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O caminho turco

Nota da edição:

A Turquia entra em campo hoje na Copa do Mundo, uma boa oportunidade para revisitar um dos exemplos mais conhecidos de inflação e desvalorização monetária dos últimos anos. Publicado originalmente em 2022, este artigo analisa os efeitos da política monetária adotada pelo governo turco e seus impactos sobre a população


O Wall Street Journal noticiou em 22 de setembro de 2022 que o banco central da Turquia reduziu a taxa básica de juros do país de 13% para 12%, pressionando a lira turca para baixo em até 0,4% frente ao dólar e levando-a a uma nova mínima histórica após a decisão. Recentemente, um dólar americano comprava 18,3866 liras.

O banco do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan tomou essa medida na semana seguinte ao décimo sexto evento anual da Property and Freedom Society, promovido pelos Drs. Hans e Gülçin Hoppe, realizado na próspera Bodrum, cidade portuária às margens do mar Egeu que já teve uma população de verão de 170 mil habitantes e que desde então cresceu para 700 mil.

Um participante da conferência, observando que Bodrum estava movimentada, dirigiu aos palestrantes do painel de sábado uma pergunta que, em essência, era a seguinte: “Por que não seguir o caminho turco? [referindo-se à inflação, cuja taxa oficial ultrapassava 80%, mas cuja taxa real estava mais próxima de 170%]. Não há rebeliões nas ruas”.

Após algumas respostas pouco incisivas, Thorsten Polleit respondeu de forma categórica ao interlocutor: “A inflação destrói o homem comum”. A impressora de dinheiro do governo destrói toda uma vida de poupança de um indivíduo, ao mesmo tempo que devasta o capital de um país.

Como todo inflacionista contumaz, o ditador turco atribui a culpa a outros fatores. Erdoğan culpa “tramas fictícias envolvendo moedas na internet” por sua desvalorização monetária e afirma repetidamente que juros altos causam mais inflação de preços. Segundo Erdoğan, as taxas de juros são “a mãe e o pai de todos os males”.

É questionável se Erdoğan recebeu alguma formação em administração ou economia. No ensino médio, ele “destacava-se por suas habilidades de oratória, desenvolvendo uma inclinação para falar em público e se sobressaindo diante de uma plateia. Ficou em primeiro lugar em uma competição de declamação de poesia”.

O barbeiro Omar Akar forneceu a este autor um relato em primeira mão sobre a inflação, por intermédio do guia e tradutor Jay Baykal, ao mesmo tempo que oferecia um maravilhoso e indispensável corte de cabelo turco.

A loja impecavelmente limpa de Omar, localizada na região portuária de Bodrum, era uma operação de um homem só naquela manhã de sábado. Ele não mantinha sobre o balcão nenhum dos instrumentos e produtos normalmente utilizados na profissão. A inflação levou ao aumento dos furtos e roubos. Embora tenha conseguido dobrar o preço de um corte de cabelo, seus custos aumentaram 400%. Sua conta de energia elétrica, por exemplo, subiu entre 10% e 15% a cada mês neste ano, até registrar um salto de 50% no mês passado.

Um corte de cabelo turco é um verdadeiro luxo para um homem e, por quinze dólares, fui tratado como uma Kardashian, até mesmo aquela que lançou uma empresa no setor de private equity. Só de olhar para o pequeno recipiente envolto em papel-alumínio, cheio de cera cor de chiclete usada para arrancar pelos de lugares onde os barbeiros americanos se recusam a mexer, minhas orelhas já começaram a formigar.

No passado, os barbeiros turcos costumavam ter um aprendiz, que varria o chão atrás do mestre das tesouras, lavava cabelos e realizava outras tarefas enquanto aprendia um ofício que lhe garantiria sustento por toda a vida. Omar nos contou que ninguém mais aceita vagas de aprendiz porque o governo obriga os potenciais barbeiros a permanecerem mais anos na escola. Ele próprio começou como aprendiz depois de abandonar os estudos.

Omar tem um cliente belga, caminhoneiro, que dirige até Bodrum apenas para cortar o cabelo com ele. Segundo ele, recebe propostas para abrir barbearias em vários países europeus, mas prefere permanecer em Bodrum. Em outras partes da Europa, o negócio é mais arriscado, pois muitos maridos recrutam suas esposas para cortar seus cabelos, um exemplo de como a inflação destrói a divisão do trabalho.

O preço do ingresso para as ruínas de Afrodísias aumentou de 24 liras para 70 liras neste ano, uma alta de 192%, como revelava a etiqueta de preço parcialmente removida. Nosso guia, o Sr. Baykal, puxou conversa com um guarda de aparência robusta na entrada do museu. O guarda disse que havia recebido reajustes salariais que somavam 68% neste ano, mas que continua permanentemente afundado em dívidas. Gostaria de comprar uma casa, mas não consegue enxergar como algum dia conseguirá pagar por isso. Como sempre acontece, os salários jamais acompanham a inflação de preços.

Em seu novo livro, The Price of Time: The Real Story of Interest Rates [O Preço do Tempo: A Verdadeira História das Taxas de Juros, em tradução livre], Edward Chancellor inclui a Turquia contemporânea em sua narrativa a partir da observação de que “quando os Estados Unidos adotam uma política monetária expansionista, desencadeiam uma ‘praga monetária global’”.

Chancellor escreve que o império de Erdoğan se juntou ao restante do mundo em uma bolha imobiliária alimentada por dinheiro fácil. “Um importante corretor imobiliário de Istambul chamou [o mercado imobiliário] de um ‘grande esquema Ponzi’”.

Em um artigo publicado em julho para a Mansion Global, India Stoughton abriu o texto afirmando que “os preços dos imóveis na Turquia subiram acentuadamente desde o início da pandemia, ‘ultrapassando a rara marca dos três dígitos’, com crescimento nominal de 110% no ano encerrado em março, o mais elevado entre todos os países, segundo o Knight Frank Global House Price Index do primeiro trimestre. Istambul registrou um crescimento nominal ainda maior, de 122%”.

Mas logo em seguida acrescentou: “A inflação galopante torna esses números um pouco mais difíceis de interpretar.”

Sim, o caminho turco: complicado para os ricos, desastroso para o homem comum.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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