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A falácia do “preço justo” está de volta – e com direito a prisões de comerciantes

Depois de a greve dos caminhoneiros
causar uma grande escassez de produtos nos supermercados, o que levou a uma
alta em seus preços, a mídia, as autoridades e os “especialistas
voltaram a usar uma expressão que andava meio sumida: o tal “preço justo”.

Já há até uma tal ‘Operação
Preço Justo
‘ ocorrendo em alguns estados do país, em que policiais civis
fazem batidas em estabelecimentos para fiscalizar os preços e prender aqueles
comerciantes que estejam vendendo mercadorias a um preço considerado “alto”
pelos burocratas.

É o totalitarismo estatal em seu esplendor. Uma volta
à era dos fiscais do
Sarney
e das tabelas
da Sunab
— algo que, em nome do nosso bem-estar, tem de acabar
imediatamente.

Como a expressão ‘preço justo’ mistura um conceito
econômico com outro moral, devemos analisá-los separadamente.

O
que é o preço

Os preços são mecanismos por meio dos quais
compradores se comunicam com vendedores e vice-versa.

Por esse motivo, antes de entendermos a função dos
preços, é importante fazer uma distinção entre “preços” e
“propostas”, dois termos distintos que, em nosso uso diário, tendemos
a tratar como sinônimos.

Um preço é apenas uma razão (no sentido matemático
do termo, isto é, o resultado de uma divisão) resultante da interação de duas
mercadorias; é o quociente resultante da interação entre a oferta de uma
mercadoria e a demanda por ela.

Preços surgem quando duas mercadorias são trocadas
por dois indivíduos em uma transação concreta.

Entretanto, os “preços” que vemos no
supermercado para cada bem disponível não são preços, mas sim propostas — e se
tornarão preços somente se o bem for comprado.

Se o “preço” de um saco de batatas está
colocado a $500, mas ninguém compra, então é errado dizer que o preço dele são
$500. O supermercado tentou vender a $500, mas tal valor foi recusado.

Empreendedores, sendo humanos, podem cometer erros.
Um empreendedor pode oferecer um bem por um “preço” (proposta) alto
demais e então descobrir que ele não conseguiu vender unidades suficientes para
fazer o investimento valer, sendo então forçado a diminuir o preço para
aumentar as vendas.

Isso não significa que o preço inicial estava errado
e que o novo preço está certo: significa apenas que o empreendedor está
reagindo à nova informação adquirida após sua primeira tentativa. Se mais
informações chegarem, o preço será novamente ajustado, para cima ou para baixo.

Essa, aliás, é a essência do processo
empreendedorial: reagir às mudanças que ocorrem no mercado, tentando sempre se
adaptar às novas preferências demonstradas ou antecipadas pelos consumidores.

A função dos preços em uma sociedade

Tendo em mente este básico, podemos dizer que, grosso
modo, em economia, o preço é um conceito que pode ser traduzido como o ‘termômetro
da escassez’: é o mecanismo que transmite aos agentes do mercado, tanto do lado
da oferta quanto da demanda, informações sobre o nível de escassez de
determinada mercadoria ou serviço.

Em um mercado sem intervenções, tabelamentos,
estabelecimentos de pisos ou tetos, a variação do preço de um produto informa
as condições de oferta e demanda do mesmo.

Mais ainda: preços possuem um papel fundamental em
uma economia de mercado.

O sistema de preços, quando deixado a funcionar
livremente, é um engenhoso método de comunicação e coordenação.
Os preços livremente formados nos informam não apenas sobre a abundância ou escassez
de cada bem ou serviço específico, como também coordenam como cada bem e
serviço será usado em um dado processo de produção. 

Para os consumidores, um aumento nos preços de um
produto sugere que este se tornou mais escasso. Consequentemente, os
consumidores irão reduzir o consumo deste produto em decorrência deste aumento
do preço e procurar por substitutos mais baratos.

Para os produtores, os preços maiores deste produto
informam que pode haver maiores oportunidades de lucro para entrar neste
mercado específico. Estes novos concorrentes irão ou produzir mais deste
produto, aumentando sua oferta, ou produzir bens alternativos para concorrer
com o produto em questão.

Este é o processo de descoberta que define a
essência do mercado. E é este processo, quando deixado a ocorrer livremente,
que garante que os preços estejam sempre em níveis que tendam a equilibrar
oferta e demanda.

Por isso, assim como quebrar o termômetro não
resolverá a febre, impedir que um determinado preço flutue livremente só
provocará excedentes ou escassez.

Milton Friedman resumiu
a questão de forma magistral: 

Os economistas podem não saber muito.
Mas de uma coisa sabemos muito bem: como produzir excedentes e escassez. Quer
um excedente? Faça o governo legislar um preço mínimo, que se situe acima do
preço que de outra forma prevaleceria no livre mercado. Foi o que fizemos em
diversas ocasiões e acabou resultando em excedentes de trigo, de açúcar, de
manteiga, e de vários outros bens, trazendo prejuízos para seus produtores. Quer
uma escassez? Faça o governo legislar um preço máximo, que se situe abaixo do
preço que de outra forma prevaleceria.

Tudo
depende de que lado você está

Todos nós temos estranhos e contraditórios desejos
acerca de como os preços devem funcionar. Ficamos ultrajados quando os
preços dos alimentos e da gasolina sobem. Nunca queremos que eles aumentem
e nunca achamos que eles devem aumentar. 

No entanto, a coisa muda em relação a, por exemplo,
imóveis e ações. Quando os preços caem, as pessoas se desesperam. “Como é
possível que minha própria casa caia de preço?!”. “Os preços das ações em meu portfólio
desabaram na crise! Estou mais pobre! Isso é injusto!” 

Ou seja, como indivíduos, desejamos que alguns
preços sempre subam e que outros sempre caiam. No final, tudo vai depender da
posição em que estamos: se na do consumidor ou na do produtor. 

Enquanto proprietários, somos de fato
“produtores” de nossos imóveis e ações, o que quer dizer que estamos
mantendo nossos imóveis e ações com a esperança de que, algum dia, iremos
colocá-los à venda. Queremos que seus preços sempre subam. 

Já em relação às coisas que queremos comprar, como
gasolina, alimentos, roupas, viagens, alugueis, eletroeletrônicos etc. queremos
que seus preços sejam os mais baixos possíveis. Queremos que seus preços
caiam continuamente. Queremos poupar recursos.

Portanto, o que está em jogo aqui é o interesse
próprio. 

Pense na mesma situação do ponto de vista de alguém
que esteja comprando um imóvel. Esta pessoa, obviamente, quer o preço mais
baixo possível, de modo que, para ela, um eventual estouro de uma bolha
imobiliária seria uma dádiva. Porém, tão logo ela se torne uma
proprietária de imóvel, a situação se altera. Agora ela quer que os preços
subam constantemente.

O mesmo vale para o proprietário de um supermercado. Se
os preços cobrados não afetassem sensivelmente seu volume de vendas, ele iria
querer os preços mais altos possíveis. Já esse mesmo indivíduo, enquanto
consumidor, quer comer nos melhores restaurantes ao menor preço possível.

E funciona assim em todos os mercados. Compradores sempre
querem pagar $0 por algo. Vendedores sempre querem vender esse algo por $1
trilhão (ou qualquer outro valor que ele considere astronômico). Sendo assim,
como é que a pessoa que quer pagar $0 e a pessoa que quer receber $1 trilhão
chegam a um acordo? Ambos chegam a um meio termo, um valor no qual o produto
vale mais para o comprador do que o dinheiro que ele está disposto a abrir mão,
e no qual o dinheiro que o comprador dará pelo produto vale mais para o
vendedor do que o produto. Os termos resultantes são chamados de preço.

E esse preço será influenciado pela concorrência (interna
e externa) entre os vendedores e também entre os compradores. Quanto mais
vendedores ofertando o mesmo produto, menores os preços. Quanto mais compradores
demandando o mesmo produto, maiores os preços.

Com isso, é possível ver por que é totalmente
absurdo tentar moldar a política nacional em torno dos interesses de apenas um
dos lados de uma transação. Tentar, por exemplo, manter os preços dos
imóveis e das ações altos e crescentes representaria uma trapaça contra os
compradores. E tentar manter os preços baixos seria uma vigarice contra os
atuais proprietários. Manter os preços dos alimentos altos ajuda os agricultores,
mas prejudica os consumidores. Já uma redução forçada nos preços dos
alimentos pode empolgar os consumidores, mas os produtores podem acabar sendo
tão prejudicados a ponto de irem à falência, o que resultaria em uma acentuada redução
na oferta de comida. E isso não seria bom para ninguém.

O
que é um “preço justo”?

Por tudo isso, a alegação de que haveria um “preço
justo” nos leva a inferir que existiria um preço injusto, o que é uma
contradição em termos, já que, por definição, toda troca livre é sempre
voluntária e, consequentemente, vantajosa para todas as partes.

Se você entra em um supermercado e compra 1Kg de
batatas, mesmo em tempo de escassez como agora, é porque valoriza mais o
produto do que o dinheiro que pagou por ele. O raciocínio inverso vale para o
dono do supermercado. Ninguém obrigou você a comprar nem o vendedor a vender.

Como o conceito de justiça é um conceito moral e não
econômico, não é difícil inferir que uma transação justa é aquela livremente acertada
entre compradores e vendedores, locadores e locatários, mutuantes e mutuários
em qualquer transação.

Transação justa é aquela que, acima de tudo, respeita
a propriedade privada e a liberdade dos contratantes. Justo, portanto, é o
preço que você aceita pagar em troca de uma mercadoria ou serviço — até porque
quem determina o preço, no fim das contas, é sempre quem paga.

Quando
realmente ocorre uma injustiça

Agora, de fato há maneiras de um preço se tornar uma
questão de injustiça: isso ocorre quando os preços resultam de um ato de força
ou são influenciados por ele, como ocorre quando há protecionismo, monopólios
estatais, reservas de mercado e demais medidas impostas pelo governo que geram restrições
artificiais da oferta. 

Por trás de cada um destes atos, encontramos coerção:
um grupo de pessoas ditando ordens ou restringindo transações voluntárias de
uma maneira que é incompatível com a liberdade de escolha. 

Comprovadamente, isto não é justo.

Assim, quando reclamamos que algum preço é injusto,
temos antes de analisar quais restrições estão ocorrendo no mercado, ou
examinar o papel que os impostos,
as tarifas
protecionistas
, as regulações
e as reservas de mercado
garantidas pelo governo estão desempenhando em jogar os preços para um nível
muito acima do que estariam caso houvesse um ambiente de plena liberdade de
mercado.

Conclusão

Se analisada um pouco mais a fundo, essa falácia de
que o “preço justo” deve ser estabelecido arbitrariamente por alguns burocratas
iluminados, e não de comum acordo entre as partes contratantes, é, na verdade,
uma inversão completa de valores. E, na maior parte das vezes em que é
utilizada, trata-se de uma forma indireta de justificar a interferência dos
governos nos mercados — para benefício de alguns e prejuízo de outros.

Ao contrário do que sugerem os intervencionistas, o
que determina, em última análise, a justiça de uma transação não é o custo
efetivo do vendedor ou a capacidade de pagamento do comprador, mas
principalmente as expectativas das partes em relação à transação.

E, no que diz respeito àqueles que acreditam que
todos os preços deveriam sempre se mover de tal maneira a beneficiar seus
próprios e específicos interesses econômicos em detrimento de todos os outros
indivíduos, apenas uma observação: não confundam seus desejos com
justiça. Os preços vigentes em uma economia de mercado são um reflexo de
acordos cooperativos envolvendo pessoas dotadas de liberdade de escolha. Ninguém
tem o direito de interferir nisso. Não seria algo justo.

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abrupta, o “preço abusivo” é única solução realmente humanista

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76 comentários em “A falácia do “preço justo” está de volta – e com direito a prisões de comerciantes”

  1. Controle de preços é literalmente a venezuelização do Brasil. Os burocratas determinam que o preço de um produto deve ser X e punem quem ousa vender a um preço maior.

    É inacreditável como há MUITA gente que apoia essa atitude. Basta dar um passeio no Facebook.

  2. Amante da Lógica

    Eu nunca entendi o seguinte: segundo essas pessoas que acreditam em "preço justo", comerciantes podem elevar abruptamente seus preços sem nenhum motivo, apenas para explorar as pessoas. Sendo assim, então por que eles já não tinham feito isso antes? Por que ficaram tanto tempo à espera de uma situação de escassez para elevar seus preços?

    É impressionante como esses ignorantes em economia não gastam nem 5 segundos de lógica básica para testar suas hipóteses. Se o aumento dos preços nada tem a ver com a situação de escassez que estamos vivenciando (pois, na cabeça deles, tal aumento é apenas exploração), então por que os comerciantes já não tinham elevado os preços bem antes? Já que é tão simples assim, por que esperaram tanto tempo? Será que odeiam dinheiro?

  3. Nós vamos sim ter preços justos estabelecidos pelos órgãos democraticamente constituídos quer queiram quer não queiram, não se pode deixar os bens essenciais na mão de especuladores, quem não concorde que pegue o avião para Miami.

  4. Culpar a ganância por uma subida de preços durante uma escassez é como culpar a gravidade por acidentes aéreos.

    É fato que aviões não cairiam se não fosse pela gravidade. Porém, quando milhares aviões voam milhões de quilômetros diariamente sem cair, atribuir à gravidade a explicação por um desastre aéreo específico não o levará a lugar nenhum. Tampouco terá algum efeito esclarecedor falar que um problema específico foi gerado pela “ganância”, a qual é uma constante tão inevitável quanto a gravidade.

  5. Mais um ótimo artigo!

    Que o preço justo de um produto ou serviço é aquele definido pelas partes em negociação é muito claro e evidente. O difícil é valorizar as coisas nesse mercantilismo/corporativismo em que vivemos.

    O desespero com "preços injustos" (como o dos imóveis financiados por crédito farto e barato, o que só aumenta a demanda) e a confusão mental de vários brasileiros é de certa forma compreensível. O mercantilismo/corporativismo deixou nossa sociedade muito complexa. As pessoas não mais conseguem separar o joio do trigo.

    As intervenções e regulamentações estatais acabam por proteger empresas ineficientes ao inibirem o surgimento de novas. O ciclo virtuoso do capitalismo de livre mercado fica limitado, principalmente nos segmentos mais estratégicos da economia onde a livre concorrência se faz mais necessária.

    Diante de tantas empresas ineficientes e consumidores insatisfeitos, a culpa recai sobre o próprio capitalismo. E aí o estado, oportunista como sempre, abre os braços e diz:

    “Calma meu Povo, estou aqui para livrá-lo das garras do capitalismo”.

    Pessoas carentes são alvos fáceis. Uma sociedade de benfeitores mútuos só será possível à partir de um estado muito menor, onde a destruição criativa possa ocorrer em pleno funcionamento.

    Mesmo com todo retrocesso do estado, o jogo avança e novos ingredientes são colocados no tabuleiro, como as novas formas de tecnologias da comunicação. A mídia social está tirando do estado e da impressa mainstream o monopólio da comunicação unilateral que imperou até pouco tempo atrás.

    Qualquer ser humano que tenha acesso à internet não pode reclamar de falta de informação antes de fechar um negócio. Portais de classificação de empresas, produtos e serviços, como o Reclame Aqui serão cada vez mais comuns. Haverá empresas especializadas em ajudar os consumidores a tomarem a melhor decisão ao passo que os mercados fiquem cada vez mais competitivos.

    E isso, por si só, já deixará os descontentes de hoje um pouco mais felizes.

  6. INFELIZMENTE não vai ter tabelamento de preços. O brasileiro médio mereceria sofrer com as prateleiras vazias novamente para que dessa vez, quem sabe, alguma lição econômica fosse aprendida.

    Em breve os preços de tudo irão aumentar. Será que irão lembrar dos “heróis caminhoneiros”?

  7. Excelente artigo !

    O maestral Lwduig Von Mises já enfatizava essa premissa nas “6 Lições”. Quem determina (ou deveria determinar) o mercado são os consumidores, isto é, o quanto uma empresa deve produzir, o que produzir, qual empresa deve permanecer no mercado, o lucro dos proprietários, o salário dos funcionários etc.

    Em suma, essa lógica parece, aqui no Brasil, mais do que improvável !

  8. Ótimo artigo!

    Como é frustrante tentar explicar isso para a população em geral…

    Apenas uma observação: o verbo tornar saiu no tempo errado na frase “e se tornaram preços somente se o bem for comprado”, é bom corrigir!

  9. No ancapistão, existiriam várias escolas competindo para ensinar lógica e economia aos alunos para que o número de adultos burros e ignorantes que existe hoje fosse o menor possível.

  10. Arthur Paulo Pimentel Pinto Neto

    Infelizmente acho que isso é necessário principalmente em cidades do interior onde pra dar uma ideia o gás de cozinha chega a 120 antes da greve dos caminhoneiros e agora ta uns 105…. Sendo que na capital o preço é 65…. O que acontece? Eles comprar a preço de varejo e trazem nas costas pra estar cobrando isso?

  11. Chegamos num ponto sem volta, o fascismo já se instalou no Brasil de uma maneira como nem mesmo Mussolini sonhara.: 03 poderes, mídia, artistas-rouanet, atletas analfabetos, jornalistas amebas, professores marxistas e um bando de idiotas pagando impostos para sustentar uma elite asquerosa que está no poder desde 1985.

  12. Sarney negativo

    Teve uma estupidez meses antes do Procon, vigorando até agora, de proibir a cobrança diferenciada por sabores distintos de pizza quando se pede metade de um sabor e metade de outro. O que vi de gente aplaudindo… quando vejo alguém defendendo controle de preço, um analfabeto econômico pagando de justiceiro social, torno-me um cão raivoso espumando puro ódio. Preciso me controlar, diferentemente dos preços.

  13. Acho que poderia avançar um pouco mais na explicação sobre o controle de preços de produtos cuja exploração é monopólio do Estado ou altamente regulamentado pelo Estado, normalmente bens essenciais como água e energia elétrica; e provavelmente os derivados do petróleo; talvez também os pedágios em rodovias… ainda que se possa construir rodovias alternativas ou sistemas de captação e distribuição de água alternativos, são empreendimentos enormes e, mais cedo ou mais tarde, limitados (não dá para construir mais de 2 ou 3 vias ligando dois pontos).

  14. Em BH tem uma delegacia móvel na Praça da Liberdade só para fiscalizar os preços “abusivos”, e ao que parece pelas reportagens, a mídia está batendo palmas, sempre destacando para o crime de “Atentado a ordem econômica”.

  15. Leandro, saindo do assunto do artigo gostaria de fazer dois questionamentos:

    1- Afinal, Cingapura tem ou não tem um Currency Board? Este artigo (mises.org.br/Article.aspx?id=2059) afirma que eles operam com um currency board. Porém, neste podcast (mises.org.br/FileUp.aspx?id=364), você afirmou que eles apenas mexem no câmbio, com o objetivo de apreciar a moeda continuamente em relação às outras moedas, mas não mencionou o Currency Board. E como esse controle de câmbio é feito?

    2-Em outro comentário você me recomendou este livro (mises.org/library/money-sound-and-unsound-1). No Capítulo 20 há um crítica ao Currency Board, mais especificamente ao adotado em Hong Kong, que usa o dólar US como moeda âncora.

    Acho que tudo acontece porque é o banco central que atua como o currency board (em vez de uma entidade privada fora da jurisdição do país), mas ele mostra no início da seção que (no período 1998-2005) o fluxo de ativos que lastreavam a base monetária a excediam. Porém, usando o M3, esse agregado monetário excedia o lastro, o que deixava o sistema vulnerável a crises.

    O banco central também usou parte de seus ativos para prover liquidez ao mercado na crise do final dos anos 1990, saindo completamente das regras de um currency board.

    No final o autor menciona que o currency board pode perder a credibilidade rapidamente se a confiança do público em relação ao comprometimento do banco central de manter as regras do jogo desaparecer.

    Posto isso, o que você acha dessa crítica? Os problemas expostos podem ser resumidos a apenas o fato de ser o banco central atuando como currency board, podendo, a qualquer momento, sair da linha? Se os EUA hipoteticamente vivenciassem uma crise de dívida soberana estilo Grécia e o dólar US perdesse valor como nunca antes, o que aconteceria a um currency board que o adotasse como moeda âncora?

    Há também este paper (mises.org/library/case-against-currency-boards-0) criticando o currency board, mas ainda não tive tempo de ler. Você conhece?

    Att,

    André Marques

  16. Querer que os preços sejam sempre favoráveis para nós equivale a querer que todos os semáforos estejam sempre abertos para nosso carro, ou que só chova quando estivermos bem abrigados e sem precisar sair do local.

    * * *

  17. Quanta bobagem escrita por gente que se acha dono do conhecimento, apesar de 90% nunca levantarem suas bundas das cadeiras e irem lutar pelo que acham coerente na economia. É muita teoria para pouca prática, a grande maioria não passam de caninos diligentes que saem correndo ao menor sinal de fogo. A internet tem criado essas figuras, os rebeldes com causa, mas sem atitude. (comentário sobre os comentários. O artigo está perfeito)

  18. Reflexões sobre a crise de abastecimento

    Este artigo é um conjunto de pequenas reflexões que o grande filósofo, Capital Imoral, teve durante a crise de abastecimento que ocorreu no Brasil.

    A crise de abastecimento que ocorreu no Brasil mostrou uma faceta que até então a maioria dos Brasileiros não estavam acostumados. Pela primeira vez, havia gente invadindo supermercados e comprando tudo que via pela frente, havia desespero para sobreviver e proteger os seus. A luta pela sobrevivência nunca foi fácil.

    E todo esse desespero me remete a um filme, de 2010, chamado: "A estrada". Neste filme, o mundo foi destruído há mais de 10 anos, mas ninguém sabia exatamente o que aconteceu. Não há energia, vegetação ou comida. Milhões de pessoas morreram devido aos incêndios, inundações, queimadas. Neste contexto, um pai e seu filho lutavam para sobreviver em um mundo em que grupos se organizavam para canibalizar outros sobreviventes mais fracos. Não havia a mínima misericórdia pelo próximo. Em um contexto apocalíptico, havia grupos que se organizavam para matar e canibalizar outros mais fracos que estavam desorganizados.

    O que há demais neste filme? Este filme demonstra até que ponto o ser humano pode chegar na luta pela sobrevivência. O Brasil experimentou, por alguma semanas, um pouco desse desespero gerado por políticas neoliberais. Talvez você ache isso um exagero, mas pense um pouco, como tudo ocorreu durante a crise? Veja que havia grupos que ganhavam muito com esta crise, e grupos que perdiam; a pressão dos caminhoneiros fez com que de fato eles ganhassem certos privilégios à custa de toda população (Porque eles também são Capitalistas). Na luta pela sobrevivência, havia gente rica comprando sem necessidade simplesmente para ter um estoque reserva de alimentos, enquanto outros, os mais pobres, que realmente precisavam, estavam perecendo na miséria porque o preço estava alto. No fundo, quem estava em melhor condição logo tomou medidas para se proteger, e quem não tinha tantos recursos, acabou sofrendo mais. Bem-vindo ao capitalismo. O preço de tudo aumentou, desde à comida até o remédio, muita gente não conseguia trabalhar, outros, estavam totalmente dependentes dos combustíveis. Veja que a realidade apenas se intensificou, o rico não mudou a condição de rico privilegiado, mas o pobre sofreu mais.

    Você percebe como ocorreu um "Canibalismo social" no qual ricos organizados estavam roubando, através do poder de comprar, bens que deveriam ser dos mais pobres? Ora, a finalidade do estado e justamente evitar que esta injustiça natural do livre mercado possa ocorrer, pois o rico sempre estará em melhor posição que o pobre.

    Os que desejam o mal pelo mal

    Outra coisa que observei neste tempo de dificuldade, foi um certo desejo de que as coisas se tornassem pior. E isso, de certa forma, mostrou uma faceta que observei apenas nas pessoas que estavam em pior situação: A vontade, interior, de que tudo fosse ainda pior.

    Quando visitei a casa de um amigo, por alguns segundos, pude ouvir de um parente dele que estava em frente à televisão: Ele desejava, em voz baixa, uma guerra civil. Eu estive pensando sobre este pequeno desejo interior. Será que ser burro é condição necessária para desejar o mal pelo mal? Eu acredito que não. Para uma pessoa desejar a maldade pura e simplesmente é preciso chegar a um ponto em que não se ganhar nada havendo paz. Neste ponto, a guerra é mais lucrativa que a paz. A guerra é revolucionária, a guerra é a oportunidade de que as coisas possam mudar, e a oportunidade, quem sabe, de sair da posição lastimável que a paz nos segura.

    E novamente o culpado de tudo isso é o capitalismo, pois quem é a grande ideologia que cria tamanhas desigualdades entre seres humanos? Ora, existe um abismo entre este cara fodido que perdeu todas esperanças à ponto de torcer pelo mal, e o grande capitalista, mauricinho, que leva à vida como uma novela. O segundo pode se dar ao luxo de torcer pelo bem, o primeiro não.

    Os que pensam que o preço deveria ser livre

    Ainda dentro de minhas observações, cabe analisar os neoliberais que não tiveram misericórdia pelos pobres durante a crise de abastecimento. São pessoa que adoram dizer: "Não gostou do preço? não compre!", São os mesmos que utilizam a premissa, falsa, de que o consumidor é livre para escolher, como se um pobre tivesse a mesma independência financeira que um empreendedor rico. Com base nesta premissa, eles afirmam: "O preço deve ser livre! Deve correr de acordo com a escolha do empreendedor". Mas será mesmo que existe essa liberdade? Ou será que uma pessoa pobre está presa à bens de consumo básicos como alimentação (que não é uma escolha), moradia, higiene etc. Ora, aí está a grande falsidade ideológica do movimento neoliberal. Defender a liberdade de preço é uma maneira refinada de defender o domínio dos ricos (que detêm os meios de produção) sobre os mais pobres. Por isso sempre afirmei que o neoliberalismo é uma política desumana.

    Conclusão

    A qualquer momento o monstro que habita dentro de nós, através de políticas neoliberais, pode florescer, basta mudar às condições sociais e veremos nossa verdadeira face. Essa crise revelou uma faceta potencial assustadoramente egoísta e desumana, ligada ao neoliberalismo, que infelizmente faz parte da natureza humana. Esta crise também serviu, para os desesperados, como condição para uma libertação da própria vida através do caos.

  19. Artigo muito interessante! Parabéns!

    A teoria do mercado eficiente se enquadraria nesse tema?

    É muito comum analistas calculando preço justo de ativos (Valuation). Outros dizem que no mundo atual (globalizado com internet) é quase impossível ganhar no mercado dessa forma (comprando ativos subavaliados) e o mais certo seria comprar ações sempre que sobrar algum dinheiro.

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