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A natureza e a função do mercado

A
crítica marxista gosta de censurar a ordem social capitalista, dizendo que seus
métodos de produção são anárquicos, pois são feitos sem uma burocracia
centralizada comandando o planejamento. 
Supostamente, de acordo com os marxistas, cada empreendedor produz
cegamente, guiado apenas por seu desejo por mais lucros, sem se preocupar se sua
ação irá satisfazer uma necessidade. 
Assim, para os marxistas, não é nada surpreendente que severos distúrbios
apareçam recorrentemente na forma de crises econômicas periódicas.  Eles afirmam que seria fútil utilizar o
capitalismo para lutar contra toda essa inevitabilidade.  Apenas o socialismo, dizem eles, irá fornecer
a solução, ao substituir a economia anarquista voltada para o lucro por um
sistema econômico voltado para a satisfação das necessidades.

Estritamente
falando, a repreensão de que a economia de mercado é “anarquista” é uma crítica
tão profunda quanto dizer que ela não é socialista.  Isto é, a verdadeira administração da
produção não está entregue a uma burocracia central que dirige o emprego de
todos os fatores de produção.  Tal tarefa
é deixada por conta de empreendedores e proprietários dos meios de
produção.  Chamar a economia capitalista
de “anarquista”, portanto, significa apenas dizer que a produção capitalista
não é uma função de instituições governamentais.

Entretanto,
a expressão “anarquia” carrega consigo outras conotações.  Normalmente, utiliza-se a palavra “anarquia”
para se referir a condições sociais em que, por falta de um aparato
governamental de força para proteger a paz e o respeito pela lei, prevalece o
caos de contínuos conflitos.  A palavra
“anarquia”, portanto, está associada ao conceito de condições
intoleráveis.  Os teóricos marxistas
deliciam-se em utilizar tais expressões. 
A teoria marxista precisa das implicações que tais expressões ensejam,
pois assim conseguem excitar as simpatias e as antipatias que tipicamente
obstruem qualquer análise crítica.  O
slogan da “anarquia da produção” tem executado esse serviço à perfeição.  Gerações inteiras se deixaram confundir por
ele.  Ele também influenciou as ideias
econômicas e políticas de todos os partidos políticos, mesmo aqueles partidos
que ruidosamente se proclamam antimarxistas.

O papel e a função dos consumidores

Mesmo
se o método capitalista de produção fosse “anarquista”, isto é, sem regulação
sistemática de uma burocracia central, e mesmo se os empreendedores e
capitalistas (os donos dos bens de capital) individualmente dirigissem suas
ações independentemente uns dos outros, tudo na busca pelo lucro, ainda assim
seria completamente errôneo supor que eles não têm norte algum, que eles não
têm como organizar a produção de modo a satisfazer necessidades e desejos.  É algo inerente à natureza da economia
capitalista fazer com que, na análise final, o emprego dos fatores de produção
esteja voltado apenas para servir os desejos dos consumidores.

Ao
alocar mão-de-obra e bens de capital, os empreendedores e capitalistas estão
limitados, por forças das quais eles não podem escapar, a satisfazer os desejos
e necessidades dos consumidores do modo mais completo possível, considerando-se
o estado da tecnologia e da riqueza econômica.  Por conseguinte, o contraste feito entre o
método de produção capitalista (a produção voltada para o lucro) e o de método
de produção socialista (a produção voltada para o uso) é completamente enganoso.  Na economia capitalista, é a demanda do
consumidor que determina o padrão e a direção da produção, precisamente porque
os empreendedores e capitalistas têm de
considerar a lucratividade de suas empresas.

Uma
economia baseada na propriedade privada dos fatores de produção se torna
significativa através do mercado.  O
mercado, quando deixado livre, opera de modo suave, alterando constantemente o
nível dos preços, de modo que a demanda e a oferta sempre tendam a se
coincidir.  Se a demanda por um bem
aumenta, então seu preço irá subir, e esse aumento de preço levará a um aumento
na oferta.  Empreendedores entrarão no
mercado para tentar produzir mais desses bens, de modo a ganhar o máximo
possível com suas vendas.  Eles irão
expandir a produção de qualquer item até o ponto em que sua venda deixar de ser
lucrativa, o que obrigará os empreendedores a reduzir seus custos de
produção.  Essa redução terá de ser
repassada aos consumidores, na forma de preços menores. Essa contínua busca por
lucros faz com que novos métodos de produção ainda menos custosos sejam
descobertos.  A consequência é uma constante
redução nos preços reais de todos os bens.

Na
análise final, são os consumidores que decidem o que deverá ser produzido e
como.  A lei do mercado obriga os
empreendedores e capitalistas a obedecer as ordens dos consumidores e a
realizar seus desejos com o menor gasto possível de tempo, mão-de-obra e bens
de capital.  A concorrência do mercado
faz com que os empreendedores e capitalistas que não estejam aptos a essa
tarefa percam sua posição de controle sobre o processo de produção.  Se eles são incapazes de sobreviver na
concorrência — isto é, em satisfazer os desejos dos consumidores de modo
melhor e mais barato –, então eles sofrerão prejuízos que irão fazer com que
sua importância no processo econômico seja diminuída.  Se eles não corrigirem rapidamente as deficiências
no gerenciamento de sua empresa e no capital investido, eles serão eliminados
completamente por meio da perda de seu capital e de sua posição empreendedora. Daí
em diante, eles terão de se contentar em ser empregados de outros, com uma
função mais modesta e uma renda reduzida.

Produção para o consumo

A
lei do mercado se aplica para a mão-de-obra também.  Como os outros fatores de produção, a
mão-de-obra também é valorada de acordo com sua utilidade em satisfazer as
necessidades humanas.  Seu preço — o
salário — é um fenômeno de mercado como qualquer outro fenômeno de mercado,
determinado pela oferta e demanda, pelo valor que o produto da mão-de-obra tem
aos olhos dos consumidores.  Ao alterar o
nível dos salários, o mercado direciona os trabalhadores para aqueles setores
da produção onde eles são mais urgentemente demandados.  Assim, o mercado fornece a cada setor a
qualidade e a quantidade de mão-de-obra necessária para satisfazer os desejos
dos consumidores da melhor maneira possível.

Na
sociedade feudal, os homens se tornavam ricos por meio da guerra e da
conquista, além também das dádivas recebidas do regente soberano.  Os homens ficavam pobres caso fossem
derrotados nas batalhas ou caso não caíssem nas graças do monarca.  Na sociedade capitalista, os homens
enriquecem ao servirem os consumidores em larga escala — diretamente como
produtores de bens de consumo, ou indiretamente como produtores de
matérias-primas e fatores de produção. 
Isso significa que, em uma sociedade capitalista de livre mercado, os
homens que se tornam ricos são aqueles que estão servindo bem às pessoas. 

A
economia de mercado capitalista é uma democracia em que cada centavo constitui
um voto.  A riqueza dos empreendedores de
sucesso é resultado de um plebiscito dos consumidores.  A riqueza, uma vez adquirida, poderá ser
preservada somente por aqueles que souberem continuar ganhando-a novamente a
cada dia, sempre satisfazendo os desejos dos consumidores.

A
ordem social capitalista, portanto, é uma democracia econômica no sentido mais
estrito da palavra.  Em última instância,
todas as decisões dependem da vontade das pessoas como consumidoras.  Assim, sempre que há um conflito entre as
visões dos consumidores e as dos empreendedores, as pressões de mercado
assegurarão que as visões dos consumidores acabem se impondo. 

Isso
certamente difere bastante daquele modelo almejado por intelectuais socialistas
e sindicalistas.  No sistema que eles
propõem, o povo supostamente deve determinar a produção, estando ele no papel dos produtores,
e não dos consumidores.  O povo exerceria
influência não como consumidor dos produtos, mas como vendedor de mão-de-obra
— isto é, como vendedores de um dos fatores de produção.  Se esse sistema fosse implementado, ele iria
desorganizar por completo toda a estrutura de produção, destruindo nossa
civilização.  O absurdo dessa proposta se
torna aparente ao simplesmente considerarmos que a produção não é um fim em si
mesma.  Seu propósito é apenas o de
servir ao consumo.

A perniciosidade de uma “política para os
produtores”

Sob
a pressão do mercado, empreendedores e capitalistas devem ordenar a produção de
modo a satisfazer os desejos dos consumidores. 
Os planos que eles fazem e o que eles pedem dos trabalhadores é sempre
determinado pela necessidade de satisfazer os mais urgentes desejos dos
consumidores.  É precisamente isso que
garante que o desejo do consumidor seja a única diretriz para os negócios.  Ainda assim, o capitalismo é normalmente
repreendido por colocar a lógica da conveniência e de utilidade acima dos
sentimentos, e de ordenar as coisas na economia de modo imparcial e impessoal,
tendo em vista apenas o lucro.

É
porque o mercado compele o empreendedor a conduzir seus negócios de modo a
obter o maior retorno possível, que os desejos dos consumidores são atendidos
da melhor e mais barata maneira.  Se o
lucro em potencial não fosse mais levado em conta pelas empresas, e se, ao
contrário, os desejos dos trabalhadores é que se tornassem o critério, de modo
que o trabalho fosse organizado segundo a conveniência dos trabalhadores, então
os interesses dos consumidores ficariam em último plano.  Se o empreendedor objetiva ter o maior lucro
possível, ele efetuará um serviço para a sociedade ao gerenciar uma
empresa.  Quem quer que o impeça de fazer
isso, com a desculpa de estar preocupado com outras considerações que não os
lucros empresariais, estará agindo contra os interesses da sociedade e colocando
em risco a satisfação das necessidades dos consumidores.

Trabalhadores
e consumidores são, obviamente, idênticos. 
Se fizermos uma distinção entre eles, estaremos apenas fazendo uma
diferenciação mental de suas respectivas funções dentro do arranjo
econômico.  Não devemos deixar que isso
nos leve ao erro de pensar que eles são grupos diferentes de pessoas.  O fato de que empreendedores e capitalistas
também são consumidores possui um papel não tão importante em termos
quantitativos; para a economia de mercado, o consumo significativo é o consumo
em massa.

Direta
ou indiretamente, a produção capitalista serve primariamente ao consumo das
massas.  A única maneira de aprimorar a
situação dos consumidores, portanto, é fazendo empresas ainda mais produtivas
— ou, como se diz hoje, “racionalizar” ainda mais.  Apenas se a intenção for privar as pessoas do
consumo, é que se deve aplicar aquilo que é conhecido como “política para os
produtores” — especificamente, a adoção de medidas que colocam os interesses
dos produtores acima dos interesses dos consumidores.

Qualquer
oposição às leis econômicas que o mercado determina para produção sempre se
dará à custa do consumo.  Isso deve vir à
mente sempre que intervenções forem defendidas com o intuito de liberar os
produtores da necessidade de obedecer ao mercado.

São
os processos de mercado que dão significado à economia capitalista.  Eles colocam os empreendedores e capitalistas
a serviço da satisfação dos desejos dos consumidores.  Se o funcionamento desse complexo processo
sofrer interferência, então haverá distúrbios que impedem que a oferta se
ajuste à demanda, fazendo com que a produção se desencaminhe e tome rumos que a
impeça de lograr o objetivo de toda ação econômica — qual seja, a satisfação
de desejos.

Esses
distúrbios constituem as crises econômicas.

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7 comentários em “A natureza e a função do mercado”

  1. Olá….

    Parece que este texto põe em evidência que, com uma análise final, é sempre possível identificar os desejos dos consumidores com os rumos nos quais pleiteiam a economia capitalista, e portanto estes rumos não seriam arbitrários. Mas um problema que talvez se poderá notar será quando, em última instância, as decisões não dependerem genuinamente da vontade das pessoas, pois pode-se pensar até onde tais vontades não são vontades impostas, isto que muito se pensa querer pode ser na verdade uma auto-defesa contra certos sistemas automáticos de exclusão provenientes deste tipo de dinâmica de mercado. Afinal, até onde podemos duvidar do poderio de certos interesses corporativos que, em prol dos próprios interesses, atropelam muitos dos verdadeiros interesses humanos ? O que dizer, por exemplo, desta oligarquia mal intencionada que diz o que alguém dito esclarecido deve pensar, que determina o que é moderno, moda , atual, chique? Como ignorar a arrogância patente desta elite que se diz intelectualizada, que prega uma espécie de ditadura intelectual, dizendo-se os tais capazes de argumentar, e que portanto se fazem vozes daqueles que não podem? É fácil ver como se fica a mercê de poucos, e se esses poucos passam a vogar por uma autonomia completa do mercado o que se verá é uma política que tomará vontades próprias, e há de se temer tais vontades, pois podem ser vontades que irão se sobrepor bloqueando a de outros, o que é um nítido bloqueio da liberdade de todo o conjunto. Então mantenhamo-nos vigilantes!

    Abraços……….TNC

  2. Miguel A.E. Corgosinho

    A MACROECONOMIA DO UNIVERSO TECNOLOGICO –

    Suponhamos que o comércio exterior adquiriu o poder de agregar, em moeda estrutural, a mistura de 8% do dinheiro no mundo, sem o giro de moedas. Com efeito, esta personificação incontestável estaria potencializando a conversão cambial necessária a sociedade industrial (sem implicar a divida de titulos publicos).

    O que veio a mente é que os países para serem livres, em si mesmos, precisariam acelerar os futuros 92% da produção num sistema em si, o qual funciona esta forma da liberdade pura (o real). Logo, estruturar o PIB sobre a passagem a um “meio exterior” torna-se a tecnologia do lastro que tem um lugar indispensável para a “auto-suficiência em um mundo real” – a fim de trazer gratuitamente o valor como um corpo digital a cada nação.

    Mas, os fatores internos da produção não podem coexistir em ruptura com os fatores externos, tratados na modalidade de integridade das ligações e de entrega da formação, para não comprometer a primazia da moeda digital, sobre a moeda fisica.

    Logo, não basta arrogar o valor gerado pelo sujeito e objeto (“X=X”) em bloco; indiferentes ao planeamento cibernético que deve garantir um ambiente de começo no tempo e as fronteiras no espaço.

    Se negligenciarmos os “fatores opostos criadores de dados do dinheiro – que o real engendra – não possuiremos a história plena que hoje temos em projeção externa; e levaremos entre dez e vinte anos até que o meio eletrônico alinhe a realidade retardatária ao meio exterior e mostre a expansão de capital livre, em moeda interna. Ou seja, quando a progressão estrutural chegar em torno de 80% a 90% os governos cairiam a fixa do surgimento da tecnologia do valor na moeda pelo “Padrão Real da produção”.

    Reflitamos o bloco UE: Autodeterminação digital e externa, mas indeterminada na gestão bancária, ou seja: em que medida de conflitos a UE deve entender a auto-suficiência real, em moeda estrutural, quando a produção = valor chegar a l00% por cambio digital – é o fim do capitalismo! Cada país pode passar da sua origem econômica à materialidade em desenvolvimento, e captar, sem intervenção externa, o domínio delegado ao capital nacional.

    Assim, uma nova era que digita autonomia começa a perfazer a UE, pelo efeito funesto de devolver soberanias aos 27 países, com a equivalência das forças que operam adições para os governos; mas, teoricamente, não engendraram a articulação das funções dos fatores preparatorios da nova realidade!!!

    Isso pode ocorrer porque a estrutura seria um corpo indivisível baseado na técnica, sem se aplicar a marcha, a priori, do sujeito universal! Isto é, o capital se torna o meio não pensado em um ponto fixo no universo.

    O que aconteceu eh que a realidade, no espaço, fez apenas uma “volta em si mesma”.

    No mundo inteiro, a aparencia do padrão real abre a estrutura para o sistema em si, como espaço ao “desenvolvimento” sem o desperdicio de títulos públicos para emissão de moeda e a moeda física, sobre a validade das contas com o mercado financeiro, cai em profunda desvalia.

    Todos os estudos devem pensar o ponto fixo de um sistema em si como conjunto de verdade da base monetária, onde uma unidade central pode formar a razão de referencia de comando da moeda, para autodeterminação fundamental de cálculo de valores ao nivel autêntico da sociedade industrial.

    O que eh certo, eh que, os avanços podem contar com a revelação das distinções funcionais do processo interno e da informação de causa nos fatores como futuro da realidade. As atribuições devem representar o começo absoluto dos principios do mundo real em todos os espaços de modificações no tempo.

    O software “A estrutura” assegura o ponto de chegada dessas definições a um lugar de extensão dos mercados – em rede mundial – especialmente o modo de controle que determina o valor corrente, em geral, pela veracidade das novas relações tecnológicas com a produção da economia.

  3. Notícia tenebrosa relacionada ao artigo: oglobo.globo.com/rio/mat/2011/01/16/policia-vai-prender-comerciantes-que-cobrarem-precos-abusivos-em-mantimentos-na-serra-923514670.asp

  4. Emerson Luis, um Psicologo

    Interessante lembrar que Mises escreveu quando os países estavam começando a implementar o socialismo e este parecia ser viável, superior e supermoderno.

    * * *

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