era democrática:

    Veja a tecnologia que dá suporte a produção como o "poder de processamento" e o modelo político-econômico como a "eficiência algorítmica".

    O que nós aumentamos na era democrática foi APENAS o poder de processamento, graças a tecnologia, mas nossa eficiência algorítmica DIMINUIU muito. Um velho Macintosh SE de 1990 tinha apenas 2mb de RAM e dava o boot em 15 segundos, mas isso é porque o programa que ele rodava era muito enxuto, muita coisa era compilada em linguagem de baixo nível e hoje em alto nível. Se você tentar rodar um programa atual num pc dos anos 90, ele vai simplesmente travar. Mesmo os computadores atuais infinitamente mais possantes são mais lentos em inúmeras tarefas. Voltando ao mundo atual, se você tirar a inovação tecnológica do nosso mundo, por exemplo com o escassez do petróleo ou uma tempestade solar ou pulso eletromagnético que frite os circuitos integrados, tchau-tchau democracia. Toda esta merda de sistema cai em menos de 5 segundos, porque não vai ter robustez de hardware pra rodar um código tão extenso, prolixo e ineficiente.

    Não é preciso uma catástrofe alheia ao nosso sistema pra isso ocorrer. A tecnologia passou a criar nova tecnologia a partir de si mesma, a se retroalimentar (como uma inteligência artificial) mesmo com a eficiência algorítmica diminuindo. A Lei de Moore se mostrou verdadeira independente das decisões políticas no passar das décadas. Mas se a eficiência algorítmica diminuir demais, a própria inovação tecnológica pode estagnar ou até regredir. Aí, novamente, bye-bye democracia dos infernos.

    É por isso que eu NÃO torço para que um Deus Ex Machina salve os países da crise (por exemplo se surgisse uma nova matriz energética mais barata e eficiente que o petróleo, permitindo toda produtividade mais barata). Eu quero que o mundo afunde na merda, que os islamismo bomba tome conta de tudo, que haja caos e miséria, porque nós precisamos passar por isso, nós precisamos queimar estas linhas inúteis e burocráticas do código. Nós precisamos passar pelo Kali Yuga pra voltar ao Satya Yuga. Precisamos retornar ao KISS, Keep It Simple, Stupid.

    ---------

    Na democracia experimentada na Grécia Antiga e Roma antiga não havia sufrágio universal. Menos de 1% da população votava. Os ineptos não votavam. O voto era direto na proposta, e não num (pseudo)representante. E Roma e Grécia só se mantinham graças à escravidão, uma espécie de produtividade industrial antes da indústria. Se faltasse escravo, tudo estagnava.

    Bem, no fim das contas, a democracia clássica resultou em ditadura e caos porque o código acumulou muito entulho e a elite democrática se tornou inerte.
  • Hélcio Vitor  15/05/2014 22:56
    Viva a Casa Imperial Brasileira! Os legitimamente reais Orleans & Bragança um dia hão de assentar-se no trono do Brasil!
  • Marcelo  15/05/2014 23:56
    Li somente verdades expostas para todos saberem sobre a história da sociedade.

    ''Quanto mais alto você olhar para uma hierarquia estatal, mais você encontrará pessoas excessivamente incompetentes para fazer o trabalho que supostamente deveriam fazer. Não é nenhum obstáculo para a carreira de um político ser imbecil, indolente, ineficiente e negligente. Ele só precisa ter boas habilidades políticas. Isso também contribui para o empobrecimento da sociedade. ''
    Palmas...!
    Comprarei o livro.
  • Sofista/Pos moderno  16/05/2014 13:09
    E o mercado não é uma espécie de democracia? a democracia da barganha?Pra mim o livre mercado e democracia estão no mesmo barco. São reproduções desse intento anarquista da modernidade, que parece quando mais fugismo da realidade que o poder se concentra, mas caimos a fundo nele!ou seja, ele se concentra ainda mais.
  • Emerson Luis, um Psicologo  16/05/2014 14:24

    Entendo as ideias de Hoppe e concordo que o ideal é o "zero estado". Vou adquirir o livro assim que possível.

    Observo que se confunde "democracia" com "república". Mas uma monarquia pode ser democrática e uma república pode ser uma ditadura, dependendo do que se quer dizer.

    Para os socialistas, "democracia" é a ditadura da maioria; para os liberais, democracia significa isonomia, divisão de poderes e liberdade responsável.

    A "democracia" só é um deus para os socialistas; para os liberais é apenas o menos pior que o ser humano pode fazer. Mesmo um sistema anarcocapitalista só poderia funcionar bem com o respeito a estes três princípios.

    * * *
  • Erandur of Dawnstar  19/11/2014 19:09
    Socialistas não, sociais-democratas.
    Socialistas dizem gostar de democracia, mas possuem uma definição dessa palavra completamente diferente em suas cabeças. Na realidade nenhum socialista gosta da democracia, gosta apenas de usar o termo.

    E sim, sem dúvidas, democracia é uma porcaria, mas é o estado menos pior. Apesar de os resultados apresentarem o resultado médio do coletivo, é a unica maneira dos indivíduos terem de fato voz.

    Sinceramente, o autor está viajando na maionese. O único tipo de monarquia que é razoável é a pré-absolutista, justamente pela descentralização.

    De qualquer forma, a democracia, mesmo sendo a ditadura da maioria, é a menos injusta de todas, pois é injusta com a minoria.

    A democracia sempre aponta para o status quo. Se a democracia está falhando tão fortemente, isso se deve justamente pela perda de terreno na guerra cultural. É um tipico posicionamento de um mal perdedor.
    Eu vejo a democracia SIM como um fim em si própria, mas em meu entendimento é importante as pessoas entenderem que o estado não é uma mãe, e sim destrói riquezas, daí a necessidade de uma guerra cultural reversa.
    Vejo esse como um cenário ideal:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=796
  • Erasmo de Roterdã  19/11/2014 22:26
    E aí, leu o livro? Deve ter lido, pois você certamente não seria leviano ao ponto de fazer um comentário tão embasado assim sem saber do que fala.

    Qual foi a sua parte favorita?
  • Só para alimentar o debate  16/05/2014 19:42
    Hoje no almoço minha irmã me cutucou com um clássico "e tu que queria que não existisse governo nenhum", logo após eu comentar o caos que estava em Pernambuco com a greve dos policiais. Como fazer a réplica contundente e rápida?
  • É só raciocinar.  16/05/2014 20:23
    Utilize qualquer uma das versões abaixo.


    Versão 1:

    O estado desarmou o cidadão e usou a polícia para impingir a lei do desarmamento, dando a ela o monopólio da segurança. Aí ela entrou em greve e a população -- que foi desarmada pela própria polícia -- ficou ao relento.


    Versão 2:

    A polícia, seguindo ordens do estado, desarmou os cidadãos de bem ao mesmo tempo em que permitiu que a bandidagem se mantivesse fortemente armada. Em um cenário assim, tão logo a polícia (que impingiu o desarmamento da população e garantiu que ela se tornasse um alvo manso) sai de cena, a bandidagem deita e rola.

    É o óbvio ululante que uma greve de polícia aumenta a criminalidade. O estranho seria se a situação se tornasse mais pacífica.
  • Torrano  17/05/2014 05:35
    Ou pode ler esse livro, também escrito pelo Prof. Hoppe: www.mises.org.br/Article.aspx?id=1221 A produção privada de serviços de segurança
  • Marcelo Werlang de Assis  17/05/2014 09:43
    Prezados usuários do site do IMB,

    Sou o tradutor do livro Democracia.

    Peço-lhes encarecidamente que adquiram o livro. Valerá mesmo a pena realizar tal investimento. O livro é fantástico.

    Com todo o respeito, este artigo de David Gordon não é nada comparado com o livro.

    Amplexos!
  • Marcelo Werlang de Assis  19/05/2014 19:39
    Encontrei no computador alguns comentários do Leandro Roque que copiei e salvei. O primeiro, inclusive, foi direcionado para mim.

    (1)

    Prezado Marcelo, teoricamente, nada impede que uma monarquia se transforme naquilo que hoje é Cuba. Porém, também em teoria, o discernimento e a ambição de um aristocrata (provável linhagem de um monarca) costumam ser diferentes daqueles ostentados por aventureiros, como são os casos de Fidel e Kim Jong-Ill, por exemplo. Estes últimos assumiram o poder já eivados de marxismo, e ansiosos para colocar aquilo em prática. Queriam apenas o poder; não estavam preocupados com herdeiros e linhagens. Ademais, por mais seguros que se mostrassem, eles simplesmente não tinham a certeza de que ficariam no poder por muito, o que inevitavelmente estimulou comportamentos mais impulsivos.

    Já o monarca, também em teoria, tem todo o interesse em permitir políticas que enriqueçam seu reino. Reino rico, população feliz, perpetuação de sua linhagem no trono. Um monarca, ao contrário de um ditador, não costuma ter tentações autoritárias. Ele quer apenas desfrutar suas mordomias, as quais sabe asseguradas, e tentar garantir que elas continuem para seus descendentes, o que exige a adoção de políticas econômicas sensatas. Já em países de tradição democrática, golpistas sabem que suas aventuras podem ser curtas, o que os estimula a dilapidar rapidamente seus feudos, a fim de garantir mais riquezas para si próprios em menos tempo.

    Isso, obviamente, é opinião minha, e ninguém precisa concordar com ela. Entretanto, o que foi explicitado no texto, que é a teoria do Hoppe, pra mim também faz muito sentido. Estou apenas fornecendo um adendo pessoal.

    Uma curiosidade: o príncipe regente de Liechtenstein, Alois, em uma entrevista ao NY Times há alguns anos, disse ter chegado à conclusão de que uma carga tributária de 6% era mais do que suficiente para os "serviços públicos" e que qualquer coisa acima disso era tirania.

    O príncipe é fã declarado de Hans-Hermann Hoppe, já leu seu livro Democracy, the God that Failed e o convidou pessoalmente a visitar seu palácio (que é fechado para visitas).


    (2)

    O monarquismo seria minha postura estritamente pragmática; aquela que é possível no mundo real. Haveria apenas uma realeza, que seria a representante figurativa do território, e nada mais. Nada de Câmara, Senado, agências reguladoras, ministérios, secretarias, programas de redistribuição de renda, nada. Apenas uma realeza cuja única atribuição seria seguir protocolos e fazer cerimoniais.

    Exatamente como faz a Rainha Elizabeth, a mais inofensiva figura do cenário político europeu.


    (3)

    Carlos, minha humilde opinião: esqueça esse negócio de moralidade. Ninguém mais liga pra isso, não. O que o povo quer é dinheiro no bolso, bons serviços e preços baixos.

    Logo, o que você tem de fazer é mostrar como um mercado livre e competitivo, com plena liberdade de entrada e sem regulamentações, pode gerar melhora nos serviços e levar a preços mais baixos. Você tem de explicar os benefícios da livre concorrência e mostrar que as intervenções do estado servem justamente para privilegiar determinados setores e empresários, protegendo-os das demandas do mercado, das exigências dos consumidores e dos interesses do cidadão comum.

    Da mesma forma, esqueça esse negócio de privatização. Se for pra privatizar um setor e mantê-lo sob o jugo de agências reguladoras que irão justamente proteger os interesses destas empresas agora sob mãos privadas, então é melhor nem defender a privatização. O que você tem de defender é a livre concorrência. É a liberdade de entrada. É a desestatização total de qualquer setor. É a retirada do estado, de seus protecionismos e de suas regulamentações. Em vez de defender a venda da Petrobras, algo que nunca irá acontecer, defenda a completa abertura do mercado de petróleo para a concorrência, inclusive estrangeira. Quem quiser vir, está liberado. Tendo de enfrentar a concorrência de gigantes mais eficientes, a Petrobras iria definhar em pouco anos, e acabaria tendo de ser vendida.

    Em suma: defenda a livre concorrência genuína e explique seus consequentes benefícios. Não há como uma pessoa minimamente racional ser contra. Se ela for, então é porque está mamando no arranjo atual.


    (4)

    Pedro, você entendeu errado. Eu não falei que eu não sigo a abordagem moral. Muito pelo contrário: estando neste meio há cinco anos e meio, e fazendo debates diários, sempre fiz uma abordagem com base nos direitos naturais. Raramente utilizei o utilitarismo. Mas o que constatei é que ninguém está interessado em moralidade. O recurso à moralidade não tem apelo nenhum entre os leigos. O que posso fazer se a coisa está assim? Não culpe o mensageiro.

    Amplexos!
  • Marcelo Werlang de Assis  20/05/2014 00:35
    Aqui, uma seleção dos escritos de Hoppe publicados neste site até agora, os quais podem servir de introdução ao livro Democracia:

    mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=80&type=articles.
  • anônimo  31/05/2014 18:15
    Parabéns Marcelo! Este livro está no topo da minha lista de futuras aquisições!
  • Marcelo Werlang de Assis  31/05/2014 22:32
    Muito obrigado, Anônimo!

    Forte abraço!!!
  • Rod100  18/05/2014 21:33
    Interessante, até que ponto os reinos dos Emirados Árabes se aproximam desse sistema monárquico privado? Do ponto de vista econômico, até onde sei, são bem liberais, não há imposto de renda nem IVA. Alguém com conhecimento da região para se pronunciar?

    Abs,

    Rod100
  • Ricardo  31/05/2014 03:22
    É a primeira vez na minha vida, que vejo Libertários serem contra a democracia '-'
  • anônimo  31/05/2014 18:12
    Quais libertários que você via antes, Ricardo? o.o
  • Dasein  05/08/2014 00:14
    Quem está muito afim mesmo e não quer pagar nada, dá para achar em inglês "Democracy the God that failed". Não vou repassar nenhum link, não sei como é a política do site, se isso envolveria alguma quebra de acordo, mas é só jogar o título mais "pdf" que acha fácil.
  • Eduardo R., Rio  19/10/2014 21:18
  • Eduardo R., Rio  24/07/2016 18:31
    "Por que democracias fracassam", por Hélio Schwartsman.


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