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Nos ombros do gigante Antony Mueller

Há alguns anos, em um certo sábado de manhã, fui a um evento na cidade de São Paulo chamado Conferência de Escola Austríaca. Entre outras palestras, me interessei por uma de nome curioso: “Macroeconomia Austríaca: Aberração ou Inovação?”. Eu não conhecia essa ligação entre macroeconomia, um campo da ciência econômica muito caro aos keynesianos, e a Escola Austríaca.

No palco, um professor alemão vindo de Sergipe, falando um português um pouco difícil de entender no começo, apresentava seu modelo, com diagramas e equações, e defendia o uso de agregados aliado à teoria austríaca. Depois do evento, já em casa, enviei um e-mail a ele. O professor Antony Mueller me respondeu rápido, com três artigos diferentes desenvolvendo seu modelo. Fiquei fascinado.

Doze anos depois, eu estava em uma praça no centro de Aracaju, tomando uma cerveja, conversando com Antony sobre economia, política e qualquer outro tema que surgisse. Daquela vez, ele falava de uma viagem que fez à Noruega em um desses verões da década de 1960. Era o auge do movimento hippie, e ele me contava como tomou caronas para sair de sua cidade na Baviera até Oslo, dormiu embaixo da ponte e deixou sua mochila junto de estranhos enquanto ia a alguma festa pela cidade.

Ao final da noite, dei uma carona ao professor. Devido a um misto de carro não lento o suficiente e casa excessivamente perto do bar, interrompemos nossa conversa e nos despedimos. “Sempre um prazer, professor. Um abraço!”. “Tá bem, nos falamos. Até a próxima!”. Foi a última vez que o vi.

Uma jornada inesperada

Quando terminei a faculdade, mandei um novo e-mail ao professor Antony. Eu queria seguir meus estudos e fazer meu Mestrado sob sua orientação. Já tinha lido seus artigos sobre TACE e achava que o modelo era ideal para explicar a crise brasileira de 2015-16, ainda no seu auge naquela época. Viajei a Aracaju no final daquele ano, junto do meu pai, e visitamos o professor em sua sala na Universidade Federal de Sergipe, a UFS. Ele estava feliz em receber um aluno de outro estado para ser seu aluno.

Nos dois anos que se seguiram, eu frequentava a sala do professor todas as semanas, às vezes até três vezes. Discutíamos por horas sobre diferentes temas. Eu apresentava o progresso da minha pesquisa e tirava dúvidas sobre seu modelo. Inclusive, nessa ponte aérea entre Aracaju e São Paulo, me peguei inúmeras vezes rabiscando os diagramas do modelo do professor Antony nos guardanapos que a aeromoça entregava. Já ele compartilhava a sua própria pesquisa e me pedia opinião. Antony, desde as primeiras interações, tinha uma característica fantástica para alguém que estava iniciando seus estudos: ele queria honestamente saber a minha opinião sobre suas pesquisas. Conversávamos muitas vezes como pares e isso me dava segurança na hora de escrever sobre os meus próprios temas.

Quando me formei mestre, dei de presente ao professor uma caneca com um desenho de seu rosto, feito em um desses aplicativos que estavam em alta na época. Ele deixava essa caneca na estante do seu escritório, e ela aparecia ao fundo de suas várias entrevistas e aulas, em alemão, inglês e português. Ele sempre me enviava os links das entrevistas e eu sorria ao ver aquela caneca ali ao fundo, mesmo uma década depois de presenteá-lo.

Logo em seguida da defesa, me tornei professor temporário na UFS e brincava com ele que teria que se acostumar com a ideia de que seu aluno virou seu colega. Aquilo se apresentou como uma renovação da oportunidade de visitar o professor em sua sala na faculdade e continuar as discussões e pesquisas.

Durante esse período, escrevemos diversos artigos juntos. Discutimos, claro, sobre seu modelo da TACE, mas também sobre a infeliz relevância que a Teoria Monetária Moderna tomou, as diferentes teorias do capital, a obra inaugural da Escola Austríaca, o Grundsätze de Carl Menger, a teoria do empreendedorismo em Kirzner e em Schumpeter e tantas outras coisas. O último artigo que publicamos juntos, sobre a queda do dólar e a possibilidade do ouro ou do Bitcoin como nova referência monetária internacional, foi simbólico, pois tem como coautor um pesquisador que foi meu aluno e aluno do professor Antony.

Recentemente, um amigo me mandou a foto das referências de um livro publicado nos Estados Unidos, com nosso artigo sobre Kirzner e Schumpeter em destaque. Aliás, esse artigo é hoje o mais citado da Revista Acadêmica do Instituto Mises Brasil. Encaminhei a Antony a foto. Foi a última mensagem que lhe mandei.

Suas contribuições permanecem

Eu gosto de pensar que nossa parceria fez com que nós dois fôssemos mais produtivos. Para além da orientação nas minhas pesquisas e dos trabalhos que assinamos juntos, o professor Antony também publicou obras dele próprio que, de alguma forma, eu pude contribuir. Ele me enviava seus artigos e livros para revisão, esperando por comentários e sugestões, coisas que eu fazia ciente da responsabilidade.

Destaco aqui algumas obras que surgiram nesse período, não por ordem cronológica. Em primeiro lugar, e isso é motivo de grande orgulho, eu tenho um livro publicado com o professor. Isso mesmo, um livro que leva na capa o meu e o seu nome. Antony foi também professor do programa de pós-graduação em Sociologia na UFS. Ele me convidou para assistir algumas aulas, onde tratava sobre inovações tecnológicas e seus efeitos na sociedade. Dessa disciplina do Doutorado em Sociologia, surgiu a ideia de coletar artigos dos alunos para uma publicação, que chamamos de Inovações Tecnológicas no Brasil: Novos Caminhos para o Desenvolvimento. Nós dois fomos os organizadores dessa coletânea, além de assinarmos juntos um dos capítulos do livro, tratando sobre a lógica da inovação e criticando o universo neoschumpeteriano, tão caro aos políticos e intelectuais brasileiros. Eu também escrevi o prefácio e fui coautor de outro capítulo. Tudo isso influenciado pelo professor.

Seus anos de pesquisa e trabalho em seu modelo culminaram na publicação de alguns livros. Um deles foi A Primer on Austrian Macroeconomics: Austrian Capital Theory for Macroeconomic Research and Teaching. Convidado pela editora, ele escreveu um super livro sobre teoria do capital para ser utilizado em faculdades de Economia.

Outro livro era mais voltado para um público que conhece a Escola Austríaca: Advanced Austrian Macroeconomics: Tools for Research and Teaching. Seu objetivo era fornecer um manual para ensino de economia, e ele foi bem-sucedido nisso. O livro fornece material para todo um semestre e cobre, do ponto de vista austríaco, tudo o que um macroeconomista aborda. Para esse livro, inclusive, fui convidado pelo professor para escrever o prefácio. Eu nem pude acreditar no convite, mas novamente ele me demonstrava o tamanho do respeito que tinha pela minha opinião sobre suas pesquisas e, claro, do apreço por mim.

Outros livros também merecem destaque. Antony avançou pesquisas sobre economia política e sociologia, inclusive com grandes tratados em alemão. Ele também tratou sobre o sistema capitalista, as ideias totalitaristas, demarquia como alternativa à democracia e a criação de uma sociedade anarcocapitalista. Sua maior crítica, nesse sentido, era à política em si – um de seus livros se chama Antipolitik.

Professor, orientador, amigo

Em paralelo à pesquisa acadêmica, eu fiz uma amizade com o Antony. Aliás, eu realmente me surpreendi com a vida daquele gringo no meio do nordeste brasileiro. Antony morava com sua família em um apartamento perto do centro da cidade. Uma vista linda, da qual ele se orgulhava, permitia a ele ver o nascer do sol desde o mar e o rio, até o pôr do sol para dentro do continente. Um privilégio, sem dúvida.

Ele vivia na cidade como um local. Voltava das aulas na faculdade em uma van que o deixava perto de casa. O restante do caminho ele fazia a pé, às vezes parando em algum bar para tomar uma cerveja e jogar conversa fora com os regulares. Aliás, poderia dizer que ele próprio era um regular. Das inúmeras vezes em que compartilhei uma mesa de bar com ele no centro de Aracaju, percebi que todos o conheciam.

Curiosamente, Antony não gostava das cervejas mais fortes, aquelas do tipo alemão que se esperaria à primeira vista. Ele gostava de cerveja leve, gelada, mais apropriada para o clima quente daqui. Então, sua saga em busca do “barzinho”, como ele chamava, consistia em encontrar um boteco que vendesse Nova Schin (quem conhece um pouco de cerveja vai se surpreender com isso). Ele também gostava da comida dali, como peixes, amendoim cozido (típico de Sergipe), caldinhos como mocotó e dobradinha etc. Esses bares eram muito simples, típicos de centro de cidade. Era divertido.

Mais recentemente, após sua aposentadoria, Antony começou a praticar golf no Parque da Sementeira, uma referência de Aracaju. Não é um campo de golf de verdade, e eu me arrisco a dizer que ele foi a primeira e única pessoa a fazer isso naquele parque. Jogamos juntos algumas vezes, sem muito sucesso de minha parte, devo admitir. Ele andava descalço pelo parque, às vezes sem camisa, e tinha a pele queimada pelo inclemente sol sergipano. Antony contava sobre como os trabalhadores do parque guardavam as bolas perdidas para lhe entregar no dia seguinte e como seus meses alimentando pombos com amendoim tinham provocado uma enorme confiança nos pássaros, que se aproximavam até seus pés, sem receio.

Nós falávamos muito sobre música também. Por vezes, ele me enviava mensagens: o álbum então recém-lançado do Rammstein, que tem uma boa música chamada Deutschland, versões ao vivo do Metallica e as músicas de animes que seu filho adolescente à época gostava de ouvir. Antony ilustrava sua juventude com algumas histórias relacionadas à música. A Alemanha era um país de moeda muito forte, o que atraía músicos e bandas de todo o mundo para tocar no país e receber em marcos.

Em uma dessas oportunidades, Antony contava ter assistido The Rolling Stones ao vivo, com Mick Jagger a três metros de distância. Pouco tempo após sua partida, estive em um restaurante que tocou Paint it Black, e aquilo me fez lembrar do professor. E como uma provocação do destino que nos faz sorrir com lembranças, a música tocou duas vezes naquela noite.

Farewell, professor!

Minha trajetória enquanto pesquisador é indissociável das orientações do professor Antony. Era. Terei que me acostumar com a perda de uma referência intelectual – não só eu, mas a Escola Austríaca de Economia, no Brasil e no mundo. Pior, eu terei que me acostumar com a perda de um amigo.

O que me consola é encontrar seus livros nas prateleiras do meu escritório e seus artigos nas várias pastas do meu computador. Suas ideias seguem vivas e suas influências seguirão sempre presentes em todas as minhas pesquisas.

Muito obrigado, professor!

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