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Roma e a Razão da Ordem

Nota da edição

Este artigo é a publicação do 12º capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.

Confira também o 11º capítulo


“Legum servi sumus ut liberi esse possimus.” – “Somos servos das leis para que possamos ser livres.” — Cícero, De Re Publica, III, 22.

Roma nasceu onde a terra conversa com o tempo. Entre colinas de tufo e o curso lento do Tibre, numa zona suficientemente alta para escapar das enchentes e suficientemente baixa para negociar com o mundo, ergueu-se uma cidade que não buscava o sublime, mas o durável. Enquanto os gregos contemplavam o mar e falavam com o infinito, os primeiros romanos mediam o chão, contavam as pedras, observavam o peso da terra, como se soubessem, desde o início, que tudo o que dura precisa primeiro aprender a resistir.

A fundação lendária, 753 a.C., não é apenas uma data, é o símbolo do começo de uma relação singular entre o homem e o tempo. Roma nasceu pequena, cercada por etruscos, latinos e sabinos, e aprendeu cedo que o mundo não é composto de epifanias, mas de obstáculos. A razão, que entre os gregos era filha do assombro, ali se tornava filha do esforço. O Tibre não inspira mitos, impõe cautela. Ensinou seus habitantes a desconfiar dos impulsos, a desconfiar de promessas e a admitir que a vida coletiva exige contenção.

Com o passar dos séculos, a monarquia etrusca, que governou Roma entre o século VII e o final do século VI a.C., foi substituída pela República, em 509 a.C., quando a cidade expulsou Tarquínio, o Soberbo. Começava ali um experimento inédito, um governo sem rei, mas também sem tumulto, sem tirano, mas não sem autoridade. Dois cônsules, para que nenhum se esquecesse dos limites. Magistraturas temporárias, para que a vaidade encontrasse o freio da mortalidade. O Senado, casa da fala medida, para que a razão aprendesse a vestir-se de prudência. A República não era apenas uma forma de governo, era uma escola moral.

Dessa matriz nasce um tipo particular de racionalidade, a razão prática, aquela que se faz ponte, estrada, calendário, drenagem, lei. Onde o grego pergunta “o que é”, o romano pergunta “como fazer”. Onde Aristóteles delibera sobre a prudência, Roma a transforma em instituição. O romano não aspira ao sublime, aspira ao resistente.

E é da resistência que nasce o Direito Romano, o maior legado jurídico da história. Nada nele surge por decreto. Tudo germina lentamente, como o trigo das colinas do Lácio. O jus civile, o jus gentium, o jus naturale, três camadas de racionalidade que expressam uma convicção única, a lei não cria a justiça, apenas a reconhece. Essa ideia, revolucionária em sua simplicidade, encontrará em Tomás de Aquino sua formulação mais elevada, a lei natural como participação da criatura racional na lei eterna.

Mas Roma não construiu apenas leis, construiu também confiança visível. A moeda, o denarius, surgido no século III a.C., não era apenas metal, era tempo condensado, o esforço do mineiro, a viagem do comerciante, a prudência do cambista. Por isso, para o romano, valor não é decreto, é peso. A pureza da moeda educava a pureza da lei, e a adulteração de uma prenunciava a corrupção da outra.

Quando, séculos mais tarde, a República se desgasta em guerras civis e ambições desmedidas, surge César, cuja ascensão expõe um perigo eterno, quando as instituições se fragilizam, o talento individual se torna irresistível. Sua morte, em 44 a.C., é um aviso, nenhuma república sobrevive sem limites. E nenhum homem, por maior que seja, sustenta sozinho a estrutura de um mundo.

É Augusto, em 27 a.C., quem transforma Roma formalmente em Império, não por espetáculo, mas por sutileza. Conserva as formas republicanas enquanto esvazia seus poderes. Assim se inaugura o período mais longo de estabilidade já visto no Ocidente. O Império Romano do Ocidente durará até 476 d.C. O Império Romano do Oriente, que chamaremos de Bizâncio, sobreviverá até 1453, quase mil anos além da queda de Roma.

Nesse vasto intervalo, Roma se expandirá por três continentes e descobrirá novos deuses e novas feridas. No Oriente, rios de espiritualidade se chocam com rios de poder. Na Judeia, uma fé ancestral confronta a máquina administrativa romana. E, entre fariseus, saduceus, romanos e um jovem pregador da Galileia, nasce um movimento que mudaria o mundo.

O cristianismo, inicialmente perseguido por sua recusa em cultuar o imperador como divino, atravessa três séculos de marginalidade até encontrar um protetor inesperado, Constantino.

Sua vitória na Ponte Mílvia, em 312 d.C., sob o estandarte do chi-rho, não precisa ser lida como milagre para revelar sua força simbólica. O que importa não é a visão, mas o gesto político, pela primeira vez, um imperador romano decide que não perseguirá a fé que não pode controlar. O Édito de Milão, em 313, não impõe o cristianismo, concede liberdade religiosa. E esse gesto, tão simples quanto revolucionário, altera o eixo da civilização.

O papel de Helena, sua mãe, é igualmente decisivo. Suas peregrinações à Terra Santa, a identificação dos lugares ligados à vida de Cristo e a construção das primeiras basílicas transformam o cristianismo de uma fé clandestina em memória visível. A espiritualidade encontra alicerces, a fé ganha espaço.

Constantino, ao transferir a capital para Bizâncio, futura Constantinopla, não abandona Roma, prolonga sua vida. Roma deixa de ser apenas uma cidade e se torna um princípio, uma forma de razão, uma estrutura espiritual que atravessará os séculos.

Assim, o mundo romano, que sempre buscou permanência, encontra na religião cristã sua expressão mais durável. Sua racionalidade jurídica dá forma às instituições e, agora, dá forma à própria doutrina. O Ocidente inteiro herdará essa fusão entre lei, história e transcendência.

Roma é, acima de tudo, o lugar onde o tempo se torna instituição.

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