“A história é pouco mais do que o registro dos crimes, das loucuras e das desventuras da humanidade”, na opinião do historiador Edward Gibbon. Embora se possa argumentar que há inúmeros triunfos nos assuntos humanos dignos de registro, a observação de Gibbon parece ser verdadeira. Se um livro típico de história fosse despido de qualquer menção a guerra, depressão, fome, coerção, tragédia, genocídio, escândalo, rivalidade e caos, o que restasse provavelmente poderia ser reimpresso em um panfleto.
Curiosamente, o impressionante Pânico de 1893 parece ter escapado ao escrutínio cuidadoso e à pesquisa exaustiva dos historiadores. Embora tenha ocorrido há cento e trinta e três anos, permanece como um episódio obscuro na história americana. Ele marcou o início de uma profunda depressão. Empresas colapsaram aos milhares. Bancos fecharam suas portas em números recordes. O desemprego disparou e milhões de desocupados vagavam pelas ruas e pelo campo em busca de trabalho ou esmolas. E o país testemunhou um espetáculo impressionante de disputas políticas, hoje quase totalmente esquecido.
Para quem acredita na economia de mercado, a história do Pânico de 1893 oferece um verdadeiro tesouro de evidências empíricas. As lições dessa tragédia constituem uma acusação contundente contra a capacidade do governo de “administrar” a moeda de uma nação.
Charles Albert Collman observou que “os problemas monetários foram a característica manifesta do longo e prolongado Pânico de 1893”1. De fato, um colapso do sistema monetário e a bancarrota nacional foram evitados por pouco naquele ano. Mas a moeda é essa grande invenção que permite o desenvolvimento de uma economia moderna de trocas. Como algo tão vital para o comércio pôde se tornar tão problemático?Todos sabem que impressões digitais são um grande auxílio para colocar um suspeito na cena de um crime. As características distintivas dos padrões da pele de cada indivíduo tornam isso possível. No caso do Pânico de 1893, a tragédia está coberta pelas impressões digitais dos políticos. “Considero apropriado, desde o início, declarar”, escreveu Charles S. Smith na edição de outubro de 1893 da North American Review,
“que o pânico recente não foi resultado de excesso de comércio, especulação desmedida ou violação dos princípios empresariais em todo o país. Em meu julgamento, ele deve ser atribuído a uma legislação imprudente no que diz respeito à questão da prata; será conhecido na história como ‘o Pânico da Prata’ e constituirá uma sanção e uma acusação contra o bom senso, se não contra a honestidade comum, de nossos legisladores responsáveis por nossas atuais leis monetárias”2.
Intervenções Iniciais
Ao contrário da impressão popular, o governo na América nunca esteve totalmente alheio à esfera monetária. O Artigo I, Seção 8, da Constituição concede ao Congresso o poder de “cunhar moeda, regular seu valor e o da moeda estrangeira, e fixar o padrão de pesos e medidas”. No século que precedeu 1893, o Congresso experimentou com dois bancos centrais, um sistema bancário nacional, emissões de papel-moeda e proporções fixas entre ouro e prata.
A primeira depressão cíclica dos Estados Unidos ocorreu em 1819, após três anos turbulentos de inflação monetária causados pelo Segundo Banco dos Estados Unidos. Quando esse “monstro monetário” foi eliminado pelo defensor da moeda forte Andrew Jackson, a economia voltou a mergulhar em uma depressão, e todos os desajustes da era do Banco tiveram de ser liquidados. Em 1857, a economia teve de se retrair após uma década de expansão de crédito promovida pelos governos estaduais, que haviam imposto suas obrigações aos sistemas bancários estaduais. Em 1873, o reajuste pós-Guerra Civil finalmente corrigiu os excessos da inflação desenfreada de greenbacks promovida pelo governo. O pano de fundo do desastre de 1893 é igualmente intervencionista e apresenta algumas características particularmente interessantes que dão origem ao rótulo de “Pânico da Prata”.
O ouro e a prata alcançaram proeminência como as moedas do mundo civilizado por meio de um processo de seleção livre e natural no mercado de trocas. Ambos circulavam como moeda, embora o ouro tivesse valor muito superior. A proporção de mercado entre os metais havia sido de aproximadamente 15 para 1 (15 onças de prata sendo trocadas por 1 onça de ouro) por séculos. O ouro era preferido para transações de grande porte e a prata para as menores. O livre mercado havia estabelecido “padrões paralelos” de ouro e prata, cada um flutuando livremente dentro de uma faixa estreita em relação às condições de oferta e demanda. Não demorou, porém, para que o governo decidisse “ajudar” o mercado, interferindo para “simplificar” as coisas. O resultado foi mais um dos muitos erros bem-intencionados impostos à população pela força da lei: a “fixação” oficial da proporção ouro/prata. Essa passou a ser a política do bimetalismo.
Sob a direção de Alexander Hamilton, o governo federal adotou uma proporção oficial de 15 para 1 em 1792. Se a proporção de mercado tivesse sido a mesma e tivesse permanecido assim durante todo o período em que a proporção fixa esteve em vigor, então ela teria sido supérflua. Mas a proporção de mercado, como todos os preços de mercado, mudou ao longo do tempo à medida que as condições de oferta e demanda se alteravam. À medida que essas mudanças ocorriam, a proporção bimetálica fixa tornava-se obsoleta e a “Lei de Gresham” entrava em operação.
Lei de Gresham
A Lei de Gresham afirma que a moeda ruim expulsa a moeda boa quando o governo fixa a proporção entre duas moedas em circulação. “Moeda ruim” refere-se à moeda que é artificialmente sobrevalorizada pela proporção estabelecida pelo governo. “Moeda boa” é aquela que é artificialmente subvalorizada.
A Lei de Gresham começou a operar logo após Hamilton fixar a proporção em 15 para 1, uma vez que a proporção de mercado estava, aproximadamente, em 15 ½ para 1. Isso significava que, se alguém tivesse uma onça de ouro, poderia obter 15 ½ onças de prata no mercado de lingotes, mas apenas 15 onças na casa da moeda do governo. Por outro lado, se alguém tivesse 15 onças de prata, poderia obter uma onça de ouro na casa da moeda, mas menos de uma onça no mercado. Assim, a prata fluía para a casa da moeda e era cunhada, enquanto o ouro desaparecia, era entesourado ou enviado para o exterior. O país, desse modo, foi colocado em um padrão de prata de fato, embora fosse política declarada do governo manter ambos os metais em circulação.
O Congresso, em 1834, alterou a proporção para 16 para 1, mas a proporção de mercado não havia mudado muito e, desta vez, o ouro ficou sobrevalorizado e a prata subvalorizada. O ouro passou a fluir para a casa da moeda, a prata desapareceu e o país acabou se encontrando em um padrão-ouro de fato.
Com o fim da inflação da Guerra Civil e o subsequente reajuste na depressão de 1873, a história do Pânico de 1893 começa a se desenrolar. Ela se inicia com a agitação inflacionista da década de 1870.
Em 1875, o recém-formado Partido Nacional Greenback defendeu a inflação monetária. A proposta atraiu amplo apoio no Oeste e no Sul, onde muitos agricultores se uniram a associações para pressionar por inflação. Inicialmente, exigiam que o governo expandisse maciçamente a oferta de papel-moeda, acreditando que tal política garantiria prosperidade. Era uma demanda que encontra, hoje, uma voz menos estridente, mas não menos influente, entre muitos economistas. Uma refutação eloquente da ideia de que a impressão de dinheiro pode criar riqueza econômica pode ser encontrada nas palavras de Benjamin Bristow, Secretário do Tesouro do presidente Grant. Em sua mensagem anual de 1874, Bristow declarou:
“A história do papel-moeda inconversível se repete sempre e em todo lugar onde ele é utilizado. Ele eleva os preços no presente, ilude o trabalhador com a ideia de que está recebendo salários mais altos e gera uma prosperidade fictícia da qual se seguem a inflação dos negócios e do crédito e o excesso de empreendimentos em proporção cada vez maior, até que se descobre que o comércio e a atividade econômica se tornaram fatalmente doentes, quando a confiança é destruída, e então vem o choque no crédito, seguido por desastre e depressão, e uma demanda por alívio por meio de novas emissões. … O uso generalizado e a dependência de tal moeda tendem a embotar o senso moral e a enfraquecer a autossuficiência natural das pessoas, treinando-as a acreditar que o governo deve ajudar diretamente suas fortunas individuais e seus negócios, auxiliá-las em seus assuntos pessoais e capacitá-las a quitar suas dívidas por meio de pagamento parcial. Esse papel-moeda inconversível gera a ilusão de que o remédio para dificuldades financeiras privadas está em medidas legislativas e faz com que as pessoas se esqueçam do fato de que o verdadeiro remédio está em maior produção e menor gasto, e de que a prosperidade real vem apenas do esforço individual e da frugalidade”3.
A inflação dos greenbacks durante a Guerra Civil deixou uma impressão duradoura em muitos americanos. Eles passaram a desconfiar de planos para reviver uma política de expansão deliberada do papel-moeda em benefício de qualquer grupo de interesse específico. Em 1875, o Congresso aprovou o Specie Resumption Act [Lei de Retomada da Conversibilidade, em tradução livre], declarando ser política do governo resgatar os greenbacks da Guerra Civil ao par em ouro em 1º de janeiro de 1879. A partir desse momento, considerou-se que, para proteger a conversibilidade dos greenbacks, o Tesouro seria obrigado a manter um mínimo de 100.000.000 de dólares em ouro como reserva. O máximo que os inflacionistas conseguiram foi uma promessa do governo de não cancelar os greenbacks após o resgate, mas de reemiti-los, de modo que o total em circulação permanecesse o mesmo.
Voltando-se para a Prata
A atenção dos inflacionistas foi então direcionada para outro meio: a prata. Robert F. Hoxie, no Journal of Political Economy em 1893, escreveu que os inflacionistas concentraram suas demandas em uma inflação baseada na prata como uma questão de conveniência política. “Eles não tinham qualquer apreço pela prata em si”, revelou Hoxie, “mas ela era a substância mais barata e mais abundante para a qual poderiam angariar apoio; seu uso resultaria em mais moeda de curso legal, e seu caráter metálico protegeria, em certa medida, seus defensores de serem rotulados como inflacionistas”4.
Os inflacionistas passaram então a ser chamados de defensores da prata, e seu grito de mobilização tornou-se “Prata Livre a 16 para 1.” Sua influência foi suficiente para garantir a aprovação do Bland-Allison Act em fevereiro de 1878 — a primeira das leis que colocaram o governo no negócio de comprar quantidades de prata para cunhagem. A lei determinava a compra, pelo Tesouro, de não menos que dois, nem mais que quatro milhões de dólares em lingotes de prata por mês, a serem cunhados em dólares, cada um contendo 371¼ grãos de prata pura (o que correspondia à proporção legal de 16 para 1, já que o dólar em ouro ainda continha 23,22 grãos de ouro puro). Esses dólares deveriam ser moeda de curso legal em seu valor nominal para todas as dívidas e obrigações, públicas e privadas. Certificados de prata em papel deveriam ser emitidos mediante o depósito dos volumosos dólares de prata no Tesouro.
As forças pró-prata livre estavam insatisfeitas com o Bland-Allison Act porque ele não ia longe o suficiente — não previa a compra e cunhagem governamental livre e ilimitada de prata à proporção de 16 para 1. A única prata a ser cunhada seria aquela correspondente aos dois a quatro milhões de dólares que o governo comprava a cada mês, e o Tesouro, enquanto a lei permaneceu em vigor, raramente adquiria mais do que o montante mínimo.
Os produtores de prata, em particular, tinham um interesse direto nessa situação, pois o preço de mercado da prata havia começado um declínio de longo prazo na década de 1870. Garantir um compromisso do governo de comprar prata a um preço mais alto do que o obtido no livre mercado era, evidentemente, um arranjo altamente lucrativo. À medida que a proporção de mercado entre prata e ouro subia continuamente acima de 16 para 1, o potencial de lucro tornava-se enorme.O Bland-Allison Act foi aprovado apesar do veto do presidente Rutherford B. Hayes. O presidente, em sua mensagem de veto, observou que cunhar moedas de prata na proporção de dezesseis onças de prata para uma onça de ouro expulsaria o ouro de circulação. A queda no preço de mercado da prata havia elevado a proporção de mercado, à época da aprovação da lei, para quase 18¼ para 1. Se a casa da moeda se dispusesse a pagar uma onça de ouro por apenas dezesseis onças de prata, então apenas a prata seria cunhada e o país estaria no caminho de retorno a um padrão de prata de fato. Na visão de Hayes,
“Uma moeda que vale menos do que afirma valer acabará, no fim, defraudando não apenas os credores, mas todos aqueles envolvidos em atividades legítimas, e ninguém de forma mais certa do que aqueles que dependem de seu trabalho diário para garantir o pão de cada dia”5.
Quando a moeda é deixada ao livre mercado, sua oferta é restringida por sua escassez e pelos custos de produção. Seu valor, assim, é preservado. A queda no preço da prata no livre mercado teria eliminado a lucratividade de muitas minas e, portanto, teria impedido um aumento drástico na quantidade de moeda de prata. Mas quando o governo interveio e passou a comprar grandes quantidades de lingotes de prata para cunhagem, pagando por eles em ouro a um valor superior ao oferecido no mercado, forçou a quantidade do metal branco em circulação a exceder sua demanda real. O governo faz algo muito semelhante hoje quando subsidia amendoim ou trigo. O resultado dessa interferência política é um excedente crônico dessas mercadorias.
A campanha dos defensores da prata por uma legislação favorável culminou no Sherman Silver Purchase Act de 1890, que substituiu o Bland-Allison Act. A Lei Sherman estipulava que o Tesouro deveria comprar 4,5 milhões de onças de prata por mês, ou aproximadamente o dobro do que vinha sendo adquirido sob o Bland-Allison Act. O pagamento seria feito em uma nova moeda de curso legal em papel, as chamadas notas do Tesouro de 1890, resgatáveis em ouro ou prata, a critério do Tesouro.
As 4,5 milhões de onças de prata exigidas pela lei representavam quase toda a produção das minas de prata americanas. Esse subsídio contínuo aos produtores de prata significava que o governo estava engajado em uma verdadeira sobrealimentação forçada da economia americana. Era apenas uma questão de tempo até que o paciente sofresse os efeitos de uma indigestão.
Estados Unidos na Contramão
A ação do governo dos Estados Unidos em 1878 e 1890 com relação à prata foi especialmente peculiar à luz dos acontecimentos monetários mundiais. A Alemanha, imediatamente após a Guerra Franco-Prussiana no início da década de 1870, retirou sua prata de circulação e adotou um padrão-ouro único. França, Bélgica, Suíça, Itália e Grécia seguiram o mesmo caminho, primeiro restringindo a cunhagem de prata e depois eliminando-a completamente. Dinamarca, Noruega e Suécia adotaram o padrão-ouro único, tornando a prata subsidiária até 1875. Naquele ano, o governo da Holanda fechou suas casas da moeda para a cunhagem de prata. Um ano depois, o governo russo suspendeu a cunhagem de prata, exceto para uso no comércio com a China. Em 1879, a Áustria-Hungria deixou de cunhar prata para cidadãos particulares, exceto por uma moeda comercial especial.
Essa rápida transição mundial da prata para o ouro levou o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em 1879, a observar que “desde a perturbação monetária de 1873-78, nenhuma casa da moeda da Europa esteve aberta à cunhagem de prata para cidadãos particulares”6. Ainda assim, o governo dos Estados Unidos, em um momento em que o valor da prata caía drasticamente e em que os parceiros comerciais do país estavam abandonando o metal branco, interveio para promover a prata em detrimento do ouro na proporção irrealista de 16 para 1!
Uma forma de analisar a desvalorização da prata é considerar o valor médio anual de mercado do dólar de prata de 371¼ grãos. Em 1878, o valor do metal correspondente a essa quantidade de prata era de cerca de 890; em 1890, caiu para 810; em 1893, valia 600; e, em 1895, despencou para meros 500. Um clima de incerteza permeava o mundo das finanças. Como escreveu o professor J. Laurence Laughlin,
“Ninguém podia saber que contratos firmados quando um dólar equivalia a 100 centavos em ouro não seriam quitados em prata, que valia 50 centavos por dólar. Essa era a situação em que se encontrava todo investidor que possuía uma obrigação pagável apenas em ‘moeda’, e não especificamente em ouro”7.
Em um artigo com o título “Thou Shalt Not Steal” [“Não Roubarás”, em tradução livre], Isaac L. Rice apresentou uma eloquente refutação da política governamental de cunhagem de prata. Seu argumento evocava o lado moral da questão e, cento e trinta anos depois, ainda constitui uma acusação contundente contra a desonestidade monetária:
“Entre as diversas classes de crime que se enquadram na categoria do roubo, nenhuma é mais odiosa e desprezível do que o uso de pesos e medidas falsos. Estampar uma moeda contendo 371¹/4 grãos de prata como tendo o valor de cem centavos, quando na verdade ela vale cinquenta e três centavos, é uma falsificação de pesos moralmente indistinguível de estampar qualquer outro tipo de peso como tendo duas libras quando, na verdade, tem apenas uma. Apenas os métodos pelos quais a fraude é cometida são diferentes. O indivíduo ladrão depende do engano secreto, das qualidades do ladrão furtivo; o governo depende da coerção, das qualidades do salteador”8.
De acordo com uma lei econômica inexorável, os Bland-Allison Act e Sherman Act provocaram uma saída de ouro do Tesouro e uma entrada de prata. Essa interferência na estabilidade do padrão ameaçava a política declarada do Tesouro de resgatar os greenbacks e outras obrigações governamentais em ouro. Além disso, o desaparecimento do ouro da circulação e das reservas dos bancos do país ameaçava a integridade de todos os contratos firmados em ouro. O professor Laughlin observou que nenhum produtor “poderia se sentir tão seguro quanto ao padrão de pagamento a ponto de, sem receio ou hesitação, fazer suas estimativas para alguns anos à frente”9.
A Fuga de Capitais
As compras de prata afetaram de forma perceptível a confiança dos estrangeiros na economia americana. Muitos investidores britânicos e franceses esperavam, no mínimo, uma desvalorização do dólar, sendo que alguns previam um colapso financeiro completo. O capital começou a sair do país à medida que esses estrangeiros vendiam títulos americanos. Até mesmo os próprios americanos, em número crescente após 1890, passaram a enviar recursos para investimento no Canadá, na Europa e em alguns países da América Latina, todos os quais pareciam mais sólidos do que os Estados Unidos.O impacto inflacionário do Bland-Allison Act e do Sherman Act foi particularmente importante para preparar o terreno para o pânico e a depressão. A.D. Noyes, escrevendo no Political Science Quarterly, afirmou que “a cunhagem de dólares de prata sobrevalorizados desde 1878 e a emissão de notas do Tesouro lastreadas em lingotes de prata desde 1890 aumentaram efetivamente a circulação de prata e papel-moeda do país, entre 1879 e 1894, em setenta e cinco por cento”10.
W. Jett Lauck, em seu estudo com o título The Causes of the Panic of 1893, constatou que a inflação gerada pela Lei Sherman produziu uma “ausência da habitual escassez no mercado monetário de Nova York” no outono de 1891. As taxas de empréstimos de curtíssimo prazo variavam de dois a quatro por cento, uma queda significativa em relação aos níveis anteriores11.
Em 1910, a Comissão Monetária Nacional solicitou a O.M.W. Sprague que elaborasse um relatório sobre as finanças do país desde a Guerra Civil. Em seu relatório de referência, History of Crises Under the National Banking System, Sprague constatou que, de janeiro de 1891 a junho de 1893, “houve um aumento de 68.000.000 de dólares na quantidade estimada de moeda em circulação”.
O efeito sobre o crédito bancário foi típico de qualquer política de expansão monetária: “Durante 1892, as baixas taxas de juros para empréstimos eram uma indicação clara de que os bancos teriam ficado satisfeitos em emprestar mais do que a demanda dos tomadores permitia.” Os sintomas clássicos da inflação monetária eram evidentes, uma situação que Sprague considerava insustentável. Ele acreditava que “uma situação que exige créditos crescentes para evitar o colapso certamente chegará a esse estado de qualquer maneira, e o adiamento dificilmente pode ser esperado como solução”12.
Fim da Expansão Econômica
A economia, estimulada pela expansão monetária, apresentava sinais externos de prosperidade. O desemprego, que havia estado acima de 5 por cento em 1890 e 1891, caiu para 3,7 por cento em 1892. Quebras de safra na Europa, combinadas com colheitas excepcionais nos Estados Unidos, impulsionaram a agricultura. O presidente Harrison declarou ao Congresso: “Nunca houve, em nossa história, um momento em que o trabalho fosse tão abundante ou em que os salários fossem tão altos”13.
A expansão econômica, no entanto, foi apenas temporária. Os dois males da inflação e da incerteza quanto à estabilidade do padrão estavam corroendo as bases do comércio do país. No final de janeiro de 1893, os preços de produtos básicos como trigo e ferro, que vinham em alta, começaram a recuar. A queda generalizada dos preços prenunciava uma contração cíclica ampla. “A atividade econômica geral”, segundo Charles Hoffman, “sofreu um forte abalo que foi imediatamente reconhecido nos periódicos especializados. O mercado de ações já dava sinais preocupantes de queda de preços antes que qualquer recuo mais acentuado ocorresse”14.
Os bancos tornaram-se apreensivos com a perda de ouro pelo Tesouro (bem como com suas próprias perdas) e começaram a contrair a pirâmide de crédito. Os empréstimos caíram quase 10 por cento de fevereiro até o início de maio. Um artigo na edição de fevereiro de 1893 da Forum falava de “um perigoso estado de inquietação nos círculos financeiros” e alertava que “o medo é um elemento nas condições monetárias que pode ser tão grave em seus efeitos quanto a razão”15.
Um evento dramático ocorreu em 20 de fevereiro. A Philadelphia and Reading Railroad, uma empresa cronicamente debilitada que, ainda assim, havia pago seu dividendo usual de títulos no mês anterior, entrou em falência. “Quando o fim chegou”, escreve Rendigs Fels, “ela tinha uma dívida flutuante de 18,5 milhões de dólares, em comparação com caixa e valores a receber de pouco mais de 100.000 dólares”16. O colapso da Philadelphia and Reading, uma empresa apoiada por poderosas casas financeiras de Wall Street, levou muitos empresários a questionarem a situação de outras ferrovias e das instituições financeiras por trás delas.
Quando o presidente Harrison deixou o cargo em 4 de março de 1893, a reserva de ouro do Tesouro estava no nível historicamente baixo de 100.982.410 dólares — um fio acima do mínimo de 100 milhões considerado necessário para proteger a conversibilidade dos greenbacks. Comerciantes passaram, cada vez mais, a se recusar a aceitar prata, em violação à lei, e ameaças de greves ecoavam nas fábricas do país.
Em 22 de abril, a reserva de ouro do Tesouro caiu abaixo do mínimo de 100 milhões de dólares pela primeira vez desde a retomada da conversibilidade em espécie em 1879. Banqueiros e investidores perceberam que o Tesouro não poderia continuar indefinidamente recorrendo ao restante da reserva de ouro para resgatar as notas do Tesouro de 1890 na tentativa de manter seu valor. Os bancos tiveram que abandonar seus hábitos de expansão monetária e começaram a exigir o pagamento de seus empréstimos em ritmo frenético. Cada vez mais investidores passaram a temer que, antes que pudessem vender seus títulos e realizá-los, a prata depreciada substituísse o ouro como padrão de pagamento.
Na quarta-feira, 3 de maio, a tensão na comunidade comercial desencadeou uma onda maciça de vendas no mercado de ações. O New York Times registrou os acontecimentos no dia seguinte:
“Não desde 1884 o mercado de ações havia sofrido uma queda de preços como a que ocorreu ontem, e poucos dias em sua história foram mais emocionantes. Nas ações industriais, em particular, houve um colapso de valores quase sem precedentes. Nos últimos trinta minutos, os corretores no pregão da Bolsa consideravam de pouca utilidade as cotações exibidas no quadro.
Os números afixados em um momento tornavam-se inúteis no instante seguinte. Nas ações industriais, que recebiam o impacto mais severo, os preços caíam ponto a ponto. As multidões que negociavam esses papéis eram formadas por homens gritando, que se empurravam pelo salão como jogadores de futebol em uma disputa pela bola”.
O Pânico de 1893 havia começado! Em 4 de maio, uma das favoritas do mercado de ações, a National Cordage Trust, entrou em quebra sob administração judicial. Pouco antes do pânico, as ações ordinárias da Cordage eram negociadas a 70 dólares por ação. A queda foi vertiginosa, como Charles Albert Collman descreve vividamente:
“No círculo da Cordage Trust na Bolsa de Valores de Nova York, chapéus eram esmagados, casacos rasgados, gravatas arruinadas. Ali estava uma agonia que significava vida ou morte financeira para muitos. As ações ordinárias da Cordage haviam caído 18 pontos. As preferenciais perderam 22. De repente, uivos ecoaram no pregão. Aqueles que conseguiam distinguir as palavras ouviram o grito ameaçador: ‘Dezenove pela Cordage!’”17.
As ações, poucos instantes depois, caíram para 12 dólares18.
O Colapso da Cordage
O colapso da Cordage foi interpretado como, nas palavras de Collman, “algum sinal oculto para a paralisação da atividade empresarial”19. Fábricas fecharam seus portões e rapidamente entraram em quebra sob administração judicial. O desemprego disparou para 9,6 por cento antes do fim do ano, quase três vezes a taxa de 1892. Em 1894, estima-se que 16,7 por cento dos trabalhadores industriais estavam desocupados.
De janeiro a julho de 1893, as falências comerciais totalizaram impressionantes 3.401 casos, com passivos somando 169.000.000 de dólares. A maior parte das perdas ocorreu após a primeira semana de maio. O.M.W. Sprague revelou que as “falências superaram, tanto em número quanto no montante de passivos, aquelas que haviam ocorrido em qualquer outro período de igual duração em nossa história”20.
As falências e suspensões bancárias foram as maiores já registradas. A maioria ocorreu no Sul e no Oeste, onde os efeitos de uma perniciosa expansão monetária haviam se enraizado de forma muito mais extensa do que no restante do país.
A economia estava passando pelas dores da liquidação. Os investimentos distorcidos fomentados pela inflação do Bland-Allison Act e do Sherman Act estavam sendo eliminados. A ameaça ao padrão-ouro de fato foi um fator que, sem dúvida, complicou a situação, aumentou a incerteza, influenciou o momento do pânico e agravou a depressão, mas a principal responsabilidade pela crise recaiu sobre a tentativa de sobrealimentar à força a oferta monetária do país por meio da política governamental. O Commercial and Financial Chronicle afirmou isso claramente em 8 de julho de 1893:
“O país está lutando com um crédito desorganizado e com o desarranjo geral dos assuntos comerciais e financeiros que uma moeda forçada e sobrevalorizada produziu. (…) Nada além de uma legislação corretiva que elimine a lei perturbadora pode proporcionar qualquer medida de alívio real”21.
Com a economia em depressão, a necessidade de eliminar a legislação que havia desencadeado a tragédia tornava-se cada vez mais evidente. Em 30 de junho, o presidente Grover Cleveland convocou uma sessão especial do Congresso para revogar o Sherman Silver Purchase Act de 1890.
“O atual estado perigoso”, declarou ele, “é em grande medida resultado de uma política financeira que o Poder Executivo do governo encontra incorporada em leis imprudentes que devem ser executadas até serem revogadas pelo Congresso”22. O debate que se seguiu no Congresso foi um confronto notável, colocando as forças da moeda forte e honesta contra as forças da inflação, no qual os defensores da moeda forte respondiam calmamente à pergunta “O que vocês colocariam no lugar das compras de prata?” com uma única e solitária palavra: “Nada!”
Cockran Defende a Revogação
Em 26 de agosto, o congressista Bourke Cockran, de Nova York, levantou-se para proferir um discurso memorável em favor da revogação. O discurso foi considerado o mais eloquente e erudito de todo o debate. O congressista aconselhou seus colegas:
“Acho seguro afirmar que toda crise comercial pode ser atribuída a uma inflação desnecessária da moeda ou a uma expansão imprudente do crédito. O funcionamento da Lei Sherman tem sido o de inundar este país com papel-moeda sem fornecer qualquer método para sua conversibilidade. O meio circulante tornou-se tão excessivo que os canais do comércio transbordaram e o ouro foi expulso”.
Cockran prosseguiu traçando a história da cunhagem na Inglaterra e explicou como a desvalorização da moeda levou a depressões recorrentes. James McGurrin, biógrafo de Cockran, acredita que a votação subsequente na Câmara dos Representantes em favor da revogação “se deveu, em parte considerável, à eloquência incomparável e à liderança sagaz de Bourke Cockran”23.
O projeto de revogação foi aprovado na Câmara em 28 de agosto por ampla margem. A liderança firme do presidente Cleveland levou o Senado a fazer o mesmo em outubro. O New York Times saudou o acontecimento: “O Tesouro é liberado, a partir deste dia, da necessidade de comprar uma mercadoria de que não necessita, com recursos de um caixa já esgotado, e sob o risco de uma perigosa redução da reserva de ouro”24.
Uma condição prévia indispensável para a recuperação foi alcançada com a revogação do Sherman Silver Purchase Act. A mudança na moeda do país deu um passo importante em direção à solução, embora o caminho para a recuperação tenha sido longo e difícil. Somente em 1897 a depressão deu lugar à retomada e à prosperidade.
A revogação da Lei Sherman foi, sob qualquer critério, um ato de arrependimento do Congresso. De fato, foi uma admissão aberta de que o Pânico da Prata foi fruto de um governo pródigo, intrusivo e irresponsável. O historiador Ernest Ludlow Bogart resumiu as lições do Pânico de 1893:
“Deve-se dizer que os resultados líquidos desse experimento de uma ‘moeda administrada, isto é, aquela em que o governo assume a responsabilidade de fornecer a quantidade de dinheiro necessária à população, foram desastrosos. Para a manutenção de uma oferta adequada, a operação das forças econômicas normais é mais confiável do que o julgamento de um órgão legislativo”25.
Este artigo foi originalmente publicado na FEE.
Recomendações de leitura:
O Pânico de 1893: Uma visão austríaca
A Grande Depressão – uma análise das causas e consequências
- Charles Albert Collman, Our Mysterious Panics, 1830-1930 (New York: Greenwood Press, 1968), p. 88.
↩︎ - Charles S. Smith, “The Business Outlook,” North American Review, October 1893, p. 386.
↩︎ - James A. Barnes, John G. Carlisle, Financial Statesman (New York: Dodd, Mead and Co., 1931; reprint ed., Gloucester, Mass.: Peter Smith, 1967), pp. 32-33.
↩︎ - Robert F. Hoxie, “The Silver Debate of 1890,” Journal of Political Economy 1 (18921893): 561.
↩︎ - Herman E. Krooss, ed., Documentary History of Banking and Currency in the United States, vol. 2 (New York: Chelsea House Publishers, 1969), pp. 1921-1922.
↩︎ - Ibid., p. 1934.
↩︎ - J. Laurence Laughlin, The History of Bimetallism in the United States, 4th ed. (New York: D. Appleton and Co., 1900), p. 274.
↩︎ - Isaac L. Rice, “Thou Shalt Not Steal,” Forum 22 (September 1896—February 1897): 1. ↩︎
- Laughlin, p. 269.
↩︎ - D. Noyes, “The Banks and the Panic of 1893,” Political Science Quarterly 9 (No. 1): p. 15. ↩︎
- W. Jett Lauck, The Causes of the Panic of 1893 (Boston: Houghton, Mifflin and Co., 1907), p. 80. ↩︎
- M. W. Sprague, History of Crises Under the National Banking System (Washington, D.C.: Government Printing Office, 1910; reprint ed., New York: Augustus M. Kelley, 1968), p. 158.
↩︎ - Robert Sobel, Panic on Wall Street: A History of America’s Financial Disasters (New York: Macmillan Co., 1968), p. 243. ↩︎
- Charles Hoffman, The Depression of the Nineties: An Economic History, Contributions in Economics and Economic History, no. 2 (Westport, Conn.: Greenwood Press, 1970), p. 107. ↩︎
- Geo. Fred Williams, “Imminent Danger From the Silver Purchase Act,” Forum 14 (September 1892—February 1893): 789. ↩︎
- Rendigs Fels, American Business Cycles: 1865-1897 (Raleigh: University of North Carolina Press, 1959; reprint ed., Westport, Conn.: Greenwood Press, 1973), p. 185.
↩︎ - “Industrials Were Hit Hard,” New York Times, 4 May 1893, p. 1.
↩︎ - Collman, p. 164. ↩︎
- p. 165. ↩︎
- Sprague, p. 169. ↩︎
- Hoffman, p. 229. ↩︎
- Congress to Meet August 7, New York Times, 1 July 1893, p. 1. ↩︎
- James McGurrin, Bourke Cockran (New York: Charles Scribner’s Sons, 1948), p. 135. p. 138. ↩︎
- “Need Buy No More Silver,” New York Times, 2 November 1893, p. 1. ↩︎
- Ernest Ludlow Bogart, Economic History of the American People (New York: Longmans, Green and Co., 1937), p. 693. ↩︎