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O tempo da simpatia: Adam Smith e a confiança como valor

Nota da edição:

Este artigo é a publicação do 18º capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.

Confira também o 17º capítulo


“Por mais egoísta que o homem possa ser suposto, há evidentemente alguns princípios em sua natureza que o interessam pela sorte dos outros.”
— Adam Smith, The Theory of Moral Sentiments, I.I.1 (1759)

Adam Smith é frequentemente lembrado como o fundador da economia moderna, o autor de A Riqueza das Nações e da célebre metáfora da “mão invisível”. Mas antes de ser economista, Smith foi filósofo moral. E é em A Teoria dos Sentimentos Morais, publicada em 1759, que se encontra o núcleo mais profundo de seu pensamento: uma filosofia da convivência humana que antecede qualquer teoria do mercado.

O Smith que nos interessa aqui não é o arquiteto das trocas, mas o observador do tempo humano. Antes de falar de mercadorias, falou de sentimentos. Antes de preços, de juízos. O que ele chamou de simpatia, termo hoje frequentemente substituído por “empatia”, não designa mera emoção benevolente, mas um mecanismo temporal da vida moral. Simpatizar é sair de si, projetar-se no outro, antecipar reações e ajustar o próprio gesto. É, em sentido rigoroso, viver no tempo do outro.

Em Smith, a moral é movimento. Não existe ação moral isolada, porque toda ação humana supõe um espectador imaginário, aquele que observa, julga e confere sentido ao que fazemos. Esse espectador não está fora do tempo. Ele é o futuro interiorizado, a antecipação do olhar alheio que pesa sobre o presente. Quando Smith fala do “espectador imparcial”, fala de uma consciência que mede o agora à luz do depois, e o interesse próprio à luz da reciprocidade.

A simpatia, assim compreendida, é o primeiro mecanismo espontâneo da ordem social. Ela não nasce do contrato, nem da lei, nem do cálculo político. Nasce do tempo compartilhado. O homem aprende a confiar quando aprende a esperar, a ouvir, a imaginar-se no lugar do outro. A confiança não é instinto, é aquisição moral. É uma obra lenta, construída no intervalo entre ações.

Por isso, A Teoria dos Sentimentos Morais é, antes de tudo, uma filosofia do intervalo. Entre o impulso e o ato há o juízo. Entre o desejo e o gesto há a ponderação. Entre o eu e o outro há o tempo necessário para compreender. Esse intervalo sustenta toda possibilidade de convivência e, mais tarde, toda forma de economia. A “mão invisível”, tão frequentemente mal compreendida, não é um princípio místico do mercado, mas a expressão simbólica da harmonia que emerge quando múltiplos tempos humanos se ajustam sem comando central.

Smith não via oposição entre moral e mercado. Via continuidade. A ordem econômica é a ampliação da ordem afetiva. Aquilo que se aprende no convívio moral se projeta nas trocas. O comerciante que cumpre sua palavra, o trabalhador que respeita um prazo, o poupador que investe no futuro, todos participam de uma ética do tempo fundada na simpatia. Agir economicamente é agir moralmente dentro do tempo, respeitando o próprio devir e o de outrem.

Assim, A Teoria dos Sentimentos Morais não é um prefácio à Riqueza das Nações, mas seu fundamento invisível. Antes da riqueza, há o vínculo. Antes da troca, o reconhecimento. Antes do lucro, a confiança. A simpatia é o primeiro capital humano, sem o qual nenhum outro se sustenta.

Adam Smith não descreveu o homem como agente racional isolado, mas como ser temporal, social e sensível. Sua economia nasce da capacidade de esperar, de prever e de respeitar. A liberdade, para ele, não é ausência de vínculos, mas domínio sobre o próprio tempo interior, disciplinado pela consciência do outro.

O tempo, que em Hobbes era medo e em Locke prudência, em Smith torna-se compasso. É o ritmo silencioso da convivência humana. Nele o homem encontra o outro e, ao mesmo tempo, encontra a si mesmo refletido. Quando dois tempos se ajustam, nasce a confiança, essa forma discreta de permanência que sustenta a vida entre os homens.

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