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Um exemplo prático de como a intervenção estatal afeta o mercado de livros no Brasil

Em 2017, decidi escrever um livro
sobre inovação, ciência e filosofia
. Foram meses de pesquisas, escrita e
revisões.

Após o material ficar “pronto” (e daqui a pouco você
irá entender o porquê destas aspas), era chegada a hora de imprimir e vender os
exemplares.

Duzentas cópias foram impressas por R$ 9,00. Destas
200, 100 foram vendidas diretamente por mim por R$ 30,00, 50 foram para as
lojas da minha cidade natal — as quais ficariam com 33% do valor da venda (R$
10,00) — e as outras 50 eu utilizei para distribuir para pessoas influentes no
mercado editorial, buscando um aval para passar para o próximo passo: um contrato
com uma editora.

Nesta fase de criar aquilo que os empreendedores
chamam de Produto Viável
Mínimo
(MVP — Minimum Viable Product) do meu livro,
tive um lucro razoável de R$ 2.500,00.

No decorrer de 2018, minha obra foi aprovada por alguns
dos mais influentes escritores da atualidade. Recebi seus avais e um deles abriu
a porta de uma das maiores editoras do Brasil.

Algumas reuniões depois, foi-me enviado um contrato
oferecendo royalties de 8% sobre o valor final do livro, que deve ser em torno
de R$ 30,00. Ou seja, os royalties seriam de algo em torno de R$ 2,40 por
livro. Levando em consideração uma tiragem de cinco mil cópias, meu pagamento
como escritor seria de R$ 12.000.

Porém, obviamente, a editora fez uma revisão do
material e sugeriu diversas alterações para torná-lo melhor. Inclusive, sugeriu
que eu contratasse uma pessoa formada em jornalismo e especialista em redação
para me ajudar no processo. Fiz essa busca e ofereci parte dos royalties como
pagamento desta parceria.

Isso sem nem sequer ter o contrato assinado. Havia somente
a possibilidade de eu vir a ter este acordo firmado caso a nova obra revisada fosse
aprovada pela editora.

Até aí, tudo bem.

Entra
o estado

E o que a intervenção estatal tem a ver com isso?

A minha cidade, Bento Gonçalves (RS), assim como
muitas cidades brasileiras, possui uma Lei
De Incentivo à Cultura
.

Um fundo de R$ 600.000 anuais que funciona da
seguinte maneira: cerca de 20 obras são selecionadas por um comitê e podem
receber até R$ 30.000. A prefeitura municipal fica com 10% do total de obras
disponibilizadas.

Um amigo participou deste projeto e recebeu o valor
de R$ 30.000, fazendo uma tiragem total de 500 livros. Destes 500 livros, 50
ficaram para a prefeitura e 450 foram postos à venda no mercado por um valor
médio de R$ 35. Supondo que as livrarias fiquem com a absurda fatia de 50% do
valor, o autor receberá R$ 17,50 por livro.

Eis o primeiro absurdo: se a prefeitura pagou R$
30.000 para receber 50 livros, ela pagou R$ 600 por unidade. Um perfeito exemplo de mau uso do dinheiro
público.

Mas a distorção aumenta. Somando tudo, o autor
receberá R$ 37.875. Levando em consideração que ele assume o custo de impressão
(digamos R$ 10 por unidade), ele receberá um total de R$ 32.875 por uma obra
que venderá apenas 500 unidades (10 vezes menos que um escritor iniciante que
opte pelo mercado).

E tudo isso tendo muito menos trabalho, uma vez que
o projeto é aprovado pelos burocratas da cidade, e não pela obra pronta.

Portanto, ficamos assim: no livre mercado, você tira
R$ 2,40 por livro. Na reserva de mercado garantida pelo estado, você tira R$
65,75 por livro — e isso em uma estimativa bastante conservadora.

Conclusão óbvia: não vale a pena tentar ir para o
mercado. Quem opta por isto terá de vender dez vezes mais cópias para ganhar
aproximadamente um terço do valor de quem optar pela assistência estatal.

Expandindo

Agora, imagine isso em
uma escala maior. Considerando que grande parte das cidades brasileiras possui
uma lei similar
:

  • Quantas obras são
    compradas pelas prefeituras por um valor absurdo, explorando o cidadão que
    paga, de forma compulsória, por algo que nunca lerá?
  • Quantas obras com
    potencial de distribuição nacional nem sequer são avaliadas por editoras, pois é
    mais fácil e confortável para o escritor e para a editora se aproveitarem da benevolência estatal?
  • Quantas pessoas são
    excluídas do mercado editorial porque estas obras não passam por editora nem
    por grandes livrarias, pois o estado fez um crowding-out
    do mercado editorial?
  • Quantos autores
    preferem ficar pequenos, em sua zona de conforto, recebendo benefício público em
    vez de se arriscar distribuindo a sua obra nacionalmente, recorrendo a distribuidoras?

Vale a pena ter tudo isso em mente na próxima vez
que você ler notícias de que as maiores
livrarias do Brasil (Cultura e Saraiva) estão passando por sérias dificuldades
.
Sim, é claro que a débâcle das livrarias está bastante ligada ao avanço dos
livros digitais e da Amazon. Mas não se pode ignorar a contribuição dada por
todos aqueles escritores e editoras privilegiados pelos incentivos artificiais criados
pelo estado com o dinheiro público: para estes, é muito melhor ficar pequeno e
encostado no estado, desta maneira retirando toda a rede de distribuição do
caminho.

No final, tanto os escritores quanto as editoras que
os publicam estão apenas agindo racionalmente a uma distorção criada pelo
estado. Eles ganham dinheiro público, blindados do livre mercado.

Já o escritor brasileiro que quer fazer tudo da
maneira certa, sem recorrer a dinheiro público, foi praticamente expulso do
mercado em decorrência desta intervenção: as editoras irão preferir o conforto
do dinheiro público ao risco do livre mercado. Daí as livrarias venderem
majoritariamente apenas livros-texto e best-sellers estrangeiros.

Esta é apenas mais uma singela amostra de como o
poder público afeta toda uma área do setor privado por meio do
assistencialismo, do clientelismo e da reserva de mercado.

 

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58 comentários em “Um exemplo prático de como a intervenção estatal afeta o mercado de livros no Brasil”

  1. Conheço um pouco deste mercado e posso palpitar: praticamente todo mercado editorial “depende” do governo.

    Quase todas as grandes editoras fazem livros didáticos e paradidáticos, e já perceberam que o maior comprador deste material são os governos (todos, municipais, estaduais e federal) através de vários programas, como o PNLD. No arranjo atual, não há escapatória: todo material tem que ser aprovado pelo MEC.

    Editoras de revistas, que estão cada vez mais irrelevantes, também são dependentes dos governos, seja via empréstimos ou pela verba de propaganda e divulgação que os governos gastam nas revistas.

    As poucas editoras que fazem apenas livros “comercias” ficam um pouco fora deste arranjo, mas nunca conseguem chegar perto do tamanho das outras. E sempre que possível embolsam dinheiro da Lei Rouanet ou de algum outro programa cultura.

    Sobre a impressão de livros e incentivos, muitas editoras compram papel na China e mandam imprimir fora do Brasil, pois assim fica mais barato. Esse é o tamanho do incentivo que o governo dá.

  2. Hoje dá pra fazer publicações online e on demand. Você tem de ter um website. Sim, você obviamente será marginalizado do mercado editorial e não terá nada à venda nas livrarias, mas ao menos não mais dependerá de editoras para conseguir espalhar sua obra ao mundo. E em boa parte dos casos não ganhará nada.

  3. Como o capitalismo irá te escravizar

    O escândalo envolvendo os farofeiros do PSL e a visita à China trouxe à tona uma questão muito importante sobre inteligência tecnológica e manipulação de dados. Vivemos em um mundo tão fascinado pela tecnologia, que pouquíssimas pessoas se deram conta que chegará um momento em que seremos subjugados pelo capitalismo tecnológico.

    O neoliberal é um bicho tão burro, que ele pensa que a luta contra a tecnologia é apenas uma questão de automação e robótica. Ele não é capaz de perceber que o problema não são os robôs, mas a inteligência-artificial.

    É muito provável que teremos uma grande revolução da inteligência-artificial em 2025, haverá um grande número de motoristas, taxistas, médicos etc., que perderam os seus empregos e vão ter que se adaptar. Eventualmente, em 2035, haverá uma nova revolução da inteligência artificial, e, novamente, teremos que nos adaptar. E assim seguirá a cada 10 anos, porém, com uma tendência de adaptação cada vez menor. Isso acontece porque o ser humano é limitado psicologicamente e emocionalmente durante o processo de adaptação; o código de inteligência-artificial, por outro lado, não. Portanto, não é possível argumentar que as máquinas vão fazer o trabalho duro enquanto ao ser humano caberá somente o trabalho de inteligência. Chegará um momento em que o processo de adaptação será tão rápido e constante, que você simplesmente não vai conseguir acompanhar, e ficará nas mãos de organizações políticas e econômicas. Sim, o processo de inteligência também pertencerá às máquinas.

    Mas ainda não chegamos na parte aterradora.

    A inteligência-artificial não irá apenas substituir TODAS aptidões humanas, mas também irá manipular os nossos desejos de maneiras que nunca antes foram possíveis. A manipulação de dados que você está presenciando nas redes sociais é apenas o começo de algo muito mais profundo e complexo; chegará um momento em que a ciência da computação estará intimamente ligada à ciência biotecnológica. Quando isso acontecer, haverá a manipulação de dados a fim de definir o estado da consciência ou subconsciência que possibilita a expressão da natureza humana, ou seja, haverá a manipulação da mente.

    É importante salientar que essa manipulação pode ser favorável ao ser humano, desde que não seja induzida pelo sistema capitalista. Escrevi sobre essa teoria e suas boas implicações em um sistema socialista baseado na natureza-humana [2]. Mas dentro do sistema capitalista, essa indução da mente visa somente a escravidão humana conduzida por alguns capitalistas.

    Conclusão

    Enquanto o mundo todo fica fascinado com as facilidades da tecnologia, pouquíssimas pessoas se dão conta que essa mesma tecnologia serve como sistema motopropulsor de controle e manipulação. Você pensa ser malandro defendendo o liberalismo? Pois saiba que tem gente muito mais esperta que você. Ou voltamos a um socialismo comunitário, onde o Estado existe e regular do poder tecnológico e das organizações, ou teremos esse sistema que cedo ou tarde irá nos subjugar de uma maneira nunca antes vista.

    {1} Eu tirei um tempinho de férias, mas já estou de volta. Você acha mesmo que vou desistir do socialismo? Enquanto eu tiver vida irei defender o socialismo neste instituto. Um dia a verdade prevalecerá.

    {2} A manipulação do estado de consciência ou subconsciência torna possível a “teoria da curva da moral do pensamento” criada pelo filósofo Capital Imoral. Está teoria afirma que é possível chegar ao socialismo se conseguirmos manipular o estado de consciência, que induz a ação efetiva, através tecnologia. Esse sistema acabaria de vez com o egoísmo. mises.org.br/Article.aspx?id=2953&ac=225007

    Capital Imoral é filósofo, escritor e já refutou Mises.

  4. O mais legal no Brasil é constatar como as pessoas têm uma enorme dificuldade de correlacionar causa e consequência. Por exemplo, veja o que esse diz um tal Tiago Ferro, que é escritor

    Link: epoca.globo.com/o-autor-a-crise-do-mercado-editorial-23062773

    Ele começa corretamente dizendo:

    "Como todos sabem é possível contar nos dedos das mãos (de uma mão?) aqueles que podem viver exclusivamente da venda do que escrevem. […] Via de regra, autores ficam com 10% do valor de capa sobre exemplares vendidos de suas obras. Sim, uma fatia muito pequena para a peça fundamental dessa história. Mesmo supondo que seja possível dobrar essa percentagem, com tiragens médias de 3 mil exemplares, dificilmente a situação financeira para uma vida confortável dedicada aos textos estaria resolvida.

    Bem, se o mercado não funciona para o autor e funciona para os demais envolvidos – editoras e lojas –, há algo errado."

    Ou seja, ele entende corretamente que editoras estão bem (pois recebem dinheiro do governo), e que apenas o escritor que não publica livros didáticos está mal.

    E aí o que ele sugere? Isso aqui:

    "Mesmo sendo um caminho imperfeito, me parece que o Estado deve sim interferir e financiar o “mercado editorial”. É uma área estratégica como tantas outras que dependem de verbas públicas. A literatura é tão central quanto boa parte da pesquisa científica para a formação de uma nação.

    Mas deixo uma pergunta simples e acredito que não totalmente inocente: por que o Estado não pode ter um programa robusto de financiamento direto de autores? Dessa forma, seria possível combinar as compras públicas de livros (que não resolvem a situação do autor, mas permitem que as editoras sigam investindo, se profissionalizando e produzindo livros) com um modelo de produção literária. Assim, não apenas o produto livro seria estimulado pelo governo, mas também a arte livro."

    Ou seja: dado que o estado distorce o mercado em prol das editoras e contra os autores, então, logo, a solução só pode ser aumentar ainda mais a distorção do mercado, agora dando dinheiro também para os autores.

    Só temos gênios aqui.

  5. Apesar de o objetivo do texto ser demonstrar as distorções causadas pelo Poder Público em mais esse mercado, o que foi muito bem feito pelo Bruno, o que me chamou a atenção foi o baixíssimo retorno que um autor de livros tem no Brasil.

    Se tudo der certo (normalmente não dá), o livro for aprovado por uma editora (quase nunca é) e vender todas as 5 mil cópias impressas (dificilmente acontece), ainda assim a remuneração bruta do autor será de apenas 12 mil reais.

    Quem publicasse com sucesso um livro por ano ganharia apenas mil reais/mês.

    Sabia que vida de escritor era muito difícil, mas não imaginava que mesmo os moderadamente sucedidos fossem tão mal pagos.

    Melhor prestar concurso para o Banco do Brasil rsrsrsrs.

  6. Um pouco OFF, mas eis um artigo interessante sobre o tema das livrarias, que mostra que, ao contrário das grandes, as pequenas livrarias continuam operando bem, o que significa que a quebra das grandes nada tem a ver com a internet ou com falta de demanda.

    arepublica.com.br/perspectivas/nao-ha-crise-do-livro-e-sim-do-mercado-editorial

  7. No Brasil, a distorção é tão bizarra que até editora liberal lança publica livro liberal utilizando recursos da Lei Rouanet.

    gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/tulio-milman/noticia/2016/02/editora-podera-lancar-livros-sobre-liberalismo-pela-lei-rouanet-4977531.html

    "A Bunker Editorial planeja a publicação de dois livros sobre liberalismo, pensamento que preconiza menos intervenção do Estado na economia. Serão uma coletânea de textos a respeito de importantes pensadores e um volume sobre o economista Eugênio Gudin (1886 – 1986). Os projetos obtiveram autorização do Ministério da Cultura para captar, respectivamente, R$ 454,6 mil e R$ 464,1 mil pela Lei Rouanet."

  8. O que eu estranho tanto é porque, afinal, os livros são tão caros? salvo engano, a carga tributária sobre eles é bem menor do que a dos demais produtos, então porque razão um livretinho paradidático (é até difícil entender o que isto quer dizer) que contém duas linhas escritas em cada página, para uma criança de sete anos de idade que está na segunda série do primeiro grau, chega a custar mais de R$ 50,00…

  9. E isso que há outras regulações que sabotam a possibilidade de surgir novas obras literárias: legislação de propriedade intelectual, “crimes contra a honra”, entre outras coisas.

  10. Helio Beltrão trabalhou para o Estado

    Os livros que vocês vendem aqui no site são independentes ? Esse site aqui é independente ? O curso que vocês dão é independente ? Vocês recebem dinheiro de fora também. O povo não é otário.

  11. Fugindo um pouco ao tema, mas é uma dúvida que me perturba.

    A Lei Rouanet, pelo que pude entender, funciona da seguinte maneira: a empresa A deve pagar quantidade X de impostos, mas como forma de “fomento a cultura”, ela pode destinar diretamente parte desse X de impostos a organizações, conforme sua escolha, que teoricamente promovam a cultura, como museus e afins, sem que essa alíquota passe pelas mãos do governo, certo?

    Considerando que ocorra isso, no atual arranjo, isso não seria algo bom? Afinal, é menos dinheiro na mão do governo e de burocratas, e de certa forma, esse dinheiro vai para mão de entidades privadas.

    Se alguém puder me esclarecer mais sobre o assunto sob o ponto de vista Austríaco, ficarei grato!

  12. Se deixar pelo livre mercado, só vão vender livros que é consumido em massa.

    O que vcs acham que vende mais: Ação Humana do Mises ou 50 Tons de Cinza? O que vc acha que é mais fácil de achar numa feira de livros?

    Como o professor Von Mises diz:

    Livre mercado = democracia dos consumidores.

    Como Hans Hoppe constatou, democracia falha. As massas sempre preferem consumir o lixo dos lixos. Prova disso é o funk.

  13. Fora o fator ideologia…

    Como gostaria que fosse fácil encontrar o livro “Não, Senhor Comuna” do Flávio Quintela nas livrarias. Coisa que por aqui tem sido um martírio…

    Agora, se desejo o Maniesto Comunista… ah esse acho até em banquinha de revistas…


  14. Um bom exemplo da necessidade de intervenção é o futebol. Me refiro às cotas de TV. Os clubes com mais torcida recebem muito mais. As cotas deveriam ser iguais, pois o produto é o campeonato brasileiro, como acontece na Premier League, inglesa. Assim fica mais equilibrado e atrativo. Na NBA há teto de gastos, o que permite o equilíbrio entre os times. O sucesso desses dois campeonatos atesta a importância da intervenção. Se fosse deixar pelo livre mercado, clubes mais populares ficariam muito distante dos outros, tornando o produto pouco atrativo. Isso é o que acontece no Brasil. Por isso a enorme renda gerada fica concentrada, quando poderia gerar emprego para muitas pessoas

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