Uma catástrofe humanitária
está acontecendo logo ali no nosso vizinho do norte. Um país inteiro está
ficando sem ter o que
comer.
A violência é tão
grande que faz o Brasil parecer
um lugar tranquilo. Os emigrados já passam
de dois milhões. A ínfima parcela que foi
para Roraima nos dá a dimensão do desastre.
Não foi, porém, um desastre natural, como pode
parecer a um desavisado que leia os jornais brasileiros. Foi um desastre
produzido por mãos humanas, com muito afinco.
Expropriações
e tabelamentos
Por anos a fio, o governo venezuelano impediu as pessoas de
alocarem seus recursos como lhes parecesse melhor. Por anos a fio, ele usou e
abusou do controle de
preços e do confisco.
Por anos a fio, ele transmitiu a seguinte mensagem a qualquer um que quisesse
investir na Venezuela: tudo o que é seu só é seu enquanto eu permitir.
Foi o que Chávez disse, por exemplo, ao dono da
Polar, uma empresa de alimentos e bebidas: “Vou lhe dizer uma coisa, Mendoza.
Eu, neste momento, não tenho nenhum plano para expropriar a Polar. Não me
interessa. Neste momento, não sei se mais adiante. Não sei. Agora, se você
acredita que vai me provocar como aqueles do canal 2… você se lembra, né?
Mendoza, você quer medir forças comigo? Vai sair perdendo, Mendoza”. (veja o vídeo, marco
1:30).
Chávez estava bravo com Mendoza porque os
trabalhadores da Polar protestavam contra a expropriação
de outra empresa, a Owens-Illinois. Os trabalhadores, é claro, temiam por
seus empregos caso a Polar fosse a próxima da lista. Chávez acabou cumprindo
parcialmente sua ameaça. Expropriou
um pedaço da Polar, e o motivo foi ela ter feito um depósito de cerveja
onde o governo não queria um depósito de cerveja (veja o vídeo, marco
1:09).
Alguns anos depois, Maduro expropriou outro pedaço. Os trabalhadores protestaram
mais uma vez. Em vão.
Não é preciso ter qualquer apreço especial pelo
caráter dos empresários para entender que expropriações desencorajam o
investimento privado. Basta ver os empresários como pessoas que se preocupam
com o próprio patrimônio. Com efeito, quanto mais a preocupação deles for essa,
mais eles vão fugir de lugares onde o governo os expropria.
As expropriações eram uma das pernas de um projeto
de controle total da economia pelo estado. Outra perna, talvez até mais
importante, foi o tabelamento de preços.
O Brasil já teve experiências do tipo, como o Plano
Cruzado, no qual a tabela da Sunab, de triste lembrança, definia o preço de tudo.
Mas aquele congelamento teve ao menos a virtude de ser, desde a sua concepção,
uma medida temporária. Não foi assim na Venezuela, como o próprio Comandante
explica:
O
controle de preços é necessário e forma parte de uma estratégia de intervenção
do estado na economia, a qual é um dos elementos que conformam a transição do
capitalismo – simbolizado por empresas como esta e seus grupos de grandes
corporações — para o socialismo. (Veja o vídeo, aos 23s).
A política econômica de Chávez era um Plano Cruzado
permanente.
O tabelamento de preços nunca funciona porque um
sistema de preços livres é, entre outras coisas, um transmissor de
informações. Muitas informações. Preços livres resumem a enorme
complexidade das cadeias produtivas de um jeito que até o mais iletrado cidadão
consegue saber instantaneamente o que está sobrando e o que está faltando na
praça. Se o preço está alto, o cidadão entende que deve consumir aquilo com
parcimônia. Se o preço está baixo, o cidadão entende que pode consumir mais. Do
lado de quem produz acontece o movimento inverso: o preço alto atrai mais gente
para aquela atividade, enquanto o preço baixo induz a turma a fazer outra coisa.
Quando o governo bloqueia esse mecanismo, as
decisões de produção e consumo passam a ser feitas no escuro. As pessoas erram
a mão. O produto que estava sobrando continua sobrando, e o que estava faltando
continua faltando. Escassez aqui e desperdício ali. E isso não acontece só com
os produtos do supermercado. Afeta os insumos também. Afeta os serviços. Afeta
tudo. Se a escuridão se prolongar, a economia entra em colapso.
Mas a burocracia chavista nunca acreditou nessas
coisas. Nunca acreditou em decisões descentralizadas. Sempre quis calcular ela
própria o custo de cada item. E utilizou métodos bastante peculiares. Nunca
aceitou, por exemplo, que o imposto de renda e o imposto sobre valor agregado
(IVA) fossem incluídos no preço de venda, e isso é tão bizarro que é possível
ouvir isso pela voz do próprio Comandante (a partir do minuto
3:36).
Os comerciantes, é claro, também fazem suas contas,
e elas frequentemente dão um resultado diferente. Para resolver esse problema,
a Venezuela tem uma instituição da mesma estirpe que produziu a Sunab de
Sarney: a Sundde.
O superintendente da Sundde sai pelas ruas e decreta: “Baixem os preços
imediatamente! Não se ponha a fazer cálculos! Prendam-no!” (Veja o vídeo).
Proibidas de fazer cálculos, proibidas de vender
seus produtos a um preço que dê lucro, as pessoas param de produzir. Mas nem
assim ficam livres da Sundde. Ela vem, confisca a matéria prima
parada e prende quem se atreve a desafiá-la.
A brincadeira não ficou só nas expropriações e no
controle de preços. Chávez também quis definir o que os agricultores deveriam
plantar. Isso foi feito no artigo 110 da Lei de Terras, que Chávez criou em
2001 sem precisar do aval do parlamento, pois tinha recebido permissão para
governar por decreto durante um ano. Pelo artigo 110 da Lei de Terras (disponível aqui como arquivo de word),
qualquer plantio que não estivesse na lista de produtos considerados
prioritários pelo governo ficava fora do cômputo de rendimento da terra para
fins de reforma agrária.
Agora apenas imagine: o sujeito planta, digamos,
aspargos. Produtividade altíssima. Os aspargos são um sucesso, vendem feito pão
quente, mas deram o azar de não estar na tal lista. Pronto: fazenda
improdutiva, passível de desapropriação.
“Mas as pessoas querem os meus aspargos!” – diria,
talvez, o nosso fazendeiro. “Estão dispostas a pagar por eles!”.
“Pouco importa o que as pessoas querem”, responderia
o governo. “Importa o que está na minha lista”.
Aconteceu, então, o que sempre acontece quando o
governo faz essas coisas: desabastecimento,
prateleiras vazias, filas. Eventualmente, o caudilho de plantão resolve
culpar as vítimas. Na Venezuela, ele chama a Sundde e deixa bem claro o que
deve ser feito: “Presos têm que ir todos os donos de estabelecimentos que
ponham as pessoas para fazer filas! Presos!” (veja o vídeo, aos 37s).
Da
tentativa ao golpe efetivo: uma nova constituinte
Os chavistas realmente sabem falar grosso. E falaram
grosso desde o começo.
Chávez estreou na vida pública com uma tentativa de
golpe, no
dia 4 de fevereiro de 1992. Golpe raiz, do tipo que é feito com farda,
coturno e fuzil. A quartelada nunca mereceu uma autocrítica. Ao contrário,
aliás. Nas eleições de 1998, os principais golpistas de 1992 estavam no
palanque do coronel paraquedista (Andres Schafer, jornalista que filmou a
propaganda eleitoral, conta os detalhes disso num texto saboroso publicado
na Piauí).
Depois da vitória, o dia 4 de fevereiro se tornou o
Dia da Dignidade Nacional. O chavismo celebrava o seu putsch. Reconhecia a baioneta como instrumento válido na disputa
política. Quando Maduro disse
que “o que não se pôde com os votos nós faríamos com as armas”, estava
apenas dando continuidade a uma concepção política que vinha de longa data.
Mas Chávez, bem ou mal, ganhou eleições (com
56% dos votos). Durante um bom tempo, aliás, foi extraordinariamente
popular. Não quis, porém, governar com as instituições existentes.
Já na posse, em 1999, recusou-se a jurar a
constituição. Declarou-a
moribunda. Convocou um plebiscito
para fazer uma nova. O homem realmente queria uma revolução. Venceu o
plebiscito com
folga.
Foi feita então uma nova eleição, desta vez para a escolha
dos deputados constituintes. Outra vitória do chavismo, por ampla
margem.
A nova assembleia cobriu-se de grandes poderes.
Podia demitir juízes, dissolver a Assembleia Nacional (o parlamento ordinário,
não constituinte) e também a suprema corte, que acabou sendo inteiramente
substituída. Em menos de dois anos os chavistas controlavam o executivo, o
legislativo e o judiciário. O sistema de freios e contrapesos, que existe justamente
para impedir maiorias momentâneas de irem longe demais, estava sendo
desativado.
O coronel recorria ao procedimento clássico de usar
os mecanismos da democracia para solapá-la.
Vieram as cadeias nacionais de rádio e TV. A
qualquer momento, Chávez interrompia a novela, o noticiário ou o programa de
variedades para apresentar
uma nova lei, andar
de helicóptero, cumprimentar
atletas olímpicos, discorrer
sobre Simon Bolívar, falar por mais de duas horas em um supermercado popular,
ou discursar por mais de
três a uma plateia de estudantes.
O importante era mostrar exaustivamente o rosto e a
voz do Comandante. Culto à personalidade, sem o menor pudor. De 1999 a 2013, houve
2.569 cadeias nacionais (uma a cada dois dias), com duração média de 43 minutos.
Frequentemente, elas eram acionadas para impedir a transmissão ao vivo de
protestos contra o governo.
Sob Maduro, a coisa ganhou uma vinheta que,
orwellianamente, fala no “seu direito a receber
informação veraz“.
As redes de TV passaram a não gostar muito de
Chávez. Estimularam protestos contra ele já em 2002. E protestos houve. Muitos,
e grandes. Chávez balançou. Deram
um golpe. Chávez caiu. O golpe, porém, foi tão mal planejado que em 24
horas o novo presidente já tinha brigado com metade da coalizão que o pusera
lá. No dia seguinte, Chávez
voltou.
O
recrudescimento do regime
Dali para frente, o cenário de mídia hostil mudaria
completamente. Em 2003, o governo criou o canal de TV Visión de Venezuela. Em
2007, criou a Televisora Venezolana Social. No mesmo ano, deixou de renovar a
licença do canal privado RCTV,
que apoiara o golpe de 2002. Em 2009, fechou
34 rádios. Em 2013, a Globovisión, outra que tinha apoiado o golpe, mudou
de dono e ficou
mais mansa. Em 2014, a colombiana NTN24
foi tirada do ar por noticiar protestos contra Maduro. Em 2017, foi
a vez da CNN. Às vozes dissidentes, só restou a internet.
Durante boa parte desses anos, os chavistas seguiram
vencendo nas urnas. Sua
primeira derrota veio em 2007, em um referendo para, entre outras coisas,
permitir reeleição ilimitada.
A segunda derrota veio no ano seguinte, quando a oposição
conquistou a prefeitura de Caracas. Desta vez, porém, os chavistas
prepararam uma surpresinha: criaram, em 2009, um novo ente federativo: o Distrito
Capital.
O Distrito Capital, cuja chefe foi nomeada
diretamente por Chávez, absorveu a maior parte do orçamento da prefeitura.
Questionada sobre isso, a nomeada, Jaqueline Faría, explicou (ver aos 45s)
que tudo foi feito com base nos artigos 16 e 18 da constituição de 1999. Este
articulista se deu ao trabalho de ler os artigos 16 e 18 da constituição (disponível
aqui). O artigo 16 não se aplica, pois fala da criação de territórios
federais, o que não era o caso, uma vez que o Distrito Capital já estava
formalmente criado, embora não regulamentado. É o artigo 18 que rege o caso em
questão. Ele de fato prevê a criação, por lei, de uma autoridade como a que
Jaqueline veio a ocupar, mas diz que a tal lei deve garantir “o caráter
democrático e participativo” dessa autoridade.
Existe um mecanismo bem conhecido para dar caráter
democrático e participativo às coisas. Chama-se eleição. Mas Jaqueline tem uma
resposta para isso também. Segundo ela, o lugar onde fica a sede do governo
nacional não pode ser governado por quem faça oposição ao governo nacional.
“Imagine”, diz Jaqueline, no mesmo vídeo, a partir
de 7:06, “um presidente de turno que tenha então em seu espaço, em sua
sede, um governador ou um chefe eleito e que lhe seja contrário”.
O entrevistador insiste: “isso é o que os
franceses chamam ‘coabitação'”. Resposta: “coabitação existe em nível
nacional, mas não na sede dos poderes públicos e da presidência da
república”.
Outra
constituinte
Maduro gostou desse método de neutralizar as
eleições quando o chavismo perde. Usou um truque parecido em 2017. Um ano e
meio antes, a oposição tinha conquistado maioria no parlamento. Maduro, então,
simplesmente inventou uma assembleia
constituinte, que, como legislador originário, viria a anular completamente
o parlamento eleito.
Mas havia, é claro, o risco de a oposição conquistar
maioria na assembleia constituinte também.
O que Maduro fez? Desenhou um colégio eleitoral
mandraque. Eis como funciona: o Distrito Capital, que tem mais de 3 milhões de
habitantes, elegeu 7 constituintes, enquanto o estado de Apure, com menos de
600 mil habitantes, elegeu 8, e Cojedes, com 348 mil, elegeu 10 (Fonte).
Mas observe: o Distrito Capital é fortemente
oposicionista: em 2015, elegeu 16 deputados de oposição e só 2 governistas (Fonte).
Já em Apure, Maduro ganhou de 8 a 2, também em 2015 (Fonte).
Em Cojedes, de 5 a 3 (Fonte).
Exatos 364 constituintes foram eleitos assim, por base geográfica, com os
lugares onde Maduro era mais popular tendo uma representação bem maior. Para os
outros 181 assentos, Maduro providenciou cotas, a maioria em segmentos que o
apoiavam. Por exemplo, a cota dos assim chamados ‘trabalhadores’ foi de 79
constituintes. A dos aposentados, 28. A dos conselhos comunales, 24. A dos
estudantes, outros 24.
Mas a coisa não parou por aí. Mesmo com um sistema
de votação totalmente viciado, Maduro ainda achou necessário ameaçar
funcionários públicos e portadores do “carnê
da pátria” (documento que dá acesso a benefícios do governo): “E no
final do dia revisem a folha de pagamento. Se temos 15 mil trabalhadores, devem
votar os 15 mil trabalhadores, sem nenhuma desculpa!” (veja o vídeo, no marco
2:52).
Assim, para grande espanto de quem acredita na magia
das democracias populares, a truculência de Chávez e Maduro na economia se
estendeu a todo o resto. A liberdade de expressão foi sufocada. A alternância
de poder pela via eleitoral foi bloqueada. As energias criativas de um país
inteiro foram sabotadas por mais de uma década. E esse país agora passa
fome.
Alguns ainda tentam dizer que a crise se deve à queda no preço do
petróleo. Ignorância pura. O preço do petróleo esteve nas alturas até
meados de 2014, e naquele ano a economia venezuelana já respirava por
aparelhos. Com efeito, em
2007 já havia escassez no país. Mais recentemente, o barril voltou a
superar 60 dólares, uma cotação historicamente bastante razoável, e nem por
isso os problemas deram sinais de melhora. Vários outros países são igualmente
dependentes do petróleo. Eles atravessaram esses três ou quatro anos de
cotações baixas sem sofrer nada muito além das mazelas que sempre tiveram.
Então não, não foi o
preço do petróleo.
A Venezuela está se desintegrando por outro motivo: o
socialismo econômico em
conjunto com uma tirania que há muitos anos pisa na cabeça de milhões de
pessoas.
Memórias
e desejo
Estive na Venezuela no final de 2003. Entrei pela
hoje triste Pacaraima.
Do lado de lá, fui recebido com um carinho que nunca vou esquecer. Pessoas
queridas me conheceram nas cachoeiras da Gran Sabana
e me ofereceram uma carona que chegou até Coro, no Caribe. Essas pessoas sofrem
agora. Assistem, impotentes, à destruição do seu país. De onde estou, não
consigo ver luz no fim desse túnel. Espero que elas consigam. Espero que alguém
consiga.
______________________________
Leia
também:
Um breve histórico da
Venezuela: da quarta população mais rica do mundo à atual mendicância
O que a “justiça social”
fez com a Venezuela
A catástrofe humanitária
do socialismo venezuelano: 90% da população vive hoje na pobreza
O socialismo em sua
essência: pobres morrendo de fome e a elite política se esbaldando
A mágica do socialismo
venezuelano: o país nada em dinheiro, mas ninguém tem dinheiro para nada
Será que alguém pode me informar se há alguma forma de nos proteger no caso de uma eventual hiperinflação? Algum artigo que fale sobre isso?
Pergunto pois me assusta a situação atual com um dos prováveis candidatos a segundo turno (Haddad) conter em seu plano de governo a formação de uma contituinte e a reprovável cobertura da imprensa brasileira.
Excelente (e depressiva) compilação dos eventos! Obrigado pela dedicação e trabalho. E mantenham sempre esse nível diferenciado!
Estive na Venezuela nos anos 80. Um país lindo e próspero. Uma desgraça é o que está acontecendo lá e que vem se espalhando pela América do Sul, se nada for feito para deter esse processo maligno. No Brasil, principalmente.
Como Venezolana y amiga te doy las gracias por poner tus palabras y tus recursos al servicio de la verdad. Gracias por darnos una voz en tu país.
Hay que hablar de esto, el mundo tiene que enterarse, puede pasarle a cualquier sociedad, ser tomada ingenuamente por el totalitarismo, por un discurso seductor y populista, acompañado de oportunistas.
La maldad y el horror existen. Le puede pasar a cualquiera.
Yo tampoco veo luz al final del túnel, estoy haciendo mi vida en España, soy afortunada entre tantos inmigrantes, y por ello, tengo el deber de florecer y aprovechar mi buena fortuna y aunque para sobrevivir hay que pasar pagina y conectarse con el día a día y un nuevo futuro por construir, los que nos fuimos, siempre tendremos que convivir internamente con la tragedia en la que se convirtió el país y el sufrimiento de nuestra gente.
Gracias por tus palabras que son compañía ante tanta desolación y desconcierto
Eu fui para Venezuela em 2007. Alguns venezuelanos de classe media nos alertavam, com medo e as escondidas, o que ocorreria na frente. Diziam que a população vivia nas costas dos que trabalhavam, achando que o dinheiro vinha do governo. E a vaca secou, ordenaram ela até sugar tudo….e os que tinham umas economias por serem empreendedores tiraram ou tiram como podem o seu dinheiro e fogem para países do primeiro mundo.
Um exílio similar ao cubano?
Os que não tem a sorte de poder se deslocar para países mais desenvolvidos, que sabem que não passarão na alfândega, não tem recursos, não tem cidadania, e muitos outros critérios que todos sabemos atravessam a fronteira… a pé.. de ônibus….e vão parar em Roraima….
Para mim, não é muito diferente dos refugiados africanos ou da Síria indo para a Europa, atravessando o mar, ate o porto “seguro” mais próximo, toda vez que os governos deles quebraram o país.
Tudo igual, tudo se repete….em diferentes países ….locais….
Grato pela aula de história. Parece que agora o IMB tem a cronologia completa da história da Venezuela:
Os anos pré-Chavez
Os anos Chávez (presente artigo)
Os anos Maduro
Observe que tudo foi feito perfeitamente pelas vias democráticas. Aqueles que defendem esse regime nefasto e que vivem exaltando sua superioridade deveriam, se fossem minimamente honestos, aprender que, sob a democracia, a liberdade e a propriedade de ninguém está a salvo. Basta ter o voto da maioria para que tudo acabe.
Uma Constituição consistente, sólida, deve ter apenas 20 ou 30 artigos, garantindo direitos fundamentais. Ela deveria ser recitada em aula, cada adolescente deveria saber de cor todos os seus 20 ou 30 artigos, como a tabuada ou o alfabeto. As pessoas deveriam ter orgulho de sua pequena e liberal Constituição. Tudo isso ocorre nos Estados Unidos desde 1787.
Mais do que isso, a Constituição apodrece com o tempo. Tanto a atual constituição brasileira de 1988, quanto a venezuelana, anterior ao Chavez, de 1961 tinham 250 artigos. Apodreceram!
Quando a Constituição está apodrecida, inútil, ineficiente; é uma mera carta de papel cheio de artigos em que as pessoas não se identificam, pode aparecer um maluco, ou um grupo de malucos, prometendo uma nova Carta Fundamental, cheio de “modernidades” sociais, que nada mais são do que o velho autoritarismo disfarçado de democracia.
É onde nós estamos agora.
O texto aponta muito bem os riscos de uma nova constituinte.
Mas, tratando especificamente do Brasil, há também o risco de permanecermos com a atual constituição.
Sobre a base liberal de textos anteriores, que garantiam direitos fundamentais como a vida, a liberdade e a propriedade, o texto de 1988, inspirado nas fracassadas constituições do México de 1917 e da República de Weimar, criou um Estado extremamente assistencialista e criou mecanismos que só permitem a ampliação desses benefícios, nunca sua redução.
Passou-se a entender que benesses diversas seriam direitos sociais e que estes direitos seriam uma espécie de direitos individuais que não poderiam ser suprimidos nem mesmo por emenda constitucional (as chamadas “cláusulas pétras”, previstas no artigo 60 da constituição)
Salários de servidores são irredutíveis, aposentadorias nababescas, uma vez concedidas, são protegidas pelo princípio do direito adquirido e por aí vai.
Como resultado, temos um Estado paquidérmico que não pode ser diminuído sem uma nova constituinte.
Por isso, gostando ou não, em algum momento ela acontecerá. Resta saber se será apenas para fazer o Estado caber dentro do seu gigantesco orçamento ou se para macaquearmos o modelo venezuelano.
É impressionante como a democracia consegue destruir não somente ela própria, mas tudo o que está sob seu alcance.
A Europa está a poucos passos de falir exatamente por causa da democracia. A América Latina é um caos permanente por causa da democracia. Nada a está a salvo da democracia. Se um dia os EUA se tornarem a URSS, com certeza será através da democracia.
Adendos econômicos:
Em meados dos anos 2000 governo populista de Hugo Chávez resolveu expandir os gastos públicos, como parte do seu programa socialista de governo. Mas como a Venezuela é um país pobre, não o poderia fazer por meio de aumentos de impostos (algo impopular).
Por sorte, o dólar começou a perder força no começo dos anos 2000, o que forçou o preço do barril pra cima continuamente. Lógico, o preço do petróleo é cotado em dólar, se este perde valor, o preço do barril subirá.
E o que isso significou? Que eles poderiam passar a mão no caixa da PDVSA para bancar o populismo governamental sem se preocupar, já que esperavam um aumento contínuo do preço do petróleo a longo prazo.
Notem o aumento contínuo no preço do petróleo iniciado no ano 2000 e que perdurou até meados de 2014:
d3fy651gv2fhd3.cloudfront.net/charts/historical.png?s=CL1&v=20170413114500&d1=19900101&d2=20171231
Essa situação foi muito propícia para o governo de Chávez, pois permitiu promover políticas economicamente destrutivas, como controles de preços e salários, estatizações e nacionalizações (entre 2002 e 2012 foram estatizadas mais de 1.000 empresas locais e estrangeiras), controle de câmbio e etc, mas com recursos para mitigar seus efeitos no curto prazo. Tais ataques a economia só não resultaram em efeitos negativos imediatos e de maior intensidade pois o governo venezuelano se aproveitava das receitas provenientes das exportações de petróleo para distribuir “benefícios” a população, aliviando os danos colaterais da gradual planificação da economia.
Assim, a farra chavista perdurou por uma década, sendo sustentada pelo boom do petróleo.
Tal arranjo conseguiu se prolongar sem causar maiores convulsões sociais, mas não poderia durar para sempre. Em 2013 o dólar voltou a ganhar força. Tão logo isso ocorreu e manteve-se como tendência, o preço do barril começou a despencar continuamente. Como consequência, as receitas da PDVSA começaram a despencar. E o governo venezuelano se viu sem a situação que antes permitia expandir seus gastos inconsequentemente.
Como não poderiam cortar gastos para se ajustar a nova realidade (até por questões ideológicas e políticas), qual foi então a solução do governo venezuelano para essa situação?
Imprimir dinheiro.
O banco central venezuelano simplesmente passou a imprimir dinheiro para bancar os gastos públicos, monetizando-os. Descontroladamente.
A quantidade de dinheiro na economia venezuelana explodiu: cdn.tradingeconomics.com/charts/venezuela-money-supply-m2.png?s=venezuelamonsupm2&v=201704031549t&d1=20070101&d2=20171231
A intensa perda do poder de compra da moeda fez a taxa de inflação explodir:
images.huffingtonpost.com/2015-05-29-1432933441
Em face disso, o Bolívar desvalorizou-se em relação as demais moedas. Os preços começaram a aumentar continuamente e de forma cada vez mais acelerada conforme o governo ia imprimindo mais e mais moeda.
A população se viu em dificuldades, pois passou a poder comprar cada vez menos. As famílias viram o volume de compras reduzir a cada vez que iam no supermercado. Os mais pobres passaram a gastar toda sua renda com produtos de primeira necessidade. Toda a economia passou a sofrer em decorrência da carestia acentuada.
Nessas alturas, a popularidade do então “presidente” Nicolás Maduro (que sucedeu Chávez após sua morte em 2013) começou a cair. Manifestações passaram a ocorrer por todo o país, demonstrando a insatisfação com o atual governo.
Qual a solução trazida pelos governantes para essa situação espinhosa?
Um controle total de preços na economia (desde 2003 existia um controle parcial).
Qual o resultado? Escassez generalizada.
Controlar preços é atacar os sintomas (aumento dos preços) e não a doença (emissão descontrolada de moeda).
O problema é que ao congelar preços de venda, o governo desconsidera que os custos continuam a crescer (custos são preços) em decorrência da desvalorização da moeda. Tão logo o controle é imposto, aqueles produtores com as margens de lucro mais apertadas passam rapidamente a ter prejuízos e são desestimulados a continuarem atuando, o que reduz a oferta de produtos a disposição e inicia o processo de escassez. No longo prazo, praticamente todos os produtores passarão a ter prejuízos, o que por fim leva a escassez generalizada. Quem irá produzir tendo prejuízo?
E mais ainda, com uma moeda em queda livre esse país não mais terá acesso a moedas estrangeiras, inviabilizando as importações. Para importar, é preciso adquirir moeda estrangeira, mais necessariamente dólares (já que é a moeda internacional de troca).
Como conseguir isso, se no país ocorre confisco de empresas estrangeiras? O que afugenta investimentos estrangeiros e impossibilita a entrada de dólares no país. E como conseguir isso com uma moeda que perde poder de compra diariamente, cuja própria população não mais quer portar? Nenhum estrangeiro deseja trocar seus dólares por bolívares. Dessa forma, importações de bens essenciais (remédios, alimentos e produtos de higiene e limpeza) são inviabilizadas, acentuando ainda mais o desabastecimento.
Protestos e saques a supermercados irromperam por todo o país, culminando na perda de vidas. A queda no padrão de vida dos venezuelanos, a escassez generalizada e a repressão do governo de Nicolás Maduro jogaram o país em um iminente estado de guerra civil. Milhares já cruzaram as fronteiras buscando refúgio da situação que o Estado venezuelano os colocou.
Só que na Europa eles nunca chegam ao populismo máximo. Aqui na América Latina isso é rotina. Só me pergunto quantas vezes a América Latina precisa atingir o fundo do poço pra aprender que Socialismo e Populismo são uma desgraça.
Tudo o que é anti-concorrencial é péssimo para a coletividade, mas a maioria das pessoas ainda tem em suas mentes a ideia de que a estatização dos recursos ainda é a melhor saída. Se gabam tanto das leituras de Marx mas parecem que pularam essa parte, onde Marx diz que “o Estado é o instrumento de dominação da classe dominante.” Sinceramente, desisti de entendê-los. Nem os exemplos históricos de fracasso os convence.
O socialismo funciona, a galera é que não aguenta passar fome. São uns frouxos.
Leandro, você acha que caso o Haddad seja eleito, eles iriam para esse caminho ou seriam pragmáticos como foi em 2002? Politicamente me preocupa porque eles querem controlar a liberdade de expressão com maior intensidade ainda.
Como escrevi num outro comentário, estou interessado pelos acontecimentos argentinos.
Ao ler o título deste artigo, lembrei :
rolandoastarita.blog/2018/08/28/ante-la-crisis-asamblea-constituyente/
http://www.laizquierdadiario.com/La-crisis-nacional-y-el-planteo-de-una-asamblea-constituyente
http://www.youtube.com/watch?v=HzaymTM7lII
http://www.laizquierdadiario.mx/Video-Castillo-explica-que-es-la-asamblea-constituyente-libre-y-soberana?id_rubrique=1714
Quais os próximos eventos?
A CF/88 agasalha em seu bojo diversas reivindicações impossíveis e isso mergulha o país em uma permanente crise de legitimidade.
A proposta do Mourão me parece razoável.
Uma CF enxuta feita por notáveis e aprovada por plebiscito.
O direito consuetudinário pressupõe uma cultura inexistente no Brasil atual e não podemos querer aplicar um desenho inglês em um quadro brasileiro.
Pessoal, a título de curiosidade, como funciona a gambiarra do CAPES? Pergunto isso por curiosidade pois os meus colegas de curso demonstram esse contraste. Quem conseguiu o PIBID ainda recebe algum dinheiro, enquanto quem, por exemplo, é monitor remunerado, parou de receber.
No mais, é aquela coisa, depender de políticos é humilhante demais. Defender ensino estatal é isso mesmo… veja se o ensino privado teria tamanho desleixo para com os alunos. Se não é a nível de excelência por causa do MEC e dos demais departamentos e secretarias, pelo menos não tem esse tipo de problema.
youtu.be/Gcqhmaqkff8
Pequena curiosidade! Esquete dos trapalhões na época do tabelamento do Sarney.
Obrigado a todos que não votaram, estão contribuindo enormemente para a venezuelização de mais um país.
A VERDADE SOBRE A CONSTITUINTE, 30 ANOS DEPOIS
A CONSTITUIÇÃO "BESTEIROL" COMPLETA 25 ANOS
A LEGALIDADE ATACADA À ESQUERDA E À DIREITA
A CONSTITUIÇÃO "CIDADÃ", A DE MOURÃO, E A VIÁVEL
CONGRESSO CONVOCA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE PARA FEVEREIRO DE 2017: GOLPE PARLAMENTAR À VISTA?
VEM AÍ UMA NOVA CONSTITUIÇÃO MAIS LIBERAL? OU: UM NOVO BRASIL EM CONSTRUÇÃO CONTRA O ANTIGO REGIME
UMA NOVA CONSTITUIÇÃO PARA UMA NOVA CULTURA
* * *
O Hugo Chávez foi tão canalha que antes de se eleger pela primeira vez, se apresentava como um social-democrata que seria aliado dos EUA. Ou seja, de forma semelhante ao que o PT fez, a narrativa anticomunista não tinha como colar muito bem.
Aí no final do primeiro mandato, tirou as garrinhas pra fora e mostrou-se o verdadeiro socialista que é.
Uma coisa que eu gostaria de saber. Quanto um trabalhador tem que ganhar em 2050 para ter o atual poder de compra de R$ 1.000,00, se a inflação (índice de preços ao consumidor) for de 4% ao ano? Alguém sabe qual a fórmula matemática para fazer este cálculo? É o mesmo cálculo dos juros compostos? Alguém sabe um site que faz esta conta automaticamente?
É um absurdo que algo como isso não seja ensinado nas escolas.
E hoje, 7 meses após a publicação original deste artigo:
-Brasil mais perto de virar Argentina;
-Argentina mais perto de virar Venezuela;
-Venezuela mais perto de virar Cuba ou talvez o Iraque se tudo der certo;
Se for uma Constituinte conservadora para abolir a socialista Constituição de 1988 e redigir uma Constituição conservadora como fez o presidente do Equador, Gabriel García Moreno em 1869 (que fez uma Constituição baseada no Código de Direito Canônico da Igreja Católica), eu apóio. Mas se é pra fazer como o Bolsonaro tem feito, que coloca o Brasil de joelhos para os EUA e os sionistas, ou se é pra redigir uma Constituição bolivariana como o PT defende, é melhor deixar como está.
Boa tarde!
Excelente artigo. O senhor teria interesse em traduzi-lo para o inglês?
Moro nos EUA e diversos amigos “espertinhos” dizem que a situação na Venezuela é uma mentira inventada e é parte do projeto de poder dos EUA na America Latina. A mesma baboseira do que o PSOL/PT falam no Brasil mas em inglês. Gostaria de poder compartilhar com essas pessoas dando o devido crédito ao autor e ao site sem ser copiando e traduzindo manualmente.
Obrigado!
Evo fugiu pro México e ele e o sapo cachaceiro falam que é golpe kkk
Lendo esta ótima e, ao mesmo tempo, triste realidade, vislumbro, com assombro, algo similar ocorrendo no Chile. Espero estar errado, mas acho que o Chile, agora em 2020, está a beira do abismo.