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O que é o Livre Mercado?

O livre mercado é um termo conciso para um arranjo de trocas que ocorrem na sociedade. Cada troca acontece como um acordo voluntário entre duas pessoas ou entre grupos de pessoas representados por agentes. Esses dois indivíduos (ou agentes) trocam dois bens econômicos, tanto commodities tangíveis quanto serviços não-tangíveis. Assim, quando eu compro um jornal de um jornaleiro por cinquenta centavos, o jornaleiro e eu trocamos duas commodities: eu entrego cinquenta centavos ao jornaleiro, e ele me entrega o jornal. Ou, se eu trabalho para uma corporação, eu troco meus serviços trabalhistas, de uma maneira mutuamente combinada, por um salário monetário — aqui a corporação é representada por um gerente (um agente) com a autoridade de contratar.

Ambas as partes empreendem a troca porque cada parte espera ganhar com ela. Também, cada parte irá repetir a troca da próxima vez (ou se recusar a) porque sua expectativa se provou correta (ou incorreta) no passado recente. Comércio, ou troca, ocorre precisamente porque ambas as partes se beneficiam; se elas não esperassem obter ganhos, não concordariam em se envolver na troca.

Esse simples raciocínio refuta o argumento contra o livre comércio típico do período mercantilista ocorrido na Europa entre os séculos XVI e XVIII, e explicado de maneira clássica pelo famoso ensaísta francês do século XVI, Montaigne. Os mercantilistas argumentavam que, em qualquer comércio, uma parte só pode se beneficiar às custas da outra; que em cada transação há um vencedor e um perdedor, um “explorador” e um “explorado”. Podemos imediatamente ver a falácia deste ainda popular ponto de vista: a vontade e até mesmo a ânsia de fazer trocas significa que ambas as partes se beneficiam. No jargão da moderna teoria dos jogos, uma troca é uma situação de vencedor-vencedor, um jogo de “soma positiva” ao invés de “soma zero” ou “soma negativa”.

Como é possível que as duas partes se beneficiem de uma troca? Cada parte valoriza os dois bens ou serviços de maneira diferente, e essa diferença arruma o cenário para uma troca. Eu, por exemplo, estou caminhando com dinheiro no bolso, mas sem jornal algum; o jornaleiro, por outro lado, tem vários jornais, mas está ansioso para conseguir dinheiro. E assim, ao nos encontrarmos, fazemos um acordo.

Dois fatores determinam os termos de qualquer acordo: o quanto cada participante valoriza cada bem em questão, e a habilidade de barganha de cada participante. Quantos centavos serão trocados por um jornal, ou quantas figurinhas de baseball com a foto de Mickey Mantle serão trocadas por uma de Babe Ruth, depende de todos os participantes do mercado de jornais ou do mercado de figurinhas de baseball — em quanto cada um valora as figurinhas em comparação aos outros bens que ele poderia comprar. Esses termos de troca, chamados de “preços” (de jornais em termos de dinheiro, ou de figurinhas de Babe Ruth em termos das de Mickey Mantle), são em última instância determinados pela quantidade de jornais — ou de figurinhas de baseball — que estão disponíveis no mercado em relação a quão favoravelmente os compradores avaliam esses bens. Encurtando, pela interação da oferta deles com a demanda por eles.

Dada a oferta de um bem, um aumento de seu valor na mente dos compradores vai aumentar a demanda por esse bem, mais dinheiro será ofertado por ele, e seu preço subirá. O reverso vai ocorrer se o valor, e, portanto, a demanda do bem, cair. Por outro lado, dada a avaliação do comprador — ou demanda pelo bem –, se a oferta aumentar, cada unidade da oferta — cada figurinha de baseball ou pedaço de pão — terá seu valor diminuído, e portanto, o preço do bem cairá. O reverso vai ocorrer se a oferta do bem diminuir.

O mercado, portanto, não é simplesmente um arranjo, mas sim uma rede de trocas altamente complexa e interativa. Nas sociedades primitivas, as trocas eram todas do tipo escambo ou trocas diretas. Duas pessoas trocavam dois bens diretamente usáveis — tipo cavalos por vacas ou Mickey Mantles por Babe Ruths. Mas à medida que a sociedade foi se desenvolvendo, um processo passo a passo de benefícios mútuos criou uma situação na qual uma ou duas commodities extensamente usadas e valorizadas foram escolhidas no mercado como um meio de troca indireta. Esse dinheiro-commodity — geralmente, mas não sempre, o ouro e a prata -, foi então demandado não apenas por seu valor em si, mas também para facilitar uma nova troca por outra commodity desejada. É muito mais fácil pagar siderúrgicos não em barras de aço, mas em dinheiro, com o qual eles podem então comprar o que desejarem. Eles estão dispostos a aceitar dinheiro porque eles sabem por experiência e discernimento que todos os outros na sociedade irão aceitar aquele dinheiro como pagamento.

O mercado, essa moderna e quase infinita rede de trocas, se torna possível pelo uso do dinheiro. Cada pessoa empenha-se em uma especialização, ou uma divisão do trabalho, produzindo aquilo que ela faz melhor. A produção começa com os recursos naturais, e daí advêm várias formas de máquinas e bens de capital, até que, finalmente, bens são vendidos ao consumidor. Em cada estágio da produção, desde os recursos naturais até os bens de consumo, dinheiro é voluntariamente trocado por bens de capital, trabalho e recursos terrestres. A cada passo, os termos de trocas — ou preços — são determinados pelas interações voluntárias entre ofertantes e demandantes. Esse mercado é “livre” porque as escolhas, a cada passo, são feitas livre e voluntariamente.

O livre mercado e o livre sistema de preços fazem com que bens de todo o mundo estejam disponíveis para o consumidor. O livre mercado também dá a maior liberdade de ação possível aos empreendedores, que arriscam capital para alocar recursos de maneira a satisfazer os desejos futuros da massa de consumidores da maneira mais eficiente possível. Poupança e investimento podem então desenvolver bens de capital e aumentar a produtividade e os salários dos trabalhadores, aumentando assim seu padrão de vida. O mercado livre e competitivo também recompensa e estimula a inovação tecnológica, o que permite ao inovador ter uma pequena vantagem na corrida para satisfazer os desejos do consumidor de maneiras novas e criativas.

Não apenas o investimento é encorajado, mas, talvez mais importante, o sistema de preços, e os incentivos de lucros-e-prejuízos do mercado, conduzem o investimento e a produção ao caminho certo. Essa intrincada rede pode se engrenar e “equilibrar” todos os mercados de tal forma que não haja repentinas, imprevistas, e inexplicáveis escassezes e excessos em qualquer ponto do sistema produtivo.

Mas as trocas não são necessariamente livres. Muitas são coercivas. Se um assaltante ameaça você com um “Seu dinheiro ou a sua vida!”, seu pagamento para ele será coercivo — e não voluntário –, e ele vai se beneficiar às suas custas. É o roubo, e não o livre mercado, que na verdade segue o modelo mercantilista: o assaltante se beneficia às custas de quem foi coagido. Exploração ocorre não no livre mercado, mas sim onde o agente coercivo explora a vítima. No longo prazo, coerção é um jogo de soma negativa que leva a uma diminuição da produção, da poupança e do investimento; a um esgotamento do estoque de capital, e a uma redução da produtividade e do padrão de vida de todos, talvez até mesmo dos próprios agentes coercivos.

O governo, em qualquer sociedade, é o único sistema lícito de coerção. Taxação é uma troca coerciva, e quanto mais pesada a carga de impostos na produção, maior a probabilidade de o crescimento econômico vacilar e declinar. Outras formas de coerção governamental (e.g., controle de preços ou restrições que evitam que novos competidores entrem no mercado) dificultam e mutilam as trocas de mercado, enquanto outras (proibições de práticas fraudulentas, respeito aos contratos) podem facilitar as trocas voluntárias.

A máxima forma de coerção governamental é o socialismo. Sob o planejamento central socialista, a burocracia planejadora carece de um sistema de preços para a terra e para bens de capital. Até mesmo socialistas como Robert Heilbroner agora admitem que a burocracia planejadora socialista não tem como calcular preços ou custos, nem tem como investir capital de maneira que toda a rede de produção possa se harmonizar e saldar. A recente experiência soviética, onde uma abundante safra de trigo não conseguia chegar até os mercados varejistas, é um exemplo instrutivo da impossibilidade de se operar uma moderna e complexa economia na ausência de um livre mercado. Não havia incentivos nem meios de calcular preços e custos para que veículos de transporte pudessem chegar ao trigo, para que fábricas de farinha recebessem e processassem o trigo, e assim por diante passando por um grande número de etapas necessárias para se chegar ao consumidor final em Moscou ou Sverdlovsk. Todo o investimento em trigo era quase que totalmente desperdiçado.

O socialismo de mercado é, de fato, uma contradição dos termos. A elegante discussão do socialismo de mercado frequentemente ignora um aspecto crucial do mercado: quando dois bens são trocados, o que é realmente trocado é o título de propriedade de cada bem. Quando eu compro um jornal por cinquenta centavos, o vendedor e eu estamos trocando títulos de propriedade: eu renuncio à propriedade dos cinquenta centavos e a entrego ao jornaleiro, e ele cede a propriedade do jornal para mim. Exatamente o mesmo processo ocorre ao se comprar uma casa, exceto que no caso do jornal as coisas são bem mais informais, e podemos evitar todo o intrincado processo de escrituras, autenticação de contratos, agentes, advogados, corretores hipotecários, entre outros. Mas a natureza econômica das duas transações permanece a mesma.

Isso significa que a chave para a existência e prosperidade do livre mercado é uma sociedade onde os direitos e os títulos da propriedade privada são respeitados, defendidos e mantidos seguros. A chave para o socialismo, por outro lado, é a propriedade estatal dos meios de produção, da terra, e dos bens de capital. Assim, não pode haver um mercado para a terra ou para bens de capital no sentido correto do termo

Alguns críticos do livre mercado argumentam que os direitos de propriedade estão em conflito com direitos “humanos”. Mas esses críticos falham ao não perceberem, que em um sistema de livre mercado, cada indivíduo tem um direito de propriedade sobre sua própria pessoa e sobre seu próprio trabalho, e que ele pode, livre e voluntariamente, fazer contratos pelos seus serviços. Já a escravidão viola o direito básico de propriedade do escravo sobre seu próprio corpo e sobre sua própria pessoa, um direito que é a base fundamental para os direitos de propriedade de qualquer pessoa sobre objetos materiais não-humanos. Mais ainda, todos os direitos são direitos humanos, sejam eles o direito de todos à liberdade de expressão ou os direitos de propriedade de um indivíduo em sua própria casa.

Uma acusação comum contra a sociedade de livre mercado é que ela institui “a lei da selva”, do “cão come cão”, que ela desdenha da cooperação humana em prol da competição, e que ela exalta o sucesso material em oposição aos valores espirituais, à filosofia, ou às atividades de lazer. Ao contrário, a selva é justamente uma sociedade de coerção, roubo e parasitismo, uma sociedade que destrói vidas e o próprio padrão de vida. Já a pacífica competição de mercado de produtores e ofertantes é um processo profundamente cooperativo onde todos se beneficiam, e onde o padrão de vida de todos prospera (comparado ao que seria em uma sociedade sem liberdade). E o indubitável sucesso material das sociedades livres proporciona a riqueza geral que nos permite desfrutar de uma enorme quantidade de lazer em comparação às outras sociedades, e a nos dedicarmos às questões da alma. São os países coercivos, com pouca ou nenhuma atividade de mercado, notadamente sob o comunismo, onde a penúria da existência diária não apenas empobrece as pessoas materialmente, mas insensibiliza seus espíritos.

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70 comentários em “O que é o Livre Mercado?”

  1. Rogerio Saraiva

    Excelente. Não resisti e já distribui o link para todos da minha rede. Em ano eleitoral, esse texto é a melhor forma de esclarecer sobre a escolha dos representantes.

    Obrigado por disponibiliza-lo.

  2. “Já a pacífica competição de mercado de produtores e ofertantes é um processo profundamente cooperativo onde todos se beneficiam.”

    Acredito que o termo “pacífica” não passa do mundo das idéias, ao menos no Brasil. Ou melhor, pacífica apenas enquanto os membros de um cartel estão de acordo.

    O que temos visto, nos setores onde não há regulamentação, é a competição predadora, com dumping, sonegação fiscal e o pior, artifícios que iludem o consumidor. Já quando um cartel (nunca identificado em sua plenitude) está atuando, o que vemos é gradual aumento de preços injustificáveis sob alegação de inflação e impostos, sem uma melhora na qualidade dos produtos e serviços, uma verdadeira acomodação empresarial.

    Como eu, enquanto consumidor no livre mercado, saberei que o produto ofertado pelos produtores/ofertantes tem uma qualidade mínima? A ponto de não emitir muita radiação, como celulares xing-ling com 4 chips. Quanto a procedência e higiene dos alimentos, como as carnes, etc.
    Me parece ingenuidade demasiada acreditar que os consumidores, ao longo do tempo, aprenderão e deixarão de negociar com produtores/ofertantes que trapaceiam.

    É por esses e outros motivos que acabo por entender ser difícil o livre mercado sem exigências estatais quanto alguns aspectos. Vale frisar que não raro o Estado se excede e interfere além dos limites compatíveis com a ética do direito administrativo.

    Não estou aqui a defender o socialismo, antes que alguém lance esta inverdade. O que venho a expor é meu ponto de vista e os motivos pelos quais entendo ser necessário exigir critérios mínimos para o ‘livre mercado’.

  3. Ironia nunca foi argumento senhores.
    Mas, diante desta platéia irônica…

    Leandro, “cartel que exista sem regulamentações do estado”: os principais serviços já são regulados. Mas vá há uma cidade pequena com 3 médicos e veja se o preço deles tem diferença maior do que 5%.

    Sobre o dumping, respondo a seguir.

    Joao: então só existe corrupção no meio público. Quando forem todos livres e sem leis para regular o mercado, todo mundo será honesto e não haverá enganação. Não é necessário proteger o consumidor. Não é necessário que produtos passem por testes estatais de qualidade. As pessoas irão confiar no selo de qualidade da “Testadores Ltda”, empresa privada e honesta.

    Institutos de pesquisa privados são confiáveis.
    As agências de classificação de risco que deram AAA a títulos podres eram estatais.
    Maquiagem contábil? Isso só ocorre no Estado: no cálculo do superávit primário, no PIB, etc.

    Fernando, eu também concordo que Dumping é uma falácia, nunca entendi porque países fazem protecionismo. Desnecessário né? Pergunte a empresários do setor textil o mal que a China fez no passado. Pior, dumping dentro do mesmo país: indústrias de leite longa vida. Preço do leite na cidade onde está a fábrica: 2,10. Preço em cidade 400km distante, querendo ganhar mercado: 1,29.
    (imagine que nesta cidade distante tem outra empresa que tem fábrica ali e concorre com o preço de 1,29 vindo lá de longe). Ah, leite estraga e ai vale tomar um prejuízo de 5% do que perder a produção, neste caso dumping vale.

    Pergunto, quando você terceiriza um serviço público, é obvio que um terceiro entra na jogada para auferir lucro. Logo, impossível que com o mesmo valor o serviço seja prestado, por lógica matemática. Só conseguirá auferir lucro e cobrar o mesmo valor (ou inferior) se o terceiro for mais eficiente que o Estado. Ai você fala: mas o Estado é muito ineficiente e qualquer terceirizado fará melhor. Nem sempre. O que defendo é a eficiência máxima do Estado, para que não precise um terceiro fazer o trabalho eficientemente e ainda lucrar com isso. Não que eu seja contra o lucro, evidente que não (minhas metas empresariais visam cada vez mais aumentar a lucratividade). Se o estado faz tão eficientemente quanto a iniciativa privada, os serviços públicos essenciais terão custos ainda menores, visto que o Estado não visa o lucro.

    “Você não é o primeiro cara que chega aqui neste site fazendo perguntinhas como se estivesse interessado em aprender e se tornar um libertário quando na verdade já é um socialista convícto…”

    Fernando, se você acha isso, paciência, mas leio o Mises.org e Mises.org.br há mais de um ano, sem tecer comentários, apenas estudando. Não tenho a intenção de ser um libertário sem antes endenter como as coisas funcionariam nesta outra concepção e por isso limito minhas aspirações em aprender. A propósito, artigos do pliber.org.br também são estudados.

    Lute pela independência de algum território em qualquer parte do mundo e institua sua filosofia libertária na mesma medida em propaga suas idéias, pois não acredito que exista um país tão libertário quanto o desejado. Existe?

  4. Fernando, se Obama for reeleito, o que você supõe que ele fará? Ele me parece bem otimista, até porque o Bin Laden já foi. Mas a dívida só faz crescer.

  5. Leandro, eu falei que os principais serviços já estão regulamentados. Difícil encontrar algo ainda não regulamentado.

    Entendo o ponto de vista de que a regulamentação cria barreiras, inclusive a ponto de favorecer os únicos profissionais disponíveis em uma área. Temos de ter muito cuidado ao regulamentar algo para justamente não criar metas “impossíveis” que só os “amigos da agência” consigam atender. Uma verdadeira corrupção.

    Mas reduzir a regulamentação a zero vejo como complicado. Prefiro me sujeitar a alguns engenheiros civis, sabendo que todos tem CREA do que não ter o CREA e ter de confiar unicamente em diplomas e portfolios. O exame da OAB é um exemplo de que temos inúmeras pessoas se formando sem capacidade mínima de atuar na área em que se formou.

    Augusto e Fernando, quanto extremismo!
    Prá vocês regulamentar é como se toda a liberdade fosse esgotada.
    Difícil será fazer justiça se todos são livres.

    Evidente que o tabelamento de preços (como aconteceu no passado e acontece hoje com categorias profissionais) afronta qualquer “livre mercado” que se queira estimular.

    Exigir que brinquedos perigosos para bebes tenham um selo e exigir que ao reduzir a quantidade do produto um aviso seja mencionado na embalagem é uma afronta total a liberdade do empresário. Mas prefiro que neste aspecto o empresário não tenha essa liberdade.

    As pessoas são corruptas e pensam no bem delas. Sejam políticos, sejam empresários, seja nós mesmos. A liberdade criada sem as regulamentações vai apenas legitimar algumas ações imorais de algumas empresas.

  6. Joao: então só existe corrupção no meio público. Quando forem todos livres e sem leis para regular o mercado, todo mundo será honesto e não haverá enganação. Não é necessário proteger o consumidor. Não é necessário que produtos passem por testes estatais de qualidade. As pessoas irão confiar no selo de qualidade da “Testadores Ltda”, empresa privada e honesta.

    Eu nada disse a respeito de só haver corrupção no meio público. Isso seria ridículo, afinal, eu estaria criando a categoria dos seres humanos do mercado, duendes mágicos bonzinhos, e os do estado, ogros malvadões. O fato de haver corrupção no meio público e no mercado, pois ambos são compostos por seres humanos em sociedade, é justamente o que me faz não acreditar em regulamentação por “serviços essenciais” e “um mínimo de qualidade”, conceitos vagos, subjetivos . Aliás, você realmente confia cegamente na qualidade de qualquer produto testado e aprovado pela “TestaBrasil”, empresa pública e honesta?

    Institutos de pesquisa privados são confiáveis.

    Pois é, os institutos de pesquisa não são confiáveis. Seria bom se houvesse uma regulamentação que evitasse as manipulações que existem hoje em dia, não é? Ei, espere um momento. Elas já existem.

    As agências de classificação de risco que deram AAA a títulos podres eram estatais.

    Por acaso uma empresa estatal de classificação de risco iria não iria acabar fazendo a mesma coisa, especialmente com o “selo estado de confiabilidade”?

    Maquiagem contábil? Isso só ocorre no Estado: no cálculo do superávit primário, no PIB, etc.

    Você é quem está dizendo isso, respondendo algo que nem sequer foi escrito, criando um espantalho para depois queimá-lo e dizer que ele era muito feio. Tudo o que eu faço é não assumir que o estado pode um dia ser composto por duendes mágicos sempre honestíssimos, que terão o grande poder de legislar e regular em prol do paraíso na terra.

    Prefiro me sujeitar a alguns engenheiros civis, sabendo que todos tem CREA do que não ter o CREA e ter de confiar unicamente em diplomas e portfolios.

    O CREA é uma instituição na qual impera o corporativismo, e são poucos os casos de punições reais a um engenheiro responsável por uma obra que acaba desmoronando (alguns chegam a receber condecorações depois, como o famoso Sérgio Naya). O conselho de contabilidade não faz nada além de recolher anuidades obrigatórias. O CRM, na prática, não pune nenhum médico por má prática da profissão, coisa que não é exatamente incomum. Realmente, a regulação tem funcionado muito bem nessas profissões.

    Exigir que brinquedos perigosos para bebes tenham um selo e exigir que ao reduzir a quantidade do produto um aviso seja mencionado na embalagem é uma afronta total a liberdade do empresário. Mas prefiro que neste aspecto o empresário não tenha essa liberdade.

    O maior problema da sua argumentação é o fato de que você trata o consumidor como um retardado mental, um idiota rematado incapaz de escolhas sensatas. Para solucionar o problema dele, aparecem os cavaleiros da virtude do estado, impondo sempre restrições mínimas aos empresários, pois, como cavaleiros da virtude, eles nunca usarão o poder em proveito próprio.
    Aliás, já que, com os selos, mesmo assim os pais compram brinquedos incorretos para a idade da criança, que tal criar uma agência para regular a venda dos brinquedos, uma “BrinquedoBrasil”?

  7. Para complementar, não demonizo todas as pessoas de todos os setores públicos. Há pessoas em cargos importantes que conseguem o milagre de fazer com que certas coisas funcionem. Elas lidam com uma burocracia extrema, jogos políticos constantes, eleições, mudanças no poder. Elas podem até mesmo perder o cargo porque estão realizando um trabalho bom demais, e os “colegas” começam a achar que o sujeito pode começar a cometer o grave erro de exigir competência. Aí, ou o competente se sujeita aos corruptos oportunistas ou deixa o cargo (nem estou considerando hipóteses mais violentas).

    Willian, entre para a política, já que você tem tantas boas ideias para regular a economia e fazer com que a economia funcione muito melhor, com uma qualidade mínima e sem enganar o consumidor. E peço que ele faça tudo isso sem incorrer em déficits nas contas públicas. Se você conseguir fazer isso, eu construo uma estátua em sua homenagem.

    As pessoas são corruptas e pensam no bem delas. Sejam políticos, sejam empresários, seja nós mesmos. A liberdade criada sem as regulamentações vai apenas legitimar algumas ações imorais de algumas empresas.

    Deixe-me ver se entendi. As pessoas são corruptas e pensam no bem delas. Então, a liberdade sem regulamentações vai apenas legitimar ações imorais das empresas. Por outro lado, a liberdade com regulamentações do estado não vai legitimar ações imorais das empresas, porque, por algum motivo obscuro, as regulações serão feitas por pessoas praticamente não-corruptas, que não usarão o poder de regulação para favorecer pessoas ligadas a quem está criando as próprias regulações. É isso?

  8. Prezados João, Augusto e Willian:

    As agências de classificação de risco que saíram dando AAA para as hipotecas subprime trabalham em total conluio com Wall Street. Isso ocorreu justamente por causa das pesadas regulamentações no mercado financeiro, as quais acabaram criando esse cartel de agências de classificação de crédito.

    A SEC (que é a CVM americana) permite a existência de apenas 3 dessas agências: Moody’s, S&P e Fitch. Não pode surgir concorrência externa.

    Nesse cenário de regulamentação, a boa teoria econômica explica perfeitamente por que essas três agências — que não correm o risco de sofre concorrência externa — trabalharão em total conluio com os bancos de Wall Street, os quais precisam obter boas classificações para conseguir vender seus derivativos.

    Não é ideologia cega, mas isso que houve realmente se chama regulamentação. Foi a regulamentação que criou esse cenário explosivo, no qual as agências de classificação de risco se sentiam seguras para atender aos caprichos de Wall Street, pois não havia perigo de concorrência.

    E ainda vão querer mais regulamentação?

    Abraços.

  9. Prezado Leandro,

    Steve Forbes afirmou que em cinco anos o padrão ouro voltará. Isso terá a seu ver quais implicações políticas e econômicas? E isso também pode afetar a eocnomia brasileira ou não? Desde já, agradeço.

  10. Oi tudo bem, vim aqui discutir numa boa. É dificil construir conhecimento sem se posicionar sobre o mesmo de forma se tornar algo imparcial,pois acredito que tb existe a religião do centro. Eu pessoalmente tenho tentado construir um conhecimento nesta área de forma imparcial, mas me parece que é difícil encontrar energia racional sem um apoio minímamente ideológico.
    Bem como se resolve o problema da falsa demanda? Tipo eu vou no médico ele me pede uma exame que eu não preciso, ou uma cirurgia que eu não preciso. Obviamente o produtor ganha, e eu acho que ganho(impressão falsa) Existe alguma forma de explicação para este problema, e como ele se resolveria. Sem regulamentação?
    Sei que é um aforismo mais algo sem ordem é o caos, obviamente pensando assim poderíamos dizer que mercado precise de alguma ordem. Visto que eles podem estar a merce de nosso instintos mais irracionais?

  11. Emerson Luis, um Psicologo

    Se mais pessoas compreendessem esses fatos, muitos deixariam de ser vitimistas amargurados e passariam a administrar melhor suas próprias vidas.

    * * *

  12. Uma das grandes mágoas dos anticapitalistas, a grande queixa e reclamação que usam como argumentação para gritar aos quatro cantos as mazelas do capitalismo e o quanto este sistema que eles tão altruistamente combatem é opressor o acusando de grande culpado pelas desigualdades sociais é que este sistema obriga as pessoas a serem competitivas e buscarem sempre ser melhor que os outros. Até pouco tempo eu erroneamente ou por inocência em partes compactuava com estas ideias, não conscientemente mais quase que seguindo sem questionamento racional o senso comum a respeito do capitalismo. Até que despertei do estado "Walking dead" de ser e busquei a coerência entre a realidade que me é apresentada no meu dia a dia de mulher independente e perspicaz e as crenças e ideologias que eu carregava na minha mente tão livre e tão enclausurada ao mesmo tempo por não ter a capacidade de me questionar nos valores que me trouxeram até aqui. Hoje estou liberta de vitimizações e dependências e mendicância por reconhecimentos e valores imerecidos. A sensatez me alcançou na esquina antes de eu dobrar a esquerda, a lucides me apontou à direita. Para minha grata surpresa eu percebi ainda em tempo que o sistema capitalista não obriga ninguém a ser ou a ter nada que não seja por livre escolha e vontade. É uma grande plataforma onde escolhemos entre as infinitas possibilidades qual o caminho a seguir, o que ser e o que ter tão livre de amarras que se eu escolher que catar lixo na rua é suficiente para minhas singelas ambições está de bom tamanho ou ser uma alta executiva do mundo competitivos da reciclagem também é justo. Temos no capitalismo um leque de oportunidades capaz de atender a todos da forma mais democratizada possível. Sempre busquei e busco a coerência entre o meu pensar e o meu proceder na minha vida e algo realmente não se encaixava quando por alguns momentos eu identifiquei em mim a incoerência em renunciar o meu senso de crescimento pessoal por acreditar que neste mundo injusto todos deveriam ser iguais, mas hoje eu sei que o que realmente faz a vida ser justa é a capacidade de sermos provedores do nosso bem estar aproveitando as oportunidades que somente o sistema capitalista é capaz de proporcionar.

  13. Leandro, o que acha dessa definição de livre mercado?

    “Senhores, vamos estipular um entendimento básico. Já escrevi sobre isso antes mas noto que há uma necessidade constante de relembrar isso.

    .

    Preparados? Então lá vai a revelação:

    .

    NÃO EXISTE LIVRE MERCADO!

    .

    Ao menos, não do modo como vocês imaginam. Mercado é o ambiente de trocas de necessidades. Você vende e compra aquilo que alguém precisa. Se você compra um produto ou serviço, é porque naquele momento você precisa dele. Se você vende, é porque você precisa daquilo que o comprador lhe dá em troca. No passado estas trocas de necessidades eram diretas: via escambo. Hoje, é via preços e sistema financeiro.

    .

    Se mercado é o ambiente onde necessidades são trocadas, então “livre mercado” é onde todo tipo de necessidades são sanadas sem nenhuma regra ou pudor. Ou seja, livremente. Todas! Se quer ter uma ideia do que é isso, visite a Deep Web.

    .

    Quando falamos de liberdade de mercado no LIBERALISMO CLÁSSICO, estamos falando da liberdade de se vender e comprar tudo aquilo que o ESTADO DE DIREITO permite. Ou seja, aquilo que está de acordo com a vida, a liberdade e a propriedade dos indivíduos. Aquilo que está de acordo com os direitos humanos e assim por diante. Isso já é uma limitação de mercado imensa. Imagine quantos mercados que ferem a vida, a liberdade e a propriedade não foram coibidos por conta disso?

    .

    É o estado interferindo e dizendo o tipo de produto e/ou serviço que se pode ofertar e demandar. Por isso o liberal clássico é aquele que, antes de defender a liberdade de mercado, defende uma ÉTICA. Sem esta ética, não tem como existir liberdade de mercado. E para que esta ética exista, é importante que também exista um estado com poder coercitivo suficiente para impor esta ética.

    .

    O liberalismo clássico CRIOU o conceito de livre mercado a partir disso. A ideia de liberdade de mercado não brotou do nada. Surgiu de uma concepção de estado e de sociedade. O papel do liberal clássico não é o de defender um conceito menor do liberalismo. Sim, o mercado é um conceito menor no liberalismo. Pequeno, diante da constelação de conceitos que o liberal defende. O liberal clássico defende toda a coisa! E “toda a coisa” é: liberdade individual + estado de direito + mercado liberal = liberalismo clássico.

    .

    Para mais informações sobre isso, leia este artigo de ponta a ponta. E irá compreender porque os libertários e minarquistas pecam ao defender, sem freio algum, o “livre mercado”. “

  14. Estava lendo o artigo e os comentários. Comecei a estudar Liberalismo recentemente e só tenho a agradecer as pessoas que postam aqui. Realmente é uma aula.

    É fácil enxergar que o modo como as coisas são feitas no Brasil estão totalmente erradas, é difícil progredir quando não temos praticamente nada a nosso favor.

  15. LUCRO É ROUBO;SE UMA PROPRIEDADE PRIVADA DE RECURSOS ESCASSOS GANHOU MAIS DO QUE PERDEU EM CIMA DO TRABALHO DE OUTRA PROPRIEDADE PRIVADA DE RECURSOS ESCASSOS,OU SEJA ÉLA ROUBOU OS RECURSOS ESCASSOS DAQUELA PROPRIEDADE PRIVADA,OU SEJA LUCRAR É ROUBAR E DESVALORIZAR A OUTRA PROPRIEDADE PRIVADA.

  16. Boa tarde. Tudo bem? Sou nova nesses assuntos e estou buscando informações sobre o Liberalismo e o Livre Mercado. Gostaria de saber como a economia de um país, estado ou cidade seria afetado se seus consumidores começassem a trocar um serviço pelo outro sem trocar o dinheiro propriamente dito. Um exemplo: uma faxineira troca diárias de faxina em troca de bolo de casamento para filha. A faxineira se beneficia por receber um bolo que, talvez, não tivesse condições de comprar e a confeiteira se beneficia por uma faxina que teria que pagar. A longo prazo, se esse modelo de troca fosse adotado por alguns, qual seria o impacto econômico?

  17. Estou com uma duvida e gostaria de saber se exclusividade é considerado livre mercado ? Por exemplo eu tenho um contrato de exclusividade com uma empresa. Eu não posso vender para outra empresa. Então fico preso e dependente de da empresa do contrato. Isso ainda pode ser considerado livre mercado ?

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