Sem dúvida, o debate acadêmico que mais excita grupos ideológicos rivais é a questão da desigualdade de renda brasileira.
Presencie um debate qualquer entre os áulicos e tudo que verá serão efusões populistas sobre o papel do estado como “agente promotor da igualdade social” e apelos lacrimosos ao confisco da propriedade alheia como instrumento justo de “reparação social”. Muita espuma e nenhum resultado concreto.
Segundo os ilustres, os principais fatores que geraram a ampla disparidade de renda no Brasil são: educação, distribuição de oportunidades, características natas dos indivíduos, fatores raciais, fatores geográficos, fatores culturais, além de, obviamente, a inação do estado.
Identificado esses fatores, deita-se uma logorréia sobre estarmos em um “equilíbrio Pareto-inferior”, onde uma grande desigualdade educacional gera uma desigualdade de renda, que, por sua vez, perpetua a desigualdade de poder político, que, por sua vez, reforça e reitera a desigualdade de oportunidades e resultados educacionais. Ufa!
No fim, o remédio é o mesmo: só o estado salva.
É claro que não estou dizendo que toda a massa cinzenta universitária que está sendo queimada na produção das centenas de trabalhos acadêmicos anuais sobre “injustiça social” esteja sendo queimada
Quase nunca se menciona o papel fundamental que a inflação teve e ainda tem — em qualquer lugar do mundo — na concentração de renda e nas desigualdades sociais.
Não que a desigualdade de renda em si seja algo ruim e que deve ser evitado. Muito pelo contrário. Em uma sociedade livre, a desigualdade de renda é algo inevitável. Ela é reflexo do mérito individual. É resultado do esforço. Sei perfeitamente bem tratar-se de um clichê, mas o que de fato faz as pessoas ascenderem na vida é disciplina, sobriedade, comprometimento e princípios. Trabalho duro. Aquele que tem essas características vai decolar; aquele que não tem, vai invejar.
E tentar coibir essa disparidade com o intuito de tomar dos mais capazes para transferir aos menos é simplesmente tirania. Uma sociedade que privilegie a igualdade em detrimento do mérito não pode ser livre. É por isso que o mérito sempre deve vir antes da justiça, por mais gritaria que isso possa gerar. Uma sociedade baseada no mérito se desenvolve; uma baseada exclusivamente na justiça é uma incógnita, até porque a definição de justiça sempre estará, em última instância (infelizmente), nas mãos de burocratas com interesses próprios.
A prova acachapante do totalitarismo e da inveja desses indivíduos que gritam contra a disparidade de renda pode ser percebida em sua metodologia de debate: eles raramente sugerem políticas voltadas exclusivamente para o aumento da renda dos mais pobres. Tudo o que eles querem é achar meios de diminuir a distância entre pobres e ricos. O que significa que, no extremo, eles preferem uma situação onde os pobres fiquem na mesma e os ricos empobreçam (havendo portanto uma diminuição da desigualdade) a uma situação onde os pobres enriqueçam e os ricos enriqueçam ainda mais (o que, no final, aumentou a desigualdade, não obstante os pobres também tenham melhorado). Esse vídeo com Margaret Thatcher ilustra comicamente esse debate.
Os intelectuais não amam os pobres; eles odeiam mortalmente os ricos. Mises explicou esse fenômeno em seu livro A Mentalidade Anti-Capitalista.
Feito esse caveat sobre a inevitabilidade da desigualdade, façamos agora uma distinção: uma coisa é a desigualdade gerada exclusivamente pelo mercado, que premia o mérito e pune a incapacidade. Qualquer ataque a essa gera apenas tirania e empobrecimento. Trata-se de uma desigualdade inevitável e até mesmo necessária. Outra coisa, totalmente distinta, é a desigualdade gerada pelo estado, principalmente através de seu descontrole monetário.
A inflação monetária é, de longe, o instrumento mais eficiente de se propagar desigualdades. Essa, sim, uma desigualdade injusta e perfeitamente evitável. Além de ter toda uma explicação teórica — que darei sucintamente a seguir –, tal fenômeno da desigualdade gerada pela inflação pode ser completamente auferido por um simples teste empírico: quanto maior foi a inflação no Brasil em um determinado período, maior foi o aumento da desigualdade; quanto menor foi a inflação, maior foi a queda na desigualdade. (Faça qualquer correlação entre taxas de inflação e índices de Gini e comprove).
Por que é assim? Ludwig von Mises explicou magistralmente esse mecanismo de redistribuição de renda gerado pela inflação (sugiro intensamente que leiam sua explicação, muito mais completa que a minha a seguir):
Quando o banco central injeta dinheiro na economia — através do sistema bancário comum — esse dinheiro chega primeiro àqueles que têm acesso direto ao sistema bancário. Daí esse dinheiro vai ou para o mercado financeiro ou para a economia real. Uma vez na economia real, as pessoas que primeiro receberam esse novo dinheiro estão em posição privilegiada: elas podem gastá-lo comprando bens e serviços a preços ainda inalterados. Ora, se a quantidade de dinheiro em seu poder aumentou e os preços ficaram na mesma, então obviamente sua renda aumentou. Essas são as pessoas que ganham com a inflação.
À medida que esse dinheiro vai perpassando todo o sistema econômico, os preços vão aumentando (afinal, tem mais dinheiro na economia). Porém, começa aí a haver uma discrepância: vários preços já aumentaram sem que esse novo dinheiro tenha chegada às mãos de outros grupos de pessoas. Essas são as pessoas que perdem com a inflação. Somente após esse novo dinheiro ter perpassado toda a economia — fazendo com que os preços em geral tenham subido — é que ele vai chegar àqueles que estão em último na hierarquia social. Assim, quando a renda nominal desse grupo subir, os preços há muito já terão subido. Houve uma redistribuição de renda: aqueles que receberam primeiro esse novo dinheiro tiveram ganhos reais. Obtiveram bens e serviços a preços de barganha. Aqueles que receberam esse novo dinheiro por último tiveram perdas reais. Adquiriram bens e serviços a preços maiores sem que sua renda tivesse aumentado. Houve uma redistribuição de renda do mais pobre para o mais rico.
E é exatamente esse o perverso mecanismo de redistribuição de renda gerado pelo estado. Infinitamente pior para os pobres do que o mecanismo de aumento da desigualdade em decorrência do mérito — o qual, aliás, é impossível ser prejudicial para os pobres.
Curiosamente, poucos intelectuais vocalizam essa tragédia. Todos se esforçam para eximir o estado de sua culpa — para eles, no máximo, o estado é culpado de estar fazendo pouco. Tem de tributar mais, confiscar mais e regular mais. Pôr uma coleira nos ricos. Mas o regime, ah!, esse nunca deve ser atacado — até porque esses intelectuais, em sua esmagadora maioria, trabalham para o estado, e têm a função de ser propagandistas do regime. Uma vez desmoralizado o estado, os intelectuais correm o risco de perder seu ganha-pão. Entende-se aí sua tergiversação sobre a realidade brasileira e a sua busca por outros bodes expiatórios.
FATOS E NÚMEROS
Para comprovar com dados essa teoria, peguemos os dados monetários do Brasil desde 1980. Infelizmente, os dados disponibilizados pelo Banco Central começam somente a partir daquele ano, mas são o suficiente, uma vez que cobrem toda a trágica década de 80.
Vamos trabalhar apenas com a Base Monetária (a soma de todas as cédulas e moedinhas emitidas pelo Banco Central mais as reservas compulsórias que esses bancos mantêm depositadas no BACEN) e com o M1 (a soma de todas as cédulas e moedinhas em poder do público mais todos os depósitos à vista).
A Base Monetária é a única variável sobre a qual o BACEN tem controle direto. Daí podemos mensurar o grau de devassidão com a qual essa variável foi tratada. Já o M1 é a variável de maior liquidez — isto é, seus componentes são aqueles que estão prontamente disponíveis para uso imediato do indivíduo. Daí o M1 ser considerado por muitos a medida mais fiel do dinheiro realmente disponível na economia. M2, M3 e M4 estão além desse escopo. No site do BACEN (clique aqui) você pode coletar todas essas variáveis.
Após ter coletado os valores que vão de janeiro de
Vou direto então para os dados brutos:
Em janeiro de
Daí em diante, a evolução foi exponencial. Até que, em junho de 1994, último mês antes do Real, a Base Monetária já estava em inacreditáveis $8.040.253.952.000.000.000 (levando-se em conta todos os cortes de zero ocorridos). Isto são nada menos que 8 quintilhões. Consegue imaginar o que é isso?
Qual foi o aumento percentual na base monetária de janeiro de
E o M1? Repetindo o mesmo procedimento:
Janeiro de 1980: $826.000.000.
Junho de 1994: $13.685.611.750.000.000.000
Variação percentual: 1.656.853.722.660% (1,6 bilhão por cento).
Agora o leitor entende por que era impossível jogar isso em um gráfico.
Como comparação, vejamos o período julho de 1994 — abril de 2009 (praticamente a mesma duração de tempo).
Base Monetária:
Julho de 1994: $6.495.066
Abril de 2009: $132.422.172
Variação percentual: 1.938%
M1:
Julho de 1994: $10.075.566
Abril de 2009: $196.087.946
Variação percentual: 1.846%
Ainda é bastante alto, mas pelo menos são cifras mais civilizadas. Ambas apresentam um aumento médio de 22% ao ano.
ANÁLISE DO PERÍODO 1980-1994
O que provocou esse descalabro?
Bom, a Base Monetária, como dito, está sob controle direto do BACEN. Assim, ele é o responsável direto por ela.
Quanto ao M1, é fato que uma de suas variáveis (depósitos à vista) é gerada pela rede bancária — como, por exemplo, quando um banco cria depósitos em conta-corrente para conceder um empréstimo. Mas é fato também que esse volume de crédito pode ser controlado pelo Banco Central através do compulsório. Mas não foi. E há uma explicação.
Quando levamos em conta que nesse período havia inúmeros bancos estaduais a pleno vapor (leia-se, em plena esbórnia de jogos políticos), a culpa do governo fica ainda mais acentuada.
Os melhores exemplos são o Banespa e o BANERJ. A dupla Quércia-Brizola punha fogo nessas instituições, fazendo-as conceder empréstimos para apaniguados políticos, para estatais deficitárias e, principalmente, para seus vorazes governos estaduais, ao mesmo tempo em que esses próprios bancos incorriam em déficits vultosos. E quem socorria esses bancos? Ora, o Banco Central, que injetava dinheiro neles sempre que necessário (afinal, políticos sempre são solidários no aperto), aumentando tanto a Base Monetária quanto o M1. Não à toa, a inflação só passou a ser menor após esses bancos terem sido privatizados.
Portanto, uma das causas da explosão da BM e do M1 pode ser encontrada nos bancos estaduais, que operavam praticamente sem lei e sob ordens de governos estaduais. Esses bancos criavam meios de pagamento a rodo, apenas para financiar seus descalabros. Os desvalidos pagavam a conta.
Mas calma! Tem mais. A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o Banco Meridional, o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste, o os bancos estaduais de Santa Catarina, Ceará, Goiás, Pará, Alagoas, Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Acre e Maranhão não ficam atrás. Todos receberam vultosas injeções do Banco Central. Os bancos estaduais não tinham de prestar contas a ninguém. Sua gerência política fazia a farra com os recursos, o Banco Central imprimia a conta e o resto da população sofria as consequências da libertinagem.
Ah, mas ainda tem mais.
Era comum o governo federal nesse período se financiar via emissão monetária simples. “Estamos com déficit? Ah, bota a maquineta pra imprimir”. A carga tributária do período era relativamente baixa (meros 26% do PIB; hoje está em 36%) exatamente porque o governo não se preocupava com receitas. Ele confiava na máquina de impressão.
Mas o principal mecanismo de descontrole inflacionário era outro: a política cambial.
Durante anos o país adotou o câmbio real fixo (não confundir com o câmbio nominal fixo da época inicial do real). Nessa política, quando os preços internos aumentam, o câmbio deve ser desvalorizado na mesma proporção, para continuar estimulando as exportações e coibindo as importações. Assim, quando os preços internos aumentavam (em decorrência da própria inflação monetária), o governo comprava dólares para desvalorizar o câmbio. Como ele comprava dólares? Imprimindo dinheiro. O que acontecia depois? Os preços aumentavam, o câmbio real saía do lugar novamente e o governo repetia o processo. “O câmbio está fora do lugar? Imprima e compre dólares”.
Sim, parece roteiro de algum episódio dos Três Patetas, mas era exatamente assim que o governo operava, por mais estúpido que pareça. Tratava-se de uma política inflacionária autofágica, que se alimentava a si própria.
Dessa forma, os políticos, visando seus próprios interesses, destruíram o sistema monetário nacional — tudo sob os olhos complacentes do BACEN –, aumentando estrondosamente o volume de dinheiro na economia. E quem perdeu? Ora, os brasileiros mais humildes, que não tinham como se proteger do dragão da inflação. Os mais ricos, que tinham acesso ao mercado financeiro e ao sistema bancário, sabiam se proteger; os mais pobres, só podiam morrer de fome. Exatamente como Mises explicou.
Portanto, quando você junta esses três fatores — déficits orçamentários, câmbio real fixo e bancos estatais lascivos – e entende que todos os três eram resolvidos via impressão monetária, verá finalmente que o resultado foi absolutamente criminoso. Que essas pessoas não estejam na cadeia por toda a miséria que provocaram – muitos, aliás, circulam fagueiros por aí, dando palestras, ocupando cátedras universitárias, cargos no Senado e concorrendo em eleições — é uma boa prova da moral torta nacional.
A origem da inegavelmente acentuada desigualdade brasileira — que se aprofundou justamente no período 1980-1994 — não está nas salas de aula. Está nos governos estaduais, no Congresso, no Palácio do Planalto e principalmente no Banco Central. Ou seja, está no estado. Justamente a entidade apontada pelos intelectuais como a mais adequada para curar exatamente todos os problemas que ela mesma gerou.
No próximo artigo (clique aqui) centrarei no período 1994-2009, explicando o que teria acontecido se, na reforma monetária, tivéssemos seguido os conselhos de Mises.
Leandro, me perdi aqui:
“Nessa política, quando os preços internos aumentam, o dólar deve ser desvalorizado na mesma proporção, para continuar estimulando as exportações e coibindo as importações. Assim, quando os preços internos aumentavam (em decorrência da própria inflação monetária), o governo comprava dólares para desvalorizar o câmbio.”
O governo comprando dólares não faz com que este se valorize, ao invés de se desvalorizar? E não é o dólar mais caro que inibe importações, e moeda nacional fraca que estimula exportações? Me corrija se estiver errado, por favor.
Rafael,\n\nSim, é exatamente isso que você falou. Você apenas se confundiu com o termo ‘desvalorização’ (o que é comum quando se trata de câmbio). No caso, um câmbio desvalorizado significa um dólar mais caro (quem está desvalorizada é a moeda nacional). O oposto seria um câmbio apreciado, no qual o dólar está barato.\n\nApenas para esclarecer todo o raciocínio: quando os preços internos aumentavam, as importações ficavam mais atraentes. Aí, para impedir essas importações, o governo comprava dólares, fazendo com que o câmbio se desvalorizasse (o dólar ficasse mais caro). Para comprar dólares, ele emitia moeda, o que gerava inflação de preços e reiniciava todo o ciclo. \n
Leandro, então foi você mesmo quem se confundiu ao escrever o texto. Você diz: “o dólar deve ser desvalorizado (…)” e não “o câmbio deve ser desvalorizado (…)”
Correto?
É verdade. Confesso que, ao invés de ‘dólar’, devia ter usado ‘câmbio’. Já fiz a troca. Obrigado pelo toque!
Não entendi, como se obtem a média por ano?
Rhyan, para calcular a média de porcentagens, você tem de trabalhar com logaritmos e exponenciais. Não é válida a técnica de somar tudo e dividir pelo número de parcelas.
Para poupar-lhe de todo esse tecnicismo, apenas veja que 1,65 (65%) elevado a 15 (anos – 1994 a 2009) é igual a 1.829.
Fazendo o mesmo para 1,64 (1.670) e 1,66 (2.002) é possível perceber que ambos os valores estão mais longe dos valores encontrados para a BM e para o M1 do período 1994-2009, o que significa que a média para esse período de fato é 1,65 (65%).
Eu fiz os mesmos cálculos do artigo da Selic. Só que deu outros resultados…\r
\r
Não, embora os exemplos numéricos do artigo da Selic também lidem com valores monetários – assim como neste artigo -, ali o objetivo era apenas o de encontrar a variação percentual total ocorrida.
Neste artigo aqui, você pode fazer o mesmo, só que essa conta não lhe dará a variação percentual que está ocorrendo [/i][/b]a cada ano[/i][/b]. Ela dará apenas, repito, a variação total.
Para calcular a variação ocorrida a cada ano, você tem de pegar a variação total e aplicar logaritmos e exponenciais.
Certo, valeu Leandro!\r
\r
Abraço!
Leandro,
Acredito que haja um problema na média, sim. Se aplicarmos sobre a base anual de M1 de julho de 94 de $10.075.566 um crescimento médio de 65% ao ano chegaríamos a uma base M1 de $ 18.430.139.201 em 2009.
Pelas minhas contas o crescimento médio anual deveria ser 21,88%, que se aplicada à base de julho de 94 $ 10.075.566 chegaríamos a uma base M1 de $ 196.087.946 em 2009, de acordo com o expresso no artigo.
Abraços
Bem observado, Maurício, muito obrigado.
Na hora de aplicar o logaritmo, o tonto aqui esqueceu de voltar a vírgula duas casas pra esquerda. Ao invés de 18,46, ficou 1.846.
Os valores foram corrigidos.
Ah, agora sim a conta se aproxima da minha.\r
\r
Mas aquela média de 518% deu aqui 390%… fiz algo erro?\r
\r
Abraços!
Anônimo, o resultado é 518% mesmo. Seria 390% se o aumento tivesse sido de pouco mais de 2 bilhões por cento, quando na verdade foi de 2,3 trilhões por cento.
Nunca subestime a força destruidora do Bacen.
Há um artigo publicado pelo Joelmir Beting na Veja em 25/12/1996 chamado ‘Os párias do quatrilhão’, em que ele trata do mesma tema que você: a influência da alta inflação na desigualdade social brasileira e a estranheza do fato da maioria dos estudiosos do tema quase nunca ter atentado para isso.\r
Você pode lê-lo aqui:\r
\r
veja.abril.com.br/idade/exclusivo/ana_araujo/reportagens/ritmo_interior.html
Hoje fui almoçar com alguns colegas de trabalho e conversando sobre política chegamos ao assunto da desigualdade social no Brasil. Eram eu e mais 4, todos com pensamentos de esquerda, sendo dois petistas de carteirinha e uma filiada ao PCdoB. Um desses meus colegas é economista. Eu tentei argumentar que um dos grandes culpados pela desigualdade social no brasil é o estado brasileiro, que desvaloriza a moeda, cobra impostos absurdos sobre a classe trabalhadora e usa esse mesmo dinheiro para enriquecer empreeiteiros. O estado tira de toda a população para emprestar a juros subsidiados pelo BNDES. Meu colega que é economista disse que o brasil hoje é desigual pq nunca realizou uma reforma agrária.
Ele desconsiderou todos os meus argumentos contra a inflação monetária e a transferência de renda dos pobres para os ricos através dos impostos. E o pior ele apontou as políticas do PT como solução para desigualdade. Ele chegou a dizer que o bolsa família foi quem impulsionou o crescimento da economia no últimos anos pq estimulou o consumo.
Eu o questionei se o aumento do consumo não foi causado pela expansão do crédito e que também os trabalhadores poderiam consumir mais se a carga tributária fosse menor, não necessariamente precisamos tirar de quem produz e entregar para quem não produz nada para poder aumentar o consumo.
Que artigo excelente! Parabéns!
Excelente artigo.
Um de seus melhores, Leandro.
Oi Leandro, uma dúvida ainda em relação ao mecanismo de desvalorização cambial. O câmbio não é o reflexo do poder de compra das moedas? Nesse caso, a monstruosa desvalorização da moeda brasileira já não seria suficiente pra desvalorizar o câmbio? Desculpa a confusão, mas não consigo entender. Abraço!
Mas é isso mesmo que o artigo explica. Atente para a diferença entre câmbio nominal e câmbio real. Câmbio real é o câmbio nominal dividido por um índice de preços.
O governo optou pelo câmbio real fixo, uma verdadeira estrovenga. Neste arranjo, dado que os preços aumentavam diariamente de maneira intensa (pois estávamos em hiperinflação), o câmbio também tinha de ser desvalorizado diariamente na mesma proporção. Tal desvalorização seria automática caso o mercado de câmbio fosse totalmente livre, sem nenhuma interferência do governo e sem nenhuma restrição à entrada e saída de capital. Como esse não era o caso, o governo “resolvia” esse problema comprando dólares para fazer com que o câmbio real não se alterasse.
De acordo com essa concepção, de que quem recebe o dinheiro primeiro se beneficia, não seria, portanto, correto dizer que imprimir dinheiro e dar para os pobres resolve o problema da pobreza, tendo em vista que eles teriam acesso primeiramente ao dinheiro e aos preços não inflacionado?
O BR realmente é um show de horrores na economia,aqui faz mais sentido o rabo abanar o cachorro do que o contrário…
E o pior é que até tinha lei onde era permitido que os bancos públicos emprestassem mais recursos do que tinham,e que graças a Deus já foi anulada…
Leandro fiquei em dúvida sobre a carga tributária da época da inflação: a carga tributária antes do Real não era em média 27% ao invés de 17%?
É impressionante que até mesmo economistas não compreendam que produzir mais dinheiro do que o crescimento da riqueza para pagar gastos acima da arrecadação já alta seja a causa da inflação, da qual o aumento de preços é apenas sintoma. Querem combater a pobreza de uma forma que só a aumenta.
* * *
Meus parabéns ao autor do artigo, ficou muito bem explicado! Estou começando a entender de economia graças aos trabalhos aqui do IMB.
Mas fiquei com uma dúvida. O texto fala sobre a desigualdade gerada a partir da década de 80, mas e como era a situação brasileira antes disso? Afinal o país tem histórico de pobreza e desigualdade pelo menos desde 1500. Não achei nada sobre isso aqui no site.
Ficaria agradecido se alguém pudesse me explicar ou recomendar artigos/livros confiáveis para entender a época.
Ótima resposta, muito obrigado. A desigualdade é algo inevitável, o que acontece em uma sociedade livre é o fim gradual da pobreza.
Se for possível responder, fiquei apenas com uma leve dúvida de como ocorre o aumento do poder de compra das classes mais baixas. Pelo que eu entendi lendo o artigo indicado e alguns outros, o aumento da produtividade (resultado da acumulação de capital) aumenta a necessidade de um mercado consumidor, incentivando o aumento dos salários (nominais ou reais). O raciocínio está correto?
Obrigado pela atenção!
Leandro,
Eu estava relendo esse artigo e algo me chamou a atenção.
No nono parágrafo você diz que o mérito deve vir antes da justiça. Talvez fosse melhor dizer que o mérito deve vir antes da “igualdade”. O justo é cada um receber de acordo com o mérito.
Abraço, Pedro
Inicialmente, julguei ótima a entrevista por ambos participantes. Perguntas pertinentes e respostas ponderadas e embasadas.
Mas, pelo fato de estar enquadrado na 3ª idade, me permite saber, através de livros, filmes, etc., que essa verdade sobre os países de primeiro mundo, talvez seja uma verdade do nosso mundo contemporâneo, mas não é uma verdade de cada um de seus passados. Todos tem um passado que não é a realidade de hoje.
Comparativamente, somos um país “novo”, onde, apesar da população ser o resultado de uma miscigenação de povos do primeiro mundo com nossos primeiros habitantes, infelizmente, em nossa maioria da população, são desinformados e fruto de uma necessidade de adaptar-se à nossa péssima educação (não na totalidade, é claro), para poder sobreviver na forma como se desenrola a vida neste nosso país (trabalho, transporte, burocracia, leis para tudo mas não para todos, corrupção, etc.).
Me esforço, na minha conduta diária de ser um cidadão de primeiro mundo, mas isso me traz sempre algum aborrecimento e desesperança pelo que está no “meu caminho”.
Trabalhei num banco genuinamente brasileiro, que foi comprado por um banco estrangeiro de primeiro mundo.
Tudo e todos que me eram superiores aqui chegaram “vendendo” uma imagem de superioridade, honestidade e decência, inclusive o que chamavam de “compliance”.
Com o tempo, verifiquei que eram, em sua maioria, farsantes.
Estavam aqui unicamente para dar resultado, seja a que custo fosse.
O que eles supostamente praticavam em seus países, aqui não o faziam. Pergunto: por que?
Se esses países, que no passado cometeram barbáries (ainda cometem, mas em menor escala) e hoje são “educados”, esquecendo ou não conhecendo seu passado, quando no Brasil começaremos a ter mais pessoas, organizações e governos, mais educados e honestos?
Realmente, como disse o entrevistado, talvez a “Lava jato” seja o início, caso venha a sobreviver.
O tempo sempre foi e continuará a ser o senhor da razão!
Existe algum gráfico correlacionando a desigualdade Brasileira e a hiperinflação?
Sobre injetar dinheiro na economia para financiar déficits, seria endividamento que o Tesouro faz com os dealers primários? Ou o Governo pegar dinheiro diretamente através do BACEN (se isso é possível)?
“E é exatamente esse o perverso mecanismo de redistribuição de renda gerado pelo estado. Infinitamente pior para os pobres do que o mecanismo de aumento da desigualdade em decorrência do mérito — o qual, aliás, é impossível ser prejudicial para os pobres.” Como impossível ser prejudicial para os pobres? E as oportunidades, que de antemão os ricos possuem e os pobres não possuem? E a facilidade de acessos que o rico tem e que o pobre não tem?
Eu elaborei um artigo sobre a hiperinflação brasileira, onde eu tento complementar este artigo com gráficos e detalhes.
http://www.notasdovitor.top/2018/12/a-tragedia-da-inflacao-brasileira.html
e também escrevi um pouco sobre no wikipédia
pt.wikipedia.org/wiki/Hiperinfla%C3%A7%C3%A3o_no_Brasil
“Uma sociedade baseada no mérito se desenvolve; uma baseada exclusivamente na justiça é uma incógnita, até porque a definição de justiça sempre estará, em última instância (infelizmente), nas mãos de burocratas com interesses próprios.”
“A prosperidade é o resultado da ambição de cada um, da inteligência, da energia, da disciplina, do talento, da responsabilidade, da habilidade e do conhecimento. Quanto mais os indivíduos tiverem essas qualidades, mais irão progredir.”