
Karl Marx acreditava que as máquinas acabariam transformando os trabalhadores em algo descartável. Em O Manifesto Comunista, Marx e Engels escreveram que o trabalho industrial já havia reduzido o trabalhador a “um mero apêndice da máquina”. Em O Capital, Marx argumentou que o maquinário criaria um permanente “exército industrial de reserva” de trabalhadores desempregados. À medida que a automação avançasse, os trabalhadores perderiam poder de barganha enquanto o capital consolidaria seu controle. O proletariado se tornaria mais pobre e mais desesperado.
A partir dessa condição, Marx acreditava que a revolução inevitavelmente aconteceria. Essa previsão ocupa o centro de toda a sua estrutura teórica. Mas a história seguiu na direção oposta.
Por mais de dois séculos, a automação não destruiu o valor do trabalho; ela o multiplicou. As máquinas permitiram que um único trabalhador produzisse muito mais do que trabalhadores de épocas anteriores. Em vez de se tornarem obsoletos, os trabalhadores se tornaram dramaticamente mais produtivos.
O resultado foi uma das maiores expansões de prosperidade que o mundo já viu. O padrão de vida aumentou, a produtividade disparou, e os trabalhadores não se tornaram apêndices impotentes das máquinas; eles se tornaram operadores de ferramentas cada vez mais poderosas. Em outras palavras, a previsão de Marx de que a automação degradaria o trabalho já fracassou. Curiosamente, outro economista antecipou algo muito diferente.
Quase um século antes de Marx escrever O Capital, Adam Smith descreveu como ferramentas e máquinas ampliam o poder produtivo do trabalho. Em A Riqueza das Nações, Smith explicou que melhorias no maquinário permitem que um único trabalhador realize um trabalho que antes exigia muitos. Seu exemplo mais famoso foi o da fábrica de alfinetes. Um pequeno grupo de trabalhadores usando ferramentas especializadas podia produzir milhares de alfinetes por dia. Sem essas ferramentas, um trabalhador talvez tivesse dificuldade para produzir algumas dezenas. A máquina não substituiu o trabalhador. Ela multiplicou sua produção.
A história seguiu muito mais o modelo de Smith do que o de Marx. O maquinário industrial, a eletricidade, os computadores e a internet não criaram uma classe trabalhadora permanentemente desempregada. Eles criaram uma classe trabalhadora muito mais produtiva. Cada onda tecnológica ampliou aquilo que os indivíduos eram capazes de produzir.
Mas a inteligência artificial introduz algo ainda mais devastador para a teoria de Marx. Ela rompe a sequência da qual todo o seu argumento depende. Marx acreditava que a automação atingiria primeiro a classe trabalhadora. As máquinas substituiriam trabalhadores braçais e operários industriais. À medida que esses trabalhadores perdessem seu valor econômico, uma grande massa de mão de obra deslocada formaria a força revolucionária que acabaria desafiando o capitalismo. Essa ordem dos acontecimentos importa; na verdade, ela é fundamental.
A teoria de Marx depende de o proletariado ser o primeiro grupo deixado de lado pelas máquinas. A inteligência artificial está se desenvolvendo na direção oposta. A IA não está substituindo principalmente o trabalho braçal, nem está substituindo principalmente trabalhadores de nível mais baixo que executam tarefas rotineiras. As primeiras rupturas estão surgindo nos níveis mais altos da hierarquia.
Os sistemas de IA estão se tornando cada vez mais capazes de executar trabalhos que antes pertenciam a executivos, estrategistas, consultores e lideranças organizacionais. Trata-se de funções estruturadas em torno da síntese de informações, formulação de estratégias, elaboração de planos, coordenação de equipes e tomada de decisões de alto nível — o trabalho da classe gerencial e estratégica.
Isso já não é mais hipotético. Pesquisadores já começaram a testar essa ideia. Em um experimento recente descrito na Harvard Business Review, pesquisadores simularam um ambiente corporativo competitivo e pediram que participantes humanos e um sistema de IA administrassem uma empresa virtual. A IA tomou decisões estratégicas sobre preços, design de produtos e posicionamento de mercado usando as mesmas informações disponíveis para os participantes humanos. Em muitos casos, a IA superou os humanos em lucratividade e otimização estratégica.
Enquanto isso, grandes empresas de tecnologia estão desenvolvendo ativamente agentes autônomos de IA projetados para planejar, agir e executar tarefas empresariais complexas com supervisão mínima. Na conferência AWS re de 2025, a Amazon apresentou uma nova classe de “agentes de fronteira” capazes de conduzir projetos complexos por horas ou até dias sem intervenção humana.
Esses sistemas fazem parte de uma mudança mais ampla em direção ao que os pesquisadores chamam de “IA com agência” — sistemas autônomos de software capazes de perceber ambientes, raciocinar sobre objetivos e tomar ações em nome dos seres humanos.
A tendência é clara. Os sistemas de IA estão indo além da simples automação e avançando para funções que envolvem planejamento, análise e tomada de decisões dentro das organizações. Em outras palavras, a máquina está começando a comprimir justamente a camada da sociedade que tradicionalmente se encontra acima do trabalhador. Enquanto isso, o eletricista continua instalando fiação, o encanador continua consertando tubulações, o mecânico continua reparando motores. Habilidades físicas em ambientes complexos continuam sendo difíceis de automatizar. Isso é o oposto do que Marx esperava.
Marx acreditava que as máquinas começariam substituindo a força física. O que estamos vendo, em vez disso, são máquinas começando a substituir o pensamento estruturado nos níveis intermediários das organizações. Essa diferença importa.
A estrutura teórica de Marx pressupõe que o proletariado se torne a primeira vítima do progresso tecnológico. Seu deslocamento cria a pressão econômica compartilhada que alimenta o conflito de classes. O trabalhador se torna o centro da narrativa política porque é o primeiro a ser deixado de lado. Mas, se a automação começa comprimindo a classe gerencial e estratégica, essa dinâmica entra em colapso. A primeira ruptura não está acontecendo na base da hierarquia. Ela está ocorrendo entre os níveis intermediários e superiores.
E esse problema não termina em Marx. Muitos pensadores posteriores construíram preocupações semelhantes sobre o capitalismo com base na suposição de que a automação deslocaria principalmente o trabalho e gradualmente concentraria o poder para longe dos trabalhadores. John Kenneth Galbraith argumentava que os sistemas industriais modernos concentrariam poder em grandes estruturas corporativas administradas por elites tecnocráticas. Mas a inteligência artificial está começando a automatizar justamente as funções gerenciais que Galbraith acreditava que dominariam a economia.
Herbert Marcuse ofereceu um alerta diferente. Em One-Dimensional Man [O Homem Unidimensional], ele argumentou que a sociedade tecnológica aprisionaria os indivíduos dentro de enormes sistemas de controle industrial.
Mais recentemente, economistas como Paul Krugman levantaram preocupações semelhantes sobre os efeitos de longo prazo da tecnologia sobre o trabalho. Krugman argumentou que a mudança tecnológica pode enfraquecer o poder de barganha dos trabalhadores e contribuir para o aumento da desigualdade, alertando que a automação pode substituir cada vez mais o trabalho humano em grandes parcelas da economia. A inteligência artificial pode empurrar essa dinâmica na direção oposta.
Ao reduzir drasticamente o custo de análise, coordenação e produção, a IA permite que indivíduos realizem trabalhos que antes exigiam organizações inteiras. Um único empreendedor — equipado com ferramentas poderosas de IA — pode cada vez mais projetar produtos, analisar mercados, escrever softwares e administrar negócios com muito pouca infraestrutura institucional. Em vez de aprisionar indivíduos dentro de grandes sistemas, a IA pode permitir que muito mais pessoas construam os seus próprios negócios.
Ao longo desses diferentes pensadores, uma suposição permaneceu notavelmente consistente. A automação deveria ameaçar primeiro os trabalhadores. A inteligência artificial complica essa crença.
A primeira ruptura significativa não está surgindo onde Marx e muitos de seus descendentes intelectuais esperavam. Ela está aparecendo justamente nas camadas de análise, coordenação e estratégia que antes pareciam imunes à mecanização.
A máquina deveria começar substituindo o trabalhador. A inteligência artificial está começando substituindo as pessoas que ocupam os níveis intermediários e superiores das organizações, decidindo o que os trabalhadores devem fazer. Essa inversão não é apenas uma modificação da previsão de Marx. Ela é o golpe final em seu sistema de pensamento.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
Recomendações de leitura:
A verdadeira ameaça é o crédito artificial, não a inteligência artificial
Um argumento Rothbardiano contra más políticas de data centers