Em parceria com o Instituto Mises Brasil, o Students For Liberty Brasil (SFLB) lançou um concurso de artigos com o tema “Copa do Mundo de 2026“, com o objetivo de incentivar a produção intelectual dos coordenadores da organização.
O concurso buscou artigos nos quais os alunos selecionassem um tema ligado ao mundo do futebol e o relacionassem a algum aspecto de política, economia, direito ou história.
O artigo abaixo foi um dos mais destacados do concurso.
Você acha errado comprar uma camisa da seleção não original no Brás? Pergunte para as pessoas ao seu redor. A resposta vai ser não.
Mas, mesmo assim, a cada Copa do Mundo, o estado aparece com a mesma novela. Dessa vez, a novela se chama “Operação Desvio de Rota”. No dia 18 de maio, a Receita Federal foi ao Brás, fechou dois shoppings — o Shopping 25 Brás e o Stunt —, mobilizou 95 servidores e anunciou até R$ 300 milhões em mercadorias apreendidas.
Essa história já aconteceu antes: 2012, 2014, 2017. Muda o ano, muda a operação, mas o roteiro continua igual. Repórteres. Câmeras. Declarações firmes sobre “combate à pirataria”. Cerca de 2 mil lojas paralisadas. E a sensação de sempre: agora vai.
Só que não vai.
O estado entra. Apreende. Faz discurso. Mostra número grande. E depois tudo volta ao lugar. A pirataria não acaba. A camisa da seleção continua circulando.
Talvez a pergunta não seja: “É errado comprar camisa pirata?” Mas outra: por que o estado ainda finge controlar um problema que nunca conseguiu resolver?
A camisa não é só uma camisa
Isso vai além de uma questão política ou econômica. É uma questão de identidade. Virginia Postrel, escritora e crítica cultural, argumenta em The Substance of Style que a estética não é uma futilidade separada da vida real. Querer vestir a camisa da seleção é algo bem diferente de qualquer outro tipo de roupa: nela existe pertencimento, identidade e significado.
Mas existe um detalhe que não dá para ignorar: a camisa oficial virou um artigo caro. Em 2026, na loja da Nike, a versão torcedor da camisa do Brasil aparece por R$ 449,99, e a versão jogador por R$ 749,99. Num país em que o salário-mínimo é de R$ 1.621, isso significa que uma camisa de torcedor custa quase 28% de um salário-mínimo.
Nós mortais, que também queremos sentir a onda da Copa do Mundo, mas não queremos gastar fortunas, compramos as famosas “tailandesas 1:1”. Elas são iguais no design — e, às vezes, até melhores em qualidade.
Para burlar o sistema, os vendedores online simplesmente apagam a logo na foto principal do anúncio. Porém, nas fotos secundárias, aparece, dá para perceber que o design é justamente aquele que estamos procurando, e são vendidas ao redor de R$100.
Então as pessoas sempre acham um jeito de contornar o sistema e o governo, ainda mais quando o objetivo é belo e moral, como torcer pela seleção brasileira.
O estado só controla o que o convém
E por que isso acontece sempre?
Imagina se o governo não consegue lidar nem com a verdadeira criminalidade, num país onde ele não controla a distribuição de drogas, cigarro paraguaio e um enorme etc. de coisas que o estado tem o “dever” de controlar. Seriamente: o governo tem capacidade de controlar, além de tudo isso, a pirataria?
James C. Scott ajuda a entender esse processo. Em Seeing Like a State, ele mostra como o estado tenta tornar práticas locais mais legíveis e administráveis. Só que o comércio popular, o Brás, a 25 de Março e os vendedores online funcionam justamente porque são móveis, informais, descentralizados e difíceis de capturar.
Para acabar com a pirataria de verdade, o governo precisaria controlar vendedores, lojas físicas, anúncios online, pagamentos, estoques e até as fotos secundárias de um anúncio. Ou seja: para “proteger” as marcas, teria que invadir cada vez mais a vida cotidiana das pessoas.
Frédéric Bastiat escreveu sobre como a lei pode ser pervertida quando deixa de impedir injustiças e passa a funcionar como instrumento de privilégio legal. Em A Lei, ele critica exatamente esse uso da força pública para favorecer alguns grupos sob aparência de justiça.
Se o estado diz que tem obrigação de combater a pirataria, então teria que combater toda a pirataria — não apenas a que está em alguns shoppings específicos, em uma data específica, com câmera ligada e coletiva de imprensa. Por que aqueles shoppings? Por que naquele momento? Quem se beneficiou disso?
Um mês antes dessa operação, a própria Receita Federal, deflagrou uma operação contra um esquema de corrupção na fiscalização aduaneira. O mesmo estado que aparece no Brás para apreender mercadoria de lojista tinha, ao mesmo tempo, servidores investigados por facilitar a entrada irregular de bilhões em mercadorias pelo porto.
Podemos ver que quem se beneficia dessas operações é a própria indústria do contrabando, porque as mercadorias apreendidas precisarão ser repostas. Beneficiam-se os agentes corruptos da alfândega. Beneficiam-se os comércios ao redor, porque a demanda não desaparece — ela apenas muda de lugar.
E quem foi prejudicado? Os lojistas daquele shopping e os consumidores. Ou seja: a lei não vale igual para todo mundo. Aqui está a resposta à pergunta: o estado decidiu continuar combatendo a pirataria porque existem estruturas que lucram com a sua proibição.
A presunção de liberdade
Mas, e a propriedade intelectual? Como se protege o designer do uniforme da seleção brasileira e seus investidores?
Primeiro, todas essas questões partem do suposto de que já hoje aquela lei realmente está protegendo a propriedade intelectual. Porém, como podemos enxergar na realidade, afirmar isso é bem questionável.
Será que, num mundo onde a pirataria não fosse proibida, existiria um equilíbrio onde ninguém fosse prejudicado? Aqui nos deparamos com o problema do contrafactual. Não existe forma de observar simultaneamente dois mundos diferentes: um onde a pirataria é proibida e outro onde ela é livre. Acontece que, antes das leis antipirataria existirem, elas NÃO EXISTIAM. Sem dúvida, teve uma primeira vez que algum funcionário do estado chegou em um comerciante para proibi-lo de trabalhar, alegando algum dano a terceiros.
Como mostra Anthony de Jasay, o estado não é uma entidade neutra procurando a verdade; ele tem seus próprios fins e precisa fazer esses fins parecerem legítimos. Primeiro vem a imposição. Depois vem a justificativa. Pior: o governo primeiro impõe, dá a desculpa, e somos nós que devemos comprovar que ele é que está errado. Isso é inversão do ônus da prova.
Na linha da “presunção de liberdade” de Rui Barbosa, numa sociedade livre, o ponto de partida é a liberdade. Qualquer restrição a essa liberdade precisa ser justificada por quem quer impô-la — não por quem quer ser livre. Não é o comerciante do Brás que precisa provar que a “tailandesa” não prejudica ninguém. É o estado que precisa provar que prejudica — e que a repressão resolve.
Números grandes não são prova
Mas o estado realmente comprovou com fatos que sua ação está certa?
Por mais que as notícias digam que foram confiscados R$ 300 milhões em mercadorias, isso não pode ser comparado com um cenário sem leis antipirataria. Parece muito, mas muito em relação a quê? As pessoas que leem essas manchetes deveriam se fazer a pergunta: “isso representa quanto do problema total?”
Segundo o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), em 2024, o mercado ilegal de vestuário foi estimado em R$ 87,36 bilhões, e o de material esportivo em R$ 23,3 bilhões. Frente a isso, os R$ 300 milhões que a Receita esperava apreender representam cerca de 0,34% do mercado ilegal de vestuário ou 1,29% do mercado ilegal de material esportivo.
A mesma desproporção aparece quando olhamos especificamente para as camisas de futebol. Segundo dados informados pela Receita Federal ao UOL, antes da Copa a amostragem divulgada já somava mais de 965 mil camisas falsificadas apreendidas. O próprio órgão afirmou que esse número era apenas uma fração das apreensões feitas nos últimos meses, dentro de mais de 100 operações relacionadas ao combate à pirataria.
Parece muito. Mas, de novo: muito em relação a quê?
Uma pesquisa da Ápice/IEMI, estimou que, em 2025, foram comercializadas 18,1 milhões de camisas de futebol falsificadas no Brasil. Para 2026, por causa da Copa do Mundo, a projeção era de crescimento de pelo menos 50%, superando a marca de 30 milhões de unidades. Ou seja: essa amostra parcial de quase 1 milhão de camisas apreendidas equivale a pouco mais de 3% da projeção anual para o ano da Copa.
O estado não consegue demonstrar como seria um mundo sem lei antipirataria. E, no mundo com lei antipirataria, cada operação só faz o governo passar vergonha quando comparada quantitativamente.
Onde está a agressão?
A realidade é que, na linha de Rothbard, a propriedade intelectual funciona como uma ficção legal.
A propriedade, no sentido ético forte, só faz sentido sobre algo material, escasso e delimitável no tempo e no espaço. Uma casa ocupa um lugar. Uma camisa ocupa um lugar. Um tecido ocupa um lugar. Se eu tomo sua camisa, você fica sem ela.
Mas uma ideia abstrata, um logotipo, um desenho ou um padrão visual não funcionam assim. Se alguém copia um desenho, ele não arranca aquele desenho da mente do criador. Não tira o arquivo original. Não toma o tecido dele. Não rouba as modelagens. Não leva sua máquina de costura.
Ele usa outro tecido, outra máquina, outra costureira, outro fornecedor e outro trabalho para produzir algo parecido, talvez até indistinguível. Porém, não é a mesma peça de roupa.
Então onde exatamente está a agressão?
Se houve engano, o problema é fraude. Se o consumidor achou que estava comprando uma original e foi enganado, há uma vítima clara. Mas, se todo mundo sabe que aquela camisa é do Brás, se ninguém foi enganado, se a pessoa quer justamente uma “tailandesa” mais barata, então o conflito ético desaparece.
E as pessoas já sentem isso, mesmo sem saber teoria. Pergunte a qualquer pessoa ao seu redor se ela acha errado comprar uma camisa no Brás. A resposta provavelmente vai ser não.
O instinto já chegou onde a teoria chega. E esse é o ponto principal de por que o estado não consegue regulamentar a pirataria de verdade.
No fundo, não se está violando nenhum princípio ético evidente. As pessoas estão fazendo trocas voluntárias. Um quer vender. O outro quer comprar. Ninguém está sendo enganado. Ninguém está sendo roubado.