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Entrando pelo cano da liquidez – o congelamento momentâneo do mercado repo americano


Nota do Editor: uma versão mais sucinta deste artigo foi inicialmente publicada no jornal Folha de S. Paulo

______________________________________

Na semana passada, um inesperado aperto
de crédito atingiu os bancos americanos
.

A taxa de juros das operações compromissadas, o repo rate, do nada e inesperadamente,
saltou de 2% para 10%, muito acima do teto determinado
pelo banco central americano 
(o Fed) para o juro de curto prazo, que
estava em 2,25% ao ano.

Todo o sistema financeiro tremeu.
Ato contínuo, o Fed teve de fazer seguidas
injeções de liquidez
neste mercado. Quando foi a última vez que isso
ocorreu? Imediatamente antes da crise financeira de 2008.

O que tudo isso significa?

Vamos por partes.

O
que é

Operações compromissadas significam “operações com
compromisso de recompra”. Em inglês, repurchase
agreements
. Daí a abreviação mais popular para repo.

De maneira extremamente sucinta, trata-se de um
mercado ao qual bancos, fundos de investimento (hedge funds), corretoras, operadores de mercado etc. recorrem para obter
financiamento (e fazer empréstimos) de curtíssimo prazo.

Se um banco ou um fundo de investimento necessita de
fundos para cumprir uma obrigação de curto prazo, e outro banco ou outro fundo
de investimento está com fundos sobrando, o segundo empresta para o primeiro.

Especificamente, o emprestador repassa dinheiro para
o tomador, e o tomador entrega, como garantia, algum ativo para o emprestador,
normalmente um título público.

Passado o prazo do empréstimo, que normalmente é de
uma noite (overnight), o tomador do empréstimo
recompra o ativo que repassou ao emprestador. Daí, repurchase
agreement
, acordo de recompra.

É exatamente neste mercado, que é regulado pelo
Federal Reserve (o Banco Central americano), que montanhas de dinheiro e
montanhas de títulos se encontram. Por meio do repo, grandes investidores — como fundos de investimento — ganham
dinheiro ao emprestarem, por um curto período de tempo, dinheiro que
normalmente ficaria parado. Estes empréstimos permitem que bancos e corretoras
obtenham financiamento de curto prazo. Em troca, como dito, repassam ao
emprestador títulos que possuem. Essa é a garantia do empréstimo. Findado o período
do empréstimo, esse titulo dado como garantia será recomprado.

É um mercado repo
saudável o que permite que todas as demais transações financeiras da economia
ocorram suavemente. É neste mercado que US$ 16 trilhões de títulos da dívida
pública americana são transacionados.

O
que houve

Desde a semana passada, começaram a haver “vazamentos”.
O dinheiro, repentinamente, ficou escasso. Os títulos públicos continuavam a
ser ofertados em troca de financiamento de curto prazo, mas não mais havia
dinheiro a ser emprestado. O dinheiro sumiu do encanamento.

Consequentemente, a taxa de juros do mercado saltou
de 2% para 10%
.

overnight repo.png

Desde então, o Fed passou a injetar liquidez
diariamente neste mercado. E a demanda
por esta liquidez não está cedendo
.

Como
interpretar

Esse abalo surpreendente me remeteu ao passado.

Há 12 anos, no dia 9 de agosto de 2007, abri a planilha
com meu painel de controle repleto de indicadores financeiros e empalideci. O
principal indicador de risco que eu acompanhava havia saltado de 50 pontos
no dia anterior para mais de 100 pontos!

Ato contínuo, o Banco Central Europeu injetou
US$ 130 bilhões no setor bancário. O mercado não deu importância. No dia
seguinte, a história não estampou a capa dos jornais financeiros.

Foi útil: não se ganha dinheiro com notícias de capa
de jornal, mas com notícias da página 15 em vias de migrar para a capa.

Naquela quinta-feira iniciou-se o desenrolar, em
câmara lenta, da maior crise internacional desde a Grande Depressão da
década de 30: a “crise
de 2008”
.

Entre mais de 20 indicadores, eu monitorava com lupa
o risco do setor bancário via o outrora obscuro Ted Spread, que é calculado pegando a diferença entre a taxa de
juros do título público americano de 3 meses e a taxa Libor. Esse indicador é
utilizado pelos diminutos e pouco charmosos departamentos de “money market” dos
bancos de Wall Street e da City de Londres.

Esse spread — diferença entre a taxa que bancos
emprestavam entre si (Libor) e a taxa livre de risco (titulo de 3 meses do
Tesouro americano) –, indicava em tempo real o risco de crédito dos maiores
bancos internacionais bem como a disponibilidade de caixa no mercado
interbancário. 

O interbancário é o mercado de empréstimos de
curtíssimo prazo no qual bancos negociam entre si sobras e furos de caixa em
bases diárias. Aqui no Brasil é o mercado que forma a taxa Selic (de
empréstimos com garantia de títulos) e a do CDI (sem garantia).

Por se basear naqueles empréstimos sem garantia, o
Ted Spread mede em particular o risco que os bancos emprestadores enxergam nos
demais bancos tomadores. Quanto mais alto, maior o risco. Em julho de
2007, esse indicador estava em 0,54. Ao final de agosto, estava em 2,42. Já em
outubro de 2008, chegou a 4,48. Confira aqui.

O mercado interbancário é como o encanamento da
economia. Se a água, a liquidez, deixar de fluir livremente nesse imenso
condomínio integrado e mutuamente dependente que utiliza dólares, a economia
sofrerá um baque tempo depois.

No sentido inverso, se houver um excesso de
impurezas da economia sendo introduzido nos canos (um alto estoque de dívidas
podres, por exemplo), o fluxo de liquidez tende a se interromper, o custo do
serviço dos encanadores momentaneamente dispara (a taxa de juros sobe), e a
economia mundial sofre um infarto. É o que prevê a TACE, teoria austríaca dos
ciclos econômicos.

A questão é identificar se a anomalia da semana
passada pode ser resolvida com um mero desentupidor ou se revela problemas
estruturais graves, como vazamentos em massa.

Minha suspeita é que há complicações estruturais. A
colossal liquidez acumulada desde 2009 nas caixas d’água de bancos, companhias
americanas, fundos soberanos e bancos centrais, algo como US$ 10 trilhões
adicionais criados a partir das políticas de afrouxamento monetário (QE), não
foi capaz de impedir a interrupção abrupta do fluxo de liquidez. Não faz
sentido.

É bem verdade que o Fed vinha enxugando parte
do que injetou anteriormente
, reduzindo o caixa dos bancos em US$ 1,5
trilhão. Mas ainda há enorme liquidez ao redor do mundo.

O
que esperar

Por enquanto, o Fed tem enfrentado o distúrbio com
um desentupidor gigante, um afrouxamento de liquidez light. Ele anunciou que pretende
injetar US$ 75 bilhões neste mercado até o fim de outubro
.

Suspeito que em breve voltará ao afrouxamento quantitativo
(QE)
maciço para inundar os canos, que, entretanto, seguem vazando. Após a “anomalia” de agosto de
2007
, levou-se um ano para estourar a crise.

Quanto tempo levará agora? Por enquanto, tudo é
palpite. Não importa quão sólida seja a fundação: quando o encanamento entope,
é bom ficar alerta.

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44 comentários em “Entrando pelo cano da liquidez – o congelamento momentâneo do mercado repo americano”

  1. Se fosse uma disparada de um dia só, não teria muitos problemas. Mas o que impressiona é que a coisa está durando. Já está assim há mais de uma semana. Todo mundo do mercado financeiro diz que está faltando dólar no mundo. O Fed está fazendo injeções diárias no mercado repo para tentar diminuir a seca. A cada intervenção anunciada, o número de participantes sempre surpreende para cima.

    O Fed já enxugou 1,5 trilhão das reservas bancárias desde 2014. A base monetária americana está em contração desde então. Já são 5 anos de contração da base monetária. Fora este site, quase ninguém mais fala sobre isso.

    Por isso o dólar se apreciou violentamente ao redor do mundo. E os preços das commodities mensurados em dólar voltaram a níveis da década de 2000. Esqueçam qualquer papo sobre inflação. O futuro será de preços baixos e estáveis. Quem souber investir bem agora vai se aposentar cedo.

  2. Já me disseram que só vai se safar quem investir em ouro e cripto moedas.

    Quem me falou isso foi um cripto fanático, daí tenho muita prudência quanto a isso.

  3. Temor da guerra comercial. Tao comprando dolares pra adiantar as trocas antes, então acreditam que a guerra vai piorar, tendo que desovar os estoques antes dos novos bloqueios futuros.

    Ao mesmo tempo se espera a recessao, entao estao emprestando menos. Ta faltando dinheiro entao em duas frentes.

  4. hélio

    vc poderia explicar melhor esse parágrafo? “Minha suspeita é que há complicações estruturais. A colossal liquidez acumulada desde 2009 nas caixas d’água de bancos, companhias americanas, fundos soberanos e bancos centrais, algo como US$ 10 trilhões adicionais criados a partir das políticas de afrouxamento monetário (QE), não foi capaz de impedir a interrupção abrupta do fluxo de liquidez. Não faz sentido.” . O que não faz sentido ? E pq ?

  5. Outra questão é sobre esse tópico ” É bem verdade que o FED vinha enxugando parte do que injetou anteriormente, reduzindo o caixa dos bancos em US$ 1,5 trilhão. Mas ainda há enorme liquidez ao redor do mundo.”

    O site em vários artigos disse q o dinheiro injetado pelo FED na crise 2008 virou reservas nos banco e não circulava. Como pode haver então enorme liquidez no mundo ?

  6. Em 2020-2021 é para vencer trilhões em dívidas adquiridas com juros baixissimos e zero, e haverá uma necessidade de rolagem.

    Suspeito que tenha algo relacionado a isso.. Você teve um aumento brutal da divida corporativa nos anos de liquidez, uma excassez de reservas no montante necessário para continuar rolando naqueles juros.

    Também somou com o pagamento de impostos nessa época.

    Tudo indica que se esse for um fator importante, e a rolagem nos próximos anos aumentar, a pressão sobre as reservas bancárias podem aumentar ainda mais; O que faria o FED iniciar um novo quantitative easing;

    Na prática ele já iniciou, os juros estariam subindo não fosse a injeção e iniciado uma recessão. (ainda mais com o montande de divida para rolar, se os juros sobem, muita gente quebra);

    Simplesmente não tem outra alternativa a não ser injetar mais álcool nos canos de água

  7. Ok. Há uma crise no horizonte e está começando a faltar água no encanamento. Na crise de 2008, vcs explicaram q a causa da crise foi imobiliária (Fannie Mae e Freddie Mac) . qual a causa dessa agora ?

    Att, Alerj

  8. Vou fazer um resumo grosseiro e peço a ajuda dos amigos aqui pra me ajudar a entender alguns pontos:

    “A crise de 2008 estourou por conta de vários “títulos podres” em que as pessoas não tinham condições de pagar e desencadeou uma onda de calotes… aí tinham vários produtos financeiros atrelados a esses títulos podres e foi um tsunami de calotes.

    Aí o governo foi lá e fez o QE, basicamente ele injetou dinheiro na economia, ligou a impressora loucamente pra meio que “consertar” todos esses calotes. ”

    Até aí ok o meu resumo ?

    Então aí vem as minhas dúvidas…

    1 dúvida – Por que o FED está enxugando o caixa dos bancos ?

    2 dúvida – Esse artigo ta dizendo que ainda existe um “fantasma dessa crise de 2008” e essa injeção de dinheiro(QE) do governo não resolveu a questão por completo… não seria o caso de continuar injetando dinheiro ?

    3 dúvida – Foi apenas os EUA que fez o QE ou vários países fizeram isso ? Como funciona essa demarcação geográfica da crise ? O Brasil chegou a fazer QE também ? Como funciona isso ?

  9. Queria agradecer ao site e a todos que comentam sobre o assunto em questão, não sou formado em economia mas sou entusiasta da área e fico impressionado com o quanto aprendo neste site, inclusive, algumas vezes aprendo mais nós comentários do que no próprio artigo!

    Um muito obrigado ao site e a todos que colaboram com informações pertinentes ao assunto.

  10. Leandro,

    Uma dúvida, seria sobre o S&P 500.

    Digamos que uma crise internacional de fato ocorra, nesse caso, a tendência é de valorização do dólar. No entanto, a têndencia é que os índices da bolsa americana desabem pois imagino que o mercado de ações foi o que mais recebeu o dinheiro recém impresso nos anos de boom, seria algo lógico ser o setor que mais sofra a contração. (ou não?)

    Neste cenário, um ativo como o IVVB11 no Brasil seria um ativo que tenderia a se valorizar ou a desvalorizar?

    Com a queda das ações, na minha visão ele cairia, mas como é precificado em dólar fiquei com a dúvida, pois ele tenderia a se valorizar por esse motivo também. Eu imagino que a queda da bolsa seja mais intensa que a possível valorização do dólar, mas posso estar muito errado.

    Esta maneira de pensar está errada? Eu entendo que não tem como prever o futuro, mas só para saber se racionei corretamente ou estou imaginando coisas.

    Outra dúvida (dizem que perguntar não ofende) seria quanto aos investimentos, imagino que você possua investimentos fora, mas qual você imagina que seria o posicionamento correto em caso de uma crise? REITs seja uma boa talvez?

    Teria boas recomendações sobre como investir lá fora? (não os investimentos em si, pois isso sei que ninguém recomenda)

    Ninguém tem como prever o timing, mas por suposição, digamos que seja exatamente daqui 6 meses, qual seria a maneira correta de se posicionar?

    No mais, ainda tá investindo em ativos atrelados ao IMA-b ou IMA-geral?

    Eu entendo se não quiser responder algumas (ou todas) dessas perguntas kk

    De qualquer forma agradeço!

  11. O interest rate do Fed não estava distorcido e pagando juros pelas reservas em excessos ao invés de uma taxa overnight interbancária? Isso não significava que havia um enorme excesso de liquidez no setor bancário? Como está hoje a situação desse taxa de juros, já está igual ao funcionamento da Selic? Foram detectada bolhas causas pelos QEs nos EUA no mercado financeiro ou em outros setores depois de 2008?

    Já deixo o meu agradecimento antecipado para quem responder!

  12. Uma pergunta, como explicar a austrália nunca ter entrado em recessão nos ultimos 25 anos?Ela tem um banco central que manipula juros como qualquer outro, e aparentemente é a maior expansão continua de todos os países

  13. A boa notícia é que esses governos estão tentando sanar a crise antes que ela exploda.

    A má notícia é que estão atacando os sintomas novamente e deixando as causas crescerem.

    * * *

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