
Alguns dos grandes pensadores da Grécia Antiga, como Platão e Aristóteles, embora tenham contribuído enormemente para a filosofia, introduziram uma série de graves erros que continuam a atrapalhar a ciência econômica.
Teorias erradas, absorvidas por economistas de diferentes correntes, levam a conclusões equivocadas sobre o funcionamento da economia e, pior, à formulação de políticas ruins. Nesse sentido, conceitos como moeda, juros, lucro e preços sofrem na teoria e na prática econômica.
Tese 1: Platonismo
“A curiosa tarefa da ciência econômica é demonstrar quão pouco se sabe sobre o que se imagina de poder projetar”. Friedrich Hayek.
O platonismo introduziu na filosofia o conceito de ideias absolutas, que nos guiam para observar o mundo real. Por exemplo, uma ideia absoluta do bem, da beleza, da justiça etc. Isso cria na mente uma certa ideia de onisciência.
Embora o platonismo tenha sua vantagem na análise da natureza, por exemplo, para a matemática ou a geometria, no mundo real, no nosso mundo da economia, ele cria o que Friedrich Hayek chamou de pretensão do conhecimento. Nas ciências sociais, a onisciência implica uma certa onipotência e cria, na economia e na política, um voluntarismo. Mais cedo do que tarde, a utopia que se quer alcançar leva ao totalitarismo e à ditatura de benevolência.
O platonismo, na economia, pressupõe que nós sabemos mais do que a realidade, e que a realidade econômica é inerentemente deficiente. Assim, é necessário mudar este mundo real em sua totalidade para criar nossa visão quase utópica.
Há uma grande diferença na economia quando qualquer um de nós procura melhorar sua vida e quando temos uma ideia absoluta partindo do governo de um ditador, que procura impô-la sobre a economia.
Hoje em dia, nós encontramos isso de maneira moderada em todos os lugares na forma do intervencionismo. Em todos os governos, mesmo fora do totalitarismo, ainda existe esse voluntarismo e a prática do intervencionismo.
Mas, diferente do que o platonismo faz parecer, a economia funciona baseada nos indivíduos e empresas que procuram planejar e captar a realidade, e não a partir de cima em uma forma de totalitarismo.
Tese 2: Esterilidade da moeda.
“O dinheiro não é produto da convenção dos homens engajados em atividades econômicas, nem um produto resultante de atos legislativos (…). Foram indivíduos (…) que, aumentando a consciência de seus interesses econômicos, adquiriram também a consciência de que a troca de mercadorias menos vendáveis por aquelas mais vendáveis representa progresso notável na busca de seus interesses econômicos específicos, e assim surgiu o dinheiro (…), acompanhando o desenvolvimento progressivo da economia”. Carl Menger.
A moeda aparece desde a discussão de Aristóteles até hoje como símbolo de riqueza. Hoje em dia, na fala popular, ainda se diz que um homem é rico por ter muito dinheiro. Na realidade, a riqueza de uma nação não está na moeda, mas nas forças produtivas.
A moeda não é estéril, mas tem uma função fundamental no processo da divisão de trabalho. A moeda, ou o dinheiro, aumenta a produtividade ao possibilitar o aumento da divisão de trabalho e de capital.
Sem moeda, também não podemos praticar o cálculo econômico, e não temos preços nem indicadores de escassez para obter uma alocação eficiente dos recursos.
Assim, em dois lados, esta ideia errada ainda continua na confusão de moeda com riqueza. E segundo, no outro lado, que o dinheiro não contribui para a produtividade.
Ao contrário, precisamos ter consciência de que a moeda é um ponto de altíssima importância para criar produtividade, para alimentar o processo de divisão de trabalho e capital, para a formação de preços, para obter um bom indicador de escassez e obter uma alocação eficiente.
Tese 3: Postulado da antiética de cobrar juros
“Em nenhum outro lugar se pode encontrar um número tão grande das piores falácias, de suposições não provadas, de contradições e de cegueira dos fatos [do que na teoria do juro]”. Eugen von Böhm-Bawerk.
A proibição de cobrar juros é a consequência da tese da esterilidade do dinheiro. Se o dinheiro não serve para nada, apenas para a riqueza, então cobrar juros é uma ação antiética.
A Escola Austríaca de Economia nos ensinou, depois de muitos séculos, que os juros refletem a preferência temporal e estão intimamente ligados à função do capitalista. O capitalista, em seu conceito puro, é a pessoa que tem um diferente nível de preferência temporal e, por isso, está disposta a emprestar parte de seu dinheiro.
Aquele que cobra juros recebe uma recompensa pelo tempo de espera, e o que paga juros ganha tempo em suas decisões econômicas – é como se ele pudesse acelerar o tempo. Essa é a troca econômica que ocorre em um empréstimo.
Nos anos 1930, Keynes usou o termo “eutanásia do rentista” para defender políticas de juros baixos que colocassem um fim às pessoas que “vivem de renda”. Keynes não entendeu a função dos juros. Os juros não são um fenômeno de oferta e demanda da moeda, como explicam equivocadamente algumas teorias. Os juros são a consequência da preferência temporal e a recompensa pelo tempo de espera.
Tese 4: Valor objetivo.
“O valor subjetivo que um determinado bem tem para uma pessoa é um fenômeno puramente individual e, portanto, não pode ser imediatamente comparado ao valor subjetivo que esse mesmo bem tem para as outras pessoas”. Ludwig von Mises.
A tese do valor objetivo consiste na ideia de que objetos têm um valor intrínseco. No entanto, valor intrínseco é algo impossível, porque o que se deseja de um determinado produto não é o produto por si mesmo, mas o serviço que ele pode nos dar.
Assim, o valor não está dentro do diamante, mas no serviço da beleza, por exemplo, que queremos desse diamante. Ou no caso de uma comida, em que queremos a saciedade provocada pelo alimento ou o prazer que temos ao comê-lo.
Esse erro continuou com Adam Smith, que, a partir do valor objetivo, postulou a teoria do valor trabalho, em que o valor dos produtos se cristaliza no valor do trabalho dispendido em sua produção. Como efeito, a teoria clássica do valor trabalho foi o ponto de partida para a teoria da exploração de Karl Marx. O grave erro da teoria do valor objetivo está na ideia de que os custos determinam os preços, sem perceber que os próprios custos já são preços.
Isso leva à ideia de que existem valores falsos, que precisam ser corrigidos. Nesse caso, caberá a algum indivíduo ungido, invariavelmente inserido no aparato estatal, a função de julgar o “verdadeiro” valor dos bens e determinar quais bens são necessários ou desnecessários.
Contra estes erros, surgiu nos anos 1870, no contexto da Revolução Marginalista, a ideia da utilidade marginal. Para os marginalistas, entre eles Carl Menger, o que conta para a determinação da utilidade de um bem é a satisfação de uma necessidade ou desejo. Dessa forma, a utilidade se torna situacional, isto é, ela muda de acordo com a avaliação subjetiva e individual em determinada situação. Em poucas palavras, o valor é marginal, situacional, individual e subjetivo.
Tese 5: Troca de equivalentes.
“Se a troca entre duas partes é voluntária, ela ocorrerá se, e se somente se, ambas as partes se beneficiarem. A maioria das falácias econômicas deriva de esquecer essa premissa básica”. Milton Friedman.
O erro da concepção da troca econômica como uma troca de equivalentes é resultado de todos os outros erros. Este pecado foi implantado ainda no tempo de Aristóteles e continua até hoje a confundir a discussão da economia.
Uma troca voluntária só ocorre porque há ganhos e benefícios mútuos. Se duas pessoas concordam em trocar um produto, a percepção do valor do produto para as duas pessoas não pode ser a mesma. Do contrário, por que o fariam?
Uma pessoa só troca um bem por outro caso atribua a este bem um valor maior do que àquele. O raciocínio é o mesmo, porém inverso, para o outro indivíduo envolvido na troca. A diferença na valorização incentiva a troca, não a igualdade. É a desigualdade dos valores subjetivos que incentiva e, em última instância, possibilita a troca.
Enquanto o preço é objetivo, e está dado para todos os participantes do mercado, o valor é subjetivo e é o que nos motiva a trocar uma coisa por outra.
Tese 6: Postulado da existência do preço justo.
“Só um tolo tentaria separar esses valores de tal forma que o preço legal devesse ser diferente do natural”. Juan de Mariana.
O postulado do preço justo é a consequência das teses da objetividade do valor e da equivalência na troca. Ademais, esse postulado também mescla moralidade com análise econômica.
Como consequência, a ideia de que existe preço justo para bens econômicos leva a uma espiral de intervencionismo no mercado. Nesse sentido, dado que alguém deve, por um lado, determinar qual é o preço “justo” e, por outro, aplicar esse preço, o efeito é o fortalecimento do estado em detrimento do indivíduo.
Tese 7: ilegitimidade do lucro.
“Que função tem o empreendedor realizado? Em sua busca por lucro (…), ele tem servido ao consumidor melhor, antecipado onde os fatores são mais valiosos”. Murray Rothbard.
Ainda hoje, tem-se a ideia de que o lucro é resultado da exploração. Lucro não é resultado da exploração, mas da previsão correta. Lucro e prejuízo juntos – não pode haver lucros sem a possibilidade de prejuízo – são indicadores da ação empresarial.
Diferente dos juros, que refletem a preferência temporal, lucro e prejuízo refletem a incerteza. Se uma empresa obtém lucro, o tamanho do lucro é um indicador de que os empreendedores desta empresa são capazes de antecipar melhor o futuro do que os outros.
Não teria sentido em falar de lucro empresarial sem a possibilidade de prejuízo. Se assim o fosse, por que não seguirmos todos uma determinada empresa bem-sucedida? O problema é que, para se ter lucro, é preciso ter uma boa previsão do futuro, no sentido do produto e não necessariamente para a toda a economia.
Como obter absolvição desses pecados?
Sempre que refletirmos sobre esses pecados, devemos separar moralidade e análise econômica, e evitar esta ideia platônica de que se sabe tudo, pois ela leva à imposição da moralidade, ética ou perfeição sobre a economia.
Também devemos ter em conta que o dinheiro é produtivo, e que é necessário cuidar da moeda, pois uma boa moeda contribui para a nossa produtividade.
As lições da Escola Austríaca de Economia são fundamentais para obtermos absolvição dos pecados citados: os juros são a recompensa pelo tempo esperado; o valor é subjetivo, individual, situacional e marginal; a troca só ocorre devido a valorizações divergentes, e não equivalentes; o preço não é justo nem injusto, mas reflete o grau de escassez na sociedade; e lucro e prejuízo resultam da incerteza sobre o futuro e como o empreendedor atua frente a essa incerteza.

Na opinião de vocês, a China vai invadir Taiwan? E ai o que acontece?
Vocês estão expostos em bolsa e renda variável?
Queria indicação de fundos imobiliarios, estou todo no CDI e estou perdendo muito pagando Imposto no CDI.
Abraços
As provocações da China hoje são apenas jogo político, não têm nenhum significado militar.
Mas se algum a China realmente quiser tomar Taiwan – e será apenas por vaidade e para humilhar os EUA – ela o fará após um minucioso planejamento e com a certeza absoluta da vitória.
Considerando a tendência atual do ocidente, é provável que quando a invasão se completar os generais dos EUA ainda estarão em reuniões no Pentágono para decidir quem manda em quem.
Uma das coisas que me intrigam muito no assunto do shrinkflation é que esse fenômeno não acontece no setor de televisores, informática e jogos eletrônicos. Alguém aqui imaginou a Nintendo fazer um Nintendo Switch com performance pior do que o Nintendo Wii? Ou a Samsung fazer uma televisão de tela de tubo com maiores preços?
Por que é que no setor alimentício isso é bastante evidente, tais como redução de peso e/ou na qualidade dos ingredientes, e nestes setores acima não acontece? Afinal, a explosão nos custos veio para todos os setores da economia, ainda que possamos dizer que atuem de formas diferentes.
Que artigo excelente! Os estudantes, de todas as faixas etárias deveriam lê-lo. É curioso, como a economia e o mercado não podem ser controlados, apenas observados, pois caso queiram os “controlar”, tal assimetria, afetará negativamente a todos.
Belíssimo artigo, parabéns!