Há ocasiões em que o calendário nos oferece não apenas um motivo de celebração, mas uma oportunidade legítima de reflexão intelectual. A celebração dos oitenta anos do Professor Ubiratan Jorge Iorio é uma dessas ocasiões. Seria insuficiente, e injusto, reduzir esta data a um exercício de saudosismo. A trajetória do Professor Ubiratan é, antes de tudo, um programa de ideias em curso, e é como tal que merece ser apreciada.
Quando iniciamos nossa formação em um campo tão rico como o da Escola Austríaca de Economia, deparamo-nos inevitavelmente com o nome e a obra do Professor Ubiratan. Ação, Tempo e Conhecimento é uma obra que se tornou referência incontornável para estudantes e pesquisadores de língua portuguesa.
Apesar da sua boa escrita, este não é uma concepção trivial ou introdutória. O Professor Ubiratan Iorio, de forma magistral e catedrática, consegue expor a complexidade das suas ideias de forma palpável, compreensível para o leitor, mas nas diferentes camadas da mesma existem camadas de complexidade, e é sobre uma delas que venho especialmente comentar neste texto: a abordagem que o Professor Iorio dá ao subjetivismo foi parte crucial da minha compreensão sobre o tema.
O título não é casual. Nele reside uma escolha epistemológica deliberada. O professor Ubiratan, corretamente, compreende que desenvolvimento do pensamento econômico austríaco não pode ser compreendido por uma única lente, mas exige uma abordagem tridimensional. O cerne da Escola Austríaca repousa sobre uma tríade fundamental (a ação, o tempo dinâmico e o conhecimento), a partir da qual emanam seus elementos de propagação, que moldam a agenda de pesquisa contemporânea da Escola Austríaca.
Cada um desses vértices pode corresponder a um programa de pesquisa autônomo, sendo pesquisados por diferentes pesquisadores em uma vasta gama de artigos. Entretanto, mesmo tratadas analiticamente separadas, nas ações reais, concretas de homens empresários, essas três dimensões são indissociáveis. A ação só pode ser compreendida no tempo subjetivo. E a ação no tempo só ganha sentido pleno quando reconhecemos que cada agente possui um conhecimento pessoal, incomensurável e limitado. É essa arquitetura conceitual que permite à Escola Austríaca rejeitar teorias do equilíbrio e concebê-los como processos de permanente criatividade empresarial.
Como anteriormente ressaltei, considero que uma das contribuições mais originais do Professor Ubiratan está precisamente na maneira como ele desenvolve o conceito de subjetivismo. Longe de reduzi-lo à tradicional teoria subjetiva do valor, conquista já consolidada desde a revolução marginalista, ele o trata como um programa filosófico de múltiplas camadas. A sua compreensão de subjetividade e a forma clara como a apresenta representa base para um programa de pesquisa.
O subjetivismo austríaco, tal como apresentado em sua obra, afirma que o conteúdo da mente humana não se encontra rigidamente determinado por eventos externos. Isso é o subjetivismo: não é um relativismo, mas uma compreensão do homem como um agente da história. Essa noção de conhecimento e de ação subjetivos dependem de uma dimensão que somente os austríacos conseguem a reconhecer na sua forma subjetiva, que é a dimensão do tempo, compreendido como dinâmico.
O individualismo metodológico, assim, não é mera convenção analítica para facilitar estudos sistemáticos sobre os fatos sociais, mas a única abordagem coerente com a natureza do fenômeno estudado: a rede de fatores que explica as escolhas humanas singulares. Trata-se, portanto, de um subjetivismo que é simultaneamente axiológico, epistêmico e temporal, e é essa combinação que confere à Escola Austríaca sua coerência interna e sua potência explicativa.
A Escola Austríaca como bem definido pelo Professor Iorio, é um programa vivo, em constante desenvolvimento, capaz de iluminar campos tão distintos quanto a Epistemologia, a Filosofia Política, a Sociologia e o Direito. Para que essa agenda floresça, dependemos de professores capazes e com brilhantismo possam ensinar seus alunos, como o Professor Iorio tem feito ao longo da sua trajetória acadêmica. Celebrar oitenta anos do Professor Ubiratan Iorio é, portanto, reconhecer uma obra que permanece aberta. A tríade Ação, Tempo e Conhecimento não é apenas um título: é um convite permanente à investigação, à atualização e ao aprofundamento do edifício intelectual austríaco.