Voltar

O erro monetário de Milei

A Argentina está melhor do que estava antes da vitória de Milei. Está melhor do que estaria caso qualquer uma das outras duas alternativas tivesse vencido. Os cortes de gastos públicos no início do governo Milei foram maiores do que quaisquer outros na história em circunstâncias semelhantes. Uma crise de magnitude incalculável foi evitada. A Argentina agora está em uma trajetória de crescimento.

Dois anos após o início de seu mandato, a inflação de preços ainda permanece elevada em relação a outros países e ao objetivo final de eliminá-la completamente. Isso é compreensível, dado o ponto de partida. A dinâmica hiperinflacionária já havia começado, e o banco central abrigava uma massa monetária esterilizada que era 2,6 vezes maior do que a massa monetária em circulação, ambas crescendo a mais de 100% ao ano. As opções nessa situação eram dar calote, detonar a bomba ou liberar a pressão gradualmente.

Um calote teria destruído a credibilidade, paralisado a atividade econômica, reduzido ainda mais a demanda por manter pesos, desencadeado a hiperinflação e resultado na remoção de Milei do cargo. Detonar a bomba significaria interromper subitamente o pagamento de juros sobre as reservas, o que levaria à retirada de toda a massa monetária esterilizada para circulação de uma só vez. Isso teria o mesmo resultado que o calote.

Eles optaram por tentar um pouso suave, e foram bem-sucedidos. Esse sucesso só foi possível por causa dos cortes de gastos que geraram superávit, o que aumentou a credibilidade e a demanda por manter pesos. Assim, os juros sobre as reservas foram gradualmente reduzidos, e a massa monetária esterilizada foi sendo lentamente trazida de volta à circulação. Os preços ainda estão se ajustando aos efeitos finais dessa operação, mas tudo indica uma convergência monetária e um colapso completo da inflação de preços no futuro próximo, além da continuidade da acumulação de capital e da expansão da atividade econômica. Não há dúvida de que Milei conseguiu colocar a Argentina em uma trajetória rumo à prosperidade.

No entanto, Milei está falhando em cumprir seu dever de destruir os instrumentos de opressão monetária que o processo democrático certamente voltará a utilizar no futuro para provocar o mesmo problema que ele foi eleito para resolver. Milei prometeu liquidar o banco central, e agora começa a apresentar desculpas para não fazê-lo.

Sua justificativa para a continuidade da circulação do peso fiduciário é que as pessoas continuam a utilizá-lo, embora agora seja legal usar outras moedas e commodities nas transações. É um erro pensar que abrir a porta é suficiente para expulsar o intruso. Cabe a ele retirar o peso fiduciário de circulação.

O processo endógeno que ele estabeleceu para a substituição do peso como principal meio de troca na Argentina só pode ser bem-sucedido em um contexto em que a demanda por manter pesos colapse completamente. Seu sucesso em evitar a hiperinflação consolidou a inércia da comerciabilidade do peso, tornando impossível retirar o peso fiduciário de circulação sem substituí-lo de forma deliberada.

Milei tem o dever moral de cumprir sua promessa de liquidar o banco central. No mínimo, deve substituir o peso fiduciário por outra moeda fiduciária, fora do controle dos políticos argentinos. Os princípios libertários defendidos por Milei em sua retórica o obrigam a ir além. Ele deve substituir o peso fiduciário por um peso lastreado em commodity, especialmente porque não se trata de uma operação complexa de executar sob a estabilidade monetária que ele alcançou.

O ouro é uma opção bastante viável, já que o banco central argentino já detém cerca de 2 milhões de onças, de um total de 7 milhões de onças que seriam necessárias a uma taxa de 7 milhões de pesos por onça para liquidar os 49 trilhões de pesos em circulação. Aproximadamente metade corresponde a cédulas em circulação, e a outra metade a reservas de bancos comerciais e do governo. Há mais do que moeda estrangeira suficiente para adquirir rapidamente as 5 milhões de onças adicionais de ouro. Isso não teria um grande efeito sobre o preço do ouro, já que a quantidade total de ouro financeiro é estimada em cerca de 7 bilhões de onças, e o volume global diário de negociação frequentemente ultrapassa 100 milhões de onças.

A desvantagem do ouro é que cunhá-lo para circulação direta não é viável, já que a cédula de maior denominação atualmente vale menos de um décimo de grama de ouro. Se a prata for escolhida, por outro lado, uma moeda de uma onça poderia ter uma denominação de 100.000 pesos, e uma moeda menor, de um quinto de onça de prata, equivaleria diretamente à maior cédula atualmente em circulação. De qualquer forma, moedas metálicas puras não seriam capazes de atender à cultura de uso de dinheiro em espécie na Argentina.

Os bancos comerciais devem ser autorizados a emitir notas nas denominações que considerarem adequadas, a serem administradas de maneira semelhante a cartões de débito e contas correntes. O que importa é a equivalência legal entre o peso de um metal e uma determinada quantidade de pesos. Assim que isso for fixado, a liquidação do banco central se torna trivial, e nenhuma mudança de preços é necessária, exceto, talvez, por pequenos ajustes que já ocorrem no dia a dia.

Não há necessidade de converter todos os preços em pesos para preços em dólares. Atribuir um significado metálico aos preços que já existem e trocar os pesos fiduciários em circulação por metal é muito mais simples. Tudo isso está ao alcance de Milei e poderia ser feito em questão de meses. Basta que ele decida fazê-lo.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

Recomendações de leitura:

Hoppe vs. Milei sobre bancos centrais: analisando as diferenças

Javier Milei, a batalha cultural e as eleições brasileiras de 2026

Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 comentários em “O erro monetário de Milei”

  1. Uma pergunta sincera de alguém não economista: se tudo no planeta funciona em conversibilidade com o dólar, então o autor não estaria só propondo um malabarismo “bobo” para evitar falar em dolarização, como parece ter sido o caso do plano Real?

  2. Trajetoria ruma a prosperidade? O país está perdendo empresas aos montes e a população está na informalidade.

    Os dados que estão sendo usado na Argentina são defasados e fora da realidade.
    Milei não eliminou 50% e ainda pegou vários emprestimos nos EUA e FMI para pagar novos emprestimos,seguindo as medidas de austeridade do FMI..

    Esse governo cometeu muitos erros e não foi realmente liberal o suficiente

Rolar para cima