Nota da edição:
A Bósnia estreia hoje na Copa do Mundo. A ocasião também serve para recordar que foi em Sarajevo que ocorreu o atentado que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Neste artigo, o autor explora alguns dos legados políticos e econômicos deixados por esse período turbulento da história do país.
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Pobre Bósnia. O desemprego está acima de 44% há meses [Nota da edição: O artigo original foi publicado em 06 de junho de 2014, logo, os dados de desemprego são desta época. A título de curiosidade, os dados mais recentes da taxa de desemprego da Bósnia que temos atualmente apontam para uma taxa menor de 11,1% ao final do 4° trimestre de 2025]. A independência (desde 1992) trouxe guerra civil; um enorme número de mortes relacionadas à guerra, à invasão e à violência étnica (costuma-se citar cerca de cem mil mortos); uma economia “mista”; um governo grande; capitalismo de compadrio.
Em fevereiro de 2014, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o nível de fome em um país que produz alimentos para exportação. As autoridades afirmam que a economia representa um sistema em transição do antigo estado comunista iugoslavo. Mas as pessoas nas ruas perguntam: “Transição de quê para quê?” e “Quanto tempo uma transição pode durar?”. Eis o resultado das aspirações de um grupo de jovens bósnios (que de fato se autodenominavam Jovens Bósnios) no verão de 1914.
Refiro-me, é claro, àqueles jovens que se envolveram como assassinos no plano de alguns funcionários sérvios de usar o “nacionalismo” bósnio como instrumento para expulsar os austríacos da Bósnia. A Áustria-Hungria passou a controlar a Bósnia após a Guerra Russo-Turca da década de 1870, mas apenas como potência ocupante. Os austríacos tinham boas intenções: disponibilizar terras aos camponeses desesperados, estabelecer uma moeda estável e criar condições de ordem que tornassem o investimento na região atrativo. Mas, ao longo dos trinta ou quarenta anos seguintes, a política imperial, especialmente as questões ligadas à política interna húngara, impediu muitas dessas melhorias. E, na prática, grande parte dos investimentos que ocorreram seguiu o mesmo padrão dos investimentos coloniais característicos do imperialismo europeu ultramarino: empreendimentos empresariais baseados em relações corruptas com o governo, projetos ferroviários destinados a moldar o “desenvolvimento” de acordo com objetivos políticos, a tendência do estado de utilizar recursos para favorecer grupos corruptos aliados ao poder e a pressão sobre empreendedores locais por meio de leis de licenciamento e impostos.
Assim, a economia se desenvolveu, mas de uma forma que os manifestantes do Occupy Wall Street teriam compreendido perfeitamente. Os Jovens Bósnios (na realidade, apenas Gavrilo Princip e mais alguns adolescentes simpatizantes da causa sérvia) viam a Áustria-Hungria como a principal responsável pelo desrespeito aos bósnios comuns, algo evidente para a maioria das pessoas. Por isso, quando a organização Mão Negra quis “treinar” esses jovens para um grande ataque contra o Império Habsburgo, muitos deles se dedicaram intensamente ao treinamento, disparando pistolas contra carvalhos, rastejando por arbustos e assim por diante.
Esse tipo de coisa estava cada vez mais em voga, da Irlanda aos Bálcãs, naquele período. Jovens com alguma instrução, um sistema concebido para institucionalizar o desrespeito, a ideia do assassinato como sacrifício, alguma orientação e financiamento vindos de figuras influentes (normalmente burocratas) com objetivos muito diferentes daqueles do simples sacrifício local. O restante da história é bem conhecido. O 112° aniversário da missão bem-sucedida de Princip ocorre mais tarde neste mês no dia 28 de junho.
Quão ruim foi a Áustria-Hungria para a Bósnia? Bem, a economia mista burocrática introduzida pelos burocratas austro-húngaros e pelos capitalistas corruptos provavelmente melhorou as condições em alguns aspectos, mas também destruiu hábitos anteriores de troca dentro das economias locais por meio dos mecanismos habituais de intervenção econômica e de perturbação do mercado. Somente o Monopólio Imperial do Tabaco deve ter tido um impacto substancial entre esse povo com um forte hábito de fumar.
Qual foi o legado de Princip? (Além da Primeira Guerra Mundial, quero dizer.) Bem, sob a Iugoslávia, vieram vinte anos de políticas econômicas hiperestatistas que venderam a riqueza mineral do país em benefício do estado, os horrores sem atenuantes da Segunda Guerra Mundial, Tito e seu grupo de comunistas “independentes” e, depois, como vimos acima, a “transição”. Pobre Bósnia.
Mais uma observação antes de concluir: o principal investidor estrangeiro na Bósnia hoje é a Áustria [Nota da edição: Segundo dados mais recentes, a Croácia foi a principal investidora estrangeira na Bósnia em 2024 apesar da participação da Áustria ainda ser significativa].
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.