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O estado dos 5 macacos

Quando as pessoas se deparam com a ideia de tirar do estado as funções que ele hoje exerce — seja qual for –, a primeira reação delas é considerarem isso coisa de lunáticos.  Na verdade, o fato é que a maioria das pessoas sequer ouviu falar da existência de ideias desse tipo, e elas nunca ousaram questionar o status quo, o que faz com que este tipo de reação seja algo comum.  Isto me lembra muito a história do experimento dos cinco macacos:

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula.  No meio, uma escada, e sobre ela, um cacho de bananas.  Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, um jato de água gelada era disparado sobre os que estavam no chão.  Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros o impediam e o enchiam de pancada.  Algum tempo depois, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.  Então os cientistas substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros, que o surraram.

Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada.  Um segundo macaco veterano foi substituído e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato.  Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu.  Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.  Os cientistas então ficaram com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo recebido um banho gelado, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.

Se fosse possível perguntar a algum desses macacos por que eles batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria:

– “Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui. . . “.

A experiência dos cinco macacos numa jaula é praticamente igual a outra experiência: a de 6 bilhões de humanos no planeta Terra.  A iniciação de agressão sem justificativas é o paralelo mais forte que podemos traçar.  Do mesmo modo que os macacos substituídos agrediam os mais novos sem saber o motivo, os humanos em toda parte do mundo defendem, sem jamais ter perguntado o porquê, a existência do aparato social de coerção e compulsão — o estado –, que agride incessantemente inocentes, sem necessidade e sem ter nenhum argumento que se sustente para justificar esta violência.[1]

Não é à toa que um argumento extremamente comum entre os que tentam defender o estado é simplesmente o de dizer que “sempre existiu estado”[2] e desafiar a outra parte a “citar um exemplo na história de uma experiência sem estado” — ou seja, apenas uma versão da provável resposta dos macacos: “não sei por que existe estado e não sei derrubar seus argumentos, mas as coisas sempre foram assim por aqui e você vai continuar apanhando”. 

Felizmente para aqueles que lutam pela liberdade e por um mundo sem a iniciação de agressão institucionalizada, diferente do que sugere este “argumento”, a sociedade está sempre mudando.  Coisas que sempre existiram deixam de existir e passam a ser condenadas, como, por exemplo, a escravidão. 

A escravidão foi prática comum na história da humanidade.  Se transportássemos um desses defensores do estado para 150 anos no passado, é bem possível imaginá-lo debatendo com os ‘abolicionistas lunáticos’: “não sei justificar a escravidão de outros seres humanos, mas as coisas sempre foram assim por aqui”.

Existem apenas duas diferenças relevantes entre as duas experiências.  A primeira é que, na jaula, nenhum macaco se beneficiava da violência.[3]  Já entre os seres humanos, existe uma parcela que se beneficia dela — os integrantes dos governos e os grupos que lucram com suas práticas exploratórias.  A outra diferença é que existem alguns humanos que questionam esta violência e que sabem que ela é injustificável — conhecidos como libertários.  Mas enquanto seu número não for significante, eles nada podem fazer a não ser continuar apanhando da maioria que não sabe por que está batendo.

 

Notas

[1] A história não diz se os cientistas iriam ou não voltar a jogar água gelada nos macacos caso eles cessassem as agressões, mas o fato relevante aqui é que eles agridem sem saber por quê, sendo indiferente esta agressão ter alguma justificação ou não.  No caso dos macacos, ela pode ter alguma justificativa plausível: eles estariam agredindo para não serem agredidos pela água gelada dos cientistas — um tipo de violência defensiva, mas não exatamente legítima, por não ser direcionada contra os agressores.  No caso dos seres humanos, não.

[2] Em seu Discurso da Servidão Voluntária, Étienne de la Boétie observa que: 

É verdade que no
início serve-se obrigado e vencido pela força; mas os que vêm depois servem sem
pesar e fazem de bom grado o que seus antecessores haviam feito por imposição.  Desse modo os homens nascidos sob o jugo,
mais tarde educados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se
em viver como nasceram; e como não pensam ter outro bem nem outro direito que o
que encontraram, consideram natural a condição de seu nascimento.  E no entanto não há herdeiro tão pródigo e
despreocupado que às vezes não corra os olhos nos registros de seu pai para ver
se goza de todos os direitos de sua herança ou se não o usurparam ou a seu
predecessor.  Mas o costume, que por
certo tem em todas as coisas um grande poder sobre nós, não possui em lugar
nenhum virtude tão grande quanto a seguinte: ensinar-nos a servir — e como se
diz de Mitridates que se habituou a tomar veneno — para que aprendamos a
engolir e não achar amarga a peçonha da servidão. 

[3] Assumindo que o jato de água gelada não existisse mais, coisa da qual os macacos novos jamais souberam da existência.

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39 comentários em “O estado dos 5 macacos”

  1. ÓTIMO TEXTO!\r
    \r
    Essa analogia entre os macacos da jaula e os humanos da Terra reflete muito bem como funciona a estúpida defesa que os estatistas fazem dessa organização criminosa chamada estado. O pior é que quando vamos tentar argumentar contra esses “macacos”, nós somos chamados mesmo de lunáticos, radicais, utópicos, etc. \r
    Parabéns por mais um artigo de qualidade!

  2. Muito bom! Eu conheço pessoas inteligentíssimas e comprovadamente corajosas que sequer questionam as “verdades” pré-estabelecidas em relação ao governo. Quando falo com elas sobre coisas absurdas resultantes de decisões políticas, elas me olham com uma cara desconfiada e me perguntam em estilo imediatista:

    “Qual solução vc proprõe? Como essa solução deve ser alcançada?”.

    Eu digo:

    “Cara, eu não estou falando para pegarmos em armas ou qualquer coisa radical, eu estou apenas debatendo sobre coisas que obviamente estão erradas. Se um ato imoral e anti-ético (por exemplo, um roube de carteira ou um assalto a uma residência) fosse cometido por qualquer um além do governo, obviamente as pessoas estariam dispostas a me ouvir e muito provavelmente compartilhariam da dor da vítima. Porém, quando o agente do ato imoral e anti-ético é o governo, ninguém está disposto a conversar. Eu não tenho solução imediata! Minha proposta é a seguinte: vamos conversar sem preconceitos sobre o que está errado. É bem provável que a gente descubra alguma solução ao longo da nossa conversa, ou a semente de uma solução seja plantada com a nossa conversa. Vamos falar abertamente, sem medo de novas idéias. O governo é só um conjunto de pessoas como nós, nada mais nada menos.”.

    Após isso, em geral a expressão de desconfiança cede para uma expressão de dúvida e receio. Não há dúvida de que as pessoas precisam de tempo para mudar de postura.

  3. Belíssima comparação, Fernando! No Brasil, há 200 milhões de macacos, ou melhor, descontando os “austríacos”, 199.999.980, supondo que sejamos 20…\r
    Parabéns!

  4. Aproveitando o ensejo, ontem tivemos mais um ataque à liberdade. Por ocasião do aniversário de nascimento de Karl Marx, 5 de maio (pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx), o governo federal retirou a TELEBRÁS da câmara de formol. “Banda larga” é internet; internet é circulação de informação; informação é importante demais pra passar pelas patas do estado. Citando Mises (As seis lições):

    “Se for dono de todas as máquinas impressoras, o governo determinará o que deve e o que não deve ser impresso. Nesse caso, a possibilidade de se publicar qualquer tipo de crítica às ideias oficiais torna-se praticamente nula. A liberdade de imprensa desaparece. E o mesmo se aplica a todas as demais liberdades.”

  5. [i]Já fui macaco[i]
    Na sexta série, lá pela metade da década de 1980, uma professora de Língua Portuguesa deu-me vários banhos de água fria. Por algum motivo que não mudou em nada minha vida futura, deixei de escrever com grafia “emendada” e passei à letra “separada”. Pois vinham recados na correção de provas e redações do tipo: “Muito bom, mas precisa mudar a letra”. E a nota nunca era boa, sempre mediana. Gostava de leitura e escrevia bem, eu acho, para a idade. Não era um garrancho ilegível, e até melhor do que uma letra emendada mal feita. Mas os banhos de água fria duraram o ano todo. Fui aprovado por “misericórdia”, presumo; sigo minha vida normalmente até hoje. Porém ecoa um enorme [b]Por quê?[b] dentro de minha cabeça. Quando subo na escada, ainda olho para os lados para certificar-me de que as mangueiras de água fria não serão acionadas. Mas não deixo de pegar umas bananas, lutando fortemente. Realmente funciona a técnica. Vários humanos infelizes passam por nós, ao longo de nossa existência; alguns com poder de deter nossos ânimos, conseguindo por algum tempo obter relativo sucesso. Lutem, por favor, contra estes pústulas e, principalmente, não lhes dêem cargos de poder de qualquer forma. Tornam-se monstros tentaculares, difíceis de combater.

  6. Com a palavra, Rogério Santanna, futuro-auto-confirmado presidente da ex-extinta TELEBRÁS.

    “Não é por acaso que o Estado está reativando a empresa. Está reativando para ter mais controle sobre as comunicações. Não tem Estado no mundo que não tem autonomia de comunicação. É ridículo eu pensar que terei aí submarinos nucleares no lago e de outro lado aviões de último tipo que se falam por um satélite comercial sobre o qual eu não tenho qualquer controle ou por trechos de rede que são loteados em Miami”.

    E no tal do PNBL não poderia faltar aquela pitada de fasci… ops! parceria público-privada. Segundo a reportagem do G1:

    “(…) o próximo passo para a o plano da banda larga é negociar com as operadoras de telefonia para que elas participem na implementação do serviço para o consumidor final. Nesta sexta-feira, representantes de empresas privadas se reúnem na Casa Civil para tratar de participação no projeto.”

    g1.globo.com/politica/noticia/2010/05/telebras-ficara-operacional-em-dois-meses-diz-secretario-de-tecnologia.html

  7. Hoje assistia a uma reportagem de televisão, onde uma senhora chegava às portas de um hospital público à 1h30min da madrugada, com o intento de conseguir uma ficha para ser atendida pela manhã daquele dia. Tudo pelo SUS, óbvio. Pagamos pela saúde e temos direito à ela, torta ou não. Porém a mesma senhora declarou que pagara R$50,00 por uma corrida de táxi até o hospital, por segurança e ausência de ônibus naquele horário, dinheiro sacrificado, segundo ela mesma, e eu não duvido. Pergunto: não há médicos capazes de cobrar R$50,00 por uma consulta particular, ou até menos, e explorar esta lacuna de mercado? É feio, proibido, “antiético”? explorar uma faixa de clientes que não são miseráveis absolutos, apenas remediados financeiros, mas que ainda guardam alguma honra em seus caracteres? Será que o “Conselho” permitiria? Será que levantariam os traseiros das cadeiras para se permitirem tal ação? Claro que o estatismo-esquerdismo-burocratismo é culpado pela quase totalidade das mazelas deste nosso Brasil, mas o que tem de gente escorada nesta desculpa, não é brincadeira. Postar comentários em sites de opinião é barbada! Quero ver é acontecer alguma coisa de concreto por parte daqueles que realmente poderiam fazer algo, pequeno que fosse, mas que fizessem por convicção em ideais humanos, independente de ordens governamentais. Desafiem-se, senhores e senhoras!

  8. mcmoraes,

    Eu consigo uma boa aceitação nos meios onde propago os ideias anarcos dizendo que o roteiro a ser seguido para o fim do Estado é o de consecutivos pactos federativos no sentido de ampliar a autonomia econômica e política dos, em sequência: Estados, municípios, bairros, vilas, casas, indivíduos.

    Esses pactos não serão feitos do dia pra noite. E serão todos plebiscitários.

    Enfim… Fica a dica aí pra quem achar necessário.

    Abraço!

  9. Henrique B. Neto

    Ah sim, respondi ao mcmoraes, mas eskeci de falar sobre o texto.

    Muito pertinente esse argumento. Pessoas repetem automaticamente sobre a “utopia anarquista”. Eu sempre costumo concordar com elas e dizer que é necessário existir um limitador da liberdade na anarquia, caso contrário ela não funciona. E aí já começo a falar sobre os princípios de propriedade privada como o melhor limitador da liberdade. Uma vez que ordena a sociedade de maneira competente, ao mesmo tempo em que limita a liberdade sem ferir os direitos de ninguém.

    Enfim… Oq faço é Mostrar que o AnCap é algo novo no movimento Anarquista. Coisa que veio pra dar certo. Após anos e anos de evolução da mentalidade utópica do Anarquismo.

    Abraço a todos. Ótimo texto!

  10. Infelizmente tendo a crer que se os macacos “novatos” pararem de bater e todos tentarem subir na escada, eles levarão outro banho d’água, e então todos entenderão o porquê não se subia na escada.

    Em linguagem de gente, se o povo em peso der ouvido às idéias libertárias, se revoltar e exigir a extinção do estado, este vai se cercar de suas forças armadas e mostrar ao povo o verdadeiro porquê de ele ter existido até então, e o porquê de os esforços populares serem infrutíferos.

    Há solução para o mundo?

  11. Conforme disse o Jeferson, se os macacos novatos subirem a escada e chegarem às bananas, vão levar água e descobrirem porque se surravam.

    E o mesmo acontecerá com a sociedade humana e o Estado. Mas aí eu discordo do Jeferson. O nosso jato d´água não será a malvada força estatal lutando por sua própria sobrevivência, e sim o caos social que virá. Sem o Estado, a sociedade fica acéfala, se desmorona, a violência toma conta e naturalmente surge outro estado.

    Entendam uma coisa, minha boa gente: a organização estatal é inata ao homem, nem que se for na sua forma mais primitiva, que é a família. Porque nenhum homem nasce sozinho, nasce de pai e mãe, e é criado enquanto indefeso e incapaz de usar a razão, tendo como tutores outros seres humanos mais velhos que usarão de violência se preciso para protege-lo de si mesmo e dos perigos externos, afim de assegurar a sua sobrevivência e a sobrevivência e perpetuação de toda a sociedade.

    E seria muito mais produtivo aos admiradores da escola austríaca se colocarem a pensar em como tornar uma empresa mais produtiva a ficar nessa masturbação intelectual de mundo sem Estado.

  12. “E seria muito mais produtivo aos admiradores da escola austríaca se colocarem a pensar em como tornar uma empresa mais produtiva a ficar nessa masturbação intelectual de mundo sem Estado.”

    Em outras palavras: ele implora para que os capacitados austríacos concentrem suas forças na produção, afinal tempos um mar de pessoas para sustentar.

  13. Emerson Luis, um Psicologo

    Muito boa essa metáfora dos Cinco Macacos. Na realidade, onze, pois na forma que conheci a segunda geração também foi sendo substituída e reprimiu o décimo-primeiro macaco.

    É interessante observar a diferença entre “tradição” e “tradicionalismo”. Uma tradição é um conhecimento que é passado de uma geração para outra. Já o tradicionalismo é uma obediência cega e dogmática às tradições, que perdem sua razão de ser. Enquanto o tradicionalismo é sempre ruim, o fenômeno “tradição” é benéfico.

    Imaginem uma tribo no meio da floresta, séculos atrás. Os indígenas descobrem uma fruta que é saborosa, mas causa indigestão. Eles passam a evitá-la e ensinam seus filhos e netos a fazerem o mesmo, que repassam para os seus próprios filhos e netos. Com o tempo, a história da fruta vai sendo floreada e mistificada e o motivo prático de evitá-la vai sendo esquecido, até se tornar uma proibição explicada com uma narrativa.

    Os indígenas fariam bem sim em continuar evitando a fruta até se certificarem de se ela é segura. Seus antepassados podem ter tido algum bom motivo para transmitir essa tradição, embora por enquanto não saibam com certeza qual foi. Já nos tempos atuais e em contato com a civilização moderna, poderiam analisar melhor o caso.

    Mas seria dogmático continuar evitando essa fruta só porque sempre fizeram assim, havendo meios seguros de descobrir se ela é perigosa. Daí, sendo comprovado ou não que ela é tóxica, cada indígena poderia tomar sua decisão pessoal: comer ou não comer e por quais motivos; se comer, como fazê-lo, etc.

    * * *

  14. Vi pelo título do blog que você defende a propriedade. Na hipótese de não haver Estado, de onde seria retirada a legitimidade para a existência da propriedade (já que hoje, tal legitimidade é retirada das leis feitas pelo Estado)? Como seria defendida a propriedade contra a tentativa de invasão (já que não existindo Estado, não existiria polícia estatal)?

  15. Gosto muito dessa história, a dos cinco macacos, mas, ela começa com um “um grupo de cientistas”, alguém saberia me dizer quais são esses cientistas? Onde encontro a publicação dessa experiência ou qual o “laboratório” responsável pelo experimento?

  16. O mesmo pode ser dito da regulação estatal em diversos setores da economia tidos como “monopólios naturais”, que no passado já foram mercados competitivos, mas se hoje em dia alguém propuser a desregulação dos mesmos…

  17. Raimunda Maria Alves

    Após ler esse texto, pus-me a pensar, que o tempo, é mesmo o senhor do volte um pouquinho se não quiser repetir o feito de outros sem objetivos pra você.

    Meu estado (Ceará), quase oito anos após a publicação desse texto, esta vivendo dias sombrios com a greve dos policiais, e a sociedade em sua maioria não os apoia e ainda justifica, eles agridem com palavrões e pancadas outros grevistas. Ai fica a deixa seriam eles macacos? Ou seremos nós?

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