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Nacionalismo olímpico

Está
difícil aguentar a dose maciça de ufanismo barato que inundou a mídia nesses
dias pós-decisão do COI.

Para
quem achava que o ápice do ridículo já havia sido atingido quando o presidente
chorou copiosamente em frente às câmeras de todo o mundo, o padrão foi elevado
pelas propagandas nacionalistas apresentadas pela mídia de dois em dois
minutos.  É difícil escolher uma, mas a
mais patética até agora parece ser mesmo a da Embratel, na qual um sujeito —
aparentemente acelerado por alguma substância que não apenas a endorfina — sai
correndo pela praia com a bandeira do Brasil em suas costas, ajoelha-se na
areia e beija lacrimosamente o lábaro enquanto olha para os céus e, em seguida,
coloca-se novamente em marcha rumo a lugar nenhum.  Como voz de fundo, um locutor com aquele
trinado pateticamente nacionalista diz que tal feito é uma conquista de todo o
povo brasileiro.

O
intuito é condicionar a população à ideia de que ser espoliada para construir
estádios, campos de golfe, campos de tiro com arco, piscinas, quadras de rúgbi,
de softbol, de esgrima, de halterofilismo e pistas de atletismo — coisas que
obviamente virarão um elefante branco tão logo as olimpíadas acabem — de alguma
maneira será para seu próprio bem.

É
claro que haverá ganhadores: os grupos de interesse de sempre — empreiteiras,
redes de hotéis e a própria mídia — já estão de olho no butim.  Os jogos Pan-americanos de 2007, por exemplo,
foram orçados em R$ 400 milhões e acabaram custando R$ 4 bilhões.  Boa parte do dinheiro foi utilizada para
fortalecer a máquina política carioca e para enriquecer os empresários com boas
conexões políticas.  O mesmo vai
acontecer agora, só que em escala olimpicamente maior.  Mas, de alguma forma, a mídia quer nos fazer
crer que isso deve ser uma inspiração para o Brasil.  O festival de histeria nacionalista está apenas
começando.  O poder e a arrogância
presidencial irão atingir níveis paroxísmicos.

As
olimpíadas sempre foram um empreendimento financiado pelo contribuinte.  Os Jogos Olímpicos de Montreal, realizados em 1976, até
hoje são famosos pelo seu desastre financeiro. 
Pelo motivo oposto, tornaram-se famosos também os Jogos Olímpicos de
1984, sediados em Los
Angeles
: esta foi a única Olimpíada que de fato trouxe lucro
para a cidade que a realizou, o que foi uma grande surpresa.  (O engraçado é que na época de se escolher a
cidade-sede, logo após o desastre canadense de 1976, nenhuma outra cidade se
apresentou, temerosas que estavam de repetir o fiasco canadense.  Isso deixou LA sozinha na disputa.)  Um dos motivos desse lucro é que a cidade
utilizou o Los
Angeles Memorial Coliseum
, que fora construído para as Olimpíadas de 1932
(outra época em que ninguém queria sediar os jogos).  Sendo assim, a cidade não precisou gastar
tanto dinheiro na construção de novas instalações — algo que não ocorrerá no
Rio, onde toda uma vila olímpica está sendo planejada.

Mas
há algo ainda mais ultrajante: após as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, o COI alterou
as regras e determinou que dali em diante todas
as futuras Olimpíadas teriam de ser empreendimentos geridos exclusivamente
pelos governos.  O COI, uma entidade
dominada por socialistas europeus ricaços, nunca viu com bons olhos a ideia de
as Olimpíadas serem geridas por organizações privadas, pois considera que isso
estaria “abaixo do ideal olímpico” (seja lá o que isso signifique).  Alguns desses burocratas chegaram inclusive a
reclamar que durante os Jogos Olímpicos de Atlanta havia muitas tendas e barracas
na cidade vendendo penduricalhos relacionados às Olimpíadas.  Tais demonstrações de iniciativa privada eram
“inaceitáveis”, pois feriam o espírito olímpico (de novo, seja lá o que isso
signifique).

A política olímpica, portanto, passou a ser de puro e completo socialismo — embora, é
óbvio, o COI fique bastante contente em adquirir receitas pra lá de
capitalistas com a transmissão dos jogos. 
Os lucros são privados e os prejuízos, socializados.  E é isso que a mídia e os desinformados estão
comemorando.

Por
fim, vale mencionar um último detalhe: poucas organizações são tão combativas
na proteção de sua propriedade intelectual quanto o COI.  Essa gente processa absolutamente qualquer um
que ousar adotar um logotipo que tenha cinco anéis, não importa a configuração.  Da mesma forma, o uso da palavra “olimpíadas”
em qualquer projeto que não tenha sido previamente aprovado pelo COI é
estritamente proibido. 

Vê-se
que todo esse discurso politicamente correto de “espírito fraterno” é mera
distração para tomar o seu dinheiro — ao mesmo tempo em que você aplaude
fervorosamente e sai correndo emocionado com uma bandeira para mostrar seu
orgulho de ser saqueado.

 

P.S.:
87% dos moradores de Chicago, cidade para a qual Barack Obama fez campanha
pessoal, eram contra as Olimpíadas serem realizadas na cidade.  O lema da revolta era: They play, we pay!  Tal nível de sagacidade em massa ainda não
chegou por aqui.

 

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20 comentários em “Nacionalismo olímpico”

  1. Obrigado pela aula, e boa escolha do slogan: “Pão e Circo – Gerenciando gado há mais de dois mil anos.”!! Piadas verdadeiras são as mais engraçadas!

  2. Não aguento tanto nacionalismo. Mas o pior que tento argumentar e ninguém dá-me ouvidos. Sem contar que essas Olimpíadas servem para cada vez mais acreditarmos que o Estado será a salvação.

  3. As Olímpiadas no Rio podem trazer um imenso retorno para o povo brasileiro sim. É só através da educação e dos esportes que eu cejo alguma perspectiva para nosso povo. Infelizmente, eu aposto que o que ocorrerá será semelhante ao já citado Pan de 2007. O problema não é com a festividade, nem com as competições, mas com a forma que tudo acaba sendo corrompido por nteresses políticas/financeiros. Não somos que nem Chicago, onde as vozes se levantam em manifestação do que pode ocorrer. Somos um povo que gosta de falar mal quando a coisa já está fedendo.\nEm 2016 estaremos todos enchendo a barriga de cerveja e celebrando os jogos. Ou bebendo cerveja e falando mal das Olímpiadas.

  4. Eu também não vejo mal em haver jogos Olimpícos. O problema é que a iniciativa privada é sempre deixada de lado, portanto quem mais gasta com isto é o governo através dos nossos impostos. \nSe os investimentos fossem, ou boa parte deles, da iniciativa privada, não haveria problemas com ter jogos ou não.

  5. Droeee, nenhum investimento do governo pode trazer retorno algum para o povo. O governo só pode trazer prejuizos diretos para o povo ao confiscar violentamente seus recursos e gastar em algo diferente do que as pessoas espoliadas o gastariam. E ninguém precisa que você veja qualquer perspectivas para eles.. deixe que cada pessoa avalie e investa em suas proprias perspectivas. Desejar qualquer coisa diferente disso já é uma visão corrompida. E qualquer coisa que ocorra depois do confisco será algo corrompido. Aproveito para demandar que este instituto traduza o MES para o português para ensinar estas verdades científicas economicas aos brasieliros. É só nesse tipo de investimento (privado) em educação é que eu vejo perspectivas para o mundo. Já no esporte, eu não sei como alguém pode ver qualquer tipo de perspectiva aí..

  6. O negócio é o seguinte pra ser curto e grosso: Se os jogos olímpicos fossem bons eles seriam realizados pela iniciativa privada, pois apenas estariam atendendo a uma prioridade imediata dos indivíduos. Como isso não ocorre são apenas mais um sorvedouro de recursos escassos. O resto é conversa fiada pra boi dormir.

  7. Foi mais ou menos isso que aconteceu com Portugal, quando organizou o Europeu de 2004. Foram construídos qualquer coisa como 10 estádios (não me recordo do número ao certo). Claro que foram pagos na totalidade, ou em grande parte, pelo estado e municipios. Actualmente vários desses estádios são usados por equipas de 2º divisão ou recebem 2 ou 3 jogos por ano. É obvio que nenhum privado entraria numa loucura destas…

  8. Caro Luis Almeida, entendo perfeitamente o que você quer dizer quando diz que o governo só pode trazer prejuízos ao povo. É que minha descrença com o setores privados é ainda maior. \nEm relação a como o esporte pode ajudar a povo… Bem, infelizmente ainda vivemos um regime de formação do indivíduo em que parece que só existem cabeças, o corpo é algo ignorado. Àqueles, cujas aptidões intelectuais não são as mais privilegiadas, resta apenas a frustração por não se adaptarem a um modelo escolar caduco. Não se trata de elevar o já presente culto ao corpo a um status maior do que o já alcançado, mas compreender as diferenças. O esporte pode não ser a melhor modelo de educação para certas pessoas (como é o meu caso, só como exemplo), mas conheço uma porção de crianças que teriam um futuro bem melhor tendo condições de praticarem atividades físicas.

  9. Droeee, se vc é descrente com o setor privado, se vc acha que ele é deficiente em algum ponto, vc pode ser o primeiro a explorar esta deficiencia, atender uma demanda suprimida e ainda ficar rico. E se quiser ainda pode doar sua riqueza para quem achar que mereça ou “necessita”.\nAora, quando vc diz: “mas conheço uma porção de crianças que teriam um futuro bem melhor tendo condições de praticarem atividades físicas”, eu só posso crer que vc está se referindo a “condições físicas” e busca curas para elas para que as crianças possam ter essa condições, pq “condição para praticar atividade física” qualquer cirança ou pessoa que não seja muito doente ou aleijada tem. Mas no que sair correndo, ficar pulando ou jogando bola ajudaria o futuro de crianças, eu realmente não entendi.

  10. Não sei o que será pior para o meu bolso: Copa do Mundo ou Olimpíadas. Pelo que já andei lendo por aí, pela grandiosidade dos projetos prometidos e pelo atraso nas obras, acho que a Copa será mais nefasta.

    Mas pelo menos Deus é brasileiro.

  11. “They play, we pay”.

    Hahaha, excelente!

    Não é curioso, também, que os países socialistas sempre se sobressaíram nas Olimpíadas. No “segundo mundo” competições esportivas são vistas como importantíssimas para a glória e orgulho nacionais. No fim, o esporte acaba virando mais uma vertente do marketing estatal.

  12. Recentemente em uma cidade do Japão a sociedade também recusou ser sede dos jogos de 2020 se eu não me engano.

    Gostaria de saber o caso de barcelona por que por aqui foi vendido como uma caso de sucesso para o Rio 2016, projetos como Porto Maravliha etc se basearam nesse caso espanhol.

    Aguém tem alguma informação critica a respeito?

    Att

  13. Engraçado que a não leitura do projeto parece desculpa pra tudo que é político nesse país não só em Fortaleza. Por curiosidade em Salvador teve um movimento diferente um projeto que alterava várias regras da construção civil na cidade e no projeto várias vezes era citado que a explicação detalhada da nova regra estava no anexo x mas, por coincidência vários anexos não estavam presente na versão enviada pra votação. Projeto foi barrado e foi votado algum tempo depois e aprovado por que a maioria governista o aprovou mesmo uma grande parte desses já tendo votado contra esse projeto.

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