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Socialismo e retrocesso da civilização

Nas páginas 33—35 do meu livro Socialismo, cálculo econômico e função empresarial, faço uma análise do processo empreendedorial e explico como a divisão do conhecimento prático empreendedorial se aprofunda "verticalmente" e se expande "horizontalmente", processo esse que permite (e ao mesmo tempo requer) um aumento da população, que estimula a prosperidade e o bem-estar geral, e que ocasiona o progresso da civilização.  Como indicado naquelas páginas, este processo de "verticalização" e "horizontalização" do conhecimento se baseia

1. na especialização da criatividade empreendedorial em campos cada vez mais específicos, com cada vez mais profundidade e detalhes;

2. no reconhecimento dos direitos de propriedade do empreendedor criativo, o que significa que ele tem o direito de manter para si os frutos de sua atividade criativa em cada uma destas áreas;

3. na troca livre e voluntária destes frutos gerados pela especialização de cada ser humano, uma troca que sempre será mutuamente benéfica para todos aqueles que participam do processo de mercado; e

4. no crescimento contínuo da população humana, o que torna possível "ocupar" e cultivar empreendedorialmente um crescente número de novas áreas de conhecimento criativo empreendedorial, o que enriquece a todos.

De acordo com esta análise, qualquer coisa que garanta a propriedade privada daquilo que cada indivíduo cria e contribui para o processo de produção, que defenda a posse pacífica daquilo que cada indivíduo cria ou descobre, e que facilite (ou não impeça) o processo de trocas voluntárias (os quais, por definição, sempre são mutuamente satisfatórios no sentido de que representam uma melhoria da situação de cada pessoa) irá gerar prosperidade, aumentar a população, e aprofundar o avanço quantitativo e qualitativo da civilização.

Da mesma forma, qualquer ataque à posse pacífica de bens e aos direitos de propriedade sobre estes bens; qualquer manipulação coerciva do livre processo de trocas voluntárias; em suma, qualquer intervenção estatal em uma economia de livre mercado sempre irá gerar efeitos indesejados, suprimir a iniciativa individual, corromper a moral e os hábitos de comportamento responsável, tornar o público imaturo, infantilizado e irresponsável, acelerar o declínio do tecido social, consumir a riqueza acumulada, e bloquear a expansão da população humana e o progresso da civilização, aumentando a pobreza geral.

Como ilustração, consideremos o processo de declínio e desaparecimento da clássica civilização romana.  Embora suas características mais proeminentes possam ser facilmente extrapoladas para várias circunstâncias do nosso mundo contemporâneo, infelizmente a maioria das pessoas hoje já se esqueceu, ou ignora por completo, essa importante lição histórica; e, como resultado, elas são incapazes de ver os graves riscos que hoje nossa civilização enfrenta.  Com efeito, como explico em detalhes em minhas aulas (e resumo em um vídeo gravado durante uma delas, sobre a queda do Império Romano [La Caída del Imperio Romano], o qual, para minha surpresa, já foi visto na internet por mais de 400 mil pessoas), e de acordo com estudos anteriores feitos por autores como Rostovtzeff (The Social and Economic History of the Roman Empire) e Mises (Ação Humana), "o que provocou a queda do império [romano] e a ruína de sua civilização não foram as invasões bárbaras, mas sim a desintegração dessa interdependência econômica".

Para ser mais exato, Roma foi vítima de um retrocesso na especialização e na divisão do processo comercial, uma vez que as autoridades políticas sistematicamente obstruíam ou impediam trocas voluntárias a preços de livre mercado.  E faziam isso em meio a um aumento descontrolado nos subsídios, nos gastos públicos ("panem et circenses") e nos controles estatais sobre todos os preços de mercado.  É fácil entender a lógica por trás destes eventos. 

Começando especialmente no século III, a compra de votos e de popularidade levou à disseminação da distribuição de subsídios para a população adquirir alimentos ("panem").  Tais subsídios eram financiados com dinheiro de impostos, política essa conhecida como "annona".  Além destes subsídios, havia também uma contínua organização dos mais esbanjadores e opulentos jogos públicos para divertir a população ("circenses").  Em decorrência deste arranjo, não apenas os agricultores italianos ficaram arruinados, como também a população de Roma não parou de crescer até chegar a quase 1 milhão de habitantes.  (Por que trabalhar exaustivamente em sua terra se os seus produtos não poderão ser vendidos a preços lucrativos, dado que o estado os distribui praticamente de graça em Roma?).

Sendo assim, a medida mais racional para os agricultores italianos seria deixar o campo e se mudar para a cidade e viver do assistencialismo.  Mas tal política tem seus inevitáveis custos, e tais custos não poderiam ser cobertos eternamente pelo dinheiro de impostos.  Consequentemente, a solução criada pelo governo para continuar sua política foi a inflação — mais especificamente, a redução do conteúdo metálico das moedas.  A consequência foi inescapável: uma queda incontrolável no poder de compra do dinheiro, isto é, um aumento descontrolado dos preços, ao qual as autoridades responderam decretando que os preços fossem congelados aos seus valores anteriores, além de imporem sentenças extremamente rigorosas aos "infratores". 

A imposição deste controle de preços levou a desabastecimentos e a uma ampla escassez (uma vez que, aos baixos preços estipulados pelo governo, não mais era lucrativo produzir ou buscar soluções criativas para os problemas da escassez; ao mesmo tempo, o consumismo e o desperdício estavam sendo artificialmente estimulados).  As cidades rapidamente começaram a ficar sem estoques, e a população começou a voltar para o campo e a viver em autarquia em condições muito mais penosas, em regime de mera subsistência, um regime que gerou as bases para o que mais tarde viria a ser o feudalismo.

Este processo de retrocesso da civilização (ou descivilização), o qual surgiu da ideologia demagógica socialista — típica do estado assistencialista e do intervencionismo estatal na economia —, pode ser ilustrada de uma maneira graficamente simples pela inversão da explicação do gráfico da página 34 do meu livro supracitado, Socialismo, cálculo econômico e função empresarial, no qual descrevo o processo por meio do qual a divisão do trabalho (ou melhor, a especialização do conhecimento) se aprofunda e consequentemente a civilização avança.

Comecemos pelo estágio representado pela linha superior do gráfico (T1), o qual reflete o nível avançado de desenvolvimento espontaneamente alcançado pelo processo de mercado romano no início do século I, o qual, como demonstrou o estudioso Peter Temin ("The Economy of the Early Roman Empire" Journal of Economic Perspectives, vol. 20, no. 1, winter 2006, pp. 133?151), era caracterizado por um notável grau de respeito legal e institucional pela propriedade privada (o direito romano), e pela especialização e difusão das trocas voluntárias em todos os setores e mercados (particularmente no mercado de trabalho, uma vez que, como Temin demonstrou, o efeito da escravidão foi muito mais modesto do que sempre se acreditou até hoje).  Como resultado, a economia romana daquele período alcançou um nível de prosperidade, desenvolvimento econômico, urbanização e cultura que só voltaria a ser visto no mundo em meados do século XVIII.

socialismo.jpg

As letras maiúsculas sob cada pessoa na figura acima indicam os fins a que cada indivíduo se dedica e se especializa.  Ele então comercializa os frutos de sua criatividade e esforço empreendedorial (representados pela lâmpada que "acende") pelos frutos dos outros indivíduos, e todos se beneficiam dessa troca.  No entanto, quando a intervenção estatal na economia aumenta (por exemplo, por meio de controle de preços), as trocas são obstruídas e diminuem, e as pessoas se descobrem no estágio representado pela linha do meio do gráfico.  Elas são obrigadas a reduzir a amplitude de sua especialização, abandonando, por exemplo, os fins G e M e se concentrando apenas nos fins AB, CD e EF.  Houve uma redução na divisão do trabalho e nas transações voluntárias, levando consequentemente a um menor grau de especialização, o que requer um maior número de cópias e reproduções, e um excesso de esforço.  O resultado óbvio é uma queda na produção final de todo o processo social, e consequentemente um aumento na pobreza.

O ponto máximo do declínio econômico e da recessão ocorre no estágio mostrado na linha inferior do gráfico (T3).  Neste estágio, em decorrência da crescente pressão intervencionista do estado, dos contínuos aumentos nos impostos, e das sufocantes regulamentações, as pessoas, com o único intuito de sobreviver (ainda que a um nível de pobreza até então inconcebível), são forçadas a abandonar quase que completamente a divisão do trabalho e os processos de transações voluntárias que constituem o mercado, a deixar as cidades e retornar ao campo para criar gado e cultivar seus próprios alimentos, fabricar seu próprio couro e construir suas próprias choupanas.  Cada indivíduo irá desnecessariamente duplicar as atividades e os fins minimamente necessários para sobreviver (os quais foram marcados ABCD no gráfico).  Logicamente, a produtividade irá sofrer uma acentuada queda, e todos os tipos de escassez surgirão, o que levará a uma redução da população em decorrência da falta de recursos.  Neste ponto, o processo de desurbanização e descivilização estará completo.

Como Mises indicou,

A combinação de uma política de preços congelados com a deterioração da moeda provocou a completa paralisação tanto da produção quanto do comércio dos gêneros de primeira necessidade, e desintegrou a organização econômica da sociedade. ... Para não morrer de fome, as pessoas fugiam da cidade para o campo e tentavam produzir, para si mesmas, cereais, azeite, vinho e o de que mais necessitassem. ... As cidades, o comércio interno e externo, as manufaturas urbanas deixaram de exercer a sua função econômica.  A Itália e as províncias retornaram a um estágio mais atrasado da divisão social do trabalho.  A estrutura econômica da antiga civilização, que havia alcançado um nível tão alto, retrocedeu ao que hoje é conhecido como a organização feudal típica da Idade Média. ... [Os imperadores] reagiram de maneira infrutífera, sem atingir a raiz do mal.  A compulsão e coerção a que recorreram não podiam reverter a tendência de desintegração social que, ao contrário, era causada precisamente pelo excesso de compulsão e coerção [da parte do estado].  Nenhum romano tinha consciência do fato de que o processo era provocado pela interferência do governo nos preços e pela deterioração da moeda.

Mises conclui,

Uma ordem social está fadada a desaparecer se as ações necessárias ao seu bom funcionamento são rejeitadas pelos padrões morais, são consideradas ilegais pelas leis do país e são punidas pelos juízes e pela polícia.  O Império Romano se esfacelou por ter ignorado o liberalismo e o sistema de livre iniciativa.  O intervencionismo e o seu corolário político, o governo autoritário, destruíram o poderoso império, da mesma forma que necessariamente desintegrarão e destruirão, sempre, qualquer entidade social. [Itálicos meus].

A análise de Mises foi contínua e invariavelmente confirmada não somente em vários exemplos históricos específicos (processos de declínio e retrocesso da civilização, como, por exemplo, no norte e em outras partes da África; a crise em Portugal após a "Revolução dos Cravos"; a crônica doença social que afeta a Argentina, que era um dos países mais ricos do mundo antes da Segunda Guerra Mundial, mas que hoje, em vez de receber imigrantes, perde sua população continuamente; processos similares que estão devastando a Venezuela e outros regimes populistas na América Latina etc.), mas também, e acima de tudo, pelo experimento do socialismo verdadeiro, o qual, até a queda do Muro de Berlim, imergiu centenas de milhões de pessoas no sofrimento e no desespero.

Da mesma maneira, atualmente, em um mercado mundial totalmente globalizado, as forças descivilizadoras do assistencialismo, do sindicalismo, da manipulação monetária e financeira dos bancos centrais, do intervencionismo econômico, do aumento das regulações e da carga tributária, e da falta de controle das contas públicas estão ameaçando até mesmo aquelas economias que até então sempre foram consideradas as mais prósperas (os Estados Unidos e a Europa).  Vivendo hoje uma encruzilhada histórica, estas economias estão lutando para se livrar das forças descivilizadoras da demagogia política e do poder dos sindicatos à medida que elas tentam retornar ao caminho do rigor monetário, do controle do orçamento, da redução de impostos e do desmantelamento da confusa e intricada rede de subsídios, intervenções e regulamentações que sufocam o espírito empreendedorial e infantilizam e desmoralizam as massas.  Seu sucesso ou fracasso nesta empreitada irá determinar seu futuro e, mais especificamente, se elas irão continuar a liderar o avanço da civilização como fizeram até hoje, ou se, em caso de fracasso, elas deixarão a liderança da civilização para outras sociedades que, como as sociedades sino-asiáticas, se esforçam de maneira fervorosa e sem nenhum constrangimento para se tornarem as principais do novo mercado mundial globalizado.

É hoje evidente que a civilização romana não caiu em decorrência das invasões bárbaras: ao contrário, os bárbaros facilmente se aproveitaram de um processo social que já estava, por razões puramente endógenas, em marcante declínio e em estágio de avançado colapso.

Mises explicou desta maneira:

Os agressores externos simplesmente se aproveitaram de uma oportunidade que lhes foi oferecida pelo enfraquecimento interno do império.  De um ponto de vista militar, as tribos que invadiram o império nos séculos IV e V não eram superiores aos exércitos que as legiões haviam derrotado facilmente algum tempo antes.  Mas o império havia mudado; sua estrutura econômica e social tornara-se medieval.

Adicionalmente, o grau de regulação, estatismo e pressão tributária do império se tornou tão grande, que os próprios cidadãos romanos frequentemente preferiam se submeter aos invasores bárbaros por considerá-los um mal menor.  Lactâncio, em seu tratado De Mortibus Persecutorum ("A morte dos perseguidores"), escrito no ano 314-315 d.C., afirma,

Chegou-se ao extremo de ser maior o número dos que viviam dos impostos do que o dos contribuintes, até que, por serem consumidos os recursos dos colonos pela enormidade dos impostos extraordinários, as terras foram abandonadas e os campos cultivados foram transformados em selvas. ... Numerosos governadores e subalternos oprimiam cada uma das regiões, inclusive quase a cada uma das cidades.  Igualmente numerosos eram os funcionários do fisco, magistrados e substitutos dos prefeitos do Pretório, cuja atividade na ordem civil era escassa, mas intensa à hora de ditar multas e proscrições.  As exações de todo tipo eram, já não direi frequentes, mas constantes, e os atropelos para levá-las a cabo, insuportáveis. (citado por Antonio Aparicio Pérez, La Fiscalidad en la Historia de España: Época Antigua, años 753 a.C. a 476 d.C., Madrid: Instituto de Estudios Fiscales, 2008, p. 313).

Claramente, esta situação se assemelha assombrosamente à atual situação mundial de várias maneiras, e uma legião de escritores já demonstrou como o atual nível de subsídios e regulamentações impõe um fardo desmoralizante e intolerável sobre o crescentemente molestado setor produtivo da sociedade.  Com efeito, alguns poucos autores, como o espanhol Alberto Recarte, já tiveram a coragem de exigir uma redução "no número de funcionários públicos, particularmente aqueles cujo trabalho é regular, inspecionar e vigiar todas as atividades econômicas por meio da imposição de requerimentos legais custosos e extremamente intervencionistas" (El Desmoronamiento de España, Madrid: La Esfera de los Libros, 2010, p. 126).  Sempre é necessário relembrar que todos nós dependemos da produção da atividade econômica privada.  Sem ela, definhamos.

Em De Gubernatione Dei (IV, VI, 30), Salviano de Marselha escreve,

Enquanto isso, os pobres estão despojados, as viúvas gemem e os órfãos são pisados a pés, a tal ponto que muitos, incluindo gente de bom nascimento e de boa instrução, se refugiam junto aos inimigos para não perecer à perseguição pública.  Eles vão procurar nos bárbaros a misericórdia dos romanos, uma vez que eles não mais toleram a inclemência bárbara que encontram nos romanos. São dife­rentes dos povos onde buscam refúgio; nada têm das suas manei­ras, nada têm da sua língua e, seja-me permitido dizer, também nada têm do odor fétido dos corpos e das vestes dos bárbaros; mas preferem sujeitar-se a essa dissemelhança de costumes a sofrer, entre os romanos, a injustiça e a crueldade. Assim, emigram para os Godos ou para os Bagaldos, ou para os outros bárbaros que em toda a parte dominam, e não se arrependem de sua expatriação, pois preferem viver livres sob a aparência da escravidão que de serem escravos sob a aparência da liberdade (citado em ibid., pp. 314?315).

Finalmente, em seu Historiæ adversum Paganos ("Histórias contra os Pagãos"), o historiador Paulo Orósio conclui,

Os bárbaros passaram a detestar suas espadas, trocaram-nas pelo arado e estão afetuosamente tratando o resto dos romanos como camaradas e amigos, de modo que agora, entre eles, podem ser encontrados alguns romanos que, vivendo com os bárbaros, preferem a liberdade com pobreza a pagar tributos e viver com ansiedade entre seus semelhantes. (itálicos meus).

Não sabemos se, no futuro, a civilização ocidental, que prosperou até hoje, será substituída pela civilização de outros povos que hoje podem ser considerados "bárbaros".  No entanto, temos de estar certos sobre duas coisas: primeiro, em meio à mais severa recessão a assolar o mundo ocidental desde a Grande Depressão de 1929, caso fracassemos em aplicar as medidas essenciais — isto é, desregulamentação, especialmente no mercado de trabalho, redução nos impostos e no intervencionismo econômico, maior controle sobre os gastos públicos e a eliminação de subsídios e protecionismos —, corremos o risco de perder muito mais do que apenas o poder de compra da moeda; e segundo, se perdermos em definitivo a batalha da competitividade no mercado mundial globalizado, e entrarmos em um declínio crônico, tal derrota não terá sido por causa de fatores exógenos, mas sim em decorrência de nossos próprios erros, falhas, omissões e deficiências morais.

Não obstante tudo isso, gostaria de finalizar com uma nota de otimismo.  É verdade que enfrentamos vários desafios, e é muito fácil nos tornarmos desanimados em decorrência da abundância de inimigos da liberdade que vicejam por todos os lados.  Mas também é verdade que, contrariamente à cultura dos subsídios, da irresponsabilidade, da falta de princípios morais e da dependência do estado para tudo, há também, surgindo das cinzas entre vários jovens (e também entre aqueles de nós que já não são mais tão jovens), a cultura da liberdade empreendedorial, da criatividade, da assunção de risco e do comportamento baseado em princípios morais.  Em suma, a cultura da maturidade e da responsabilidade (em oposição ao infantilismo ao qual nossas autoridades e políticos gostariam de nos restringir com o intuito de nos tornar cada vez mais servis e dependentes).  Para mim, está claro quem possui as melhores armas morais e intelectuais, e que, por isso, são os donos do futuro.  É por isso que sou um otimista.



autor

Jesús Huerta de Soto
, professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor de A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial, Socialismo, cálculo econômico e função empresarial e da monumental obra Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos.


  • Ricardo  14/09/2012 05:43
    Li todo o texto com aquele sentimento de receio, medo até, de estarmos seguindo o mesmo caminho. No entanto, no final, me deu aquela pontada de otimismo e esperança que só os seres humanos podem sentir. Realmente quero acreditar que está surgindo das cinzas uma civilização baseada na liberdade e na responsabilidade. Sei que não verei em vida uma civilização assim, mas me contento se ano a ano avançarmos a passos lentos porém constantes a este horizonte.

    Sempre ótimos os textos do IMB.

    Agradeço ao IMB por existir e nos agraciar com textos de excelente qualidade, pois sem ele nunca encontraria esperança para o mundo.
  • Leandro  14/09/2012 05:47
    Obrigado pelas palavras, Ricardo. Grande abraço!
  • Andre Cavalcante  14/09/2012 06:34
    Comecei a acompanhar o site do IMB ano passado. Gostaria de ter sido apresentado antes!

    Mas vejo que a quantidade de pessoas que acompanham e comentam, até diariamente, o site tem aumentado gradativamente. Se não serão todos anarco-capitalistas, como a esmagadora maioria do IMB, ao menos serão mais propensos a menos leis, menos regulamentações e mais liberdade.

    Se o governo brasileiro ao menos fizesse uma privatização de fato da infra-estrutura (nem precisaria mexer em coisas "polêmicas" como educação e saúde) já mudaria a cara deste país e parafraseando um certo barbudo: "como nunca dantes neste país..." :)

    É isso que me faz ainda ser um tanto otimista quanto ao futuro.
  • Mohamed Attcka Todomundo  14/09/2012 18:07
    Ricardo:

    ñ espere p/ ver uma civilização desse ou daquele jeito: participe! Contraeconomia e economia subterrânea são o lance.

    Andre Cavalcante:

    vc tem razão sobre a movimentação aqui neste site: tem algo de alquímico em ebulição no mises.org (nenhum outro site libertario do brasil tem tantas postagens nos artigos, e olha q tem outros com mais gente encabeçando e participando da "diretoria". mas em termos de leitores e debate, mises.org é o cara). e é assim nos sitios mises.org noutros paises tb. Deem uma olhada nas versões de equador, israel e romenia, por ex., p/ ver como tá legal.

    aproveitando p/ divulgar: [linklibertyzine.blogspot.com.br]libertyzine.blogspot.com.br[/link]. este site de liberalismo tem textos muito bons
  • Breno  14/09/2012 05:44
    A Espanha enfrenta sérios problemas econômicos. Não estaria na forma de governo o cerne da questão espanhola?
  • Leandro  14/09/2012 06:01
    A crise espanhola é mais um perfeito exemplo prático da teoria austríaca dos ciclos econômicos. Uma acentuada expansão do crédito formou uma bolha no setor imobiliário, desviando vários recursos e mão-de-obra para este setor. Quando a bolha estourou, todos os desequilíbrios e desarranjos da economia espanhola foram revelados. Milhares de pessoas perderam seus empregos (que foram artificialmente criados pela bolha; não havia demanda real por eles) e milhares de empresas endividadas (pois entraram na onda do crédito farto) fecharam.

    A recessão poderia ser curta -- porém profunda -- caso o governo permitisse liberdade de preços e salários, o que levaria a um rápido rearranjo da economia de acordo com as reais demandas dos consumidores (exatamente como ocorreu na hoje esquecida Grande Recessão americana de 1920-21, a última na qual o governo nada fez).

    Porém, a economia espanhola é totalmente amarrada. As pessoas recebem 14 salários por ano, eles são altos, os encargos trabalhistas e sociais são pra lá restritivos, e as leis trabalhistas são punitivas e engessadas. Sendo assim, só intervenção divina para recuperar aquela economia. Recomendo este artigo sobre a realidade espanhola.

    Abraços!
  • Andre Cavalcante  14/09/2012 06:29
    Sem contar que os cartéis profissionais praticamente impedem a mobilidade do trabalhador. Algo que está aos poucos tomando o Brasil.
  • Charlton Heslich Hauer  07/07/2013 00:33
    Leandro, há outro enorme fator que, sem dúvida, está fazendo com que a crise espanhola seja ampliada: Os Homens (sexo masculino) espanhóis estão sendo destruídos pela perda gradual daquilo que é mais importante em suas vidas: sua liberdade, sua autonomia, seu bom nome.

    Muitos Homens estão sendo acusados, processados e, muitas vezes, condenados em decorrência de uma monstruosa epidemia de acusações falsas feitas por mulheres contra os Homens em diversos países do mundo, especialmente naqueles mais ginocêntricos e feministas, e que possuem leis especiais de proteção à mulher. Na Espanha, por exemplo, são cerca de 400 homens indo aos tribunais todos os dias, 400 denúncias por dia, e pasmem sobre mais essa assustadora informação: Alguns magistrados espanhóis, como a juíza decana de Barcelona, María Sanahuja, escreveu um relatório que mostrava que cerca de 90% das denúncias contra os Homens, envolvendo violência doméstica e estupro, são FALSAS! Os amigos do IMB querem comprovar o que digo com seus próprios olhos? Vejamos então o emocionante documentário que referenda o que digo:

    Coerção estatal para afastá-los dos filhos, da família, perda da autonomia e da liberdade. Isso é mais do que suficiente para que os Homens comecem a desistir da sociedade. E sem a participação dos Homens, qualquer economia fracassa.

    Se num país de primeiro mundo, há esse número absurdo de discriminações e injustiças, imaginemos o que deve acontecer no Brasil, então.

    Boa parte do mundo está caminhando para uma total licenciosidade, autonomia total, concedida às mulheres, e para a perda total da autonomia dos Homens arrancada por coerção estatal mediante leis sexistas, supremacistas e draconianas. E isso, infelizmente, deverá continuar por um longo tempo enquanto tivermos Estados que são completamente controlados (direta ou indiretamente) por feministas e enquanto os homens não começarem a tomar consciência disso.


  • Renato Souza  07/07/2013 11:55
    Como se chegou a essa situação? Leis especiais. As partes não são julgadas pelos mesmos critérios. A lei ordena que o juiz já entre no julgamento pendendo para um lado, considerado hipossuficiente. É claro que pessoas mal intencionadas se aproveitarão disso.

    A lei tem de ser justa. Uma mentalidade de "reparação histórica" distorce a justiça, necessariamente. Seria estranho se isso não acontecesse.
  • Charlton Heslich Hauer  10/07/2013 02:51
    Exatamente, Renato. A justiça deveria ser cega, ou seja, os encarregados dos julgamentos não deveriam ter nenhum envolvimento com as partes em litígio.

    Todo esse mar de privilégios femininos que nós vemos, parte, como você colocou bem, de uma errônea e ginocêntrica idéia de "reparação histórica" (feministas chamam de "discriminações positivas" ou "ações afirmativas"). Mas não existem "discriminações positivas". Discriminação é discriminação. Coerção é coerção. Além disso, eu, modéstia à parte, seria capaz de refutar toda a "teoria da opressão" e do "patriarcado". São teorias anticontextuais em que os fatos são definidos por elas, feministas, com antecedência. E não só isso. A verdade é que não existiu outro grupo mais privilegiado no planeta, em todos os impérios, em todas as épocas da humanidade, que as mulheres.
  • matheus ferreira   08/11/2017 22:20
    entendo que uma boa parte da população acredita que estupradores devam ser condenados sem julgamento e e claro que pessoas inescrupulosas possam se aproveitar disso com falsas acusações, mas não entendo como as mulheres são o grupo mais privilegiado da historia em qualquer epoca
  • matheus  14/11/2017 18:26
    achei mal colocado o meu comentário anterior, não acho que crimes contra as mulheres não aconteçam, o numero de criminosos violentos e maior do que daqueles que queiram manchar a reputação de alguém, quando eu disse não entender que as mulheres eram o grupo mais privilegiado da historia eu tentei criticar o comentário anterior, mesmo que a discriminação contra as mulheres seja descontextualizada ela existiu, o fato e que estamos julgando os homens por sua epoca
  • Mário Silva  08/07/2013 23:55
    O incrível é que essa "novidade" de presunção de culpabilidade, nos casos da "Lei Maria da Penha", ainda não tenha chegado ao Brasil.

    Eu gostaria de crer que se chegasse, o STF barrasse, com base no princípio constitucional da "presunção da inocência".

    Mas se pensarmos bem, vemos que o controle constitucional é uma barreira ilusória.

    Não faltará quem defenda que referido princípio deve ser sopesado com o "princípio da dignidade humana" da mulher agredida, e que portanto, se justifica jogar as pessoas na cadeia antes de qualquer investigação. E essas forças serão politicamente mais fortes.

    A Espanha também tem uma tradição forte em defensores dos direitos humanos (Ferrajoli, etc.), e não se livrou desse absurdo.

    Enfim...

    Podem aguardar, que em breve, essa loucura coletiva aporta por aqui.
  • Charlton Heslich Hauer  10/07/2013 01:57
    Mário Silva, confrade, já aportou faz tempo. Milhares de Homens brasileiros estão sendo destruídos pela famigerada Lei Maria da Penha. Esta lei sexista e draconiana, que veio subjugar todos os Homens brasileiros, feriu de morte os artigos: 5º, inc. I (Princípio da Isonomia), e o 226, parágrafo 8º, ambos da Constituição Federal.

    Vou lhe dar só um exemplo: Se qualquer mulher que conviva com um Homem (esposa, namorada, irmã, tia, mãe, etc.) fizer uma falsa denúncia de violência doméstica contra você (com ou sem testemunha), ou então, até se uma vizinha ouvir uma discussão entre um homem e sua mui esposa, e resolver denunciá-lo por agressão, este homem será, ou preso de imediato, ou em 7, 8 ou 9 dias (depende do juiz), o mais novo vitimado pela saga terrorista da moda: as "medidas protetivas de urgência", obrigando-lhe a se afastar, não somente da acusadora, mas de TODOS os seus parentes (independente se tenham a ver com o caso ou não). O Estado irá obrigá-lo a se afastar de sua própria casa e de seus próprios filhos, e o homem é que, a partir de agora, terá que conviver com essa monstruosidade estatal até conseguir provar sua inocência. Isso se conseguir, pois há um exército de servidores públicos (delegadas(os), assistentes sociais, juízes e promotores) alienados pela ideologia da Vitimização mais dominante do Ocidente, o Feminismo (muito mais que qualquer outro "ismo"), e com uma total má-vontade diante de qualquer evidência de inocência sua.

    E tem mais... mesmo que acusadora queira retirar o processo contra o Homem em questão, que ela diga que a denúncia foi falsa, e que não foi nada do que aconteceu, ainda assim, o Ministério Público fará uma denúncia contra você, já que a famigerada lei prevê que os casos onde houver acusação de violência doméstica feita por uma mulher (ser "supremo" da sociedade) contra um Homem (o "agressor" por definição, isso para a sociedade supremacista feminina), a ação penal deve ser PÚBLICA e INCONDICIONADA (ou seja, não precisa nem de advogado nem de representação, e você, sim, é que terá que pagar "rios" de dinheiro com advogado para provar sua inocência).

    Já há 50 projetos de lei para alterar a Lei Maria da Penha pedindo mais punição para os Homens acusados. Todos privilegiando ilegitimamente as mulheres e desrespeitando os direitos humanos mais básicos dos Homens. E para completar, no último fim de semana, uma CPMI aprovou um relatório que pretende tipificar o crime de FEMINICÍDIO.

    Essa lei especial de proteção à mulher é um absurdo por inúmeros motivos, e um dos maiores deles é que, em quase todos os países do mundo, mulheres e homens se agridem em proporções iguais. No Brasil, as duas maiores pesquisas feitas por instituições científicas sérias (e não aquelas com interesses na fabricação de dados pró-mulheres) evidenciam que mulheres agridem mais do que os homens (mais o que as pessoas não vêem na mídia, elas não acreditam).

    Feministas controlam (direta ou indiretamente) completamente o Estado e a opinião pública. Não se vê (quase) nenhum pensador de renome com coragem para denunciar todo esse supremacismo feminino (o qual vem negando até a autonomia dos Homens), e quando aparece, sua voz discordante é imediata e violentamente reprimida. Alguns Homens estão começando a enxergar toda essa perseguição. Outros muitos não enxergam ou ainda acham irrelevante. Eles discutem Filosofia, Política, Economia, Ciência, Religião, futebol, mas não discutem o fato do quanto estão sendo espoliados, discriminados e demonizados, apenas pelo fato de terem nascido homens.

    Dos mais de 500.000 encarcerados no Brasil, mais de 94% deles são do sexo masculino, mas feministas, a mídia, os governantes e demais políticos só vão se contentar quando esse número atingir os 100%. Enquanto isso, agressões e crimes hediondos cometidos por mulheres contra os homens não são divulgados nem recebem justa punição:

    sexoprivilegiado.blogspot.com.br/2013/07/atualizacao-assassinatos-e-agressoes-cometidos-por-mulheres-contra-homens-em-2013.html
  • Neto  14/09/2012 06:30
    Impressão minha ou ele é meio pró propriedade intelectual?
  • Luis Almeida  14/09/2012 06:43
    Impressão esquisitíssima sua. Não há nada que sequer dê essa impressão. Releia o trecho e veja que ele está se referindo à duplicação de esforços em uma sociedade cuja divisão do trabalho foi afetada.
  • Fabio  14/09/2012 06:45
    A Espanha está a um passo de se fragmentar politicamente.
  • eduardo  14/09/2012 06:55
    Excelente artigo, ainda que me deixe triste ao final da leitura. O curioso é que muitos estão vendo esse declínio da sociedade hoje, mas não acham possível agir.\r
    \r
    Quantas vezes não ouvimos falarem do passado como "época de ouro", de inocência. Meu pai sempre conta de como, no interior ao menos, os donos de armazém saíam para fazer entregas e deixavam as lojas abertas, e os clientes, entravam pegavam o que queriam e deixavam o dinheiro. Ou a entrega do leite, onde ficavam na porta o dinheiro e a garrafa vazia, à espera do entregador.\r
    \r
    No entando, todos acham que essa decadência atual é algo inevitável, a marcha do progresso, que aconteceria de qualquer modo. Ninguém se pergunta por que ou o que poderia ser feito.\r
    \r
    Bem, ao menos o IMB e alguns outros sites são um farol de esperança. Onde podemos ler os textos e imaginar outros lendo, trocar comentários, debater idéias "fora da caixa", na esperança de que um dia as pessoas certas também irão lê-los e algo poderá ser revertido.
  • LIVIO LUIZ SOARES DE OLIVEIRA  14/09/2012 06:57
    Jesús Huerta de Soto é sempre uma fonte de textos brilhantes como este. Sobre os erros grosseiros que levaram à ruína do Império Romano, erros semelhantes estão, infelizmente, a ser cometidos por países que outrora foram a terra do liberalismo econômico, como os EUA. Como dizia o filósofo George Santayana, "Those who cannot remember the past, are condemned to repeat it"
  • Breno  14/09/2012 07:00
    Acho que o IMB defende uma revisão das leis trabalhistas da Espanha. E foi daí que surgiu minha indagação. Acho difícil defender ideias liberais fora de um modelo de governo integralmente democrático.

    A "proteção social" é um dos pilares da política espanhola, como também na Áustria, e, por isso, muitas vezes acho a discussão infrutífera. Apesar de reconhecer nos argumentos defendidos pelo IMB, da diminuição dos encargos trabalhistas como forma de aumentar a competitividade uma coerencia economica melhor - a flexibilidade dos encargos me parece a melhor opção. (Crises vêm e vão)

    Acredito que a intervenção divina se fará pela via democrática, dentro dos princípios da representatividade política da Espanha. Mesmo assim, é importante enfatizar que a Espanha foi um dos países que mais se beneficiou do processo de construção da União Européia e um dos que menos cumpriu vários dos acordos, principalmente, nas questões migratórias.

    Talvez, aí resida um dos Calcanhares de Aquiles da política espanhola. Daí, minha pergunta.

    O Acemoglu, Why the nations fail? faz considerações históricas sobre o modelo de desenvolvimento Espanhol, ao que me parece nessa mesma linha da Escola Austríaca - mereceria uma análise mais detalhada.
  • Emidio Carlos Cabral  14/09/2012 07:10
    Infelizmente no Brasil presenciamos o crescimento vertiginoso das obras assistencialistas, sem projetos específicos para a fundamentação da Cidadania de cada habitante. Desde 1940 quando medidas populistas, demagógicas foram impetradas pelo Presidente Getúlio Vargas, até no momento através de uma Presidente : Dilma Roussef, continua com o "socialismo" destruidor: oferecendo sempre subsídio para todos e tudo pela frente, sem possuir Projetos para realmente manter a cadeia de produção: venda e compra em equilíbrio. Vender carros de 150.000,00 para todos e todas, pagando em 100 meses, com juros altíssimos, onde a pessoa as vezes não possue a moradia digna, trabalho com baixo salário, mas querendo possuir o "status" nunca experimentado pelo Operariado, trabalhador braçal, sem formação superior ou especialização alguma.
    Triste realidade, o sonho transformará em pesadelo caso medidas de austeridades sérias na Educação, Segurança e Saúde não forem implementadas urgentemente.
    Terra dos Papagaios, terra Brasilis, Terra da Veras Crucis.
  • anônimo  16/09/2012 17:37
    Sr. Emídio,

    O senhor foi um dos frequentadores da palestra "Ascensão Conservadora" realizada na USP no último dia 28 de agosto?

    www.youtube.com/watch?v=TRIXKEtcG_g&feature=share&list=PL1268D453DDAA64CE
  • BSJ  14/09/2012 09:13
    Alguém pode me dizer, em linhas gerais, se os encargos trabalhistas e tributários dos principais países europeus são menores ou maiores, quando comparados aos do Brasil?
  • Pedro  14/09/2012 11:01
    Segue uma noticia a respeito:

    economia.estadao.com.br/noticias/economia,brasil-e-n-1-em-encargos-trabalhistas,77080,0.htm
  • Antonio Galdiano  14/09/2012 10:45
    O mais importante do texto é o reforço da conexão que há entre o progresso material e um tipo específico de moralidade. Às vezes sinto um por parte de alguns um economicismo crú, a qual desconsidera que a construção do próprio progresso é alicerçada por comportamentos humanos adequados e que, e principalmente, não é todo e qualquer tipo de liberdade que defendemos, mas sim uma liberdade restrita por uma moral condutora da paz e da prosperidade. Caso alguém se sinta ofendido por essas palavras de restrição de liberdade, pense se os governantes romanos e seus lacaios deveriam ter a liberdade que teve para fazer o que o texto relata, a liberdade de explorar o fruto alheio e de impor coisas.
  • Vinci  14/09/2012 13:20
    Lendo artigos como esse, vejo como vocês do IMB são de fundamental importância para essa tacanha intelecualidade brasileira. Diante da grandeza intelectual dessa escola, o IMB é como uma lanterna no fim do túnel, e que - felizmente - está agigantando seu foco de luz.

    Como um pessimista - ou diria realista - infelizmente não vejo solução, nem a longo prazo, para o problema do Intervencionismo. Como bem apontou Huerta de Soto, o Estado cria seus filhotes, que são agraciados com as tetas fartas do leviatã. Fora isso, controlando o poder de Polícia e emissão do Papelzinho-do-diabo, não nos resta muitas ferramentas de combate. O funcionalismo público se retroalimenta e tem uma classe parasitária assutadoramente poderosa. A luta entre Setor produtivo (privado, óbvio) e o improdutivo é inglória. E o pior, o empresariado, sabendo de sua fraqueza, se une aos parasitas para se manterem no páreo.

    Mas mesmo diante desse terreno hóstil, instituições como o IMB são de fundamental importância para minar o território. Quem sabe aos poucos consigamos derrubar alguns pilares do leviatã.


    A vocês, meus sinceros agradecimentos!
  • Sérgio  14/09/2012 15:11
    Mas peraí, Será que ninguém percebeu este erro?
    "Começando especialmente no século III, a compra de votos e de popularidade levou à disseminação da distribuição de subsídios para a população adquirir alimentos ("panem"). Tais subsídios eram financiados com dinheiro de impostos, política essa conhecida como "annona". Além destes subsídios, havia também uma contínua organização dos mais esbanjadores e opulentos jogos públicos para divertir a população ("circenses")."
    - A política de "pão e circo" começou muito antes do século III. O "praefectus annonae" foi criado na época da República e aperfeiçoado pelo Imperador César Augusto. O Coliseu foi construído no século I, no tempo de Vespasiano.

    Acredito que a queda da civilização romana foi devido degeneração dos costumes. Os romanos só queriam saber de bacanais, banhos públicos e Coliseu. Deu no que deu.
  • Desiludido  08/07/2013 14:37
    "Acredito que a queda da civilização romana foi devido degeneração dos costumes. Os romanos só queriam saber de bacanais, banhos públicos e Coliseu. Deu no que deu."

    O problema não foi a subjetiva "degeneração" dos costumes. O panem, embora não tenha muito de "degeneração"; foi tão importante quanto o circenses para a desagregação da divisão do trabalho e à consequente queda do império.

    Minha opinião é que devemos ter menos moralismo e mais pragmatismo. Moral é subjetiva. Mal empregado, o moralismo é mais uma ferramenta para cerceamento da liberdade econômica. Como libertários, devemos defender que a cada indíviduo cabe arcar com as consequências de suas decisões.

    O problema do império foi o incentivo estatal à improdutividade e o desincentivo à produção. Caso fosse dado um incentivo igual à uma atividade "moralmente correta" porém improdutiva, poderiamos até ter uma queda mais lenta, mas o resultado final seria similar...
  • Emerson Luís, um Psicólogo  08/07/2013 22:50
    "Começando especialmente no século III..."

    "A política de "pão e circo" começou muito antes do século III. O "praefectus annonae" foi criado na época da República e aperfeiçoado pelo Imperador César Augusto. O Coliseu foi construído no século I, no tempo de Vespasiano.

    Acredito que a queda da civilização romana foi devido degeneração dos costumes. Os romanos só queriam saber de bacanais, banhos públicos e Coliseu. Deu no que deu."



    Foi um processo longo e gradual. A política "pão e circo" começou bem antes, mas foi crescendo até se tornar um monstro.

    A degeneração dos costumes e a má administração econômica são fortemente relacionadas, tanto em nível individual, familiar, até o nacional. Quando as pessoas não amadurecem ou quando elas se pervertem, muitas vezes começam a administrar mal aquilo que está no seu poder, rumando para o colapso.

    * * *
  • Antonio  14/09/2012 17:28
    Antonio Galdiano,\r
    \r
    \r
    Liberdade não é fazer o que se quer, mas não estar submisso à coerção de terceiros (Estado)- F. Hayek, O Caminho da Servidão.
  • Antônio Galdiano  15/09/2012 03:45
    Essa é uma definição parcial da liberdade que sustento (e não vou criticar Hayek por uma frase sem seu contexto pois evito ser leviano). Liberdade envolve também empatia, reciprocidade, ou seja, ao promover minha liberdade eu não posso coagir ninguém fisicamente ou com ameaça dessa coerção. Assim, em estar liberto eu possuo a responsabilidade moral de não abusar livremente ninguém nos termos que condicionei logo atrás.
    Essa é a minha visão. Liberdade implica responsabilidade.
  • Neto  15/09/2012 06:05
    Não coagir, sim; empatia, não necessariamente.
  • Augusto  14/09/2012 18:19
    Um livrinho muito legal e de facil leitura - nao sei se foi traduzido para o Portuguese - chama-se "Forty centuries of wages and price controls", tambem fala dos resultados desastrosos de intervencoes economicas. Nao me canso de recomendar a leitura a quem e interessa pelo assunto.
  • L. Torres  17/09/2012 17:10
    Socorro! Em BH esse ano só temos candidatos socialistas pra prefeito! Uns mais radicais outros menos, mas todos esquerdistas!
  • Matheus Polli  17/09/2012 20:19
    E em outros anos não havia? Eu só vi socialistas em toda minha vida, pra qualquer cidade. Aqui em Campinas-SP é a mesma lenga lenga, ainda mais eu que moro em frente ao PCdoB! É rir pra não chorar.
  • anônimo  27/09/2012 14:06
    Ainda hj tive uma discussão com familiares sobre este tema. Ninguém daqui me entende quando digo "escravo", eles acham realmente que há diferença entre escolher o candidato A ou o B, ou o C... desde tenra idade observei algo que não entendia bem, algo cíclico, algo que tinha um "que" de reprise nessa história toda.
    Excelente texto! Vou mandar fazer uma camiseta com o desenho do texto para usar no dia da eleição.
  • Um Filósofo  06/07/2013 19:23
    Permita-me refutar o "empreendedorismo" inescrupuloso do senhor Soto:

    "1. na especialização da criatividade empreendedorial em campos cada vez mais específicos, com cada vez mais profundidade e detalhes;"

    Para tal, o senhor Soto prega que a escassez desnecessária seja criada a atormentar os homens para que mais lucros sejam auferidos pelos prestadores de serviço. Diferentemente daquilo pregado pela escola austríaca, a escassez não é a situação natural do homem em um ambiente de completo ócio, mas sim a abundância. Ao empreendedor ofertar, por exemplo, comida cruelmente da eliminação de recursos naturais aos homens; o que ocorre é que a própria fome fora criada pois os homens serão expostos à obsolescência existencial de não ter comida.
    O mesmo vale para o vendedor de água de coco na praia, que explora os pobres que vão às praias ao ofertar-lhes água de coco, uma necessidade específica e profunda.
    Agradeço à juventude socialista do The Zeitgeist Movement por tamanha iluminação sobre como os próprios prestadores de serviço(Eliminadores da escassez de outros) criam escassez.

    2. no reconhecimento dos direitos de propriedade do empreendedor criativo, o que significa que ele tem o direito de manter para si os frutos de sua atividade criativa em cada uma destas áreas;

    Absurdo. Ele utilizou átomos retirados da natureza, o que antes pertenciam à toda sociedade. Tratou-se de um roubo. Todos os recursos possuem uma função social coletiva pois toda vez que são tomados da natureza, passam a não mais pertencer a todos, mas a apenas um. Logo, o próprio corpo do empreendedor é uma propriedade de todos e deve ser utilizado pelo bem comum de toda a comunidade.

    3. na troca livre e voluntária destes frutos gerados pela especialização de cada ser humano, uma troca que sempre será mutuamente benéfica para todos aqueles que participam do processo de mercado;

    Os austríacos são simplistas e incapazes de reconhecer as implicações sociais do comércio e do trabalho. O valor objetivo marxista estabelece que todo comércio gera exploração/roubo caso ambos os bens trocados não possuam valor intrínseco idêntico e valor de adição social(Não confundir com o valor subjetivo austríaco, que é conceito da burguesia) não nulo. O que significa que caso eu troque uma porta de 8 horas de valor intrínseco por uma fruta colhida em 2 horas, estou tendo minha fome explorada pelo maligno coletor e sou seu escravo. Uma brutalidade.

    4. no crescimento contínuo da população humana, o que torna possível "ocupar" e cultivar empreendedorialmente um crescente número de novas áreas de conhecimento criativo empreendedorial, o que enriquece a todos.

    Maior população significa maior potencial de exploração da mais-valia. Já fora explicado incontáveis vezes por aqueles que se opõem ao pensamento do Senhor Soto que o fato de um homem trocar voluntariamente sua mão-de-obra por quaisquer bens é, na realidade, a venda da alma humana para o modo de produção burguês, a invasão do espírito, a morte da inocência e o próprio pecado original.
    É absurdo que mesmo após a cópia que eu o enviei de um livro do Milton Santos, o autor ainda resista com suas cismas reacionárias.
  • Renato Souza  07/07/2013 11:48
    É isso aí. Nosso "Filósofo", por trás das bobagens, escreve as grandes verdades. Zeitgeist é socialismo disfarçado.
  • João Duque  08/07/2013 18:42
    Eu nunca sei se esse tipo de comentário é algo sério ou alguém sendo irônico. De qualquer maneira é rídiculo.
  • Henrique Figueiredo Simoes  07/07/2013 02:12
    Mais um excelente artigo. Parabéns a todos do site, que não deixo de ler um dia sequer. Para minha curiosidade, algum de vocês poderia me dizer quantas visitas vocês estão recebendo por dia, em média? Gostaria de me animar com o número, que sei que deve ser alto.

    Um grande abraço aos colegas austríacos!
  • Bernardo Santoro  08/07/2013 17:49
    O texto é espetacular. Só discordo do último parágrafo. É impossível ser otimista no Brasil. O problema é que nós vivemos em uma bolha onde nossos amigos são tão libertários quanto a gente, mas esse não é o mundo real. No mundo real, as pessoas são cada vez mais burras e idiotizadas.

    A recente onda de manifestações é uma imagem clara disso: alguns pequeninos grupos nossos com cartazes inteligentes e tentando mostrar que passe livre e intervenção estatal são descivilizatórios (para usar a linguagem do prof. Huerta) e a grande massa ignara defendendo tudo "gratuito" (educação, saúde, transporte, dança do ventre, sei lá mais o quê), e ao mesmo tempo falando mal da corrupção, como se serviços públicos e corrupção não estivessem intrinsecamente ligados.

    Só não saio dessa droga de país porque o mundo todo está em um processo descivilizatório. Não tem muito para onde correr.
  • Mauro  08/07/2013 18:07
    É isso mesmo, Bernardo. A idiotização é tamanha que tem gente que, ao mesmo tempo em que critica os gastos do governo em estádios, é contra a privatização dos mesmos.

    A inteligência, pelo visto, se tornou uma commodity rara hoje em dia.
  • Jeferson  08/07/2013 21:35
    Não é inteligência, é conhecimento. Eu e muitos aqui já fomos defensores do socialismo e do estatismo algum dia, até sermos libertos pelas idéias ensinadas neste site. No meu caso, tudo começou seguindo um link postado no facebook de um colega meu sobre um artigo contra o Banco Central. O artigo me provocou MUITA estranheza à primeira vista, e rejeitei a maioria das idéias logo de cara. Apesar disso, ao "folhear" o site, descobri que havia aqui vários artigos sobre "Economia Austríaca", uma coisa que eu estava procurando há bastante tempo sem sucesso, e foi isso que me motivou a ler diversos artigos de filosofia libertária, mesmo sendo muito contrário a eles no começo. Ao aprender a visão de economia da EA, minha mente foi se abrindo às idéias libertárias. Esse é o processo natural, ou pelo menos foi assim comigo.

    Alguns colegas meus que ainda são muito estatistas, estão aos poucos passando por esse processo lendo alguns artigos do Mises que eu indico. Uma amiga minha já lê praticamente todo dia os artigos do Mises (hoje por iniciativa própria), embora ela às vezes venha me questionar sobre um monte de coisas, e eu tento argumentar, nem sempre conseguindo convencê-la, mas ela é mais uma caminhando pra entender o porquê do mundo estar como está.

    O fato é que há toda uma construção de conhecimentos feita pelo estado em todos nós desde a infância, e ela precisa ser destruída pra podermos erguer o alicerce do conhecimento que nós adquirimos aqui. Não é um processo fácil, mas é possível.

    Realmente não dá pra ser otimista, mas dá pra ir provocando mudanças na realidade à sua volta e, quem sabe nossos netos não possam colher os frutos que estamos plantando? Talvez nem seja necessário chegar a tanto. Do jeito que o mundo está hoje, com tudo mudando MUITO rápido, talvez uma "revolução libertária" se torne inevitável e ocorra bem antes do que a gente imagina.
  • Luciano  08/07/2013 22:48
    Minha história com a EA e o libertariamo também é recente e começou por acaso enquanto pesquisava sobre o preço do ouro e acabei esbarrando num dos artigos do IMB.

    Não é fácil o choque de realidade que recebemos aqui, mas hoje sou mais um resgatado dos grilhões do Centrismo/Social Democracia, leitor assíduo do site e divulgo sempre que possível as ideias da liberdade.

    Por mais que a realidade não nos deixe muito otimistas, não devemos nunca subestimar a força das nossas ideias. Talvez por ter bem nítido na memória, a visão da minha própria ignorância, eu não consiga deixar de ser otimista quanto ao futuro.

    Obrigado, IMB.
  • Giovani  08/07/2013 19:53
    Prefiro que venham os 'bárbaros' da nova era !!! O Brasil está trilhando o caminho da Espanha.
    Há um exemplo nefasto aqui no Brasil, semelhante ao vivido pelos trabalhadores e empreendedores que estavam sob domínio romano. O Estado brasileiro causa à grande parte da população que produz, um terror após o carnaval, com a iconoclastia da Receita Federal : 'acerte sua contas com o leão", cuidado com a malha-fina", milhares de vezes bombardeado por mais de 60 dias em todos canais de televisão e jornais a partir de fevereiro de cada ano.
    Conheço muitos que chegam a reservar (deixam de trabalhar, viajar, ter lazer, etc) até um mês para "ajustar as contas com o leão". Uma pouca vergonha deste estado doente.
    Bem vindos os saxões !
  • Eliel  08/07/2013 21:57
    Acabei de ler o volume União Soviética da coleção Nações do Mundo e, juntamente com a (re)leitura desse artigo do Huerta de Soto, reforça suas ideias a respeito do socialismo imposto pelo estado - e não o "socialismo" espontâneo de mercado.
    Não entendo como ainda existem pessoas que agitam bandeiras do pc do b, pcb, etc.
    Por outro lado foi muito forte o mercado negro tanto de mercadorias quanto de favores "fura fila" na ex-URSS:
    "No cotidiano, essa economia nalevo consiste em trocas de favores e serviços, prestações de serviço e venda de bens raros como automóveis. Mas a manufatura e a venda no varejo nalevo podem tornar-se negócios de vulto, chegando a dez por cento ou mais do PNB.",(página 150 do citado livro).

    Hoje em dia diríamos tratar-se da "matéria escura".

    É óbvio, camaradas marxistas, comunistas, lulistas, enfim, o assunto não se esgota aqui. Será que os russos de hoje gostariam de voltar a viver conforme o poema das filas de Andrei Voznesensky?

    "Sou o 41º para Plisetskaya
    O 33º para o teatro em Taganka
    O 45º para o túmulo em Vagankovo
    ...
    Sou o 10007º para um carro novo
    (me inscreveram mesmo antes de eu nascer)."
    (resumi o que está na página 20).

    Pois bem, é provável que os norte coreanos estão nessa decadente fase civilizatória, já que os russos, com certeza, não podem e nem querem voltar a esse passado obscuro.





  • Sérgio  08/07/2013 23:59
    "Moral é subjetiva."

    Errado. O que é certo é certo e o que é errado é errado. Dizer que moral é subjetiva é o mesmo que querer relativizar o holocausto dizendo que os nazistas apenas tinham uma moral diferente.
  • Desiludido  10/07/2013 18:45
    "O que é certo é certo e o que é errado é errado."

    E quem sou eu ou você para saber REALMENTE o que é certo ou errado... Afirmar saber o que é certo e o que é errado é similar a se julgar onisciente. Coisa que nem eu, nem você ou qualquer outro ser humano é.

    "Dizer que moral é subjetiva é o mesmo que querer relativizar o holocausto dizendo que os nazistas apenas tinham uma moral diferente."

    Não me atribua palavras que não escrevi.

    Conceitos morais dependem SIM da cultura e SÃO manipulados pelo aparato e propaganda estatal. Justamente achar que sabe o que é CERTO e o que é ERRADO é o que causa tragédias humanas (como foi o holocausto, como foram os bombardeios incendiários em bairros residenciais durante a segunda guerra, como foi a inquisição, as crusadas, etc). Boa parte dos alemães que cometeram atrocidades o fizeram porque acreditavam agir conforme seu código moral (autodefesa, patriotismo, obediência a hierarquia, etc.). Fizeram isso JUSTAMENTE porque também achavam saber que "o que é certo é certo e o que é errado é errado".

    Convido-o a classificar como moral ou imoral os seguintes atos e fatos nas culturas cristã-ocidental, islâmica árabe e japonesa:

    1) Poligamia;
    2) Mostrar a sola do seu sapato para alguém;
    3) Entrar no apartamento de alguém sem tirar os sapatos;
    4) Cobrar juros de empréstimos;
    5) Mentir;
    6) Ficar nú em público.

    É bastante forçado rotular três grandes grupos (já heterogêneos entre si) como "culturas". Mas o faço para facilitar a análise. Quem argumentar que sua "cultura" é melhor do que as demais, no fundo, não é tão diferente assim dos nazistas.

    Tenha muito cuidado ao apelar à "moral" e aos "bons costumes". É um prato cheio para ser manipulado pelos autoritários ou pelos esquerdopatas.
  • Renato Souza  10/07/2013 22:58
    Desiludido

    Em primeiro lugar, concordo que a percepção humana da moralidade não pode ser totalmente objetiva. Considero a moralidade como a lógica, ela não é criada, é descoberta. Os princípios da lógica foram descobertos de forma totalmente subjetiva, pela introspecção. Penso que a moralidade também é descoberta pela introspecção. A nossa fraca condição nos impede de aplicar plenamente a lógica (geralmente somos estúpidos demais para compreender a natureza da maioria dos problemas da nossa complexa realidade). Com mais força ainda, temos dificuldade para compreender corretamente a maioria dos problemas morais.

    Mas até aqui me desviei do assunto. Ao negar de forma absoluta a moral (seria apenas uma questão pessoal, como gostar de morangos ou bananas), você deu um tiro no pé. É evidente que aderindo a um relativismo absoluto, o holoucausto não tem como ser coerentemente condenado. Seus argumentos foram de natureza puramente retórica.

    Ironicamente, o livro "Conversas com Hitler" revela que a própria motivação íntima de Hitler era anti-moralista. Quando seu amigo o questionou: "Cá entre nós… Nós dois sabemos que todas as imputações contra os judeus são falsas. Por que, então, você os odeia?" Hitler respondeu: "Não posso perdoar os judeus por terem inventado a moralidade".
  • Desiludido  11/07/2013 13:24
    Renato,

    Lendo o primeiro e o último parágrafo que você escreveu, noto que você concorda em boa parte com minha opinião. Concorda que a Moral é subjetiva e concorda que individuos imorais podem manipular o conceito de moralidade em uma sociedade.

    "Mas até aqui me desviei do assunto. Ao negar de forma absoluta a moral (seria apenas uma questão pessoal, como gostar de morangos ou bananas), você deu um tiro no pé. É evidente que aderindo a um relativismo absoluto, o holoucausto não tem como ser coerentemente condenado."

    Talvez tenha me expressado mal. Possuo e sigo um código moral. Se o negasse, neste momento estaria na cadeia, no ostracismo social ou quem sabe como governante ou CEO de uma corporação de compadres do rei. Esse código moral é definido pela necessidade de eu manter uma autoimagem saudável (não me sentir um ser "mau", traiçoeiro, desprezível) e uma boa imagem para as pessoas que me cercam. Logo, a cultura em que estou imerso define meu código de moralidade. Se eu não o seguir, aos poucos serei expulso do convívio social.

    No entanto, pensar que conceitos morais são absolutos é abrir uma porta de entrada para populismo, estatísmo e socialismo. Muito provavelmente, os romanos não enxergavam o bacanal ou o circo como "imoral". Os cruzados mataram mulheres e crianças inocentes crendo que seguiam a ordem divina, personificada em uma autoridade religiosa. Devemos sempre ter um senso crítico para questionar nossas ações, e sempre ter em mente que a liberdade sempre vem acompanhada da responsabilidade.

    Várias políticas brasileiras (que EU considero imorais) tem uma sustentação moral (esta sim, retórica no seu sentido pejorativo). São baseadas nos conceitos de ajudar ao necessitado, combater a injustiça, proteger o fraco, etc. Embora façam isto em um primeiro momento, o resultado final geralmente é o oposto.

    "Seus argumentos foram de natureza puramente retórica."

    Acho que o termo retórico foi um pouco forte, considerando que aparentemente você concorda em parte comigo (logo meu texto não foi vazio e não tento enganar alguém, e nele mesmo afirmo a possibilidade de EU estar enganado) e que você leu meu comentário e se dispôs a replicar (ou seja, não é um debate desnecessário).
  • Marcelo Werlang de Assis  09/07/2013 15:00
    Achei extremamente interessante a constatação de HUERTA DE SOTO de que o nível civilizatório da Roma Antiga (início do século I) foi resgatado pela humanidade somente no século XVIII. Isso revela o quão destruidoras e descivilizadoras foram as políticas estatais durante todo esse intervalo de tempo.

    Abraços!
  • Marcelo Werlang de Assis  11/07/2013 15:10
    Reproduzo abaixo um fantástico trecho de A Revolta de Atlas, de AYN RAND (São Paulo: Editora Sextante, 2010, volume II). Trata-se de uma inesquecível aula sobre a natureza descivilizadora do socialismo. Creio que, com a reprodução desta passagem, este ótimo artigo de HUERTA DE SOTO encontra o seu perfeito complemento.

    Ela olhou para a mesa e pensou que o magnífico de um mundo em que as pessoas tinham tempo para se preocupar com coisas como guardanapos engomados e cubos de gelo, oferecidas aos viajantes juntamente com a refeição por uns poucos dólares, era o vestígio de uma época em que ganhar a própria vida não era crime e em que conseguir uma refeição não era uma questão de vida ou morte — um vestígio que em breve desapareceria, como o posto de gasolina branco à margem da floresta.

    Percebeu que o vagabundo, que estava fraco demais para ficar em pé, não perdera o respeito pelo significado das coisas colocadas à sua frente. Não se jogou sobre a comida. Obrigou-se a fazer movimentos lentos, a desdobrar o guardanapo, a pegar o seu garfo no mesmo momento em que Dagny pegou o dela, com mão trêmula — como se ele ainda soubesse que eram estes os modos adequados a um ser humano, por piores que fossem as indignidades que lhe haviam sido impostas.

    — Que tipo de trabalho você fazia antigamente? — Perguntou ela, depois que o garçom saiu. — Industrial?

    — Sim, senhora.

    — Qual era o seu ofício?

    — Torneiro.

    — Qual foi o seu último emprego?

    — No Colorado, na fábrica de carros Hammond.

    — Ah...!

    — O que foi?

    — Nada, nada. Trabalhou muito tempo lá?

    — Não, senhora. Só duas semanas.

    — Por quê?

    — Bem, eu esperei um ano para arranjar esse emprego, fiquei lá no Colorado esperando. Havia uma lista de espera, lá na Hammond, só que lá o sistema não era o pistolão nem a antiguidade, era a folha de serviço que contava. A minha era boa. Mas, duas semanas depois que comecei, Lawrence Hammond largou tudo e desapareceu. Fecharam a fábrica. Depois, uma comissão de cidadãos a reabriu e me chamou de volta. Mas só durou cinco dias. Logo começaram as demissões. Por antiguidade. Então fui despedido. Soube que a tal comissão durou uns três meses. Depois tiveram que fechar a fábrica de vez.

    — E, antes disso, onde você trabalhava?

    — Em tudo quanto é estado do Leste. Mas nunca por mais de um ou dois meses. As fábricas fechavam.

    — Isso aconteceu em todos os empregos que você teve? — Ele olhou para ela, como se entendesse a pergunta.

    — Não, senhora. — Respondeu ele. Pela primeira vez, Dagny percebeu um leve toque de orgulho na sua voz. — No meu primeiro emprego, fiquei vinte anos. Não no mesmo cargo, mas na mesma fábrica. Acabei mestre. Isso faz doze anos. Então morreu o dono da fábrica, e os herdeiros deram com os burros n'água. Os tempos já estavam difíceis, mas depois as coisas começaram a piorar cada vez mais depressa, em tudo quanto era lugar. Depois disso, onde eu arrumasse emprego, a fábrica fechava logo. No começo, eu achava que o problema era só num estado ou numa região. Muita gente achava que o Colorado iria durar. Mas lá tudo também fechou. Aonde a gente ia, a coisa acabava. As fábricas fechavam, as máquinas paravam... — E acrescentou, num sussurro, como se enxergasse algum terror interior só seu: — Os motores paravam. — E, levantando a voz, disse: — Ah, meu Deus! Quem é... — Não concluiu a pergunta.

    — ... John Galt?

    — É — disse ele, que sacudiu a cabeça, como se para afastar alguma visão —, só que eu não gosto de dizer isso.

    — Nem eu. Eu queria saber por que as pessoas dizem isso e quem foi que inventou essa expressão...

    — Pois é, madame. É o que me preocupa. Talvez até tenha sido eu que a inventei.

    — O quê?

    — Eu e mais uns seis mil. É possível. Acho que fomos nós, sim. Espero que não.

    — Como assim?

    — Bem, foi uma coisa que aconteceu na fábrica onde trabalhei durante vinte anos. Foi quando o velho morreu e os herdeiros tomaram conta. Eles eram três, dois filhos e uma filha, e inventaram um novo plano para administrar a fábrica. Deixaram a gente votar, também, para aceitar ou não o plano, e todo mundo, quase todo mundo, votou a favor. A gente não sabia, pensava que fosse bom. Não, também não é bem isso, não. A gente pensava que queriam que a gente achasse bom. O plano era o seguinte: cada um trabalhava conforme a sua capacidade e recebia conforme a sua necessidade. Nós... O que foi? A senhora está bem?

    — Qual era o nome dessa fábrica? — Perguntou ela, com voz quase inaudível.

    — A Fábrica de Motores Século XX, em Starnesville, Wisconsin.

    — Continue.

    — Aprovamos o tal plano numa grande assembleia. Nós éramos seis mil, todo mundo que trabalhava na fábrica. Os herdeiros do velho Starnes fizeram uns discursos compridos, e ninguém entendeu muito bem, mas ninguém fez pergunta alguma. Ninguém sabia como é que o plano funcionaria, mas cada um achava que o outro sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e nada dizia, porque, do jeito como os herdeiros falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinhas. Disseram que esse plano concretizaria um nobre ideal. Como é que a gente poderia saber? Não era isso que a gente ouvia a vida toda dos pais, professores e pastores, em todos os jornais, filmes e discursos políticos? Não diziam sempre que isso era o certo e o justo?

    Dagny ouvia atentamente o que o homem dizia, e ele prosseguiu:

    — Bem, pode ser que a gente tenha alguma desculpa para o que fez naquela assembleia. O fato é que votamos a favor do plano, e o que aconteceu conosco depois foi merecido. A senhora sabe, nós, que trabalhamos lá na Século XX, durante aqueles quatro anos, somos homens marcados. O que dizem que o inferno é? O mal puro, nu, absoluto, não é? Pois foi isso que a gente viu e ajudou a fazer, e acho que todos nós estamos malditos e talvez nunca mais vamos ter perdão... A senhora quer saber como funcionou o tal plano e o que aconteceu com as pessoas? É como derramar água dentro de um tanque em que há um cano no fundo puxando mais água do que entra, e a cada balde que a senhora derrama lá dentro o cano alarga mais um bocado, e, quanto mais a senhora trabalha, mais exigem da senhora, e no fim a senhora está despejando baldes 40 horas por semana, depois 48, depois 56, para o jantar do vizinho, para a operação da mulher dele, para o sarampo do filho dele, para a cadeira de rodas da mãe dele, para a camisa do tio dele, para a escola do sobrinho dele, para o bebê do vizinho, para o bebê que ainda nascerá, para todo mundo à sua volta, tudo é para eles, desde as fraldas até as dentaduras, e só o trabalho é seu, trabalhar da hora em que o sol nasce até escurecer, mês após mês, ano após ano, ganhando só suor, o prazer sendo só deles, durante toda a vida, sem descansar, sem esperança, sem fim... De cada um, conforme a sua capacidade; para cada um, conforme a sua necessidade...

    Enquanto falava, o homem não tirava os olhos de Dagny, para enfatizar cada uma das suas palavras.

    — Nós somos uma grande família, todo mundo, é o que diziam, estamos todos no mesmo barco. Mas não é todo mundo que passa 10 horas com um maçarico na mão, nem todo mundo que fica com dor de barriga ao mesmo tempo. Capacidade de quem? Necessidade de quem, quem tem prioridade? Quando tudo é uma coisa só, ninguém pode dizer quais são as suas necessidades, não é? Se não, qualquer um pode dizer que necessita de um iate, e, se só o que conta são os sentimentos dele, ele acaba até provando que tem razão. Por que não? Se eu só tenho o direito de ter um carro depois que trabalhei tanto que fui parar no hospital, depois de garantir um carro para todo vagabundo e todo selvagem nu do mundo, por que ele não pode exigir de mim um iate também, se eu ainda tenho a capacidade de trabalhar? Não pode? Então ele não pode também exigir que eu não tome o meu café sem leite até ele conseguir pintar a sala de visitas dele? Pois é... Mas então decidiram que ninguém tinha o direito de julgar as suas próprias capacidades e necessidades. Tudo era resolvido na base da votação. Sim, senhora, tudo era votado em assembleia duas vezes por ano. Não tinha outro jeito, não é? E a senhora imagina o que acontecia nesses eventos? Bastou a primeira para a gente descobrir que todo mundo tinha virado mendigo — mendigos esfarrapados, humilhados, todos nós, porque nenhum homem podia dizer que fazia jus ao seu salário, não tinha direitos nem fazia jus a nada, não era dono do seu trabalho, o trabalho pertencia à "família", e ela não lhe devia nada em troca, a única coisa que cada um tinha era a sua "necessidade": e aí tinha que pedir em público que atendessem as suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos na calça e os resfriados da esposa, na esperança de que a "família" lhe jogasse uma esmola. O jeito era chorar miséria, porque era a sua miséria — e não o seu trabalho — a moeda corrente de lá. Assim, a coisa virou um concurso de misérias disputado por seis mil pedintes, cada um choramingando mais miséria do que o outro. Não tinha outro jeito, não é? A senhora imagina o que aconteceu, que tipo de homem ficava calado, com vergonha, e que tipo de homem levava a melhor?

    Ela não fez menção de responder, sem querer interromper o relato que tanto a interessava. O homem prosseguiu:

    — Mas há mais. Mais uma coisa que a gente descobriu na mesma assembleia. A produção da fábrica caíra 40 por cento naquele primeiro semestre, e então concluiu-se que alguém não usara toda a sua "capacidade". Quem? Como descobrir? A "família" também decidia isso no voto. Escolhiam no voto quais eram os melhores trabalhadores, e esses eram condenados a trabalhar mais, fazer hora extra todas as noites durante os seis meses seguintes. E sem ganhar nada a mais, porque a gente ganhava não por tempo nem por trabalho, e sim conforme a necessidade. Será que preciso explicar o que aconteceu depois disso? Explicar que tipo de criaturas nós fomos virando, nós, que antes éramos seres humanos? Começamos a esconder toda a nossa capacidade, trabalhar mais devagar, ficar de olho para ter certeza de que a gente não trabalhava mais depressa nem melhor do que o colega ao nosso lado. Tinha de ser assim, pois a gente sabia que quem desse o melhor de si para a "família" não ganhava elogio nem recompensa, mas castigo. Sabíamos que, para cada imbecil que estragasse um motor e desse um prejuízo para a fábrica — ou por desleixo, porque não havia motivo para caprichar, ou por pura incompetência —, quem teria de pagar era a gente, trabalhando de noite e no domingo. Por isso, a gente se esforçava ao máximo para ser o pior possível. Havia um garoto que começou todo empolgado com o nobre ideal, um garoto muito vivo, sem instrução, mas um crânio. No primeiro ano, ele inventou um processo que economizava milhares de homens-horas. Deu de mão beijada a descoberta dele para a "família", nada pediu em troca, aliás nem podia, mas não se incomodava com isso. "Era tudo pelo ideal", dizia ele. Mas, quando foi eleito um dos mais capazes e condenado a trabalhar de noite, ele fechou a boca e o cérebro. No ano seguinte, é claro, não teve ideia brilhante nenhuma. A vida inteira, nos ensinaram que os lucros e a competição tinham um efeito nefasto, que era terrível um competir com o outro para ver quem era melhor, não é?

    — É verdade, muitos acham que essa competição é algo nefasto. — Comentou Dagny.

    — Pois deveriam ver o que acontecia quando um competia com o outro para ver quem era pior. Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar não fazer o melhor de que é capaz, a se esforçar por fazer o pior possível dia após dia. Isso mata mais depressa do que a bebida, a vadiagem, a vida de crime. Mas para nós a única saída era fingir incompetência. A única acusação que temíamos era a de que tínhamos capacidade. A capacidade era como uma hipoteca que nunca se termina de pagar. E trabalhar para quê? A gente sabia que o mínimo para a sobrevivência era dado a todo mundo, quer trabalhasse, quer não, a chamada "ajuda de custo para moradia e alimentação", e mais do que isso não havia como ganhar, por mais que se esforçasse. Não era possível ter a certeza de que se poderia comprar uma muda de roupas no ano seguinte — a senhora podia ou não ganhar uma "ajuda de custo para vestimentas", dependendo de quantas pessoas quebrassem a perna, precisassem ser operadas ou tivessem mais filhos. E, se não havia dinheiro para todo mundo comprar roupas, então a senhora também ficava sem roupa nova. Havia um homem que passara a vida toda trabalhando até não poder mais porque queria que o seu filho fizesse faculdade. Pois bem, o garoto terminou o ensino médio no segundo ano de vigência do plano, mas a "família" não quis dar ao homem uma "ajuda de custo" para pagar a faculdade do filho. Disseram que o filho só poderia entrar para a faculdade quando houvesse dinheiro para os filhos de todos entrarem na faculdade — e, para isso, era preciso primeiro pagar o ensino médio dos filhos de todos, e não havia dinheiro nem para isso. O homem morreu no ano seguinte, numa briga de faca num bar, uma briga sem motivo. Brigas desse tipo se tornaram cada vez mais comuns entre nós. Havia um sujeito mais velho, um viúvo sem família, que tinha um hobby: colecionar discos. Acho que era a única coisa de que ele gostava na vida. Antes, ele costumava ficar sem almoçar para ter dinheiro para comprar mais um disco clássico. Pois não lhe deram nenhuma "ajuda de custo" para comprar discos — disseram que aquilo era um "luxo pessoal". Mas, naquela mesma assembleia, votaram a favor de dar para uma tal de Millie Bush, filha de alguém, uma garotinha feia e má, um aparelho de ouro para corrigir os seus dentes — isso era uma "necessidade médica", porque o psicólogo da empresa disse que a coitadinha ficaria com complexo de inferioridade se os seus dentes não fossem endireitados. O velho que gostava de música passou a beber. Chegou a um ponto em que nunca mais era visto sóbrio. Mas parece que uma coisa ele nunca esqueceu. Uma noite, ele vinha cambaleando pela rua quando viu a tal da Millie Bush, então lhe deu um soco que quebrou todos os dentes da menina. Todos.

    Atônita, Dagny ouvia o homem cuja expulsão do trem ela impedira.

    — A bebida, naturalmente, era a solução para a qual todos nós apelávamos, uns mais, outros menos. Não me pergunte onde é que achávamos dinheiro para isso. Quando todos os prazeres decentes são proibidos, sempre se dá um jeito de gozar os prazeres que não prestam. Ninguém arromba mercearias à noite nem rouba o colega para comprar discos clássicos nem caniços de pesca, mas, se é para tomar um porre e esquecer, faz-se de tudo. Caniços de pesca? Armas para caçar? Máquinas fotográficas? Hobbies? Para ninguém havia "ajuda de custo de entretenimento". O lazer foi a primeira coisa que cortaram. Pois a gente não deve ter vergonha de reclamar quando alguém pede para abrirmos mão de uma coisa que nos dá prazer? Até mesmo a nossa "ajuda de custo de fumo" foi raciocinada a ponto de só recebermos dois maços de cigarro por mês — e isso, diziam eles, porque o dinheiro estava indo para o fundo de leite para os bebês. Os bebês eram o único produto que havia em quantidades cada vez maiores — porque as pessoas não tinham outra coisa para fazer, imagino, e porque não tinham de se preocupar com os gastos da criação dos bebês, já que eram uma responsabilidade da "família". Aliás, a melhor maneira de conseguir um aumento e poder ficar mais folgado por uns tempos era ganhar uma "ajuda de custo para bebês" — ou isso, ou arranjar uma doença séria.

    — E como vocês faziam para sobreviver assim? — Quis saber Dagny.

    — Bom, não demorou muito para a gente entender como a coisa funcionava. Todo aquele que resolvia agir certinho tinha de se abster de tudo. Tinha de perder toda a vontade de gozar qualquer prazer, não gostar de fumar um cigarro nem mascar um chiclete, porque alguém poderia ter uma necessidade maior do dinheiro gasto naquele cigarro ou chiclete. Sentia vergonha cada vez que engolia uma garfada de comida, pensando em quem tinha sido obrigado a trabalhar de noite para pagar aquela garfada, sabendo que o alimento que comia não era seu por direito, sentindo a vontade infame de ser trapaceado ao invés de trapacear, de ser um pato, não uma sanguessuga. Não poderia ajudar os pais, para não colocar um fardo mais pesado sobre os ombros da "família". Além disso, se ele tivesse um mínimo de senso de responsabilidade, não poderia se casar nem ter filhos, pois não era possível planejar algo, nem prometer algo, nem contar com alguma coisa. Mas os indolentes e os irresponsáveis se deram bem. Arranjaram filhos, seduziram moças, trouxeram todos os parentes imprestáveis que tinham, todas as irmãs solteiras grávidas; para receber uma "ajuda de custo de doença", inventaram todas as doenças possíveis sem que os médicos pudessem provar a fraude, estragaram as suas roupas, os seus móveis, as suas casas — pois não era a "família" que estava pagando? Descobriram muito mais "necessidades" do que os outros, desenvolvendo um talento especial para isso, a única capacidade que demonstraram. Deus me livre!

    O fôlego dele para contar um passado não tão distante parecia não terminar, então ele prosseguiu, sem tirar os olhos de Dagny:

    — A senhora entende? Compreendemos que nos tinham dado uma lei, uma lei moral, segundo eles, que punia quem a observava — pelo fato de observá-la. Quanto mais a senhora tentava seguir essa lei, mais sofria; quanto mais a violava, mais lucrava. A sua honestidade era como um instrumento nas mãos da desonestidade do próximo. Os honestos pagavam, e os desonestos lucravam. Os honestos perdiam, e os desonestos ganhavam. Com esse tipo de padrão do que seja o certo e o errado, por quanto tempo os homens poderiam permanecer honestos? No começo, éramos pessoas bem honestas, e só havia uns poucos aproveitadores. Éramos competentes; nós nos orgulhávamos do nosso trabalho e éramos funcionários da melhor fábrica do país, para a qual o velho Starnes só contratava a nata dos trabalhadores. Um ano depois da implantação do plano, não havia mais homens honestos entre nós. Era isso o mal, o horror infernal que os pregadores usavam para assustar os fiéis, mas que a gente nunca imaginava ver em vida. A questão não foi que o plano estimulasse uns poucos corruptos, e sim que ele corrompia pessoas honestas, e o efeito não poderia ser outro — e era isso que chamavam de ideia moral! Queriam que trabalhássemos em nome de quê? Do amor por nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor? E se eles eram desonestos ou se eram incompetentes, se não tinham vontade ou não tinham capacidade de trabalhar — que diferença fazia para nós? Se estávamos presos para o restante da vida àquele nível de incompetência, fosse verdadeiro ou fingido, por quanto tempo nós nos daríamos ao trabalho de seguir em frente?

    Dagny o encarava sem dizer palavra alguma, enquanto ele falava o que lhe vinha à mente.

    — Não tínhamos como saber qual era a verdadeira capacidade deles, não tínhamos como controlar as suas necessidades, só sabíamos que éramos burros de carga lutando às cegas num lugar que era meio hospital, meio curral — um lugar onde só se incentivavam a incompetência, as catástrofes, as doenças —, burros de carga que só serviam às necessidades que os outros afirmavam ter. Amor fraternal? Foi então que aprendemos, pela primeira vez, a odiar os nossos irmãos. Começamos a odiá-los por causa de cada refeição que faziam, cada pequeno prazer que gozavam, a camisa nova de um, o chapéu da esposa de outro, o passeio que um dava com a sua família, a reforma que o outro fazia em sua casa — tudo aquilo era tirado de nós, era pago pelas nossas privações, nossas renúncias, nossa fome. Um começou a espionar o outro, cada um tentando flagrar o outro em alguma mentira sobre as suas necessidades, com o intuito de cortar a sua "ajuda de custo" na assembleia seguinte. Começaram a surgir delatores, que descobriram que alguém comprara às escondidas um peru para a família num domingo qualquer, provavelmente com dinheiro que ganhara no jogo. Começamos a nos meter um na vida do outro. Provocávamos brigas de família, para conseguir que os parentes de alguém saíssem da lista dos beneficiados. Toda vez em que víamos algum homem começando a namorar uma moça, tornávamos a vida dele um inferno. Fizemos muitos noivados se romperem. Não queríamos que alguém se casasse, pois não queríamos mais dependentes para alimentar. Antes, comemorávamos quando alguém tinha um filho, todo mundo contribuía para ajudar a pagar a conta do hospital, quando os pais estavam sem dinheiro. Nessa época, quando nascia uma criança, ficávamos semanas sem falar com os pais. Para nós, os bebês eram o que os gafanhotos são para os fazendeiros: uma praga. Antes, ajudávamos quem tinha doente na família. Depois...

    Ele notou a curiosidade no rosto de Dagny e prosseguiu antes que ela perguntasse o que acontecera:

    — Bom, contarei apenas um caso para a senhora. Era a mãe de um homem que trabalhava conosco havia 15 anos, uma senhora simpática, alegre e sábia, conhecia todos nós pelo primeiro nome, todos nós gostávamos dela antes. Um dia, ela escorregou na escada do porão, caiu e quebrou a bacia. Nós sabíamos o que isso representava para uma pessoa daquela idade. O médico disse que ela teria que ser internada, para fazer um tratamento caro e demorado. A velha morreu na véspera do dia em que seria levada para o hospital. Ninguém jamais explicou a causa da morte dela. Não, não sei se foi assassinato. Ninguém disse isso. Não se comentava sobre o assunto. A única coisa que eu sei — e disso nunca me esquecerei — é que eu também, quando me dei conta de mim, estava rezando para que ela morresse. Que Deus nos perdoe! Eram essas a fraternidade, a segurança, a abundância que nos foram prometidas com a adoção do plano.

    — Havia alguma razão para alguém pregar esse horror? Alguém lucrava com isso? — Perguntou Dagny.

    — Havia, sim: os herdeiros de Starnes. Espero que a senhora não vá me dizer que eles tinham sacrificado uma fortuna para nos dar a fábrica de presente. Nós também caímos nessa. É, é verdade que eles deram a fábrica. Mas lucro, madame, depende do que a pessoa quer. E o que os herdeiros de Starnes queriam, não havia dinheiro neste mundo que pudesse comprar. O dinheiro é uma coisa limpa e inocente demais para isso. Eric Starnes, o mais moço, era um frouxo que não tinha peito para ser nada. Conseguiu, no entanto, ser eleito diretor do nosso departamento de relações públicas. Nada fazia e tinha à sua disposição uma equipe que também nada fazia, por isso ele nem se dava ao trabalho de aparecer no escritório. O salário que ele recebia... Não, "salário" não é o nome apropriado, ninguém recebia salário, mas esmolas. As esmolas que lhe cabiam eram bastante modestas, umas 10 vezes o que eu ganhava, mas não chegavam a ser uma fortuna. Eric não ligava para dinheiro, não sabia o que fazer com ele. Vivia andando com a gente, para mostrar que era simpático e democrático. Pelo visto, queria que gostassem dele. Fazia questão de nos lembrar o tempo todo que ele nos tinha dado a fábrica. Gerald Starnes era o nosso diretor de produção. Nunca descobrimos que fatia ele levava — a esmola dele. Só mesmo uma equipe de contadores para calcular isso, e uma equipe de engenheiros para entender todas as manobras que levavam o dinheiro até a sua sala, fosse de maneira direta ou indireta. Supostamente, nem um tostão era para ele — era tudo para as despesas da companhia. Gerald tinha três carros, cinco telefones e dava festas regadas a champanhe e caviar, eventos mais extravagantes do que qualquer contribuinte milionário seria capaz de financiar. Gastou mais dinheiro em um ano do que o que o seu pai conseguira lucrar nos seus últimos dois anos de vida. Na sala dele, vimos uma pilha de revistas de 50 quilos — 50 quilos mesmo, a gente pesou — só com matérias sobre a fábrica e o nosso nobre plano, cheias de fotos dele, dizendo que ele era um grande líder social. Gerald gostava de visitar a fábrica à noite, vestindo smoking, com abotoaduras com brilhantes enormes, espalhando cinza de charuto por toda parte. Já é ruim um sujeito cuja única coisa que tem para exibir é o seu dinheiro, só que ele assume que o dinheiro é dele, e a senhora pode ou não achar isso bonito — a maioria não acha, aliás. Mas, quando um cachorro como Gerald Starnes vive dizendo que não liga para a riqueza material, que está apenas servindo à "família", que todo aquele luxo não é para ele, mas para o nosso bem e para o bem comum, porque é necessário para preservar o prestígio da empresa e do nobre plano perante o público, aí a senhora odeia o sujeito como jamais odiou um ser humano.

    Dagny lançou um olhar curioso para ele ao perceber que havia ainda mais coisas para saber.

    — No entanto, a irmã dele, Ivy, era ainda pior. Não ligava mesmo para a riqueza material. A esmola que ela recebia não era maior do que a nossa, e ela andava com uns sapatos sem salto surrados e umas blusas simples, só para mostrar como não pensava em si mesma. Era a nossa diretora de distribuição. Era ela a encarregada das nossas necessidades, quem nos prendia pela garganta. É claro que a distribuição era oficialmente decidida na base da votação, de acordo com a voz do povo. Mas, quando o povo em questão são seis mil pessoas berrando ao mesmo tempo, sem nenhum princípio, nenhuma lógica, quando o jogo não tem regras e cada um pode pedir qualquer coisa, mas a nada tem direito, quando todo mundo tem poder sobre a vida de todo mundo, menos sobre a sua própria, então acaba sempre acontecendo que a voz do povo é a voz de um só — no caso, Ivy Starnes. No fim do segundo ano, acabamos com aquele fingimento de "reunião familiar" — em nome da "eficiência da produção" e da "economia de tempo", já que cada assembleia durava 10 dias e todas as petições de necessidade eram simplesmente enviadas à sala da Srta. Starnes. Não, não eram bem enviadas. Tinham de ser recitadas perante ela pessoalmente por todos, cada um de vez. Então, ela elaborava uma lista de distribuição, que lia para nós para depois receber o nosso voto de aprovação, numa assembleia que levava 45 minutos. Sempre aprovávamos a lista. Constava da pauta um período de 10 minutos para discussão e objeções. Nenhuma objeção nós fazíamos. Àquela altura, já sabíamos que não valia a pena. Ninguém pode dividir a renda de uma fábrica entre milhares de pessoas sem ter algum critério para avaliar o valor individual de cada um. O critério dela era a bajulação. E, apesar de toda a sua imagem de desprendimento, ela falava com os nossos colegas mais habilitados e com as suas esposas de um jeito que o pai dela, com todo o seu dinheiro, jamais poderia ter usado para se dirigir ao último dos contínuos impunemente. A Srta. Starnes tinha uns olhos descorados que pareciam olhos de peixe: frios e mortos. E, se a senhora algum dia quiser ver o mal em seu estado mais puro, é só ver o jeito como os olhos dela brilhavam quando olhava para algum homem que uma vez tivesse levantado a voz para ela no momento em que ele ouvia o seu nome na lista de quem nada receberia além da cota mínima.

    — Estou impressionada. — Comentou Dagny.

    — Bem, quando a gente via isso, entendia qual era a motivação verdadeira de todo mundo que já pregou o princípio "de cada um conforme a sua capacidade, a cada um conforme a sua necessidade". Era esse o segredo da coisa. De início, eu não entendia como é que homens instruídos, cultos e famosos do mundo poderiam cometer um erro como esse e pregar que esse tipo de abominação era direito quando bastavam cinco minutos de reflexão para verem o que aconteceria quando alguém tentasse pôr em prática essa ideia. Agora sei que eles não defendiam isso por erro. Ninguém comete um erro desse tamanho inocentemente. Quando os homens defendem alguma loucura malévola, quando não têm como fazer essa ideia funcionar na prática e não têm um motivo que possa explicar a sua escolha, então é porque não querem revelar o verdadeiro motivo. E nós também não éramos tão inocentes assim, quando votamos a favor daquele plano na primeira assembleia. Não fizemos isso só porque acreditávamos naquelas besteiradas que eles vomitavam. Nós tínhamos outro motivo, mas as besteiradas nos ajudavam a escondê-lo dos outros e de nós mesmos — elas nos ofereciam uma oportunidade de dar a impressão de que era virtude algo que tínhamos vergonha de assumir. Cada um que aprovou o plano achava que, num sistema assim, conseguiria faturar em cima dos lucros dos homens mais capazes. Cada um, por mais rico e inteligente que fosse, achava que havia alguém mais rico e mais inteligente e que esse plano lhe daria acesso a uma fatia da riqueza e da inteligência dos que eram melhores do que ele. Mas, enquanto ele pensava que ganharia aquilo que não merecia e que cabia aos que lhe eram superiores, ele esquecia os homens que lhe eram inferiores, os quais também ganhariam o que não mereciam. Ele esquecia os inferiores que iriam querer roubá-lo tanto quanto ele queria roubar os seus superiores. O trabalhador que gostava de pensar que as suas necessidades lhe davam o direito de ter uma limusine igual à do patrão se esquecia de que todo vagabundo e mendigo do mundo viria gritando que as necessidades deles lhes davam o direito de ter uma geladeira igual à do trabalhador. Era esse o nosso motivo para aprovar o plano, na verdade, mas não gostávamos de pensar nisso. E então, quanto mais a ideia nos desagradava, mais alto gritávamos que éramos a favor do bem comum. Bem, tivemos o que merecíamos. Quando vimos o que pedíramos, era tarde demais. Havíamos caído numa armadilha e não tínhamos para onde ir. Os melhores de nós saíram da fábrica na primeira semana de vigência do plano. Perdemos os nossos melhores engenheiros, superintendentes, chefes, os trabalhadores mais qualificados. Quem tem amor-próprio não se deixa transformar em vaca leiteira para ser ordenhada pelos outros. Alguns sujeitos capacitados tentaram seguir em frente, mas não conseguiram aguentar muito tempo. A gente estava sempre perdendo os melhores, que viviam fugindo da fábrica como o diabo da cruz, até que só nos restavam os homens necessitados, sem mais nenhum dos capacitados. E os poucos que ainda valiam alguma coisa eram aqueles que já estavam lá havia muito tempo.

    — Sim, isso faz sentido. — Concordou Dagny.

    — Antigamente, ninguém pedia demissão da Século XX, e a gente não conseguia se convencer de que a companhia não existia mais. Depois de algum tempo, não podíamos mais pedir demissão porque nenhum outro empregador nos aceitaria — aliás, com razão. Ninguém queria ter qualquer tipo de relacionamento conosco, nenhuma pessoa nem firma respeitável. Todas as pequenas lojas com as quais negociávamos começaram a sair de Starnesville depressa, e no fim só restavam bares, cassinos e salafrários que nos vendiam porcarias a preços exorbitantes. As esmolas que recebíamos eram cada vez menores, mas o custo de vida subia. A lista dos necessitados da fábrica não parava de aumentar, mas a quantidade de fregueses diminuía. Havia cada vez menos renda para dividir entre cada vez mais pessoas. Antes, dizia-se que a marca da Século XX era tão confiável quanto a de quilates num lingote de ouro. Não sei o que pensavam os herdeiros do velho Starnes, se é que pensavam alguma coisa, mas imagino que, como todos os planejadores sociais e selvagens, eles achavam que essa marca era um selo mágico que tinha um poder sobrenatural que os manteria ricos, tal como ela enriquecera o pai deles. Mas, quando os nossos fregueses começaram a perceber que nunca conseguiríamos entregar uma encomenda dentro do prazo, nem produzir um motor que não tivesse defeito, o selo mágico passou a ter o valor oposto: as pessoas não queriam um motor, nem se ele fosse dado, caso ostentasse o selo da Século XX. E no fim os nossos fregueses eram todos do tipo que nunca paga o que deve e nunca tem nem mesmo a intenção de pagar.

    Dagny estava cada vez mais surpresa com tudo o que o vagabundo lhe dizia e não tirava os olhos dele.

    — No entanto, Gerald Starnes, dopado por sua própria publicidade, ficava todo empertigado, com ar de superioridade moral, exigindo que os empresários comprassem os nossos motores não porque fossem bons, mas porque tínhamos muita necessidade de encomendas. Àquela altura, qualquer imbecil já poderia ver o que gerações de professores não haviam conseguido enxergar. De que adiantaria a nossa necessidade, para uma usina, quando os geradores paravam porque os nossos motores não funcionavam direito? De que ela adiantaria para um paciente sendo operado, quando faltasse luz no hospital? De que adiantaria para os passageiros de um avião, quando as turbinas pifassem em pleno voo? E, se eles comprassem os nossos produtos não por causa de seu valor, mas por causa de nossa necessidade, isso seria correto, bom, moralmente certo para o dono daquela usina, o cirurgião daquele hospital, o fabricante daquele avião? Pois era essa a lei moral que os professores, líderes e pensadores queriam estabelecer no mundo inteiro. Se esse era o resultado quando ela era aplicada numa única cidadezinha onde todos se conheciam, a senhora pode imaginar o que aconteceria em escala mundial? Pode imaginar o que aconteceria se a senhora tivesse de viver e trabalhar afetada por todos os desastres e toda a malandragem do mundo? Trabalhar — e, quando alguém cometesse um erro em algum lugar, a senhora é que teria de pagar. Trabalhar — sem jamais ter perspectivas de melhorar de vida, sendo que as suas refeições, as suas roupas, a sua casa e o seu prazer estariam à mercê de qualquer trapaça, de qualquer problema de fome ou de peste em qualquer parte do mundo. Trabalhar — sem nenhuma perspectiva de ganhar uma ração extra enquanto os cambojanos não tivessem sido alimentados e os patagônios não tivessem todos feito faculdade. Trabalhar — tendo cada criatura no mundo um cheque em branco na mão, gente que a senhora nunca conhecerá, cujas necessidades a senhora jamais saberá quais são, cujas capacidade, preguiça, desleixo e desonestidade são coisas de que a senhora jamais terá ciência nem terá o direito de questionar — enquanto as Ivys e os Geralds da vida resolvem quem consumirá o esforço, os sonhos e os dias da sua vida. E é essa a lei moral que se deve aceitar? Isso é um ideal moral?

    Diante do semblante atônito de Dagny, ele concluiu:

    — Olhe, nós tentamos — e aprendemos. A nossa agonia durou quatro anos, da primeira assembleia à última, e acabou da única maneira que poderia acabar: com a falência da companhia. Na nossa última assembleia, foi Ivy Starnes quem tentou manter as aparências. Fez um discurso curto, vil e insolente, dizendo que o plano fracassara porque o restante do país não aceitara que uma única comunidade poderia ter sucesso no meio de um mundo egoísta e ganancioso, dizendo que o plano era um ideal nobre, mas que a natureza humana não era suficientemente boa para que ele desse certo. Um rapaz — o mesmo que fora punido por dar uma boa ideia no primeiro ano — levantou-se, enquanto todos os outros permaneciam calados, e dirigiu-se até Ivy, que estava no tablado. Sem dizer nada, ele cuspiu na cara dela. Foi assim que acabaram o nobre plano e a Século XX.

    O homem falara como se o fardo de seus anos de silêncio de repente houvesse escapado ao seu controle. Dagny sabia que era essa a homenagem que ele lhe prestava: não demonstrara reação alguma à sua bondade, parecera entorpecido para todos os valores e todas as esperanças humanas, mas algo dentro de si fora tocado, e a sua reação era essa confissão, esse longo e desesperado grito de rebelião contra a injustiça, contido há anos, porém libertado na primeira vez em que ele encontrara uma pessoa em cuja presença um apelo como esse não seria perda de tempo. Era como se a vida a que ele estivera prestes a renunciar lhe tivesse sido restituída pelas duas coisas essenciais de que necessitava: a comida e a presença de um ser humano racional.

    — Mas... E John Galt? — Perguntou ela.

    — Ah... — Disse ele, lembrando-se. — Ah, sim...

    — Você iria me explicar por que as pessoas começaram a dizer isso.

    — É... — O seu olhar estava perdido na distância, como se visse algo que vinha examinando havia anos, porém que jamais mudara, jamais fora explicado: em seu rosto existia uma expressão estranha e indagadora de terror.

    — Você iria me dizer quem era o John Galt a quem as pessoas se referem, se é que já houve alguém com esse nome.

    — Espero que não, minha senhora. Quer dizer, espero que seja apenas uma coincidência, uma frase sem sentido.

    — Você estava pensando em alguma coisa. O que era?

    — Foi... Foi uma coisa que aconteceu na primeira assembleia da Século XX. Talvez tenha a ver com isso, talvez não, não sei... A deliberação foi numa noite de primavera, há doze anos. Os seis mil funcionários, nós todos, estávamos amontoados numa arquibancada que ia até o teto, construída no maior galpão da fábrica. Havíamos acabado de aprovar o plano e estávamos meio irritadiços, fazendo muito barulho, dando vivas à vitória do povo, ameaçando inimigos invisíveis e nos preparando para a luta, como valentões de consciência pesada. As luzes brancas dos arcos voltaicos nos iluminavam, e nós estávamos desconfiados e agressivos. Éramos uma multidão perigosa naquele momento. Gerald Starnes, que presidia a assembleia, batia o seu martelo sem parar, pedindo ordem, e nós fomos nos acalmando um pouco, mas não muito. Era como se todos nós nos sacudíssemos como água numa panela que alguém está agitando. "Este é um momento crucial na história da humanidade", gritou Gerald no meio da barulhada. "Lembrem-se de que nenhum de nós agora pode sair desta fábrica, pois cada um pertence a todos por força da lei moral que aceitamos!" Foi quando um homem, levantando-se, disse: "Eu, não." Era um jovem engenheiro. Ninguém o conhecia bem, era uma pessoa reservada. Quando ele se levantou, fez-se um silêncio mortal de repente. Era pela maneira como ele mantinha a cabeça erguida. Era um homem alto e magro — lembro que pensei que dois homens quaisquer naquela assembleia poderiam quebrar o seu pescoço sem muita dificuldade —, mas o que todos nós sentíamos era medo. Ele tinha a postura do homem que sabe que está com a razão. "Acabarei com isso de uma vez por todas", disse. A sua voz era muito nítida e não exprimia qualquer sentimento. Só disse isso e começou a andar em direção à saída. Atravessou todo o galpão, à luz branca dos arcos, sem olhar para qualquer um. Ninguém tentou detê-lo. Gerald de repente lhe perguntou: "Como?" Ele se virou e respondeu: "Vou parar o motor do mundo." E então saiu. Nunca mais voltamos a vê-lo.

    Dagny mal piscava ao observá-lo falar sobre o episódio.

    — Porém, anos depois, quando vimos as luzes se apagarem uma por uma, nas grandes fábricas antes tão sólidas quanto montanhas, há gerações; quando vimos os portões se fecharem e as correias transportadoras pararem; quando vimos as estradas se esvaziarem e os carros desaparecerem; quando começamos a achar que alguma força silenciosa estava parando os geradores do planeta e quando o mundo inteiro estava se despedaçando, como um corpo que perde o espírito — então começamos a fazer perguntas sobre ele. Começamos a perguntar um ao outro, a perguntar a quem o ouvira falar. Começamos a achar que ele cumprira a promessa, que ele, que vira a verdade, que conhecia a verdade que nós nos recusávamos a admitir, era a retribuição que merecêramos, o vingador, o justiceiro que desafiáramos. Começamos a achar que ele nos amaldiçoara e que não tínhamos como escapar do seu veredicto, que não tínhamos como escapar dele — e o que era mais terrível era que ele não nos estava perseguindo, e sim éramos nós que de repente estávamos procurando por ele, e ele havia simplesmente desaparecido sem deixar vestígio. Não encontramos resposta alguma. Ficávamos intrigados com que espécie de poder impossível lhe permitira fazer o que ele prometera fazer. Não havia resposta a essa pergunta. Começamos a pensar nele sempre que víamos mais alguma coisa desmoronar, algo que ninguém explicava, sempre que sofríamos mais uma derrota, sempre que perdíamos mais uma esperança, sempre que nos sentíamos presos nessa neblina morta e cinzenta que está descendo sobre o mundo todo. Talvez as pessoas nos tenham ouvido gritar essa pergunta e, embora não entendessem o que queríamos dizer, compreendessem perfeitamente por que a fizéramos. Elas também achavam que alguma coisa havia desaparecido do mundo. Talvez tenha sido por isso que começaram a fazer essa indagação, sempre que acreditavam não haver mais esperanças. Espero que eu esteja enganado: que essas palavras não tenham sentido algum, que não haja uma intenção consciente, nenhum vingador, por trás do crepúsculo da espécie humana. Mas, quando ouço das pessoas repetindo essa pergunta, tenho medo. Penso no homem que disse que iria parar o motor do mundo. O nome dele era John Galt.
  • Marcelo Werlang de Assis  11/07/2013 22:33
    Segundo HUERTA DE SOTO, a humanidade demorou 17 séculos (período entre o século I e o século XVIII) para retomar o nível civilizatório que havia anteriormente atingido. Isso ainda me impressiona.

    Creio que a explicação esteja neste parágrafo, encontrável em As lições econômicas de Game of Thrones (www.mises.org.br/Article.aspx?id=1628):

    As frequentes guerras entre as famílias governantes de Westeros — embora estas não sejam tão militaristas quanto os Homens de Ferro — destroem periodicamente a riqueza acumulada da "classe baixa" (small folk), como os nobres a chamam. Devido ao conflito constante, muitas populações nos Sete Reinos lutam para sobreviver um dia após o outro. A poupança, por exemplo, é quase impossível para a classe popular; e até mesmo os cavaleiros e os nobres têm dificuldade de praticá-la. Não é surpreendente, então, que a economia, de modo geral, não evolua além dos estágios iniciais de acumulação de capital e demonstre estar estacionada no mesmo nível de desenvolvimento por milhares de anos.

    Em A riqueza e a pobreza ao longo da história (mises.org.br/Article.aspx?id=1360), JAMES SANCHEZ escreveu:

    E quanto à situação econômica da antiguidade? Por que o "bolo da riqueza" raramente crescia?

    Era de se supor que, com o passar do tempo, as pessoas se tornariam mais eficientes na produção de bens, o que elevaria o nível de vida. Ainda assim, por séculos, a vida quase não melhorou.

    As raízes desta estagnada situação econômica podem ser encontradas na ordem política descrita acima.

    Repetindo: ao longo da maior parte da história da civilização, o 1% tomou para si uma grande parte do que era produzido pelos 99%. E, se algum indivíduo porventura conseguisse acumular riqueza suficiente ao ponto de ser notada, algum potentado a confiscaria também. É por isso que tesouros enterrados eram práticas comuns onde quer que os soberanos se mostrassem particularmente ávidos.

    Com tão violento e desenfreado confisco governamental, nunca havia incentivos para a acumulação de capital em grande escala. Sem essa acumulação de capital em grande escala, era impossível haver produção em massa. E, sem a produção em massa, era impossível que ocorressem melhorias generalizadas nas vidas das massas.

    E esse é basicamente o motivo pelo qual os 99% viveram vidas maltrapilhas por quase toda a história.

    E então, nos séculos XVIII e XIX, aconteceu algo realmente revolucionário. Um grupo de filósofos se dedicou a pensar com muito cuidado a respeito de coisas como propriedade, comércio, preços e produção. Estes filósofos foram chamados "economistas".

    Ao analisar as leis econômicas que eles haviam descoberto, os economistas concluíram que a sociedade seria muito mais produtiva quanto mais respeitada fosse a propriedade privada. "Laissez faire et laissez passer", disseram os economistas. Deixem as pessoas controlar as suas propriedades o mais completamente possível, e todos serão mais prósperos.

    Esses filósofos econômicos, pessoas como Richard Cantillon, Adam Smith e J. B. Say, eram teóricos. Eles escreveram livros brilhantes, ainda que empolados, que mudaram as mentes dos comunicadores: indivíduos a quem F. A. Hayek chamou de "negociantes indiretos de ideias".

    Dentre eles, havia comunicadores profissionais: escritores como Richard Cobden e oradores como John Bright. Estes escritores e oradores escreveram panfletos e proferiram discursos que mudaram as mentes de muitos indivíduos reflexivos, ainda que menos eloquentes, a quem podemos chamar de comunicadores amadores. E esse estrato pensante, por sua vez, levou os seus colegas não pensantes (os quais podemos chamar modernamente de "manada") a mudarem as suas posições a respeito de questões públicas.

    Através desse processo, a opinião pública mudou de direção, passando a acreditar que um governo deveria ser o mais limitado possível e que os direitos de propriedade deveriam ser os mais sacrossantos possíveis. Em suma, a opinião pública mudou e adotou uma doutrina chamada de "liberalismo".

    Mais uma vez, o modo como uma sociedade é organizada depende da opinião pública. Assim como a opinião pública mudou, a política também mudou. O capital privado tornou-se mais seguro. Restrições ao comércio foram removidas. Barreiras aos negócios foram abolidas. A propriedade privada reinou suprema, como nunca antes.

    E os resultados foram miraculosos. Como nunca antes na história, as energias produtivas da humanidade foram liberadas. Itens antes reservados para a elite do 1% logo foram produzidos em massa para os 99%. Amenidades que nem existiam antes foram desenvolvidas — primeiro, para pequenos mercados; após um tempo, para todas as massas.

    A produção de simples necessidades disparou. As populações ao redor do mundo beneficiadas pelo liberalismo explodiram. Pessoas que viviam à margem — e que em outras circunstâncias morreriam — conseguiram subsistir. E aqueles que em outras circunstâncias estariam condenados a passar todas as suas vidas chafurdando em uma servidão vulgar tornaram-se capazes de levar vidas de conforto e refinamento.

    Nesta nova ordem, ainda havia os 99% e o 1%. Mas os 99% desse período viviam melhor que o 1% de épocas passadas. E o principal meio para se ascender ao 1% era sendo um empreendedor capitalista de sucesso: se esforçar para servir aos 99% (a massa de consumidores) de uma maneira melhor e mais eficiente do que os seus competidores.

    Na velha ordem, a maioria dos candidatos a se tornar parte do 1% precisaria, para subir na vida, apenas usar as suas habilidades e ambições políticas para ser conquistadores, governantes, administradores governamentais e, nesses papéis, explorar as massas. Na nova ordem, sob o que Mises chamava de "soberania do consumidor" no mercado, as habilidades do 1% foram direcionadas para prover as massas de consumidores soberanos.

    Os mestres tornaram-se servos. Servos abastados, mas ainda assim servos.

    A revolução ideológica liberal engendrou uma revolução industrial. E o que Mises chamou de "Era do Liberalismo" durou de 1815 a 1914: um século de ouro no qual a humanidade teve pela primeira vez uma vaga ideia do que era realmente capaz.


    Abraços!!!
  • Samir Jorge  10/07/2013 08:44
    Entre o pessimismo da situação atual e o otimismo por vir, haverá necessariamente uma tragédia.

    O jejum talvez induza nós humanos a pensar no longo prazo.


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