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A escravidão não favoreceu o capitalismo: A nova história econômica do capitalismo está errada

O movimento de acadêmicos de esquerda chamado de “nova história do capitalismo” (NHC) continua a receber amplo reconhecimento, apesar do acúmulo de imprecisões. Embora análises críticas já tenham desmontado os argumentos de seus defensores, muitos ainda se apegam a pressupostos equivocados que exageram o papel da escravidão e do algodão no impulso ao progresso econômico dos Estados Unidos. Diversos setores foram cúmplices na sustentação da escravidão, mas seu sucesso nunca dependeu da produção escravista.

Na verdade, a escravidão se revelou um obstáculo ao progresso comercial. A dependência da escravidão reduziu o incentivo para investir em infraestrutura física e no desenvolvimento imobiliário. Por exemplo, durante o auge do ciclo de expansão dos canais fluviais na década de 1830, foram construídas cinco vezes mais milhas no Norte do que nos estados do Sul. Como os escravos podiam ser usados como garantia e constituíam uma grande fonte de riqueza, a escravidão acabou deslocando a formação de capital físico.

Além disso, o historiador econômico Gavin Wright argumenta que, como os escravos eram propriedade pessoal móvel, seus proprietários podiam contrair empréstimos a longas distâncias, o que limitava as oportunidades de estabelecer relações de crédito locais, como era comum nos estados livres. Ao inibir o surgimento de redes locais de crédito, a escravidão prejudicou o crescimento das finanças e do empreendedorismo no Sul.

Ainda mais crucial é o fato de que a incapacidade dos proprietários de plantações de atrair trabalhadores de fora do Sul impediu a região de absorver novo capital humano que poderia revitalizar a economia. Ao contrário dos estados do Norte, que permitiam que o trabalho fosse alocado livremente, o Sul desestimulava a imigração devido à sua dependência da mão de obra escrava. Além disso, considerando que os proprietários de plantações não necessitavam de uma força de trabalho altamente educada, o Sul dos Estados Unidos investiu pouco em educação.

Os proprietários de plantações não tinham inclinação para empregar brancos livres como trabalhadores, de modo que o financiamento da educação pública nunca foi uma prioridade. No Sul, apenas 35% da população branca em idade escolar estava matriculada em 1860, em contraste marcante com os 72% em outras regiões — onde a duração do ano letivo era 70% maior. Os estados do Norte cultivaram um ambiente mais liberal ao promover instituições inclusivas que permitiam que não membros da elite prosperassem. Devido às desigualdades perpetuadas pela escravidão, os estados escravistas ficaram atrás no avanço das melhorias sociais e tecnológicas que impulsionaram o crescimento econômico.

Ao contrário das alegações da NHC, a escravidão é um forte indicador de fragilidades econômicas. Segundo pesquisadores da University of Michigan, as regiões escravistas dos Estados Unidos apresentavam valores de terra mais baixos e um uso menos intensivo da terra. A escravidão teve um efeito tão prejudicial sobre o desenvolvimento que, nas áreas em questão, a redução no valor da terra associada à escravidão foi maior do que o próprio valor da riqueza representada pelos escravos.

Além de apresentar a escravidão como um motor do progresso industrial, outra tática duvidosa da NHC é exagerar o papel do algodão no desenvolvimento dos Estados Unidos. Durante o período anterior à Guerra Civil Americana, a produção de algodão representava cerca de 5% do PIB e, embora fosse uma exportação importante, as exportações nunca ultrapassaram 7% do PIB. Os Estados Unidos possuíam um amplo mercado interno, capaz de gerar demanda doméstica suficiente e comércio intrarregional para impulsionar o desenvolvimento.

Também é surpreendente que, embora o algodão ocupe uma posição de destaque na história econômica dos Estados Unidos, ele não representava a cultura mais importante do país. O principal produto agrícola americano era o milho, e a principal cultura do Sul, medida em valor, tanto em 1839 quanto em 1849, também era o milho. De fato, os escravos foram fundamentais na produção de algodão, mas o algodão poderia prosperar sem a escravidão. Após a abolição no Sul dos Estados Unidos, trabalhadores brancos fizeram a transição com relativa facilidade para a produção de algodão ao adquirir campos de cultivo no período pós-guerra.

O algodão tampouco era um elo vital na ligação entre os centros industriais dos Estados Unidos. A NHC ressuscitou a alegação de Douglass North de que a riqueza gerada pelo comércio de algodão estimulava a demanda por produtos do Oeste e por bens manufaturados do Nordeste; no entanto, esse argumento foi refutado por pesquisas. O Sul dos Estados Unidos era autossuficiente na produção de alimentos e não constituía um mercado importante para as exportações do Norte.

Além disso, com igual vigor, Trevor Burnard e Giorgio Riello refutam a afirmação de que o algodão americano foi o ponto de apoio da Revolução Industrial britânica: para Beckert, escravidão e algodão são inseparáveis. Mas o algodão americano não foi o impulso por trás do industrialismo britânico. Muito se falou sobre o descaroçador de algodão de Eli Whitney, introduzido pela primeira vez na Geórgia em 1793, mas o Sul dos Estados Unidos só se tornou um grande produtor de algodão na década de 1810 e manteve essa posição por pouco mais de uma geração.

Além disso, estudos comparativos sobre a escravidão demonstraram que a NHC está equivocada ao afirmar que a escravidão está ligada à industrialização e que a produção de algodão aumentou em razão do uso da força. Segundo Nuno Palma e coautores em um artigo de 2020: “Em vez de promover o crescimento e o desenvolvimento econômico, as evidências mostram que a escravidão retardou a industrialização no Brasil. Também discutimos o papel da escravidão na produtividade agrícola e mostramos que, assim como nos Estados Unidos, o uso da violência não explica os aumentos na produtividade das plantações de algodão”.

Assim como nos Estados Unidos, a escravidão no Brasil dificultou a industrialização, e os aumentos de produtividade foram resultado de inovações biológicas, e não do uso de tortura para intimidar escravos a trabalhar. Como ativismo político, a chamada nova história do capitalismo tem bastante sucesso, mas nunca deveria ser ensinada como história quando, na verdade, se trata de propaganda.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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