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A razão de troca entre o futuro e o presente

Nota da edição:

O artigo a seguir é uma resenha do livro O preço do tempo: a verdadeira história dos juros de Edward Chancellor.


Marx e Keynes compartilhavam, ainda que por caminhos distintos, a expectativa de que o aspecto rentista do capitalismo seria gradualmente superado. Como observa Roger Garrison, “Keynes visualizava uma transição gradual, enquanto Marx clamava por uma revolução”. Essa visão parte da premissa de que taxas de juros elevadas favoreceriam uma classe rentista em detrimento da produção. Edward Chancellor, entretanto, segue direção oposta.

Em O preço do tempo: a verdadeira história dos juros, o autor sustenta que a crescente desigualdade observada nas últimas décadas decorre justamente da manutenção artificial de taxas de juros extremamente baixas. Em vez de democratizar o acesso ao crédito e estimular investimentos produtivos, essa política monetária acabou beneficiando principalmente aqueles que já possuíam patrimônio e acesso privilegiado aos mercados financeiros.

A obra percorre a história das taxas de juros desde a Antiguidade até os dias atuais, dedicando especial atenção à crise financeira de 2008 e ao longo período de juros próximos de zero, e até negativos em algumas economias, que marcou a década seguinte.

Segundo Chancellor, a desigualdade patrimonial nos Estados Unidos intensificou-se após a crise das hipotecas subprime. Milhões de famílias passaram a possuir imóveis cujo valor de mercado era inferior ao saldo devedor de suas hipotecas depois do estouro da bolha imobiliária. Enquanto, durante o período de expansão econômica (boom), os lucros permaneceram privatizados, após o colapso (bust) os prejuízos foram amplamente socializados por meio da intervenção estatal e das políticas monetárias expansionistas.

Na interpretação do autor, a crise de 2008 foi consequência direta da política de “dinheiro fácil” adotada pelo Federal Reserve após o estouro da bolha das empresas pontocom, em 2000, e dos atentados de 11 de setembro de 2001. Sob a presidência de Alan Greenspan, o banco central norte-americano reduziu agressivamente as taxas de juros e as manteve artificialmente baixas durante vários anos. Esse ambiente de crédito abundante estimulou uma expansão desordenada do mercado imobiliário, incentivou o aumento do endividamento das famílias e alimentou uma bolha especulativa que, inevitavelmente, entrou em colapso alguns anos depois.

Uma das comparações mais interessantes do livro é a analogia feita com o filme O Show de Truman. Chancellor argumenta que as economias modernas passaram a funcionar como um grande ambiente artificialmente controlado pelos bancos centrais. Em suas palavras, passamos a viver em um mundo de “taxas de juros falsas, economia falsa, empregos falsos e políticos falsos”. A metáfora sintetiza a ideia de que os preços fundamentais da economia deixaram de ser determinados pelas forças de mercado e passaram a ser manipulados pelas autoridades monetárias.

O autor também chama atenção para a aparente recuperação econômica dos Estados Unidos após a crise financeira. Em 2018, a taxa de desemprego atingiu o menor nível em aproximadamente cinquenta anos. Todavia, Chancellor argumenta que esse resultado era menos promissor do que aparentava.

A maior parte dos novos postos de trabalho oferecia remuneração significativamente inferior à dos empregos perdidos durante a crise. Além disso, ajustada pela inflação, a renda das famílias de menor poder aquisitivo permanecia inferior às observadas décadas antes. Paralelamente, cerca de três quartos dos norte-americanos viviam de salário em salário, sem capacidade de formar poupança ou enfrentar imprevistos financeiros.

Segundo Chancellor, juros artificialmente baixos dificultam a formação de patrimônio pelas famílias comuns. Com retornos cada vez menores sobre aplicações conservadoras, poupar para a aposentadoria torna-se um processo lento e pouco atrativo. Em contrapartida, investidores que já possuem grandes volumes de capital conseguem ampliar continuamente seu patrimônio utilizando crédito barato para adquirir ativos financeiros e imobiliários. O resultado é o aumento progressivo da concentração de riqueza e do hiato patrimonial entre ricos e pobres.

Ao contrário da interpretação predominante entre muitos economistas, que atribuem a estagnação da produtividade e o aumento da desigualdade a fatores como tecnologia, globalização, mudanças demográficas ou elevada carga tributária, Chancellor sustenta que parte significativa desses problemas decorre da manutenção de taxas de juros excessivamente baixas.

Para reforçar sua tese, o autor cita uma carta publicada no Financial Times pelo banqueiro Yves-André Istel, da família Rothschild. Segundo Istel, a redução contínua das taxas de desconto elevou significativamente o valor presente das ações, dos imóveis e dos títulos públicos. A abundância de liquidez estimulou a alavancagem financeira, facilitou empréstimos de baixo custo e ampliou o preço dos ativos. Como consequência, os principais beneficiários foram justamente aqueles que já eram proprietários desses ativos, ampliando ainda mais a desigualdade patrimonial.

Nesse ponto, Chancellor retoma uma antiga observação de Frédéric Bastiat: os pobres dificilmente são beneficiados pelo dinheiro fácil. Na era dos juros próximos de zero, a elite financeira foi quem mais se beneficiou das políticas expansionistas implementadas pelo Federal Reserve. O acesso privilegiado ao crédito barato permitiu que grandes investidores ampliassem suas fortunas por meio da alavancagem financeira justamente em um período no qual os ativos eram continuamente valorizados pelas políticas monetárias dos bancos centrais.

Além disso, juros artificialmente baixos elevam substancialmente o preço dos ativos existentes, criando uma barreira quase intransponível para aqueles que ainda não acumularam patrimônio. Comprar uma casa, iniciar um empreendimento ou construir uma reserva financeira torna-se progressivamente mais difícil quando imóveis, ações e outros ativos valorizam-se muito mais rapidamente do que os salários.

Um dos argumentos mais contundentes da obra refere-se à resposta das autoridades monetárias à crise financeira de 2008. Chancellor afirma que a prioridade do Federal Reserve não foi reestruturar a economia produtiva, mas restaurar rapidamente a estabilidade do sistema financeiro. O banco central inundou os mercados com liquidez por meio de sucessivos programas de flexibilização quantitativa (Quantitative Easing), adquirindo grandes volumes de ativos financeiros e reduzindo drasticamente as taxas de juros. Embora tais medidas tenham evitado um colapso sistêmico imediato, seus maiores beneficiários foram justamente os grandes bancos, as corporações e os investidores mais bem relacionados em Wall Street.

Após a falência do Lehman Brothers, os bancos centrais reduziram as taxas de juros aos menores níveis registrados em aproximadamente cinco milênios de história financeira. Em alguns países europeus e no Japão, os juros chegaram a ser negativos.

Paralelamente, os programas de compra de ativos expandiram de maneira extraordinária a base monetária. Embora os bancos centrais comemorassem a redução do desemprego e o afastamento do risco de deflação, Chancellor sustenta que essas políticas apenas adiaram os ajustes inevitáveis da economia, ampliando desequilíbrios que seriam sentidos posteriormente.

Com o crédito extraordinariamente barato, grandes corporações passaram a captar recursos a custos mínimos, aumentando sua capacidade de recomprar ações, adquirir concorrentes e expandir operações financeiras. Ao mesmo tempo, investidores foram incentivados a assumir riscos cada vez maiores em busca de rentabilidade, alimentando novas bolhas nos mercados de ações, imóveis e títulos. Em vez de direcionar recursos para investimentos produtivos capazes de elevar a produtividade da economia, o dinheiro barato passou a impulsionar principalmente a valorização dos ativos financeiros já existentes.

Mais do que uma história sobre juros, O preço do tempo é um convite para repensar o funcionamento das economias modernas e os efeitos, muitas vezes invisíveis, das decisões de política monetária. Concorde-se ou não com Edward Chancellor, sua argumentação desafia interpretações convencionais sobre desigualdade, crescimento econômico e estabilidade financeira, oferecendo uma perspectiva instigante sobre um dos preços mais importantes da economia: o preço do tempo.

Em um momento em que o mundo volta a discutir inflação, juros elevados e o papel dos bancos centrais, a leitura da obra torna-se ainda mais relevante. Para economistas, investidores, formuladores de políticas públicas ou qualquer pessoa interessada em compreender as forças que moldam a economia contemporânea, este é um livro que merece estar na lista de próximas leituras. Afinal, entender como o preço do tempo influencia o presente talvez seja um dos primeiros passos para compreender o futuro.

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